Prefácio e Agradecimentos

 David Abram

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ABRAM, David. Prefácio e Agradecimentos. In: ABRAM, David. O Feitiço do Sensual: Percepção e Linguagem em um Mundo-Mais-Que-Humano. Vintage Books, New York, pág. ix – xii, 1996. – Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

Os seres humanos são sintonizados pelos relacionamentos. Os olhos, a pele, a língua, os ouvidos e as narinas – todos são portais onde nossos corpos recebem a nutrição da alteridade. A paisagem das vozes sombreadas, estes corpos empenados, chifres e córregos correntes – estas formas respirantes são a nossa família, os seres com os quais nós estamos envolvidos, com os quais lutamos, sofremos e celebramos. Pela maior parte da existência de nossa espécie, os seres humanos têm negociado os relacionamentos com cada aspecto dos arredores sensuais, trocando possibilidades com cada forma em movimento, com cada superfície texturizada e cada entidade tremulante sobre a qual nos concentramos. Tudo pode falar, articulando em gestos, assobios e sinais uma teia em mudança de significados que nós sentimos sobre nossa pele, inalamos através de nossas narinas ou enfocamos com nossos ouvidos em escuta, e para os quais respondemos – se com sons através de movimentos ou alterações mínimas de humor. A cor do céu, a pressa das ondas – cada aspecto da sensualidade terrena pode nos levar a um relacionamento alimentado com curiosidade e temperado com perigo. Cada som é uma voz, cada arranhão ou erro é um encontro – com o Trovão, o Carvalho e a Libélula. E a partir de todos estes relacionamentos as nossas sensibilidades coletivas foram nutridas.

            Hoje em dia participamos quase que exclusivamente com outros seres humanos e com nossas próprias tecnologias feitas pelos humanos. Esta é uma situação precária, dada a nossa antiga reciprocidade com a paisagem de muitas vozes. Nós ainda precisamos daquilo que é o outro que não nós mesmos e nossas próprias criações. A simples premissa deste livro é que nós somos humanos apenas em contato e sociabilidade com o que não é humano.

            Tal premissa implica que devemos renunciar a todas as nossas complexas tecnologias? Penso que não. Mas isto implica que nós devemos renovar o nosso conhecimento com o mundo sensual em que nossas técnicas e tecnologias estão todas enraizadas. Sem a respiração oxigenante das florestas, o frear da gravidade e a derrocada mágica das corredeiras, nós não temos nenhuma distância de nossas tecnologias, nenhuma forma de avaliar suas limitações, nenhuma forma de nos permitirmos ser transformados por elas. Nós precisamos conhecer as texturas, os ritmos e os gostos do mundo corporal e prontamente distinguir entre tais gostos e aqueles de nossa própria invenção. A realidade sensual direta, em todos os seus mistérios mais-que-humanos, permanece o único critério de toque sólido para um mundo experiencial agora inundado com visões eletronicamente geradas e prazeres projetados; apenas em contato regular com o chão e o céu tangíveis nós podemos aprender como nos orientar e navegar nas múltiplas dimensões que agora nos chamam.

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            Este livro foi escrito com dois objetivos em mente. Eu espero, em primeiro lugar, fornecer um conjunto de ferramentas conceituais poderosas para os meus colegas no amplo mundo do ativismo ambiental – para os conservacionistas, defensores da vida selvagem, organizadores de comunidades, biorregionalistas, escritores de natureza, biólogos da conservação, ecopsicólogos e a todos os outros que já estão lutando para dar sentido, e aliviar nosso estranhamento atual da terra animada. Ainda eu também quero provocar algum novo pensamento dentro do reino institucional dos acadêmicos, cientistas e educadores – muitos dos quais têm sido estranhamente silenciosos em responder à rápida deterioração da natureza selvagem, ao constante desaparecimento de outras espécies e ao consequente empobrecimento de nossos relacionamentos humanos.

            À luz destes objetivos gêmeos, eu tentei manter um alto padrão de precisão teórica e acadêmica, sem, no entanto, mascarar a paixão, a perplexidade e o prazer que fluem de meu próprio envolvimento com a terra vivente.

            O leitor descobrirá, por exemplo, que existem dois capítulos introdutórios ao livro. Primeiro, existe uma “Introdução Pessoal”, que detalha algumas das aventuras incomuns que primeiro me levaram a levantar as várias questões abordadas neste livro. Este capítulo enfoca sob meus encontros e reflexões enquanto vivia como um mágico ilusionista itinerante entre magos indígenas tradicionais na Ásia rural. Em segundo lugar, existe uma “Introdução Técnica”, delineando a abordagem teórica exercida sob as questões abordadas adiante. Mais especificamente, este capítulo discute o desenvolvimento, no século XX, da tradição da “fenomenologia” – o estudo da experiência direta. Originalmente pretendido a fornecer uma fundamentação sólida para as ciências empíricas, o estudo cuidadoso da experiência perceptual de forma inesperada começa a tornar evidente a centralidade escondida da terra em toda experiência humana; de fato, a pesquisa fenomenológica começa a sugerir que a mente humana é completamente dependente de (e completamente influenciada por) nossa relação esquecida com a terra abrangente.

            Enquanto a experiência sensorial, a reflexão filosófica e a informação empírica estão completamente entrelaçadas ao longo deste livro, àqueles leitores que têm pouca paciência com questões filosóficas devem se sentir livres para pular a introdução técnica (Capítulo 2) – talvez retrocedendo um pouco para explorar aquelas subseções cujos títulos provocam sua curiosidade. Outros podem querer dançar através das partes do Capítulo 3, que necessariamente contém umas poucas seções de alguma forma técnicas relacionadas à natureza corporal da linguagem. Para o final do Capítulo 3, um breve sumário irá definir o cenário para o que se segue.

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            Muitos colegas deram o seu apoio a este projeto. Entre aqueles cuja curiosidade e bondade ajudaram a engendrar este livro estão o animador biorregional Chris Wells, o violoncelista ecológico Nelson Denman, o vidente Heather Rowntree, o rastreador de sonhos R. P. Harbour, Julia Meeks, Francis Huxley, Sam Hitt, Vicki Dean, Rich Ryan, Stella Reed, e o resto do clã de Todas-as-Espécies do Novo México.

            As várias reflexões neste trabalho foram afinadas em conversas apaixonadas com amigos em diversos lugares, entre eles David Rothenberg, Arne Naess, Rachel Wiener, Bill Boaz, Gary Nabhan, Ivan Illich, Christopher Manes, Drew Leder, Max Oelschlager, Lynn Margulis, Dorion Sagan, James Hillman, Chellis Glendinning, Laura Sewall, Rick Boothby, Baird Callicott, Starhawk, Rex e Lisa Weyler, Valerie Gremillion, Tom Jay e o imensamente amadoThomas Berry. A bruxa das montanhas Dolores LaChapelle e a escriba de cartas Amy Hannon deram um encorajamento essencial nos estágios iniciais. Entre aqueles que leram partes do manuscrito inicial, Peter Manchester, Anthony Weston, Paul Shepard, e John Elder, todos ofereceram ótimas ideias.

            O filósofo Edward Casey forneceu amizade e orientação, como o fez o sábio salmão selvagem Freeman House. O historiador Donald Worster forneceu encorajamento e inspiração. O poeta acadêmico Budista Stan Lombardo ofereceu hospitalidade inesperada, como o fez os administradores da pradaria Ken Lassman e Caryn Goldberg. Christian Groneau e Aileen Douglas compartilharam as suas percepções perspicazes sobre os mundos dos outros animais. Rachel Bagby forneceu a nutrição da alma.

            Foi um prazer trabalhar com meus editores. Jack Shoemaker merece os meus sinceros agradecimentos pelo seu entusiasmo imediato com o livro e por passar um tempo longe da agitação de criar uma nova editora a fim de ler e refinar o manuscrito. Dan Frank forneceu uma orientação paciente através de todo o labirinto da publicação, e muitas sugestões de quem tem uma aguda visão. Ele tem a minha gratidão, assim como sua assistente Claudine O’Hearn. Obrigado, também, ao meu agente Ned Leavitt.

            Generosas doações da Fundação pela Ecologia Profunda e da Fundação Levinson, assim como uma bolsa de um ano de duração da Fundação Rockefeller, ajudou muito na pesquisa e na escrita deste livro.

            Poucas pessoas são agraciadas por terem grandes artistas como pais, como eu tenho. Blanche Abram e Irv Abram, pianista e pintor, forneceram muita ajuda tática durante a elaboração deste trabalho. Eu os agradeço pelo seu encorajamento e pela intuição de beleza que eles cuidadosamente concederam a seus filhos.

            Finalmente, eu estendo a gratidão além das palavras à minha amiga próxima e aliada, Grietje Laga, cuja inteligência graciosa aprofundou todos os meus pensamentos, e cuja suave magia incessantemente me trouxe de volta aos meus sentidos. Sua companhia tem sempre feito toda esta aventura muito mais maravilhosa.


[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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O Manifesto das Espécies de Companhia: Cães, Pessoas e a Outridade Significante

The Companion

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HARAWAY, Donna. O Manifesto das Espécies de Companhia: Cães, Pessoas e a Outridade Significante. Chicago: Prickly Paradigm Press, 2003.

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

 

Naturezasculturas Emergentes

De “Notas da Filha de um Escritor de Esportes”:

Sra. Cayenne Peper continua a colonizar todas as minhas células – um caso, com certeza, do que a bióloga Lynn Margulis chama de simbiogênese. Aposto que, se você verificasse o nosso DNA, você encontraria algumas transfecções relevantes entre nós. A saliva dela deve ter os vetores virais. Certamente, seus beijos certeiros de língua tem sido irresistíveis. Apesar de compartilharmos a localização no filo dos vertebrados, habitamos não apenas gêneros diferentes e famílias divergentes, mas ordens completamente distintas. 

