Capítulo 9 – Paisagem, Memória e Esquecimento: Pensando Através do Corpo e Lugar (de minha Mãe)

Material Feminisms

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MORTIMER-SANDLANDS, Catriona. Capítulo 9 – Paisagem, Memória e Esquecimento: Pensando Através do Corpo e Lugar (de minha Mãe). In: ALAIMO, Stacy e HEKMAN, Susan (ed.). Feminismos Materiais. Indiana University Press: Blooming & Indianapolis, pág. 265 – 287, 2008. - Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

12 de Dezembro de 2004

            Acabo de chegar ao Hospital Royal Jubilee, tendo dirigido até aqui com meu pai, logo após minha chegada em Vitória vinda de Toronto. Minha mãe está dentro deste prédio; ela já está aqui há duas semanas como paciente internada passando por uma bateria de testes para determinar, exatamente, o que está errado com ela. Aparentemente ela esteve com o volume de sangue muito baixo, que – dado que eles não podem realmente encontrar uma causa lógica, mesmo depois de vários exames que culminaram em uma colonoscopia – diagnosticou uma úlcera hemorrágica que já está curada. Ela recebeu litros de sangue. De acordo com meu pai, ela parece muito melhor do que mesmo a última vez que a vi no outono.

 

            Mas desde que ela veio para o hospital, ela tem estado extremamente confusa sobre onde e quando ela está e quem são as pessoas ao seu redor. Reconhecidamente, ela passou muito tempo em um leito temporário na SE (sala de emergência), cercada pelos ruídos hospitalares mais perturbadores possíveis, 24 horas por dia – sem realmente dormir lá. E, reconhecidamente, minha mãe nunca na sua vida concordou com a ideia de que ela poderia estar doente e que provavelmente não tem ideia do que fazer com o fato de ser uma paciente, muito menos com a hipótese de estar cercada por (outras) pessoas doentes com suas necessidades, gemidos, sons e odores particulares. Mas eu tenho medo do que vou encontrar conforme sigo meu pai ao longo do corredor cirúrgico verde em direção à ala onde esta a cama de minha mãe. Tenho medo de que ela não vá me reconhecer. Por antecipação, eu ensaio a história recente de nossas interações e encontro nisso ampla evidência de perda de memória, confusão, fragmentos ímpares de retrospecção inseridos em conversas sobre alguma coisa a mais e, acima de tudo, aqueles olhares ligeiramente pálidos de que ela pode estar aqui, mas o fato é o de que ela está realmente definitivamente em outro lugar.

            Papai e eu chegamos à cama dela. Para meu grande alívio, ela parece me reconhecer, mas ao mesmo tempo ela me agradece por ter vindo visitá-la hoje. Eu não consigo explicar o que está errado com aquele gesto – a visita, o “hoje”, o sentido de que eu tinha estado lá ontem, o sentimento do que eu poderia ter sido outra voluntária do hospital, a falta de reconhecimento de que eu tinha acabado de chegar de 5.000 quilômetros de distância – mas algo estava profundamente errado. Sim, mamãe tinha tido momentos de confusão por alguns meses, mesmo anos, um tipo de retirada a partir das demandas dos ciclos diários de realidade, claramente uma parte do próprio processo gradual no qual ela abdicou da necessidade de dar significado à outra pessoa na mesma forma que ela se despojou da responsabilidade de dirigir, cozinhar, fazer compras, ler. Sim, Mamãe tinha tido lapsos de palavra da memória, mas estes são quase tão antigos quanto a minha memória dela – e não muito pior do que a minha própria. A confusão e retirada de hoje parecem muito diferentes. Parece que ela tem um mundo de sua própria criação e eu o tinha perfurado, desconfortavelmente forçando-a sentir o frio externo, pressionando-a a tocar a realidade – a minha realidade – de que ela já não tem muita necessidade.

            Ela está passiva. Ela está dócil. (minha mãe não é nenhuma dessas coisas). Ela não está consciente da relação entre o “agora” e os momentos que o antecederam ou estão a seguir. Meu pai deixou-lhe uma nota, em sua inconfundível caligrafia, dizendo em letras grandes que ele a ama, que estaríamos de volta na manhã seguinte, que ela não deveria se preocupar. Sem isso, ela poderia entrar em pânico durante a noite. A única coisa que me preocupa mais, estranhamente, é o fato de que ela tenha comido todo o pudim de caramelo que foi servido com a refeição hospitalar. A mãe que eu conhecia odiava pudim, odiava caramelo, odiava os sabores brandos e doces que ela associava com tudo de pior da cultura televisiva estadunidense. Meu pai me contou que ele teve que esconder o pudim em suas bandejas de hospital todas as noites, ou ela não ia comer o resto de seu jantar.        

            15 de Dezembro

Estou sentada em uma sala de reuniões ao lado da enfermeira, rodeada por um terapeuta ocupacional, um psicólogo, um assistente social e duas outras mulheres cujos títulos e papéis não são inteiramente óbvios, mesmo que estejam claramente familiarizados com a condição recente de minha mãe. Estamos falando sobre o processo através do qual a minha mãe vai voltar para casa e as modalidades de cuidados que devem ser tomados uma vez que ela chegue lá. O terapeuta ocupacional está falando sobre cadeiras de rodas, barras de apoio para banheiro, meios auxiliares de mobilidade; o psicólogo está falando sobre o desempenho menos-que-estelar de minha mãe sobre vários testes de sua competência mental; a assistente social está falando sobre o atendimento domiciliar 24 horas. Meu pai também está presente, mas acho que ele está ainda mais oprimido e com medo do que eu por essa nova realidade; ele me deixa falar.

 

Todos os olhares se voltam para a porta quando a gerontologista entra na discussão, mais tarde. Ela se senta, fala sobre as diferentes causas da demência, fala sobre os vários testes físicos e cognitivos de minha mãe, fala sobre os níveis da tireóide. acetilcolina e exames de tomografia computadorizada. Ela é simpática, mas claramente não está interessada em ouvir sobre pudim de caramelo. Ela diz a palavra que eu estava temendo: mal de Alzheimer.

Corpo, Paisagem, Memória

            Em um recente intercâmbio no jornal Environmental Ethics, David Abram e Ted Toadvine se envolveram num debate animado sobre as questões da sensualidade, percepção, reflexão, escrita, memória e paisagem. Focados nas suas interpretações conflitantes do livro popular de Abram The Spell of the Sensuous (1996) e eventualmente divagando sobre suas divergentes interpretações de Phenomenology of Perception (1962), de Merleau-Ponty [1], Toadvine e Abram tentaram resolver um conjunto de questões ontológicas que são, penso, fundacionais para a filosofia ambiental: Como podemos compreender o corpo humano como um lugar particular de percepções de, e interações com, o mundo mais-que-humano? Como podemos descrever o relacionamento entre corpo e mente ou entre experiência e reflexão, na organização das experiências humanas do ambiente? E – crucialmente para uma pesquisa feminista, se não sempre para Abram e Toadvine – como é que este relacionamento histórico e social, em que a percepção e reflexão incorporadas tomam formas particulares em meio das relações tecnológicas e discursivas (por exemplo, de poder) em que elas não podem ajudar, mas serem situadas?