Como poderíamos resolver as coisas? Canídio, hominídio; bicho de estimação, professora; puta, mulher; animal, humano; atleta, treinadora. Uma de nós tem um microchip injetado sob a sua pele do pescoço para identificação; a outra tem uma foto de identificação na carteira de motorista da Califórnia. Uma de nós tem um registro escrito de seus antepassados por vinte gerações; uma de nós, produto de uma vasta mistura genética, é chamada de “raça pura”. Uma de nós, igualmente produto de uma vasta mistura, é chamada de “branca”. Cada um destes nomes designa um discurso racial, e nós duas herdamos as suas consequências em nossa carne.

Uma de nós está na iminência da realização física ardente e jovem; a outra está vigorosa, mas cambaleante. E jogamos um esporte de equipe chamado de agilidade na mesma terra natal expropriada onde os ancestrais de Cayenne pastorearam ovelhas da raça Merino. Estas ovelhas foram importadas de uma economia pastoral já colonial da Austrália para alimentar a Corrida do Ouro na Califórnia por quase meia década. Nas camadas da história, camadas da biologia, camadas das naturezaculturas, a complexidade é o nome de nosso jogo. Nós somos tanto descendentes dessa fome de liberdade da conquista, produtos de colônias de povoamento brancas, pulando sobre obstáculos e rastejando através de túneis no campo do jogo.

 Tenho certeza que nossos genomas são mais parecidos do que eles deveriam ser. Deve haver algum registro molecular de nosso toque nos códigos do vivente que deixará vestígios no mundo, não importa que cada uma de nós seja uma fêmea reprodutivamente silenciada, uma pela idade, a outra cirurgicamente. Seus pastores australianos de graúna e língua vermelha rápida e ágil têm limpado os tecidos de minhas amígdalas, com todos os seus receptores do sistema imune ansiosos. Quem sabe para onde os meus receptores químicos transportam as mensagens dela ou o que ela tirou do meu sistema celular para distinguir o próprio de outros e ligando o fora ao dentro?

Temos tido umas conversas proibidas; temos tido sexo oral; somos obrigadas a contar a história sobre a história com nada além de fatos. Estamos treinando uma a outra em atos de comunicação que nós mal compreendemos. Nós somos, constitutivamente, espécies de companhia. Fazemos uma à outra, na carne. Significativamente outra entre si, numa diferença especifica, nós mostramos na carne uma infecção desagradável de desenvolvimento chamada amor. Este amor é uma aberração histórica e um legado naturezacultural.

Este manifesto explora duas questões fluindo desta aberração e deste legado: 1) como pode uma ética e uma política comprometidas com o florescimento da outridade significante ser aprendida ao se levar a sério as relações cão-humano; e 2) Como poderiam histórias sobre mundos de cães-humanos finalmente convencer os americanos estadunidenses dementes e, talvez, outras pessoas menos desafiadas historicamente de que a história importa nas naturezaculturas?

O Manifesto das Espécies de Companhia é um documento pessoal, uma incursão acadêmica em territórios conhecidos pela metade, um ato político de esperança em um mundo à beira da guerra global e um trabalho permanentemente em progresso, em princípio. Ofereço adereços de cão-consumidos e argumentos semitreinados para redimensionar algumas histórias que eu encaro como grandes escopos, como uma acadêmica e como uma pessoa em meu tempo e lugar. A história aqui é principalmente sobre cães. Apaixonadamente engajada nesses relatos, espero trazer os meus leitores para o canil vital. Mas eu espero também que mesmo a pessoa que tem fobia a cães – ou apenas aquelas com suas mentes em coisas elevadas – encontre argumentos e estórias que importam para os mundos em que ainda poderíamos viver. As práticas e os atores nos mundos dos cães, humanos e não-humanos, devem ser preocupações centrais dos estudos da tecnociência. Ainda mais perto de meu coração, quero que meus leitores saibam porque considero a escrita sobre cães como sendo um ramo da teoria feminista, ou o contrário.

Este não é o meu primeiro manifesto; em 1985, publiquei “O Manifesto Ciborgue” para tentar fazer o sentido feminista das implosões da vida contemporânea na tecnociência. Os ciborgues são “organismos cibernéticos”, nomeados em 1960 no contexto da corrida espacial, da guerra fria e das fantasias imperialistas do humanismo tecnológico construído em projetos políticos e de pesquisa. Eu tentei habitar criticamente os ciborgues; ou seja, nem celebrando, nem condenando, mas em um espírito de irônica apropriação para fins nunca imaginados pelos guerreiros espaciais. Ao contar uma estória de coabitação, coevolução e sociabilidade incorporada entre espécies, o presente manifesto responde qual das duas figuras em cascata juntas – ciborgues e espécies de companhia – pode informar de forma mais proveitosa políticas e ontologias habitáveis nos mundos de vida atuais. Estas figuras dificilmente são polos opostos. Ciborgues e espécies de companhia trazem em seu ser o humano e o não-humano, o orgânico e o tecnológico, o carbono e o silício, a liberdade e a estrutura, a história e o mito, o rico e o pobre, o estado e o sujeito, a diversidade e o esgotamento, a modernidade e a pós-modernidade e a natureza e a cultura de formas inesperadas. Além disso, nenhum ciborgue, nenhum animal de companhia agradam os puros de coração que anseiam por melhores fronteiras entre as espécies protegidas e a esterilização dos desviantes das categorias. Não obstante, as diferenças entre mesmo o mais politicamente correto ciborgue e um cão comum importam.

            Eu me apropriei dos ciborgues para fazer o trabalho feminista na era das Guerras nas Estrelas de Reagan na metade dos anos 1980. Até o final do milênio, os ciborgues não podiam mais fazer o trabalho de um adequado cão de pastoreio para reunir os tópicos necessários para a investigação crítica. Assim, eu vou feliz até os cães para explorar o surgimento do canil para ajudar as hábeis ferramentas para os estudos da ciência e da teoria feminista no tempo presente, quando Bushes de segunda ameaçam substituir o velho crescimento de naturezaculturas mais habitáveis na política do crédito de carbono de toda vida que se baseia em água sobre a Terra. Tendo usado as letras escarlates, “Ciborgues para a Sobrevivência Terrena!” o tempo suficiente, eu agora me estigmatizo com um slogan só para as mulheres de Schutzhund que os esportes de cães poderiam ter vindo acima, quando até mesmo um primeiro belisco pode resultar em uma sentença de morte: “Corra rápido; morda com força!”.

            Esta é uma história de biopoder e biossocialidade, assim como de tecnociência. Como qualquer bom darwiniano, eu conto uma estória de evolução. No modo do milenarismo ácido (nucleico), eu narro um conto de diferenças moleculares, mas um menos enraizado na Eva Mitocondrial numa Fora da África neocolonial e mais enraizado naquelas primeiras putas caninas mitocondriais que ficaram no caminho do homem tornando-se novamente A Maior Estória Jamais Contada. Em vez disso, aquelas putas insistiam sobre a história das espécies de companhia, um tipo muito mundano e atual de conto, um cheio de mal-entendidos, realizações, crimes e esperanças renováveis. A minha é uma estória contada por uma estudante de ciências e uma feminista de certa geração que tinha ido para os cães, literalmente. Cães, em sua complexidade histórica, importam aqui. Os cães não são um álibi para outros temas; cães são presenças materiais  semióticas carnais no corpo da tecnociência. Cães não são substituídos pela teoria; eles não estão apenas aqui para se pensar com eles. Eles estão aqui para vivermos com eles. Parceiros no crime da evolução humana, eles estão no jardim desde o início, astutos como o Coiote.

                                                            Preensões

Muitas versões das filosofias processuais me ajudaram a caminhar com meus cães neste manifesto. Por exemplo, Alfred North Whitehead descreveu “o concreto” como “uma concrescência de preensões”. Para ele, “o concreto” significa uma “ocasião real”. A realidade é um verbo ativo e os substantivos todos parecem ser gerúndios com mais apêndices do que um polvo. Através de seu alcance recíproco, através de suas “preensões” ou alcances, os seres constituem um ao outro e a eles mesmos. Os seres não pré-existem às suas relações. As “preensões” têm consequências. O mundo é um nó em movimento. O determinismo biológico e cultural são ambos instâncias da concretude deslocada – ou seja, o erro de, em  primeiro lugar, tomando abstrações categóricas provisórias e locais como “natureza” e “cultura” pelo mundo e, em segundo lugar, confundindo potentes consequências como sendo fundações pré-existentes. Não existem sujeitos e objetos pré-constituídos e nenhuma fonte simples, atores unitários ou extremidades finais. Nos termos de Judith Butler, existem apenas “fundações contingentes;” corpos que cuja importância é o resultado. Um bestiário de agências, tipos de relacionamentos e pontuações de tempo superando as fantasias até mesmo dos cosmólogos mais barrocos. Para mim, isto é o que as espécies de companhia significam.

O meu amor por Whitehead está enraizado na biologia, mas ainda mais na prática da teoria feminista como eu a tenho experienciado. Esta teoria feminista, em sua negação do pensamento tipológico, dualismos binários e tanto relativismos quanto universalismos de muitos sabores, contribui com uma rica variedade de abordagens para emergência, processo, historicidade, diferença, especificidade, co-habitação e contingência. Dezenas de escritoras feministas têm recusado tanto o relativismo quanto o universalismo. Sujeitos, objetos, tipos, raças, espécies, gêneros e sexos são os produtos de seus relacionamentos. Nenhuma parte deste trabalho é sobre encontrar mundos doces e agradáveis – “femininos” – e conhecimentos livres das devastações e produtividades de poder. Em vez disso, a investigação feminista é sobre o entendimento de como as coisas funcionam, quem está na ação, o que seria possível e como atores mundanos poderiam de alguma maneira serem responsáveis por e se amarem de forma menos violenta.

Por exemplo, ao estudar Iorubá – e inglês – falando em salas de aula de matemática do ensino fundamental na Nigéria pós-independente e participando em projetos de nativos australianos no ensino de matemática e política ambiental, Helen Verran identifica “ontologias emergentes”. Verran pergunta questões “simples”: Como podem pessoas enraizadas em diferentes práticas de conhecimento “manterem-se juntas”, especialmente quando um relativismo cultural muito fácil não é uma opção, quer politicamente, epistemologicamente ou moralmente? Como pode o conhecimento generalista ser nutrido em mundos pós-coloniais comprometidos em levar a sério a diferença? Respostas a estas questões só podem ser colocadas juntas em práticas emergentes; ou seja, no trabalho vulnerável e de superfície que coloca juntas agências não-harmônicas e modos de vida que são responsáveis tanto por suas histórias herdadas díspares quanto por seus futuros conjuntos apenas possíveis, mas absolutamente necessários. Para mim, isto é o que significa a outridade significante.

Estudando práticas de reprodução assistida em San Diego e, então, ciência e política da conservação no Quênia, Charis (Cussins) Thompson sugeriu o termo “coreografias ontológicas.” A roteirização da dança do ser é mais do que uma metáfora; corpos, humanos e não-humanos, são desmontados e colocados juntos em processos que fazem da autoconvicção e da ideologia humanista ou organicista guias ruins para a ética e a política, muito menos para a experiência pessoal.

Finalmente, Marilyn Strathern, com base em décadas de estudo das histórias e políticas da Papua Nova Guiné, assim como sobre as suas investigações de hábitos de acertos de contas parentais ingleses, nos ensina porque as concepções de “natureza” ou “cultura” como quer oposições polares ou categorias universais é tolice. Uma etnógrafa de categorias relacionais, ela mostrou como pensar em outras topologias. Ao invés de opostos, obtemos todo o mapeamento do cérebro febril do geômetra moderno com o qual basear a relacionalidade. Strathern pensa em termos de “conexões parciais”; ou seja, padrões dentro dos quais os jogadores não são nem totalidades e nem partes. Eu chamo isto de relações de outridade significante. Penso Strathern como uma etnógrafa de naturezaculturas; ela não se importaria se eu a convidasse para o canil para uma conversa interespécies.

Para as teóricas feministas, quem e o que está no mundo é precisamente o que está em jogo. Isso é uma isca filosófica muito promissora para a formação de todos nós para compreendermos as espécies de companhia no profundo tempo contado, que está quimicamente gravado no DNA de cada célula, quanto em feitos recentes, que deixam vestígios mais odoríferos. Em termos antiquados, O Manifesto das Espécies de Companhia é uma reivindicação de parentesco, uma tornada possível pela concrescência de preensões de muitas ocasiões reais. As espécies de companhia repousam em bases contingentes.

E como as produções de um jardineiro decadente que não consegue manter boas distinções entre naturezas e culturas hetero, a forma de minhas redes de parentesco parece mais como uma treliça ou uma esplanada do que uma árvore. Você não pode dizer a partir de baixo e tudo parece ir para o lado. Tal tráfico parecido com uma cobra e de ondulação lateral é um dos meus temas. Meu jardim está cheio de cobras, cheio de treliças, cheio de vias indiretas. Instruída por biólogos evolutivos de populações e bioantropólogos, eu sei o que é aquele fluxo gênico multidirecional – fluxos multidirecionais de corpos e valores – é e tem sempre sido o nome do jogo da vida sobre a Terra. É certamente o caminho para o canil. Qualquer outra coisa que os seres humanos e os cães possam ilustrar, é isto que estes co-viajantes mamíferos de corpos grandes, distribuídos globalmente, ecologicamente oportunistas, gregariamente sociais, têm escrito em seus genomas um registro de acoplamentos e trocas infecciosas para definir os dentes mesmo do mais comprometido livre comerciante na fronteira. Mesmo nas Ilhas Galápagos da fantasia moderna do cão de raça pura – onde o esforço para isolar e fragmentar populações reprodutoras e esgotar o seu patrimônio de diversidade pode se parecer com os experimentos modelo para simular os desastres naturais de pontos de estrangulamento da população e doenças epidêmicas – a exuberância inquieta do fluxo gênico não pode ser silenciada. Impressionada por este tráfico, eu arrisco alienar o meu velho paranormal duplo, o ciborgue, a fim de tentar convencer os leitores de que os cães podem ser melhores guias através dos matagais das tecnobiopolíticas no Terceiro Milênio da Era Atual.

Companhias

Em “O Manifesto Ciborgue”, tentei escrever um acordo de substituição, um tropo, uma figura para se viver dentro e honrar as habilidades e práticas da tecnocultura contemporânea sem perder o toque com o aparelho de guerra permanente de um mundo não-opcional e pós-nuclear e suas mentiras transcendentes e muito materiais. Ciborgues podem ser figuras para serem vividas dentro de contradições, atenta às naturezaculturas das práticas mundanas, em oposição aos mitos terríveis de mortalidade de autoparturiente e compreender a mortalidade como a condição pela vida e alerta para os hibridismos históricos emergentes que realmente preenchem o mundo em todas as suas escalas contingentes.

No entanto, as reconfigurações ciborgue dificilmente exaurem o trabalho trópico exigido pela coreografia ontológica na tecnociência. Tenho visto ciborgues como os irmãos menores na família muito maior e queer das espécies de companhia em que as biotecnopolíticas reprodutivas são geralmente uma surpresa, algumas vezes mesmo uma bela surpresa. Eu sei que uma mulher branca de meia idade estadunidense com um cão brincando de esporte de agilidade não é páreo para os guerreiros autômatos, terroristas e seu parente transgênico nos anais de investigação filosófica ou da etnografia de naturezaculturas. Além disso, 1) auto-figuração não é minha tarefa; 2) transgênicos não são os inimigos; e 3) ao contrário de muito da projeção perigosa e anti-ética no mundo ocidental que transforma os caninos domésticos em crianças peludas, os cães não são sobre si mesmos. Na verdade, esta é a beleza dos cães. Eles não são uma projeção, nem a realização de uma intenção, nem o telos de nada. Eles são cães; ou seja, uma espécie em relacionamento obrigatório, constitutivo, histórico, protêico com os seres humanos. O relacionamento não é especialmente agradável; ele está cheio de resíduos, crueldade, indiferença, ignorância e perda, assim como de alegria, invenção, trabalho, inteligência e recreação. Eu quero aprender como narrar esta co-história e como herdar as consequências da co-evolução na naturezacultura.

Não pode existir apenas uma espécie de companhia; tem de haver pelo menos duas para fazer uma. Isto está na sintaxe; isto está na carne. Cães são sobre a estória inescapável e contraditória de relacionamentos – relacionamentos co-constitutivos em que nenhum dos parceiros pré-existem à relação e ela nunca é feita de uma vez por todas. Especificidade histórica e mutabilidade contingente descartam todo o caminho, em natureza e cultura, dentro das naturezaculturas. Não há fundamento; existem apenas elefantes apoiando elefantes por todo o caminho.

Os animais de companhia compreendem apenas um tipo de espécie de companhia e nenhuma das categorias é muito antiga no inglês americano. No inglês estadunidense, o termo “animal de companhia” emergiu no trabalho médico e psicossociológico nas faculdades de veterinária e nos locais relacionados a partir da metade dos anos 1970. Esta pesquisa nos diz que, exceto aqueles poucos novaiorquinos que não gostam de cães que ficam obcecados com a merda de cães espalhada nas ruas, tendo os cães menores uma única pressão sanguínea e algumas chances de sobrevivência de infância, cirurgia e divórcio.

 Certamente, referências nas línguas europeias aos animais servindo como companheiros, ao invés de cães para trabalho ou esporte, precederam esta literatura biomédica e tecnocientífica estadunidense por séculos. Além disso, na China, México, e em outras partes no mundo antigo ou contemporâneo, a evidência documental, arqueológica e oral de cães como animais de estimação, para além de uma miríade de outros trabalhos, é forte. Nas Américas ancestrais, os cães ajudavam no transporte, caça e pastoreio para vários povos. Para outros, os cães eram comida ou uma fonte de pelagem. Os donos de cães gostam de esquecer que os cães foram também armas e instrumentos guiados de terror na conquista europeia das Américas, assim como nas viagens imperiais de definição de paradigmas de Alexandre, o Grande. Com a história de combate no Vietnã como um oficial na marinha dos EUA, o criador de cães da raça Akita e escritor sobre cães John Cargill nos lembra que antes da guerra ciborgue, os cães treinados estavam entre os sistemas de armas mais inteligentes. E os cães farejadores aterrorizavam escravos e prisioneiros, assim como resgatavam crianças perdidas e vítimas de terremotos.