            O argumento de Abram em The Spell of the Sensuous é provocativo. Ele se baseia, penso, em duas premissas fenomenológicas importantes. Primeiro, e em contraste com a maioria da sabedoria ambiental vigente, Abram localiza tanto a ontologia humana quanto a possibilidade ética na experiência corporal e nos relacionamentos sensuais com o mundo. Embora ele não seja o primeiro a apontar a importância deste tipo de trajetória para a filosofia ambiental (ver Evernden, 1985), ele argumenta claramente, por exemplo, que não se pode conceber uma ética ambiental simplesmente como uma questão de mente, como se pudesse simplesmente, razoavelmente, escolher viver o corpo de forma diferente. Em segundo lugar e talvez de forma mais fundacional, Abram entende que todo sentido inclui uma dimensão perceptual e que a própria percepção é uma qualidade do relacionamento entre corpo e mundo, necessariamente um produto dinâmico de relação, experiência, influência. Como ele coloca na sua tréplica à Toadvine, “o evento mais simples da percepção sensorial já é uma instância de um organismo que recebe um eco de si a partir do mundo – uma interação com o mundo a partir do qual se volta para si mesmo alterado, um pouco refratado e através do qual o mundo também se reflete, retornando de novo para si” (2005, pág. 172).

            O problema para Toadvine não é tanto a posição ecofenomenológica básica de Abram de que todo o pensamento humano tem uma base nas relações perceptuais com o mundo e que a filosofia ambiental deve, portanto, atender à natureza material, sensual, corporal destas relações – e não apenas à razão e à reflexão, como é frequentemente o caso – a caminho para qualquer tipo de transformação ecológica [2]. Ao invés disso, o problema para Toadvine reside na interpretação de Abram da história ambiental e particularmente no que ele vê como o último movimento para reverter a prioridade ocidental da razão e reflexão sobre a percepção e a experiência ao lançar o advento da alfabetização e do “pensamento alfabetizado” como a fonte da alienação humana originária da riqueza de nossas experiências perceptuais. Para Abram, a aquisição da escrita tem, historicamente, erodido a capacidade das culturas letradas de reconhecer as bases do pensamento consciente na percepção do mundo de uma forma em que as culturas orais continuam a fazer:

            Na ausência de um sistema formalizado de escrita, parece que as culturas humanas espontaneamente encontraram um eco pronto de sua própria vitalidade na múltipla vida dos arredores sensuais; sua participação sensorial direta com aquele ambiente divulga um cosmos que está em toda parte animado, uma paisagem natural que fala em uma miríade de vozes (2005, pág. 176).

            Para Toadvine, o argumento de Abram demoniza a reflexão e a consciência como modos de pensamento que são uma “consequência malfadada de nossa apropriação do alfabeto fonético” e “um desafio para, e ruptura com, a nossa reciprocidade perceptual, ao invés de… uma elaboração ou recapitulação desta reciprocidade” (Toadvine, 2005, pág. 161). A auto-reflexividade mental é, neste argumento, um curto-circuito da apreciação sensual; a capacidade de escrever transfere a nossa atenção do outro para o signo; e os substitutos da página, de forma solipsista, para o mundo mais-que-humano como fonte de significado. Assim, para Toadvine, Abram está defendendo um retorno (consciente!) para a percepção (e, assim, um afastamento da reflexão como parte do problema) como a base personificada de uma ética ambiental; ao fazê-lo, Abram “implica que o problema do solipsismo, e, de fato, qualquer problema de separação entre o eu e o outro, é eliminado uma vez que redescobrimos este nível sensual de contato” (2005, pág. 165).

            Abram vê o seu próprio argumento um pouco diferente. No contexto em que Toadvine vê Abram rejeitando a reflexão em favor da percepção e a alfabetização em favor do animismo, Abram argumenta que a reflexão, engendrada pela atenção aos rabiscos alfabéticos sobre uma página é, de fato, um modo historicamente específico de animismo: “Apenas ao transferir a mágica sinestésica de nossos sentidos distantes das muitas vozes da Terra para as marcas inscritas sobre uma folha de papiro, podemos fazer estas marcas – estes riscos aparentemente inanimados de tinta – começarem a falar” (Abram, 2005, pág. 176). O problema para Abram, aqui, não é a existência da reflexão alfabética, mas a sua hegemonia. Esclarecendo a sua ênfase em The Spell of the Sensuous, ele escreve em resposta para Toadvine que “as cartas escritas e as múltiplas tecnologias feitas possíveis pela palavra impressa, tem usurpado hoje muito do poder evocativo que uma vez residia, para nós, nas profundezas do terreno circundante” (2005, pág. 177; ênfase no original). Assim, o movimento necessário para a ética ambiental, como Abram vê isto, é mais sobre reimplantar do que rejeitar a reflexão. A ecofenomenologia em particular, dado a sua preocupação “com a descrição cuidadosa da forma que as coisas se apresentam para a nossa consciência” (2005, pág. 188, ênfase no original) deveria começar a escrever para, ao invés de simplesmente sobre, rios, árvores, e outros atores no mundo mais-que-humano, assim, movendo a escrita para longe do solipsismo racional e para dentro da ecopoética (sobre a qual existe muito mais a se dizer, mas este é um tópico para um ensaio diferente) [3].

            Em meio a este debate, existe um germe fascinante sobre as relações entre corpo, mente e paisagem. Se nós compreendermos a reflexão simbólica e a percepção sensual como práticas personificadas específicas que não são apenas físicas, mas historicamente localizadas – surgindo de forma diferente no contexto de tecnologias, relações sociais e interações diferentes com o mundo mais-que-humano – então se torna possível investigar as condições físicas e históricas específicas em que estas práticas se desdobram e se manifestam umas em relação às outras [4]. Abram leva-nos parcialmente para este ponto de vista em seu argumento de que as culturas orais desenvolvem significados e memórias coletivas ao inscreverem as suas estórias sobre a paisagem, ao invés do papel: “Cada parte da topografia evoca uma parte de algum conto que em silêncio ressoa em nossa consciência. A terra, em outras palavras, é o mnemônico principal ou o gatilho da memória para recordar as estórias ancestrais” (2005, pág. 177; ênfase no original).

            Se substituirmos a extensa declaração sobre a natureza essencial da oralidade e da paisagem (e o sentido Edênico de uma ecologia perdida na esteira da alfabetização, que Toadvine está certo ao criticar) com um conjunto de questões sobre as relações específicas em que diferentes formas de pensamento se apoiam, e são apoiadas por, diferentes relações perceptuais com a paisagem (para não mencionar diferentes paisagens), então chegamos a uma útil ferramenta interrogativa com a qual questionar as complexas relações entre os modos de pensamento e os modos de interações corporificadas com o mundo mais-que-humano. Não é mais uma questão (se sempre assim fosse) de desafiar o desapego da mente a partir do corpo, pensando a partir da percepção, ou a razão a partir da natureza; sobre esta perspectiva, é uma questão de perguntar como modos particulares de pensamento estão localizados na experiência corporificada, de como tanto a reflexão simbólica quanto a percepção sensual estão fenomenologicamente organizadas em relações tecno-históricas particulares entre os corpos humanos e os de outros.

            Reconheço que meu relato não faz justiça especial à Merleau-Ponty (que, como Toadvine assinala, tem argumentado que o conhecimento reflexivo é uma “sublimação” da encarnação e não o seu oposto) e é também uma destilação considerável das posições ecofenomenológicas de Abram e Toadvine. Não obstante, agora vou passar para a questão mais específica que inspira este artigo, e mais precisamente o papel que minha mãe representa ao me incentivar a perguntar questões sobre as diferentes maneiras que a reflexão simbólica e a experiência perceptual podem encontrar, em contextos históricos e sociais específicos, expressão e apoio na experiência sensual do mundo mais-que-humano. Para ser menos implícita: quanto mais eu venho a saber sobre a doença de Alzheimer, mais cuidadosamente sou levada a considerar as formas sociais, e na verdade profundamente pessoais, em que a corporificação está entrelaçada com as relações entre e por meio da reflexão, experiência perceptual e paisagem. Contra aqueles relatos fenomenológicos que enfatizam uma percepção universal humana do mundo (incluindo tanto Abram quanto Toadvine, apesar da ênfase do primeiro sobre as transformações históricas forjadas pela escrita), a doença de Alzheimer mostra a profunda particularidade dos corpos que experimentam e refletem nas suas relações com o lugar; com a fenomenologia, no entanto, a doença de Alzheimer demonstra as formas em que a reflexão é apoiada pela percepção e em que ambas estão localizadas nas interações com o lugar. Em particular, na doença de Alzheimer a questão da memória vincula corpos e paisagens de formas que revelam a conexão inextricável entre fisicalidade e reflexão e também as formas em que diferentes tipos de memória se combinam (ou não) para permitir interações socialmente sancionadas e culturalmente significativas com o mundo mais-que-humano.

            Muitos dos relatos sobre a doença de Alzheimer focam sobre a estrutura e a função do cérebro. Em geral, a narrativa médica aceita (se profundamente incerta) é que a doença de Alzheimer é caracterizada por uma abundância de “placas e emaranhados”, que são, respectivamente, depósitos de beta-amilóide (um fragmento de proteína que se acumula no espaço entre os neurônios) e fibras de tau (outra proteína que se acumula dentro das células, Alzheimer´s Association, 2006, pág. 11). Embora ninguém esteja certo sobre a causa da doença de Alzheimer (as placas originam os emaranhados? Os emaranhados originam as placas? Alguma outra coisa origina ambas?), o que é também geralmente aceito é que muitas pessoas desenvolvem as placas e emaranhados conforme elas envelhecem, que as pessoas que tem Alzheimer desenvolvem muito mais do que as pessoas que não e que estes complexos depósitos de proteína no e ao redor das células nervosas do cérebro interrompem a comunicação entre e em meio as células juntamente com a diminuição da própria função celular; em última análise “é a destruição e a morte dos neurônios que causam a falha da memória, as mudanças de personalidade, os problemas na realização de atividades diárias e outros sintomas da doença de Alzheimer” (2006, pág. 11). O diagnóstico seguro é tão evasivo quanto uma clara explicação causal; a única forma de saber com certeza que uma pessoa tem Alzheimer é através da biópsia do cérebro, geralmente feita apenas após sua morte.

            O que é particularmente interessante sobre a doença de Alzheimer é que ela sempre começa na mesma região do cérebro, o hipocampo, que David Shenk, mais poeticamente do que a maioria, descreve como “uma estrutura curva, de duas polegadas de comprimento, parecida com uma vagem de ervilha dentro do lóbulo temporal do cérebro” (2001, pág. 37). O hipocampo é chave para a criação das memórias de longo prazo (que pode ser tanto episódica: o que lembramos de fazer, quanto semântica: o que sabemos); parece ser o local no cérebro (e sabemos tão pouco sobre o cérebro que “parece” é um adjetivo necessário) onde a memória de curto prazo é convertida em longo prazo, a parte do meio do processo de lembrança distante que nos leva por todo o caminho da percepção sensorial para a abstração e a recordação. O que acontece às pessoas com Alzheimer é que, digamos, a memória de “deixar as chaves do carro no banheiro não é um ato de perda, pois nunca chegou a ser formada” (Shenk, 2001, pág. 47; ênfase no original). As memórias mais remotas (tanto episódicas quanto semânticas) persistem por muito tempo após a nova informação não poder ser lembrada. (A pessoa se lembra quais chaves são e possivelmente até onde este molho de chaves específico está, mesmo que não consiga lembrar onde o molho estava há cinco minutos atrás). E a memória muscular, também conhecida como memória processual ou sinestésica, persiste por mais tempo para as pessoas com Alzheimer; ela é criada de forma diferente (especificamente, através da repetição física) e armazenada em uma região totalmente distinta do cérebro. Pode-se dançar lindamente com um parceiro amado que já não se lembre quem é.

            A memória de todos os tipos são, no entanto, físicas. Como Shenk coloca, “a memória, como a própria consciência, não é uma coisa que pode ser isolada ou extraída, mas sim um processo vivo, uma vasta e dinâmica interação de sinapses envolvidas em… uma constelação temporária de atividades. Cada memória específica é uma rede única de neurônios de diferentes regiões do cérebro coordenadas entre si” (2001, pág. 51). Uma memória traça uma via eletroquímica de neurônio a neurônio (chamada de engrama); duas memórias nunca seguem a mesma via e quanto mais frequente uma rota específica é seguida, mais os neurônios específicos se tornam quimicamente sensíveis entre si. Acho esta ideia extraordinariamente bela: no ato de se lembrar de algo, o mundo é, quase literalmente, escrito em nossa estrutura cerebral. E a memória permite ao corpo cumprimentar o mundo com a maior facilidade física quanto mais temos uma experiência sensorial específica. Longe de ser uma explicação reducionista que descartaria a consciência em favor da estrutura cerebral, este relato é de um encontro entre a mente personificada e o mundo ativo que deve incluir não apenas a experiência física, mas os relacionamentos sociais, não apenas o dado sensorial, mas a interação entre qualquer momento sentido particular e o que foi feito antes (Na verdade, um relacionamento social dominante seria, literalmente, mais claramente inscrito no cérebro e mais favorável a uma consistente memória: a hegemonia é física). As histórias estão exclusivamente incorporadas.

            A maioria das memórias robustas são menos susceptíveis à desintegração. Isto é parte da razão porque os estudos têm tendido a mostrar que as pessoas com mais educação geralmente desenvolvem a doença de Alzheimer mais tarde na vida (embora se possa imaginar questões de nutrição e contaminação química desempenhando um papel – não que a indústria de pesquisa sobre o Alzheimer tenha perseguido seriamente a possibilidade de uma causa ambiental). É também por isso que as pessoas que fazem palavras cruzadas tendem a se sair melhor que outras (embora minha mãe fosse uma brilhante jogadora de palavras cruzadas; meus pais costumavam fazer as enigmáticas e terrivelmente difíceis de jornais britânicos que minha tia costumava enviar em pacotes várias vezes por ano). De uma forma estranha, então, Abram acaba por estar parcialmente correto, nesta perspectiva, sobre os efeitos debilitantes das tecnologias alfabéticas; conforme as listas, as enciclopédias e as bases de dados assumem o lugar da memorização individual (em outras palavras, conforme a memória se torna mais coletiva e menos experiencial), o cérebro simplesmente não se exercita tanto. Embora eu não ache que ninguém considere que o Alzheimer seja uma doença conflitante para alfabetização ou consciência reflexiva (é justo dizer que é um produto das sociedades industriais em que o cuidado com a saúde ajuda as pessoas a viver o tempo suficiente para desenvolvê-la), é interessante notar que os seres humanos são as únicas criaturas que “naturalmente” sofrem de Alzheimer. (Várias espécies, incluindo gatos, cães, ursos, lêmures e ursos polares são, no entanto, conhecidos por ter alguma forma de demência senil e proteínas semelhantes parecem atuar no cérebro em todos eles; Shenk, 2001, pág. 179).