Listar estas funções não inicia a história heterogênea dos cães como símbolo e história por todo o mundo, nem a lista de trabalhos nos diz como os cães foram tratados ou como eles consideravam as suas associações com seres humanos. Em A History of Dogs in the Early Americas (Yale, 1997), Marion Schwartz escreve que alguns cães de caça dos indígenas americanos passavam por rituais semelhantes de preparação assim como seus parceiros humanos, incluindo entre os cães da raça  Achuar da América do Sul a ingestão de alucinógenos. Em In the Company of Animals (Cambridge, 1986), James Serpell relata que para o Comanche das Grandes Planícies do século XIX, os cavalos eram de grande valor prático. Mas os cavalos eram tratados de uma forma utilitária, enquanto que os cães, mantidos como animais de estimação, mereciam boas histórias e os guerreiros lamentavam as suas mortes. Alguns cães foram e são vermes; alguns foram e são enterrados como pessoas. Os cães de pastoreio Navajos contemporâneos se relacionam com sua paisagem, ovelhas,  pessoas, coiotes e cães ou seres humanos estranhos de formas historicamente específicas. Nas cidades, vilas e áreas rurais por todo o mundo, muitos cães vivem vidas paralelas entre as pessoas, mais ou menos tolerados, algumas vezes usados e algumas vezes abusados. Nenhum termo pode fazer justiça a esta história.

No entanto, o termo “animal de companhia” entrou na tecnocultura estadunidense através da concessão de terras do pós-guerra civil para a construção de prédios de medicina veterinária das instituições acadêmicas. Ou seja, os “animais de companhia” têm o pedigree do acasalamento entre o expertise tecnocientífico e as práticas de manutenção de bichos de estimação, com suas massas democráticas apaixonadas por seus parceiros domésticos ou pelo menos com aqueles não-humanos. Os animais de companhia podem ser cavalos, cães, gatos ou uma gama de outros seres dispostos a dar o salto na biossocialidade dos cães de serviço, membros familiares ou membros de equipe em esportes interespecíficos. De um modo geral, não se come um animal de companhia (nem se é comido por ele); e se tem um tempo difícil agitando atitudes colonialistas, etnocêntricas, a-históricas em relação àqueles que o fazem (comem ou são comidos).

 Espécies

“Espécies de companhia” é uma categoria maior e mais heterogênea do que animais de companhia e não apenas porque se incluiria tais seres orgânicos como arroz, abelhas, tulipas e flora intestinal, todas as quais tornam a vida para os seres humanos o que ela é – e vice-versa. Eu quero escrever a palavra-chave de entrada para as “espécies de companhia” para insistir em quatro tons simultaneamente ressonantes na caixa de voz linguística e histórica que permite expressar este termo. Primeiro, como uma filha obediente de Darwin, insisto nos tons da história da biologia evolutiva, com suas categorias de populações, taxas de fluxo gênico, variação, seleção e espécies biológicas. Os debates nos últimos 150 anos sobre se a categoria “espécie” denota uma entidade biológica real ou simplesmente representa uma caixa taxonômica conveniente que ressoa os sobre e os meio tons. Espécie é sobre um tipo biológico e é necessário conhecimento científico para este tipo de realidade. Pós-ciborgue, o que conta como tipo biológico perturba as categorias anteriores de organismo. O maquínico e o textual são internos ao orgânico e vice-versa de formas irresistíveis.

            Segundo, escolarizada por Tomás de Aquino e outros Aristotélicos, eu permaneço alerta às espécies como tipos e categorias filosóficas genéricas. Espécies são sobre a definição da diferença, enraizada em fugas de múltiplas sonoridades vocalizadas das doutrinas de causa.

Terceiro, minha alma indelevelmente marcada por uma formação católica, ouço nas espécies a doutrina da Presença Real sob ambas as espécies, pão e vinho, os sinais transubstanciais da carne. Espécies são sobre a união corporal do material e semiótico em formas inaceitáveis às sensibilidades protestantes seculares da academia americana e a muitas versões da ciência humana da semiótica.

Quarto, convertida por Marx e Freud e uma otária para etimologias duvidosas, eu ouço na torpe espécie ganância, espécie, ouro, merda, sujeira e  riqueza. Em Love’s Body, Norman O. Brown me ensinou sobre a junção de Marx e Freud na merda e no ouro, nas fezes primitivas e no metal civilizado, na espécie. Eu conheci esta junção de novo na moderna cultura canina estadunidense, com sua exuberante cultura mercantil; suas práticas vibrantes de amor e desejo; suas estruturas que agregam o estado, a sociedade civil e o indivíduo liberal; suas tecnologias mestiças de fazer o sujeito e o objeto da raça pura. Conforme eu cubro a minha mão no filme plástico – cortesia dos impérios de pesquisa da química industrial – que protege o meu New York Times matinal para pegar o ecossistema microscópico, chamado de fezes, produzido de novo a cada dia pelos meus cães, acho meus cinzéis anais como se fossem piadas, colocando-me de volta nas histórias de encarnação, economia política, tecnociência e biologia.

Resumindo, “espécies de companhia” é sobre uma composição de quatro partes, em que co-constituição, finitude, impureza, historicidade e complexidade são o que são.

O Manifesto das Espécies de Companhia é, assim, sobre a implosão de natureza e cultura nas implacáveis e historicamente específicas vidas comuns de cães e pessoas que estão ligadas na outridade significante. Muitas são interpeladas naquela história e o conto é instrutivo também para aqueles que tentam manter uma distância higiênica. Quero convencer os meus leitores que os habitantes da tecnocultura se tornam quem somos nos tecidos simbiogênicos das naturezaculturas, na história e no fato.

Aproveito a “interpelação” da teoria do pós-estruturalista e filósofo marxista Louis Althusser de como os sujeitos são constituídos a partir de indivíduos concretos sendo “saudados” através da ideologia em suas posições de sujeito no estado moderno. Hoje, através de nossas narrativas ideologicamente carregadas de suas vidas, os animais nos “saúdam” a explicar os regimes em que eles e nós devemos viver. Nós os “saudamos” em nossas construções de natureza e cultura, com consequências importantes de vida e morte, saúde e doença, longevidade e extinção. Também vivemos uns com os outros na carne de maneiras não esgotadas por nossas ideologias. Histórias são muito maiores do que ideologias. Esta é a nossa esperança.

Nesta longa introdução filosófica, estou violando uma regra importante das “Notas da Filha de um Escritor de Esportes,” meus rabiscos caninos em homenagem ao meu pai escritor de esportes, que apimentam este manifesto. As “Notas” exigem que não haja desvio das próprias histórias dos animais. As lições têm que ser inextricavelmente parte da história; é uma regra de verdade como um gênero para aqueles de nós – católicos praticantes e caducos e seus companheiros de viagem – que acreditam que o signo e a carne são um só.

Ao relatar os fatos, ao contar uma estória verdadeira, escrevo o “Notas de uma Filha de um Escritor de Esportes”. O trabalho de um escritor de esportes é, ou pelo menos era, relatar a história do jogo. Sei disso porque quando criança me sentava na sala de imprensa dos clubes de beisebol da categoria AAA no estádio dos Denver Bears’ tarde da noite vendo o meu pai escrever e arquivar as suas histórias de jogo. Um escritor de esporte, talvez mais do que outras pessoas que trabalham com notícias, tem um trabalho curioso – para dizer o que aconteceu, girando uma história que é apenas de fatos. Quanto mais vívida a prosa, melhor; na verdade, se trabalhada fielmente, quanto mais potentes os tropos, mais verdadeira é a história. Meu pai não queria ter uma coluna de esportes, uma atividade de maior prestígio nos negócios dos jornais. Ele queria escrever as histórias dos jogos, para ficar próximo da ação, para dizer como ela é, não para olhar para os escândalos e os ângulos pela meta-história, a coluna. A fé de meu pai estava no jogo, onde fato e história co-habitavam.

Eu cresci no seio de duas grandes instituições que contrariam a crença modernista no divórcio sem culpa, baseada nas diferenças irrevogáveis, de história e fato. Ambas instituições – a Igreja e a Imprensa – são notoriamente corruptas, notoriamente desprezadas (se constantemente usadas) pela Ciência, e, no entanto, indispensáveis em cultivar a fome insaciável do povo pela verdade. Signo e carne; história e fato. Em minha casa natal, os parceiros geradores não podem se separar. Eles estão, em um linguajar chulo e sujo de cachorro, amarrados. Nenhuma cultura e natureza admirada implodiu para mim como um adulto. E em nenhum lugar a implosão teve mais força do que em viver o relacionamento e ao falar do verbo que passa como um substantivo: espécies de companhia. É isto o que John quer expressar quando ele diz, “O Mundo foi feito carne”? No fundo da nona vez, os Bears perderam em duas partidas, de três rodadas, duas fora e duas vencidas, com o tempo final para apresentar a história depois cinco minutos?

Eu também cresci na casa da Ciência e aprendi, por volta da época em que os mamilos dos meus seios surgiram, sobre quantas passagens subterrâneas existem conectando os Estados e quantos acoplamentos mantêm signo e carne, história e fato, juntos nos palácios do conhecimento positivo, hipóteses falsificáveis e teoria sintetizadora. Como a minha ciência foi a biologia, aprendi cedo aquelas narrativas sobre evolução, desenvolvimento, função celular, complexidade genômica, a moldagem da forma ao longo do tempo, ecologia do comportamento, sistemas de comunicação, cognição – em suma, relatando por qualquer coisa digna de nome da biologia – não era tão diferente de começar uma história de jogo apresentada ou vivida com os enigmas da encarnação. Para se fazer biologia com qualquer tipo de fidelidade, o praticante deve contar uma história, deve obter a verdade e deve ter um coração para ficar com fome pela verdade e abandonar uma história favorita, um fato favorito, demonstrando estar de algum modo fora da marca. Os praticantes devem também ter o coração para ficar com uma história através da grossa e fina, para herdar as suas ressonâncias discordantes, viver as suas contradições, quando esta história fica verdadeira sobre a vida é o que importa. Não é este tipo de fidelidade que fez a ciência da biologia evolutiva florescer e alimentar a minha fome corporal pessoal por conhecimento ao longo dos últimos cento e cinquenta anos?