            O que estes relatos do hipocampo, do engrama, das placas e dos emaranhados falham em enfatizar, no entanto, apesar da fisicalidade gloriosa de suas perspectivas, é que a memória não reside apenas no cérebro. Como Abram e Toadvine argumentam, em suas próprias maneiras, o pensamento perceptual e o reflexivo convergem na lembrança; e a lembrança – o ato de trazer a experiência para reflexão e/ou tecido, o fato de incorporar um ato, objeto, lugar ou conceito em alguma parte do cérebro ou em outra – não é apenas uma questão do sujeito lembrado. Tanto a página escrita quanto a paisagem lendária são armazéns de memória que são externas ao corpo individual; embora o ato de interpretar uma página e aquele de caminhar através de uma série de montanhas sagradas possam ser diferentes, tanto em termos da porção do cérebro envolvida quanto em termos do relacionamento para colocar o engendrado no ato, o fato permanece que o ato de se lembrar envolve um reconhecimento de uma relação entre o corpo/mente e o mundo externo que não é apenas determinado por forças internas. A experiência da memória já é, assim, sempre social, tecnológica e física em que as condições do relacionamento entre cérebro e objeto não podem ajudar, mas serem localizadas em uma complexa gama de condições que oferecem o sujeito à experiência e a experiência ao sujeito.

            Para uma pessoa com Alzheimer, a diminuição do hipocampo não erradica a memória: ela erradica a capacidade de criar, a partir do mundo imediato, uma nova via que leva, eventualmente, a longevidade narrativa ou semântica. A memória sinestésica é a última coisa a ser erradicada; se pode lembrar os atos físicos envolvidos no caminhar através de uma paisagem na ausência do reconhecimento da própria paisagem, chamando isto, dizendo isto aos outros. Isto não significa que não exista memória; significa que os tipos de memórias que são valorizadas e compreendidas no contexto das relações sociais em curso do eu coerente e narrador (para não mencionar a linguagem) são prejudicadas, encaradas como impossíveis no mesmo momento em que as memórias que estão muito presentes à pessoa – a familiaridade do que se sente em andar, tocar, e mesmo dançar – são lidos como irrelevantes, primitivos, parte de um eu diminuído que se afastou da compreensão e da expressão racional.

            As estórias dos cérebros com Alzheimer nos dizem muito sobre a progressão de uma doença, sobre a obliteração gradual e eventualmente completa de áreas da mente, um pouco como um apagão elétrico que progressivamente desliga partes de uma rede elétrica, deixando o mundo escuro, sem conexão de comunicação entre um lugar e outro. Mas tais estórias, em sua valorização da reflexão sobre a percepção e do cognitivo sobre a memória sinestésica e em sua cegueira ao fato de que a memória não reside, de fato, apenas no corpo, não necessariamente atendem às necessidades da pessoa com Alzheimer. O que, por exemplo, seria a aparência de atender às partes da memória que persistem uma vez que as memórias episódicas e semânticas falham? Poderia alguém oferecer familiaridade, não em nome ou mesmo em face, mas no toque ou no movimento?  Existe um ritmo corporal do ser de uma pessoa que possa ser ecoado na memória avaliativa e auxiliar, ao invés de exercícios de diagnóstico sobre as datas, os eventos e os sinais aos quais mesmo a pessoa mais racional pode não ser capaz de responder corretamente? A fenomenologia sugere que existem relações perceptuais que criam reciprocidade, que existem experiências corporais que engendram possibilidades específicas para a reflexão simbólica, que o simbólico é um reino de modos de pensamento com complexas relações com o perceptual. É um grande passo para sugerir que a memória reside no corpo, no cérebro e na paisagem, em diferentes modos e em distintos conjuntos de circunstâncias?

            19 de Junho de 2005

            Minha mãe tem, por cerca de três meses agora, andado muito. A princípio, embora ela esteja claramente muito melhor do que estava em dezembro (um fato que eu, com gratidão, mesmo podendo ser reducionista, atribuí à sua medicação da tireoide), eu estava muito nervosa com essa sucessão de eventos. Ela não só insistiu em usar um andador, mesmo em torno da casa, como em um evento recente em março (ela ativamente resistiu em ir para uma caminhada com a gente no fim de semana de Páscoa), mas ela ainda não tinha demonstrado que ela era inteiramente capaz de atos como o reconhecimento de pessoas, datas e eventos em curso. Nenhuma de suas outras tarefas comuns voltou: ela ainda não tinha aprendido como funciona o “novo” fogão (meus pais já o tinham comprado há dois anos); ela regularmente se esquece de palavras comuns para as coisas, inserindo “por assim dizer” quando ela usa um termo descontroladamente impreciso para um objeto, conforme ela habilmente destina a metáfora (pelo menos ela sabe que está esquecendo e compensando); e apesar de suas declaradas intenções sobre as pilhas de cartões de natal ao lado de sua cadeira, ela não tem se correspondido com ninguém de sua família ou amigos íntimos (para a minha mãe, esta é uma lacuna perceptível). Tendo ouvido, talvez, uma de muitas estórias de “andarilhos” com Alzheimer, me preocupa que ela vá sair para uma caminhada e se encontre perdida, não porque ela não tenha passado por onde ela já foi milhares de vezes (eles viveram no Ten Mile Point por mais de cinquenta anos, então as caminhadas podem de fato serem contadas aos milhares), mas pelo fato dela não ter mais a capacidade de reconhecer o lugar como familiar. Estou muito longe, mesmo se eu voltar regularmente para verificar; meu pai simplesmente não pode andar bem o suficiente para ir com ela. Então, ela anda sozinha e eu tenho a esperança de que, depois de quinze anos, as pessoas saibam quem ela é, mesmo que ela não saiba.

            Mas apesar da minha paranoia, a caminhada parece estar fazendo bem a ela. Não apenas porque ela está fisicamente mais robusta do que já fora  há muito tempo – antes do hospital, antes da palidez do último verão que agora achamos que era uma úlcera hemorrágica – mas ela tem algo sobre o que falar, encontrou um engajamento restaurado com o seu ambiente que não só prende a sua atenção, mas apoia a sua conversa. Ela fala sobre as suas interações com os cães e as pessoas; ela comenta sobre as mudanças das flores, os locais de construção civil e as condições climáticas que diferenciam a caminhada no decorrer dos dias. Ela é capaz de descrever o tempo presente de sua caminhada, em oposição ao passado reflexivo e algumas vezes nostálgico de grande parte do resto de seu mundo vivido: sua mãe (que morreu em 1988, provavelmente de Alzheimer); seus dias na vila WREN (ela era, talvez ironicamente, uma decifradora de códigos em um projeto ULTRA secreto); uma viajem como condutora do carro para o Vale Carmel com meu pai muito antes de eu ter nascido.

            Então nós compramos, entre outras coisas, os seus calçados simples e apropriados (azuis) que ela irá certamente usar imediatamente e uma brilhante e elegante capa de chuva curta (amarela) que ela não pode usar, para o seu octogésimo aniversário. Para o seu jantar de aniversário, ela pediu salmão que, na última visita, ela recusou-se definitivamente em comer (“Você sabe que eu nunca gostei de peixe”). Eu estou aliviada pelo retorno à sua antiga preferência, mas também frustrada: a sua nova realidade não inclui se lembrar que o seu gosto mudou, e ela parece pensar que eu estou fazendo uma estória sobre isto a fim de ser argumentativa (“Você sabe que eu sempre gostei de salmão”). Desnecessário dizer, os recipientes de pudim de caramelo que eu comprei em dezembro estão ainda na geladeira, intocados.

            Minha mãe tomou Diltiazem, Altace e Furosemide para pressão alta, Synthroid para a tireoide e uma aspirina infantil todos os dias. A gerontologista tinha nos incentivado a tentar que ela tomasse Aricept, que (eu sei agora) ajuda cerca da metade de todas as pessoas nos estágios iniciais de Alzheimer ao aumentar o fornecimento de acetilcolina no cérebro (um neurotransmissor que está deficiente nas pessoas com Alzheimer – os pesquisadores parecem não saber o porquê, mas eles sabem que isto é um sintoma, não uma causa). Dissemos que iríamos esperar até que os níveis da tireoide dela se equilibrassem (o que geralmente leva três meses), para que soubéssemos em que nível estávamos realmente; o desiquilíbrio da tireoide é uma das principais causas curáveis de demência. Dada a sua melhora considerável desde dezembro, não temos adotado o Aricept (ainda). Fora isto, não há muito que se possa fazer. Exceto encorajá-la a andar.

Paisagem, Lembrança, Esquecimento

            O romance de Jane Urquhart A Map of Glass começa com um nó intrincado de percepção, reflexão e paisagem: “Ele é um homem idoso caminhando no inverno. E ele sabe disso” (2005, pág. 1). O homem, descobrimos mais tarde, é Andrew Woodman, um geógrafo historiador cuja paixão da vida tem sido traçar as múltiplas maneiras em que a paisagem do condado de Prince Edward, em Ontario, está gravada com os traços da história, particularmente aquela de sua própria família: seu tataravô, Joseph, foi quem contribuiu para a erradicação, no início do século XIX, das florestas dos Grandes Lagos do sul, pela indústria de construção naval; seu avô, Maurice, lucrou muito investindo em uma maciça monocultura de cevada no final do século XIX que  destruiu totalmente o solo; seu bisavô, Branwell, perdeu tudo enquanto observava o acúmulo de areia sobre o seu pequeno hotel, que acabou por soterrar todos os traços da estrutura, deixando apenas estórias para lembrar o mundo de seus afrescos pintados à mão, além do modelo de fogão “Kitchen Queen” de sua esposa Marie.

            No início do romance, no entanto, não sabemos nada disso: Andrew Woodman perdeu o seu nome, perdeu sua família, perdeu a linguagem; ele está ciente simplesmente de que está mais velho, que ele está caminhando através da neve em direção a uma ilha (chegamos a saber que é a Timber Island, o lugar da casa e do império de seu tataravô) e que o lugar seria familiar: “Mesmo agora, embora se esquecendo da palavra “ilha”, ele acredita que está caminhando rumo a um lugar conhecido. Ele tem um mapa da linha da costa em seu cérebro; suas docas e edifícios degradados de madeira, algumas árvores cultivadas no século passado. Ele tem a palavra para designar as árvores? Algumas vezes sim, mas muitas vezes não. Ele é melhor com o relevo” (2005, pág. 1). Conforme ele caminha, ele encontra “uma forma extraordinariamente desordenada” em seu caminho: “’uma cerca’, uma vez que ele teria definido isto… mas agora ele conhece isto apenas como algo que não cresceu para fora da terra, alguma coisa que está impedindo o seu progresso… Ele não se lembra o que fazer com uma cerca, como acabar com ela, através dela, passar por ela, mas o seu corpo toma a decisão de correr, para sair daquela confusão mental” (2005, pág. 2). Tendo de pular a cerca de forma bem sucedida para cair na neve macia do outro lado, ele continua a caminhar, sem se lembrar da palavra para “ilha”, para “o lugar onde a água toca tudo ao redor… Muitas vezes ele se esbarra em árvores, mas isto não o preocupa porque ele sabe que elas são intransponíveis e que permanecerão lá depois que ele passar por elas… Enquanto ele está entre os pinheiros, uma imagem de uma jangada enorme feita de madeira flutua através de sua imaginação” (2005, pág. 3; ênfase no original). Mas nem o sentido, nem a imaginação são suficientes. Ele adormece na neve e, um pouco antes dele morrer, ele é dominado por uma última recordação: que ele tinha perdido tudo, que “o mundo todo sem nome é tão lindo para ele agora, que ele está consciente que deixou para trás vastos e esquecidos territórios, certas faces, e uma orquestra cheia de sons que ele tinha amado” (2005, pág. 4).

            Em Andrew e ao longo das estórias entrelaçadas que apoiam a narrativa, Jane Urquhart está muito ciente de que a memória não reside apenas na mente, mas, em vez disso, nas complexas interrelações entre corpos, mentes e paisagens. O romance se concentra em Sylvia Bradley, uma mulher de meia idade com uma “condição” não especificada e sem nome (provavelmente uma forma de autismo) que a torna particularmente reflexiva, especialmente apta a transformar mesmo a mais ínfima sensação perceptual em consciência e lembrar tais sensações vividamente e visceralmente. Ela vive o mundo físico e sensual numa espessura quase insuportável; cada fragmento do mundo carrega em si a possibilidade de sua atenção indivisa e assim ela é facilmente sobrecarregada. Em resposta, ela aprendeu a acalmar-se com ausências (desejadas?) da realidade social ou com a atenção concentrada aos objetos e lugares familiares de sua vida cotidiana na casa em que ela cresceu. Ela conta coisas. Sylvia ama tanto a certeza quanto a ideia da certeza: “as árvores, sua confiança, o fato de que elas têm sempre estado lá nas fronteiras dos campos ou ao longo das bordas das estradas” (2005, pág. 37). De fato, seu sentido de sua própria consistência é confirmado pela persistência das coisas, pela persistência da história e a memória nas coisas, e pela persistência de sua história dentro de uma geografia muito constrangida. Ela é voluntária no museu local, se encontra no mundo dos objetos e das histórias e sua familiaridade suaviza o ataque potencial constante de atenção sensível:

            Ela conhecia as escadas de três vertentes inclinadas apoiadas nas árvores dos pomares de outono, a chegada às portas do celeiro de vagões cheios de feno, os trenós de inverno, as ceias realizadas em tabelas drapeadas para fora das portas no verão, os feudos através de linhas de contorno, política, propriedade familiar, a chegada do primeiro motor de carro, o primeiro telefone, a saída de jovens para as guerras, os cortejos fúnebres partindo dos salões frontais (2005, pág. 37).