Etmologicamente, os fatos se referem a desempenho, ação e obras feitas – façanhas, em suma. Um fato é um particípio passado, uma coisa feita sobre, fixada, mostrada, executada, realizada. Fatos fizeram o prazo para entrar na próxima edição do artigo. A ficção, etimologicamente, está muito próxima, mas difere por parte de discurso e tempo. Como os fatos, a ficção se refere à ação, mas a ficção é sobre a ação de modelar, formar, inventar, bem como fingimento ou simulação.  Baseada no particípio presente, a ficção é um processo e ainda uma participação, não terminada, ainda propensa a cair em conflito com os fatos, mas também susceptível de mostrar algo que ainda não sabemos ser verdade, mas saberemos. Vivendo com animais, habitando suas/nossas histórias, tentando dizer a verdade sobre relacionamento, co-habitando uma história ativa: este é o trabalho das espécies de companhia, para as quais “a relação” é a menor unidade possível de análise.

Então, solicito as estórias de cães para se viver estes dias. Todas as estórias trafegam em tropos, ou seja, figuras de linguagem necessárias para dizer qualquer coisa. Tropo (do Grego: tropós) significa desviar ou tropeçar. Toda linguagem desvia e tropeça; nunca existe um significado direto; apenas o dogmático pensa que a comunicação livre de tropos é a nossa província. O meu tropo favorito é o dos contos de cães é o ‘metaplasmo”. Metaplasmo significa uma mudança em uma palavra, por exemplo ao adicionar, omitir, inverter ou transpor as suas letras, sílabas ou sons. O termo vem do grego metaplasmos, que significa remodelagem ou remodelação. Metaplasmo é um termo genérico para quase qualquer tipo de alteração na palavra, intencional ou não intencional. Eu uso metaplasmo para significar a remodelagem da carne do cão e do ser humano, remodelando os códigos da vida, na história do relacionamento das espécies de companhia.

Compare e contraste “protoplasma”, “citoplasma”, “neoplasma” e “germoplasma”. Existe um gosto biológico para “metaplasma” – apenas o que eu gosto em palavras sobre palavras. Carne e significante, corpos e palavras, histórias e mundos: estes estão unidos em naturezaculturas. Metaplasma pode significar um erro, um tropeço, um tropo que faz uma diferença carnal. Por exemplo, uma substituição em uma cadeia de bases em um ácido nucleico pode ser um metaplasmo, mudando o significado de um gene e alterando o curso de uma vida. Ou, uma prática remodelada entre criadores de cães, tais como fazendo mais cruzamentos e menos linhas de cruzamentos próximas que podem resultar da mudança de significados de uma palavra como “população” ou “diversidade”. Invertendo significados; transpondo o corpo de comunicação; remoldagem, remodelagem; desvio que dizem a verdade: Eu conto histórias sobre histórias, por todo o caminho. Au-au.

Implicitamente, este manifesto é mais do que a relação de cães e pessoas. Cães e pessoas figuram um universo. Claramente, os ciborgues – com o seu congelamento histórico do maquínico e do orgânico nos códigos de informação, no qual as fronteiras são menos sobre a pele do que sobre densidades estatisticamente definidas de sinal e ruído – cabem dentro da taxa das espécies de companhia. Isto é, os ciborgues levantam todas as questões de histórias, políticas e éticas que os cães exigem. Cuidado, florescimento, diferenças de poder, escalas de tempo – estas importam para os ciborgues. Por exemplo, que tipo de construção de escala temporal pode moldar o sistema de trabalho, estratégias de investimento e padrões de consumo em que os períodos de geração de máquinas de informação se tornam compatíveis com os tempos de geração das comunidades humanas, animais e de plantas e ecossistemas? Qual é o tipo certo de cinzel anal para um computador ou um assistente digital pessoal? Pelo menos, sabemos que não é um depósito eletrônico no México ou na Índia, onde catadores humanos são remunerados com quase nada para processar os resíduos ecologicamente tóxicos dos bem informados.

Arte e engenharia são práticas irmãs naturais para se engajar com as espécies de companhia. Assim, os acoplamentos humano-paisagem cabem confortavelmente dentro da categoria das espécies de companhia, evocando todas as questões sobre as histórias e relacionamentos que soldam as almas dos cães e seus seres humanos. O escultor escocês Andrew Goldsworthy compreende isto bem. Escalas e fluxos de tempo através da carne de plantas, terra, mar, gelo e pedras consomem Goldsworthy. Para ele, a história da terra é vivente; e esta história é composta fora de relacionamentos polimórficos de pessoas, animais, solo, água e rochas. Ele trabalha em escalas de cristais de gelo esculpidas e entrelaçadas com galhos, cones de rocha em camadas do tamanho de um homem construídos nas zonas de ondulações entre-marés da costa e paredes de pedra através de longos trechos de campo. Ele tem um conhecimento de engenharia e artístico de forças como a gravidade e a fricção. Suas esculturas duram algumas vezes segundos, algumas vezes décadas; mas mortalidade e mudança nunca estão fora da consciência. Processos e dissoluções – e agências tanto humanas quanto não-humanas, assim como animadas e inanimadas – são seus parceiros e materiais, não apenas seus temas.

Nos anos 1990, Goldsworthy fez um trabalho chamado Arch. Ele e o escritor David Craig traçaram uma rota de ovelhas de antigos tropeiros a partir de pastagens escocesas até um mercado de uma cidade inglesa. Ao fotografar assim que partiram, eles montaram e desmontaram um arco de arenito vermelho auto-sustentável através dos lugares marcando o passado e o presente histórico de animais, pessoas e terra. As árvores e o caseiro desaparecidos, a história de recintos e crescentes mercados de lã, os laços tensos entre a Inglaterra e a Escócia ao longo de séculos, as condições de possibilidade do trabalho de cães pastores escoceses e pastores contratados, o comer e o andar das ovelhas até a tosa e o abate – estes são celebrados no arco de pedra em movimento amarrando junto geografia, história e história natural.

Figura 1. Na metade dos anos 1990, esta imagem de uma ovelha revertendo as desigualdades da vida ao encurralar nove cães pastores virou propaganda da Ciba-Geigy para divulgar seus vermicidas de ovelhas e vacas. Sujeito ao severo olhar e ao clique da câmara, o campeão de adestramento de cães pastores Thomas Longton permaneceu em sua fazenda Quernmore em Lancashire, pronto para encurralar seus cães talentosos. Mais tarde, sem a referência ao Combinex, mas com um moinho de vento holandês retocado pela paisagem, uma imagem de espelho da cena circulou amplamente na terra dos cães pela internet. Sem créditos ou informações identificáveis, a foto tinha o título sem graça , “Border Collie Hell.” Mesmo sem o realocado moinho de vento holandês, a fotografia sempre foi uma composição ciborgue. Para iniciantes, dois dos cães são repetições dos mesmos indivíduos, mas de ângulos diferentes; os jovens cães na parte traseira  estão amarrados por fios invisíveis junto à cerca, a ovelha estava  na cena através da sobreposição de outra fotografia. Em O Manifesto das Espécies de Companhia, o “Border Collie Hell” sinaliza as inversões irônicas incorporadas nas naturezaculturas. Animais, pessoas, paisagens, corporações e tecnologias estão todos na brincadeira. A fotografia também agrada àqueles que 1) gostaram do filme Babe, e 2) trabalham com outros cães de pastoreio diferentes dos Border Collies. Agradeço à Thomas Longton pelo folheto de anúncio e pela história. Agradeço também às redes de estudos da ciência, editoriais, corporativas e às pessoas do Border Collie que me ajudaram a rastrear todas as informações.

            O cão da raça Collie implícito no Arch de Goldsworthy está menos relacionado a “Lassie volta para casa” do que a “saída do caseiro”. Esta é uma condição de possibilidade do show de TV britânico imensamente popular do final do século XX sobre o trabalho brilhante de cães pastores, os Border Collies da Escócia. Moldada geneticamente para adestradamento em competições desde o final do século XIX, esta raça tem feito desse evento esportivo justamente famoso em vários continentes. Esta é a mesma raça de cães que dominou o esporte de agilidade em minha vida. É também a raça que foi escolhida em um grande número de resgates realizados por voluntários dedicados ou mortos em abrigos de animais porque as pessoas que assistem a esses famosos programas de televisão sobre  essa raça de cães talentosos querem comprar um no mercado de animais de estimação, que cresce rapidamente para atender à demanda. Os compradores impulsivos rapidamente encontram um cão sério ao qual não podem satisfazer com o trabalho que o Border Collie necessita. E onde está o trabalho dos pastores contratados e da ovelha produtora de comida e lã nesta história? De quantas maneiras herdamos na carne da história turbulenta do capitalismo moderno?

             Como viver de forma ética nestes fluxos mortais e finitos que são sobre o relacionamento heterogêneo – e não sobre “o homem” – é uma questão implícita na arte de Goldsworthy. A arte dele está implacavelmente em sintonia com habitações humanas específicas da região, mas ela não é nem humanista e nem uma arte naturalista. É a arte de naturezaculturas. A relação é a menor unidade de análise e a relação é sobre a outridade significante em cada escala. Esta é a ética, ou talvez melhor, o modo de atenção com o qual é preciso abordar a longa co-habitação de pessoas e cães.