            Completamente fora do caráter – ou, pelo menos, completamente fora do caráter patologizante que tem sido imposto a ela pelos seus familiares e, mais tarde, pelo seu tipo médico paternalista de marido, Malcolm – Sylvia faz uma viagem de trem à Toronto para encontrar Jerome McNaughton, o jovem artista que, durante uma residência solitária num sótão de um velho veleiro em Timber Island, encontrou o corpo congelado de Andrew Woodman. Sylvia não oferece a palavra “amante” em referência a Andrew até muito mais tarde, mas fica imediatamente claro a partir dos vislumbres de seu relacionamento que vemos através de seus pensamentos e palavras à Jerome de que existe uma relação física passional entre eles e que, para Sylvia pelo menos, o relacionamento é tanto corporalmente quanto emocionalmente transformador. O sentido de Andrew de obrigação de ser um geógrafo historiador, de “prestar muita atenção às paisagens, ao seu presente e ao passado incorporado em seu presente” (2005, pág. 77), levou-o à Sylvia que, em sua absoluta identificação com o lugar que é tanto o seu presente quanto seu passado, parece quase uma confirmação sexual da sua “necessidade dinástica” (2005, pág. 77) para conhecer a terra. Sylvia, por outro lado, encontra em Andrew uma possibilidade sem precedentes por novidade. Sexualidade e amor entram em sua vida em uma pequena cabana e apesar da volatilidade de Andrew (ele eventualmente a deixa, apenas para retornar sete anos depois, quando ele está começando a sua jornada no Alzheimer): “O amor que eles tinham feito é estéril, resultou em nenhuma aceleração, nenhuma aceleração em tudo exceto esta capacidade recém-nascida dela para ver as coisas como elas realmente são, esta e a capacidade de sentir dor” (2005, pág. 136). Sylvia permanece no lugar, mas o lugar se abre para uma nova camada de existência engendrada no corpo dela: “Até Andrew abrir a porta do mundo para ela, a fisicalidade do passado foi principalmente levada em direção a ela por objetos armazenados em relíquias no interior da casa de sua família” (2005, pág. 117) [5].

            Existem várias estórias de memória que se sobrepõem ao romance, incluindo lembranças traumáticas de Jerome sobre seu pai alcóolatra provocadas por suas conversas com Sylvia e uma estória meio extensa focada no bisavô Branwell Woodman e sua irmã Annabelle, ambos artistas (Branwell pinta afrescos de paisagens quando ele não está trabalhando em seu hotel; Annabelle prefere a queima de navios e mantém um “livro de colagens” de objetos-fragmentos colados a partir de seu passado). Particularmente nesta seção histórica – que nos é revelada ao mesmo tempo como Jerome através dos pesados cadernos de couro verde de Andrew – temos um sentido da qualidade ecológica das relações corpo-memória-paisagem que se prendem através das vidas dos personagens. Como observado anteriormente, duas transformações em larga escala foram manifestadas em parte por Woodman: o desmatamento dos Grandes Lagos pela construção naval e, então, a transformação de uma parte do condado de Price Edward pelas dunas de areia como uma consequência tanto do desmatamento quanto de uma monocultura subsequente de cevada. A esposa de Branwell (e amiga de Annabelle), Marie, desaparece e morre conforme o seu hotel é gradualmente, inevitavelmente coberto pelas dunas; “ela está se esgotando, juntamente com o solo” (2005, pág. 251). Branwell observa o desaparecimento de seus canteiros de flores, “o que parece ser um apagamento completo de tudo o que ele tinha feito e de tudo o que ele tinha amado” (2005, pág. 278). Esta destruição oblitera não apenas os artefatos de sua vida, mas o fato de sua própria vida: “Era como se ele estivesse vivendo na metade inferior de uma ampulheta que, conforme os dias passassem, ele estava sendo enterrado vivo” (2005, pág. 278). Ele procura por objetos que irão devolver Marie a ele – o rosário que carrega o seu toque, o fogão em que ela tinha preparado seus famosos pastéis – mas a memória, cada vez mais não suportada por este novo lugar, é mais e mais difícil. E por isso ele se vai, não mais sendo uma criatura relevante nesta nova e deserta paisagem.

            A paisagem, em outras palavras, é um local de esquecimento assim como lembrança; a areia que cobre tudo é, tanto metaforicamente quanto literalmente, uma ruptura física na memória, um passo no processo de apagar a presença a partir da história. Para Branwell, o apagamento ambiental dos traços de sua vida e de Marie é uma destruição das relações corporais em que a memória de sua vida é realizada. Branwell passa a pintar mais afrescos e para educar seu neto T. J., o pai de Andrew, na cabana que, mais tarde, se torna o local da “aceleração” sensorial de Sylvia. Mas os afrescos são cobertos por camadas de papel de parede que também lembram a transformação ecológica da paisagem (elas são adicionadas como alguém da pousada tornando-se um restaurante de estrada, que se torna um edifício histórico, que se torna uma pensão). Em última análise, as únicas memórias que persistem são as que Andrew tem, cuidadosamente e arqueologicamente, encontrado e que Sylvia, Jerome e agora o leitor transportam através do caderno de Andrew. Como Sylvia diz a Jerome, “Andrew pensa que ele era a história que seus antepassados criaram, ele se sente responsável por esta história, penso, e por aquelas pessoas. Eles são de minha responsabilidade agora” (2005, pág. 75; ênfase no original).

            Mais de um século depois das dunas de areia apagarem o hotel de Branwell, Sylvia escreve uma conclusão no caderno de Andrew, de que “tudo na vida é um exercício de esquecimento” (2005, pág. 367). O conjunto complexo de relações corpo-paisagem-memória retratado neste romance é tanto sobre o esquecimento, quanto é sobre a lembrança: “Pense em como a nossa infância some conforme caminhamos para a fase adulta, como algo recua e diminui com a visão de uma costa a partir de um convés de um transatlântico” (2005, pág. 367). Em um nível, claro, é preciso esquecer para ter significado: se nós formos lembrar cada coisa com o mesmo peso (que é sempre o potencial de Sylvia), nós não seríamos capazes “de formar impressões gerais, e daí julgamentos úteis” (Shenk, 2001, pág. 57). Em outro nível, no entanto, a mudança também exige esquecimento. Tanto como as relações entre corpos e paisagens são ativadas pela lembrança, elas também mudam na transformação do presente em passado, em que algumas peças permanecem de pé e outras são enterradas na areia. Os mapas são uma boa metáfora para este processo; eles traçam voos particulares da memória através de uma paisagem (e facilitam a posterior apreensão física e conceitual da paisagem através daquele voo), mas, como o título do romance sugere, eles são inevitavelmente “de vidro”. Aqui, claro, existem dois significados: um mapa de vidro pode ser uma representação de uma paisagem frágil ou pode ser a substância do próprio mapa [6]. O duplo movimento aqui sinaliza as complexas relações entre corpo, memória e lugar; lembrar e esquecer são um processo constante e este processo ocorre em nossa mente, em nosso corpo, e no mundo que nos cerca.