            Então, em O Manifesto das Espécies de Companhia, quero contar histórias sobre o relacionamento na outridade significante, através das quais os parceiros vêm a ser quem somos na carne e no signo. As seguintes histórias desgrenhadas  de cães sobre evolução, amor, treinamento e tipos ou raças me ajudam a pensar sobre viver bem junto com o hospedeiro das espécies com quem os seres humanos emergem sobre este planeta a cada escala de tempo, corpo, e espaço. Os relatos que ofereço são idiossincráticos e indicativos em vez de sistemáticos, tendenciosos mais do que judiciosos e enraizados em fundações contingentes ao invés de premissas claras e distintas. Cães são a minha história aqui, mas eles são apenas um jogador no amplo mundo das espécies de companhia. Partes não se somam a totalidades neste manifesto – ou na vida em naturezaculturas. Em vez disso, estou procurando pelas “conexões parciais” de Marilyn Strathern, que são sobre as geometrias contra-intuitivas e as traduções incongruentes necessárias para se começar juntas, onde os truques dos deuses da autossegurança e comunhão imortal não são uma opção.

Histórias de Evolução

Todo mundo que eu conheço gosta de histórias sobre a origem dos cães. Estofadas com significado pelos seus ávidos consumidores, estas histórias são a substância de alto romance e ciência sóbria, todos misturados juntos. Histórias das migrações e intercâmbios humanos, a natureza da tecnologia, os significados do selvagem e as relações entre colonizadores e colonizados inundam estas histórias. Questões como julgar se o meu cachorro me ama, triando escalas de inteligência entre animais e entre animais e humanos, e decidindo se seres humanos são os mestres ou se os enganados podem depender do resultado de um sóbrio relatório científico. Avaliando a decadência ou a progressividade dos cruzamentos, julgar se o comportamento canino é o resultado de genes ou da criação, decidindo entre as reivindicações dos antigos anatomistas e arqueólogos ou dos novos e desnecessários assistentes moleculares, estabelecendo as origens no Novo e Velho Mundo, descobrindo o ancestral de vira-latas como um nobre lobo de caça persistindo nas modernas espécies ameaçadas de extinção ou em um gari modelo espelhado em meros cães de rua procurando por uma ou muitas Evas caninas, sobrevivendo em seu DNA mitocondrial ou talvez um Adão canino através de seus legados no cromossomo Y – tudo isto e muito mais são compreendidos como estando no jogo.

No dia em que escrevi esta seção de O Manifesto das Espécies de Companhia, notícias se alastraram sobre as grandes redes desde a PBS até a CNN sobre três artigos na revista Science sobre a evolução dos cães e a história de sua domesticação. Em minutos, listas numerosas de e-mails na terra dos cães foram criadas com a discussão sobre as implicações da pesquisa. Endereços de sites atravessaram continentes trazendo as notícias para o mundo ciborgue, enquanto que o meramente alfabetizado seguia a história nos jornais diários de Nova Iorque, Tóquio, Paris ou Joanesburgo. O que está acontecendo neste consumo floreado de histórias científicas sobre origens e como podem estes relatos me ajudar a entender a relação contida nas espécies de companhia?

Explicações sobre a evolução dos primatas e especialmente dos hominídeos podem ser a arena de brigas de galo mais famosa nas ciências da vida contemporânea; mas o campo da evolução canina dificilmente está em falta nas impressionantes lutas de cães entre os cientistas humanos e os escritores populares. Nenhum relato do aparecimento dos cães sobre a Terra é incontestável  e ninguém vai ser considerado inadequado por seus partidários.  Tanto no mundo canino popular quanto no profissional, o que está em jogo é o duplo: 1) a relação entre o que conta como natureza e o que conta como cultura no discurso ocidental e seus familiares, e 2) a questão correlata de quem e o que conta como um ator. Estas coisas importam para a ação política, ética e emocional na tecnocultura. Um partidário no mundo das histórias e da evolução dos cães, procuro por formas de considerar a co-evolução e a co-constituição sem despojar a história de suas brutalidades assim como belezas multiformes.

Os cães foram os primeiros animais domesticados, deslocando os porcos para honras primais. Os tecnofilíacos humanistas retratam a domesticação como o ato paradigmático do autonascimento masculino e de um genitor, pelo qual o homem se cria repetitivamente conforme ele inventa (cria) suas ferramentas. O animal doméstico é a ferramenta de mudança de época, percebendo a intenção humana na carne, numa versão de corpo canino do onanismo. O homem tomou o lobo (selvagem) e o transformou no cão (servil) e assim fez a civilização possível. Hegel e Freud miscigenados no canil? Deixe o cão para todas as espécies de plantas e animais domesticados, sujeito à intenção humana em histórias de progresso e destruição crescentes, de acordo com o gosto. Os seguidores da ecologia profunda adoram acreditar nestas histórias a fim de odiá-las em nome da Selvageria antes da Queda na Cultura, assim como os humanistas acreditam nelas a fim de se defender das invasões biológicas sobre a cultura.

Estes relatos convencionais têm sido totalmente remodelados nos últimos anos, quando o ato de distribuir tudo é o nome de todo o jogo, incluindo no canil. Apesar de eu saber que eles são modismos, eu gosto destas versões metaplásticas e remodeladas que dão aos cães (e a outras espécies) os primeiros movimentos na domesticação e então coreografa uma dança interminável de agências distribuídas e heterogêneas. Além de ser modismo, penso que as histórias mais novas têm uma chance melhor de serem verdade, e elas certamente tem uma melhor oportunidade de nos ensinar a prestar a atenção à outridade significante como algo além de um reflexo das intenções de alguém.

Estudos do DNA mitocondrial de cães como relógios moleculares têm indicado o surgimento dos cães muito antes do que previamente pensado como possível. Trabalho realizado pelo laboratório de Carles Villá e Robert Wayne em 1997 argumenta a divergência dos cães a partir dos lobos por volta de 150.000 anos atrás – ou seja, na origem do Homo sapiens sapiens. Esta data, não suportada pelas evidências fósseis e arqueológicas, deu lugar a estudos de DNA posteriores em algum lugar entre 50.000 e 15.000 anos atrás, com os cientistas favoráveis à data mais recente porque ela permite a síntese de todos os tipos disponíveis de evidência. Neste caso, parece que os cães emergiram primeiro em algum lugar no oriente da Ásia ao longo de um tempo bastante curto em  distribuídos em ciclos de eventos e então se espalharam rapidamente por toda a Terra, indo onde quer que os seres humanos fossem.

Muitos intérpretes argumentam que o cenário mais provável tem lobos querendo ser cães, primeiro aproveitando da bonança calórica fornecida pelos depósitos de resíduos dos seres humanos. Pelo seu movimento oportunista, aqueles cães que emergiam seriam, de forma comportamental e em última análise, geneticamente adaptados para distâncias de tolerância reduzida, menos dispostos a se moverem saltitantes, tempo de desenvolvimento dos filhotes com janelas maiores para a socialização interespécies e ocupação paralela mais confiante de áreas também ocupadas por seres humanos perigosos. Estudos em pelos  de raposas russas selecionadas ao longo de muitas gerações para a mansidão diferenciada mostram muitos dos traços morfológicos e de comportamento associados com a domesticação. Estas raposas podem modelar o surgimento de um tipo de proto “cão de rua”, geneticamente próximo aos lobos, como permanecem todos os cães, mas de modo comportamental bastante diferente e receptivo às tentativas humanas para aprofundar o processo de domesticação. Tanto pelo controle deliberado da reprodução dos cães (isto é, matando filhotes indesejados ou alimentando algumas cadelas e não outras) quanto pelas consequências não-intencionais, mas não obstantes potentes, os seres humanos podem ter contribuído para moldar os muitos tipos de cães que apareceram no começo da história. Os modos vida humanos mudaram de forma significativa em associação com os cães. Flexibilidade e oportunismo é o nome do jogo para ambas as espécies que moldaram uma à outra ao longo da história ainda em curso da co-evolução.

Acadêmicos usam versões desta história para questionar as profundas divisões de natureza e cultura a fim de moldar um discurso mais generativo pela tecnocultura. Darcy Morey, um paleobiólogo e arqueólogo de cães, acredita que a distinção entre seleção artificial e natural é vazia porque por todo o caminho da história é sobre a reprodução diferencial. Morey des-enfatiza as intenções e coloca em primeiro plano a ecologia do comportamento. Ed Russell, um historiador ambiental, historiador da tecnologia, e acadêmico nos estudos da ciência, argumenta que a evolução das raças de cães é um capítulo na história da biotecnologia. Ele enfatiza as agências humanas e relaciona os organismos como tecnologias de engenharia, mas de uma maneira que tem os cães ativos, assim como numa forma que evidencia a co-evolução em curso das culturas humanas e dos cães. O escritor científico Stephen Budiansky insiste que a domesticação em geral, incluindo a domesticação dos cães, é uma estratégia evolutiva bem sucedida que beneficia humanos e suas espécies associadas também. Exemplos podem ser multiplicados.

Estes relatos tomados em conjunto exigem a reavaliação dos significados de domesticação e co-evolução. A domesticação é um processo emergente de co-habitação, envolvendo agências de muitos tipos e histórias que não levam elas mesmas para ainda mais uma versão da Queda ou a nenhum resultado certo para ninguém. Co-habitar não significa frisar ou tocar com bastante frequência. As espécies de companhia não são parceiras de companheirismo prontas para as discussões anarquistas do Greenwich Village do início do século XX. O relacionamento é multiforme, em jogo, inacabado e consequente.