            A viagem de abertura na paisagem de Andrew Woodman leva a sua morte porque ele se esqueceu da paisagem e também porque a paisagem o esqueceu. Mas esta viagem não é, em muitos aspectos, atípica. A doença de Alzheimer é uma extensão do processo de esquecimento através do qual todos os seres humanos passam em suas relações com as pessoas, lugares, suas próprias mentes e seus corpos. É uma aceleração deste processo de transformação histórica através de gerações, que mesmo sociedades também passam. Dizer isto não é subestimar a dor de ter ou viver com Alzheimer. Como Sylvia escreve, o esquecimento que é uma inevitável parte da mudança “não é tão terrível quanto ser esquecida pelo homem que você ama enquanto ele está respirando o mesmo ar, enquanto ele está em pé na mesma sala. Ele se esqueceu de você e ainda uma parte dele se lembra que ele deve tocar em você, e ele faz isso, mas conforme ele se move contra você, ele já não fala o seu nome, conforme ele mergulha suas mãos em seus cabelos porque ele se esqueceu do seu nome” (2005, pág. 368). Mas em meio a este terror, a doença de Alzheimer sublinha a incorporação do toda memória e o inevitável envolvimento do lugar nos atos físicos, cognitivos, emocionais e sociais da lembrança e do esquecimento.

            Observei anteriormente que Abram leva-nos ao meio: a paisagem é uma incorporação de estórias. O que ele tem falhado em enfatizar, e que penso que Urquhart demonstra de forma tão eloquente, é que este processo claramente continua apesar do advento das tecnologias alfabéticas. Para ter certeza, se pode falar das transformações históricas das experiências fenomenais          forjadas por tecnologias particulares; para ter certeza (e eu não tenho, talvez, enfatizado o suficiente esta dimensão [7]), se deve também falar das relações de poder específicas – raça, gênero, classe – em que corpos e paisagens lembram e esquecem (a gente se pergunta o que poderia ter acontecido com Sylvia, não fosse ela uma mulher branca, dona de casa, rural e de classe média no alvorecer do século XXI). Mas o fato de que a paisagem continua a incorporar, apoiar e criar a memória sugere um cenário muito menos apocalíptico do que o previsto por Abram. Nós não temos, se gostaríamos ou não de pensar assim em nossa obsessão social e filosófica com a mente, perdido todos os traços da fisicalidade ambiental de nossas memórias. A questão é: Como podemos cultivar uma consciência de e respeito por este processo através de nossas filosofias e ativismos ambientais?

            22 de Abril de 2006

            Minha mãe ainda está caminhando. Ela ainda usa os calçados azuis que demos a ela, mas a capa de chuva amarela definha no armário. Não estou certa se ela não gosta dela ou se ela simplesmente não vê utilidade nela, dado que ela prefere não caminhar na chuva (que, em Vitoria, significa que ela não caminha tanto assim de novembro à março). O dia em que chegamos, eu fiz para nós um prato francês bastante saboroso envolvendo salmão fresco defumado e purê de batatas. Eu não a tenho visto pedir por segundos (pratos) de nada há muito tempo e eu estou muito contente por servir-lhe algo que ela tão obviamente gostou. Acho agora que estou tão envolvida com o que ela irá ou não comer, em parte porque a comida é uma das poucas coisas que me permite dar-lhe prazer (flores, tenho descoberto, são outras). Não é só que eu esteja preocupada com o aspecto de caramelo porque sinaliza que há algo incomum, provavelmente negativo, acontecendo no seu cérebro; é também que isto significa que eu não posso mais contar com as formas que eu tenho conhecido de seu prazer (e desprazer) durante a maior parte dos meus quarenta e um anos. (Que eu esteja me fixando na alimentação não é surpreendente, suponho: a necessidade, o desejo e o condicionamento social de gênero formam uma bola compacta e emaranhada no meio de cada prato que sirvo).

            Minha mãe na realidade parece feliz. Embora eu ache isto, neste momento, fiquei com Dylan Thomas sobre o “não ser gentil naquela boa noite” ao lado da cerca, eu também tenho que reconhecer que ela não está muito desconfortável com a sua retirada do mundo. Agora, ao contrário daquele tempo horrível no hospital, ela parece estar no controle do grau em que ela quer participar da realidade de todos os demais. Uma das pessoas que Shenk encontrou em sua pesquisa observou: “Uma vez que a ideia é perdida, tudo é perdido e eu não tenho o que fazer, mas vagar por aí tentando descobrir o que era aquilo que era tão importante no início. Você precisa aprender a se satisfazer com o que é oferecido para você” (2001, pág. 43). Eu vejo muito deste tipo de aceitação em minha mãe. De fato, embora eu ficasse frustrada com isto quando vi o fato acontecer dez anos atrás, penso que ela aprendeu a encontrar prazer no presente para o seu próprio bem, ao invés de lutar para fazer isto se assemelhar mais ao passado, muito antes desta cadeia de eventos mais recente.

            A perda de volatilidade emocional de minha mãe, de fato, me levou algumas vezes a pensar que ela não tem Alzheimer nenhum (isto é um sintoma precoce). Embora eu saiba que é altamente provável que ela esteja e que ela está em um estado muito mais precoce do que a gerontologista tinha pensado, eu estou ainda bastante impressionada com a transformação que ocorreu com ela desde que ela retornou para casa, desde que ela começou a andar, desde que o lugar de sua vida diária passou a ocupar muito mais de sua atenção na esteira de seu apego às atividades sociais, políticas, literárias ou outras atividades cognitivas. Ela gasta muito tempo procurando (sua visão está terrível, mas isso não a impede de nada), especialmente enquanto ela anda; ela gasta muito tempo no prazer do presente sensual, observando que o rododendro rosa está quase fora, que existe uma última tulipa que o veado não comeu (no entanto, ela não observa que seu amado lírio chocolate sob o carvalho não chegou a florir este ano). É quase como se ela estivesse permitindo que o seu arredor mantivesse os pensamentos que ela não pode gerir sozinha; como uma espécie de memória-palácio real e físico, os lugares da vida de minha mãe, suas memórias sinestésicas e seus relacionamentos sensuais com estes lugares – lugares em que ela encontrou os seus próprios traços quase constantemente – servem como um substituto para o seu hipocampo sem vigor. Como uma vítima de derrame que reaprende a falar ao desenvolver uma parte diferente de seu cérebro, minha mãe parece ter reaprendido por si mesma, ao desviar o seu processo de lembrança para além dos limites de seu próprio corpo e em um mundo que há muito exerce, e continua a exercer, seus traços e memórias [8].

            Estou certa de que a gerontologista estaria ainda menos interessada nesta teoria do que estava no pudim de caramelo. E eu também estou certa de que uma vez que minha mãe começa a vacilar em seu reconhecimento de onde ela está (este reconhecimento pode ser em parte físico, mas é também sobre a capacidade de transformar as experiências sensoriais a partir da consciência em história de longo prazo e conceito abstrato [9]), nós entraremos em um estágio novo e assustador em que o seu amado lar-paisagem é tão desconhecido a ela quanto era o hospital (ou seja, ao assumir que a paisagem em si não se torna tão transformada no meio tempo que ela não poderia reconhecê-la com todas as suas faculdades intactas – não inteiramente fora do alcance da possibilidade). Mas não estamos lá ainda.  

Notas

[1] Existe uma extensa literatura que traz a fenomenologia para a filosofia ambiental e este ensaio não abordará os muitos debates que emergem a partir de seu resultante encontro. Para uma versão feminista diferente da conversa, ver Bigwood, 1993. Apesar de seus problemas (por exemplo, uma articulação profundamente preocupante de incorporação de maternidade com “lar”), o Earth Muse de Bigwood tenta formular uma ecofenomenologia feminista que está atenta não apenas às qualidades experienciais dos corpos nas paisagens, mas nas relações de poder em que tanto as experiências quanto as paisagens estão localizadas.

[2] Toadvine, começando a partir de um sentido similar de convergência entre fenomenologia e ecologia, na verdade, avança uma posição muito interessante que repousa no texto posterior e não finalizado de Merleau-Ponty, The Visible and the Invisible (1968), em que ele descreve o corpo humano como um lugar de reversibilidade, a experiência simultânea de perceber e ser percebido e, assim, constituído como mundo pelo outro (que é também um ato de alienação sensorial em que a única coisa que eu não posso perceber é o eu que é percebido). As acadêmicas feministas tem tanto implantado quanto criticado esta perspectiva dos corpos; ver, de forma mais famosa, Luce Irigaray (1993), que mostra (entre outras coisas) que sentir o corpo para Merleau-Ponty é, problematicamente, sempre já individuado (e masculino).

[3] Existem, claro, muitos escritores tanto de matizes feministas quanto ambientalistas que demonstram, com mais foco e nuance do que Abram, o fato de que nem todos os modos de escrita e fala são criados iguais. Como muitos críticos literários têm observado, a poesia, por exemplo, tem o potencial para perturbar a transparência da significação – o seu solipsismo ou, nos termos de Abram, a ilusão por de trás da mágica de seu animismo – ao lembrar o leitor/ouvinte da disjunção entre palavra e mundo. Como Don McKay (2001) nos lembra, é assim que as metáforas funcionam: a relação do “´é ou não é” sobre a qual eles se articulam é uma lembrança constante do fato de que o mundo desafia a compreensão linguística. McKay, de forma importante, também nos lembra da fisicalidade da poesia: como um ato de escrita com a escuta implícita em, a natureza-poema tenta encarnar exatamente a interface perceptual de Merleau-Ponty, aqui, em falar e ser falado ao mesmo tempo. A luz deste argumento sutil, o castigo de Abram do alfabeto parece um instrumento bastante rudimentar.

[4] Como deve ser evidente, parte do meu desejo neste ensaio é me basear tanto nos relatos fenomenológicos quanto do construtivismo social de natureza e corporificação para atuar em direção a uma prática interrogativa que inclui os insights de ambos. Mais uma vez, não estou sozinha neste esforço entre as feministas. Apesar do fato de que ela é frequentemente (incorretamente) tida como um exemplo dos limites desencarnados do construtivismo social, Judith Butler (por exemplo, 1993) tem feito enormes incursões para compreender o gênero e a incorporação como simultaneamente de forma complexa material e social.

[5] A questão da “condição” de Sylvia é deixada sem solução no romance. Por um lado, o marido dela deixa claro que o caso de amor de Sylvia com Andrew deve ter sido imaginário, conforme a sua doença pode não ter permitido que ela sustentasse um relacionamento íntimo e físico com ninguém (Malcolm nunca tocou Sylvia). Sylvia claramente internalizou o seu diagnóstico, falando de “pessoas como eu” que “supostamente tem quase nenhuma atenção” (pág. 134), mas ela tem também claramente refletido tanto sobre o processo diagnóstico quanto de atribuição que julga ser inadequados para descrevê-la. Ela sabe como ela é, mas o diagnóstico claramente não diz nada a ela sobre o que ou quem. De fato, ela demonstra a sua recusa a este entendimento ao observar que Andrew e sua amiga Julie (Jerome concorda) ou não querem saber sobre ou não “acreditam na” condição dela. O que temos, aqui, é uma interessante reflexão sobre a natureza da percepção “incomum” de Sylvia: ela está consciente, como parte de sua existência consciente diária (que termina sendo semelhante à de Andrew), da importância de objetos e lugares como corporificações da memória e da história; e a riqueza fenomenal desta perspectiva está totalmente em desacordo com a racionalidade instrumental, o esquecimento, dos pais, do médico e da modernidade em geral (ela certamente entende a si mesma como um anacronismo).

[6] Isto é também uma metáfora para a natureza de própria memória. Em um sonho, Jerome “estava olhando para o A Map of Broken Glass, no Smithson [trabalho de arte]. Cada fragmento refletia algo que ele lembrou sobre o seu pai” (pág. 145).

[7] Para um relato brilhante dos efeitos (disciplinares e outros) do poder sobre o corpo experiente, ver McWhorter, 1999; para um relato mais específico das relações disciplinares encarnadas nas versões dominantes da política ambiental, ver Sandilands, 2004.

[8] Shenk relata a estória fascinante de Willian de Koonig, que continuou a pintar de forma prolífica (e tinha considerável sucesso crítico, apesar dos debates sobre se o seu trabalho poderia ser considerado como “arte”, uma vez que ele perdeu a capacidade de auto-reflexão) muito depois de ter desenvolvido a demência (provavelmente de Alzheimer) e perdeu a sua habilidade de gerir suas próprias tarefas sobre lembrar-se de suas rotinas diárias. Koonig era, crucialmente para Shenk, um pintor muito físico ao invés de altamente conceitual; o fazer artístico dele era sobre “o momento – o impulso e a defesa do pincel, a partir da ‘escavação’ de seu estado emocional” (Larson em Shenk, 2001, pág. 202).

[9] Há, na verdade, uma região particular do hipocampo responsável por criar mapas corporais a partir da percepção visual.

Referências

Abram, David. 1996. The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World. New York: Pantheon Books.

______. 2005. “Between the Body and the Breathing Earth: A Reply to Ted Toadvine”. Environmental Ethics, vol. 27.2 (Verão): pág. 171-90.

Alzheimer´s Association. 2006. Basics of Alzheimer´s Disease: What It Is and What You Can Do. Disponível online em www.alz.org

Bigwood, Carol. 1993. Earth Muse: Feminism, Nature, and Art. Philadelphia: Temple University Press.

Butler, Judith. 1994. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of “Sex”. New York: Routledge.

Evernden, Neil. 1985. The Natural Alien: Humankind and Environment. Toronto: University of Toronto Press.

Irigaray, Luce. 1993. An Ethics of Sexual Difference. Trans. Carolyn Burke e Gillian C. Gill. Ithaca, N. Y.: Cornell University Press.

McKay, Don. 2001. Vis-à-Vis: Field Notes on Poetry and Wilderness. Wolfville, N.S.: Gaspereau Press.

McWhorter, Ladelle. 1999. Bodies and Pleasures: Foucault and the Politics of Sexual Normalization. Bloomington: Indiana University Press.

Merleau-Ponty, Maurice. 1962. Phenomenology of Perception. Trans. Colin Smith. New York: Routledge.

______. 1968. The Visible and the Invisible. Ed. Claude Lefort. Trans. Alphonso Lingis. Evanston, Ill.: Northwestern University Press.

Sandilands, Catriona. 2004. “Eco Homo: Queering the Ecological Body Politic”. Social Philosophy Today, vol. 19: pág. 17-39.

Shenk, David. 2001. The Forgetting: Alzheimer´s Portrait of an Epidemic. New York: Doubleday.

Toadvine, Ted. 2005. “Limits of the Flesh: The Role of Reflection in David Abram´s Ecophenomenology”. Environmental Ethics, vol. 27.2 (Verão): pág. 155-70.

Urquhart, Jane. 2005. A Map of Glass. Toronto: McClelland e Stewart.


[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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