A co-evolução tem de ser definida de forma mais ampla do que os biólogos fazem habitualmente. Certamente, a adaptação mútua de morfologias visíveis tais como as estruturas sexuais das flores e dos órgãos de seus insetos polinizadores são co-evolução. Mas é um erro ver as alterações dos corpos e das mentes dos cães como biológicas e as mudanças nos corpos e vidas humanas, por exemplo no surgimento do pastoreio e das sociedades agrícolas, como culturais, e não apenas co-evolutivas. Pelo menos, suspeito que os genomas humanos contenham um registro molecular considerável de patógenos de suas espécies de companhia, incluindo os cães. Os sistemas imunes não são uma pequena parte das naturezaculturas; eles determinam aonde os organismos, incluindo as pessoas, podem viver e com quem. A história da gripe é inimaginável sem o conceito de co-evolução de seres humanos, porcos, galinhas e viroses.

 Mas a doença não pode ser toda a história biossocial. Alguns comentaristas pensam que mesmo algo tão fundamental quanto a capacidade biológica humana hipertrofiada da fala emergiu em consequência de associações do trabalho da condução de cães em aromas e alertas e assim liberando o rosto, garganta e cérebro humano para a conversa. Eu sou cética com relação a este relato; mas estou certa de que uma vez que reduzimos a nossa própria reação de luta ou desistência às emergentes naturezaculturas e paramos de ver apenas reducionismo biológico ou singularidade cultural, tanto pessoas quanto animais parecerão diferentes.

Estou animada pelas ideias recentes na biologia do desenvolvimento ecológico, ou “eco-devo” nos termos do biólogo do desenvolvimento e historiador da ciência Scott Gilbert. Os desencadeadores e relógios do desenvolvimento são os objetos-chave para esta jovem ciência tornada possível pelas novas técnicas moleculares e pelas fontes discursivas a partir de muitas disciplinas. As plasticidades diferenciais e de contexto específicas são a regra, algumas vezes geneticamente assimiladas e algumas vezes não. Como os organismos integram a informação ambiental e a genética em todos os níveis, do muito pequeno até o muito grande, determina o que eles se tornam. Não existe nenhum tempo ou lugar no qual a genética termina e o ambiente começa e o determinismo genético é, na melhor das hipóteses, uma palavra local para estreitas plasticidades do desenvolvimento ecológico.

O grande e amplo mundo é cheio de vida arrogante. Por exemplo, Margaret McFall-Ngai tem mostrado que os órgãos que emitem luz da lula Euprymna scolopes se desenvolve normalmente apenas se o embrião foi colonizado pela bactéria luminescente Vibrio. Similarmente, o tecido intestinal humano não pode se desenvolver normalmente sem a colonização pela sua flora bacteriana. A diversidade das formas animais da Terra emergiu na salgada sopa bacteriana dos oceanos. Todas as fases das histórias de vida dos animais em evolução tiveram que se adaptar às ansiosas bactérias, colonizando-as por dentro e por fora. Os padrões de desenvolvimento das formas complexas de vida provavelmente mostram a história destas adaptações, uma vez que os cientistas descubram como procurar pela evidência. Os seres da Terra são preênseis, oportunistas, prontos para jugos parceiros improváveis em algo novo, algo simbiogenético. As espécies de companhia co-constitutivas e as de co-evolução são a regra, não a exceção. Estes argumentos são trópicos para o meu manifesto, mas a carne e a figura não estão muito distantes. Tropos são o que nos fazem querer olhar e necessitar ouvir pelas surpresas que nos tiram das caixas herdadas.

Histórias de Amor

Geralmente nos EUA, os cães são atribuídos pela capacidade para o “amor incondicional”. De acordo com esta crença, as pessoas, sobrecarregadas com desconhecimento, contradição e complexidade em suas relações com os outros seres humanos, encontram consolo no amor incondicional de seus cães. Por sua vez, as pessoas amam seus cães como crianças. Em minha opinião, ambas as crenças não estão apenas baseadas em erros, se não mentiras, mas também elas são em si mesmas abusivas – para os cães e para os seres humanos. Um olhar superficial mostra que cães e seres humanos sempre tiveram uma vasta gama de maneiras de se relacionarem. Mas mesmo entre o pessoal que mantém animais de estimação das culturas consumistas contemporâneas, ou talvez especialmente entre estas pessoas, a crença no “amor incondicional” é perniciosa. Se a ideia de que o homem se fez através da realização de suas intenções em suas ferramentas, tais como animais domésticos (cães) e computadores (ciborgues), é evidência de uma neurose que eu chamo de narcisismo tecnofílico humanista, então a ideia superficialmente oposta de que os cães restauram as almas dos seres humanos pelo seu amor incondicional pode ser a neurose do narcisismo caninofílico. Porque acho precioso o amor dos e entre cães e seres humanos situados historicamente, importa ser dissidente do discurso do amor incondicional.

A obra-prima peculiar de J. R. Ackerley, My Dog Tulip (primeiro impresso de forma privada na Inglaterra em 1956), sobre o relacionamento entre o escritor e a sua cadela “Alsaciana” nos anos 1940 e 1950, me forneceu uma maneira de pensar através de minha dissidência. A história pisca na visão periférica do leitor desde o início desta grande história de amor. Após as duas guerras mundiais, em um destes exemplos minuciosos de negação e substituição que nos permite seguir as nossas vidas, o cão Pastor Alemão na Inglaterra era chamado de Alsatiano. Tulip (Queenie, na vida real) era o grande amor da vida de Ackerley. Um romancista importante, homossexual famoso e escritor esplêndido, Ackerley honrava este amor desde o início ao reconhecer sua tarefa impossível – saber, em primeiro lugar, de alguma forma a aprender o que este cão precisava e desejava e, em segundo lugar, mover o céu e a Terra para ter certeza que ela tinha gostado disso.

Em Tulip, resgatada de seu primeiro lar, Ackerley quase não teve o seu objeto de amor ideal. Ele também suspeitava que ele não era o ideal dela de ser amado. A saga que se seguiu não foi sobre o amor incondicional, mas sobre procurar habitar um mundo intersubjetivo que era sobre encontrar o outro em todos os detalhes carnais de uma relação mortal. Barbara Smuts, a bioantropóloga comportamental que escreve corajosamente sobre intersubjetividade e amizade com e entre animais, aprovaria. Sem ser um biólogo do comportamento, mas em sintonia com a sexologia de sua cultura, Ackerley comicamente e de forma comovente sai em busca de um parceiro sexual adequado para Tulip em seus cios periódicos.

A feminista ambiental holandesa Barbara Noske, que também chamou a nossa atenção para o escândalo do “complexo animal-industrial” de produção de carne, nos sugere a pensar os animais como “outros mundos” em um sentido de ciência ficcional. Em sua inabalável dedicação à outridade significante de seu cão, Ackerley teria compreendido. Tulip importava, e isto mudava os dois. Ele também importava para ela, de maneira que só poderia ser lida com a passagem adequada a qualquer prática semiótica, linguística ou não. Os equívocos foram tão importantes quanto os momentos fugazes de fazer a coisa certa. A história de Ackerley era cheia de detalhes carnais e de produção de significados do amor mundano face a face. Receber amor incondicional a partir do outro é uma fantasia raramente desculpável como neurótica; se esforçar para cumprir as condições confusas de estar amando é outra questão. A busca permanente por conhecimento do outro íntimo e os erros cômicos inevitáveis e trágicos nesta busca, comandam o meu respeito, seja o outro um animal ou humano, ou na verdade, inanimado. O relacionamento de Ackerley com Tulip ganhou o nome de amor.

Figura 2. Marco Harding e Willem DeKooning Caudill, um Grande Pirineus de estimação do cruzamento de Linda Weisser. Foto do autor. 

            Tenho me beneficiado da orientação de vários experientes donos de cães. Estas pessoas usam a palavra amor com moderação, pois eles detestam como os cães são tidos como dependentes fofinhos e peludos parecidos com crianças. Por exemplo, Linda Weisser tem sido uma cruzadora por mais de trinta anos de cães de guarda de gado da raça Grandes Pirineus, uma ativista na área da saúde em cruzamentos e uma professora sobre todos os aspectos do cuidado, comportamento, história e bem estar destes cães. O sentido dela de responsabilidade com os cães e as pessoas que os tem é deslumbrante. Weisser enfatiza o amor de um tipo de cão, de uma raça e fala sobre o que é preciso ser feito se as pessoas se importam com estes cães como um todo, e não apenas sobre os seus próprios cães. Sem estremecer, ela recomenda matar um cão de resgate agressivo ou qualquer cão que tenha mordido uma criança; fazê-lo poderia significar salvar a reputação da raça e as vidas de outros cães, para não mencionar das crianças. O “cão em um todo” para ela é tanto um tipo quanto um indivíduo. Este amor a leva e também os outros com recursos típicos de classe média à autoeducação científica e médica, ação pública, orientação e grandes compromissos de tempo e recursos.

            Weisser também fala sobre o “cão especial do coração dela” – uma cadela que viveu com ela por muitos anos e que ainda mexe com ela. Ela escreve num ácido lirismo sobre um cão atual que chegou à casa dela aos dezoito meses de idade e rosnou por três dias, mas que agora aceita cookies de sua neta de nove anos, permite as crianças tirar seus alimentos e brinquedos e de forma tolerante cuida das jovens cadelas do agregado familiar.

            Eu amo esta cadela além das palavras. Ela é inteligente, altiva e alfa, e se um rosnado aqui e ali é o preço que eu pago por ela em minha vida, que seja assim (Lista de Discussão dos Grandes Pirineus, 29/09/02).

            Weisser claramente valoriza estes sentimentos e estas relações. Ela é rápida em insistir que a raiz de seu amor é sobre

            o profundo prazer, mesmo alegria, de compartilhar a vida com um ser diferente, um ser cujos pensamentos, sentimentos, reações e provavelmente necessidades de sobrevivência são diferentes das nossas. E, de alguma forma, para que todas as espécies nesta ‘banda’ prosperem, temos que aprender a compreender e respeitar estas coisas (Lista de Discussão dos Grandes Pirineus, 14/11/01).

            Considerar o cão como uma criança peluda, mesmo que metaforicamente, rebaixa os cães e as crianças -  e define as crianças para serem mordidas e os cães para serem mortos. Em 2001, Weisser tinha onze cães e cinco gatos na residência. Toda a vida adulta dela, ela tem possuído, criado e exibido cães; e ela criou três crianças humanas e realizou uma plena vida cívica e política como uma sutil feminista de esquerda. Compartilhar a linguagem humana com suas crianças, amigos e camaradas é insubstituível.

            Embora os meus cães possam me amar (eu acho), eu nunca tive uma conversa política interessante com qualquer um deles. Por outro lado, embora as minhas crianças possam falar, eles perderam o verdadeiro sentido ‘animal’ que me permite tocar, ainda que de forma breve, o ‘ser’ de outras espécies tão diferentes da minha com toda a realidade inspiradora que me traz (Lista de Discussão dos Grandes Pirineus, 14/11/01).

            Amar os cães da maneira de Weisser significa não ser incompatível com um relacionamento de animal de estimação; na verdade, as relações com animais de estimação podem e frequentemente criam este tipo de amor. Ser um animal de estimação parece-me ser um trabalho exigente para um cão, exigindo autocontrole, habilidades emocionais e cognitivas caninas combinando com aquelas de bons cães de trabalho. Muitos animais de estimação e seus donos merecem respeito. E mais, a brincadeira entre seres humanos e animais de estimação, assim como simplesmente passar o tempo pacificamente ao sairem juntos, traz alegria para todos os participantes. Certamente este é um significado importante das espécies de companhia. Não obstante, o status de animal de estimação coloca o cão em risco especial nas sociedades como a que vivo – o risco do abandono quando a afeição humana diminui, quando a conveniência das pessoas tem precedência ou quando os cães falham em corresponder a fantasia do amor incondicional.

            Muitos dos donos de cães responsáveis que conheci fazendo a minha pesquisa enfatizaram a importância para os cães de funções que os deixem menos vulneráveis aos caprichos consumistas humanos. Weisser conhece muitos pecuaristas cujos cães de guarda são respeitados pelo trabalho que eles fazem. Alguns são amados e outros não, mas o seu valor não depende de uma economia do afeto. Em particular, o valor dos cães – e a vida – não dependem da percepção humana de que os cães os amam. Ao invés disso, o cães têm que fazer o seu trabalho e, como Weisser diz, o resto é balela.

            Donald McCaig, o astuto escritor sobre os Border Collie e os cães pastores puxadores de trenós, concorda. Os seus romances, Nop’s Hope Nop’s Trial, são uma soberba introdução às potentes relações entre cães pastores de trabalho e seus donos. McCaig observa que cães pastores de trabalho, como uma categoria, caem em “algum lugar entre o ‘guardião’ e o ‘colega de trabalho’” (Lista de Discussão sobre Genética de Cães, 30/11/00).  Uma consequência deste status é que o julgamento do cão pode, alguma vezes, ser melhor do que o dos seres humanos sobre o trabalho. Respeito e confiança e não amor são as demandas críticas de uma boa relação de trabalho entre estes cães e os seres humanos. A vida do cão depende mais das habilidades – e de uma economia rural que não colapse – e menos sobre uma fantasia problemática.

Em seu zelo para evidenciar a necessidade de cruzamento, treino e trabalho para sustentar as preciosas habilidades de pastoreio da raça que ele melhor conhece e mais se preocupa, penso que McCaig algumas vezes desvaloriza e subdescreve tanto os relacionamentos dos cães quanto do esporte de performance na terra dos cães. Também suspeito que suas relações com seus cães podem ser corretamente chamadas de amor se esta palavra não for tão corrompida pela nossa infantilização cultural dos cães e a recusa em honrar a diferença. As naturezaculturas caninas precisam da insistência dele sobre o cão funcional preservado apenas pelas deliberadas práticas relacionadas ao trabalho, incluindo os cruzamentos e empregos economicamente viáveis. Precisamos do conhecimento de Weisser e McCaig do trabalho de um tipo de cão, o todo cão, a especificidade dos cães. Caso contrário, o amor mata, incondicionalmente, tanto os tipos quanto os indivíduos.

Histórias de Treinamento

            A partir das “Notas da Filha de um Escritor de Esportes” :

            Marco, meu afilhado, é o deus criança de Cayenne; ela é o cão deusa dele. Somos um grupo fictício de parentes em treinamento. Talvez o brasão de armas da nossa família levaria o seu lema a partir da literatura, política e revista de artes canina de Berkeley que foi modelada após o Barb; nomeadamente, o Bark, cujo mastro lê “o cão é o meu copiloto”. Quando Cayenne tinha doze semanas de vida e Marco cinco anos, meu marido Rusten e eu demos a ele aulas de formação de filhotes para o Natal. Com Cayenne na sua casinha no carro, gostaria de pegar Marco da escola às terças, dirigir até o Burger King para um jantar saudável de hambúrgueres com base em um planeta sustentável, Coca-Cola e batatas fritas e em seguida dirigir até o Santa Cruz SPCA para nossa lição. Como muitos de sua raça, Cayenne era uma inteligente e disposta jovem, natural para o jogo de obediência. Como muitos de sua geração criados com efeitos especiais visuais em alta velocidade e ciborgues de brinquedo automatizados, Marco era um treinador brilhante e motivado, um natural para jogos de controle.

            Cayenne aprendeu rapidamente as pistas e então ela rapidamente colocou seu bumbum no chão em resposta a um comando de “sente-se”. Além disso, ela praticava em casa comigo. Em transe, Marco primeiro a tratou como se fosse um caminhão com um microchip implantado para o qual ele mantinha o controle remoto. Ele apertou um botão imaginário; sua cachorrinha magicamente cumpriu as intenções de sua vontade onipresente e remota. Deus estava ameaçando se tornar nosso copiloto. Eu, uma adulta obsessiva que alcancei a maioridade nas comunas do final dos anos 1960, estava comprometida com ideais de intersubjetividade e mutualidade em todas as coisas, certamente incluindo o cão e o garoto treinador. A ilusão da atenção e comunicação mútua seria melhor que nada, mas eu realmente queria mais do que aquilo. Além disso, aqui eu era o único adulto presente em qualquer das espécies. A intersubjetividade não significa “igualdade”, um jogo literalmente mortal na terra dos cães; mas isso significa prestar atenção à dança conjunta da outridade significante face a face. Além disso, extremamente controlada que eu sou, eu tenho que chamar a atenção, pelo menos nas noites das terças-feiras.

            Marco estava ao mesmo tempo tendo aulas de karatê e ficou profundamente apaixonado pelo seu mestre. Este homem fino compreendeu o amor do drama, ritual e costume da criança, assim como a disciplina mental-espiritual-corporal de sua arte marcial. “Respeito” era a palavra e o ato que Marco em êxtase me disse sobre suas aulas. Ele desmaiou com a chance de coletar seu pequeno quimono dentro da postura prescrita e como formalmente para seu mestre ou seu parceiro antes de desempenhar uma sequência marcial. Acalmando o seu turbulento self de primeiro grau e encontrando os olhos de seu professor ou seu parceiro em preparação para a ação mais exigente e estilizada que o emocionou. Eu ia deixar uma oportunidade como esta ser desperdiçada em minha busca das florescentes espécies de companhia?

            “Marco”, eu disse, “Cayenne não é um caminhão ciborgue; ela é a sua parceira em uma arte marcial chamada de obediência. Você é o parceiro mais velho e o mestre aqui. Você tem aprendido como demonstrar respeito com o seu corpo e seus olhos. Seu trabalho é ensinar a forma à Cayenne. Até que você possa encontrar uma maneira de ensiná-la como domar o seu galopante self filhote de forma calma e ainda manter e olhar nos seus olhos, você não pode deixá-la desempenhar o comando de  ‘sente-se’.” Não seria suficiente para ela apenas sentar na hora e para ele “clicar e adestrar”. Isto seria necessário, certamente, mas a ordem estava errada. Primeiro, estes dois jovens tinham que aprender a perceber um ao outro. Eles tinham que estar no mesmo jogo. É minha crença que Marco começou a surgir como um treinador de cães ao longo das próximas seis semanas. É também minha crença que conforme ele aprendia a mostrar a ela a postura  corporal de respeito interespécies, ela e ele se tornaram outros significantes entre si.  

            Dois anos depois do lado de fora da janela da cozinha, vislumbrei Marco no quintal fazendo dozes polos com Cayenne quando ninguém mais estava presente. As barras de adestramento são um dos objetos de agilidade mais difíceis de ensinar e de desempenhar. Penso que as barras de adestramento atestam a agilidade e beleza  de Cayenne e Marco eram dignas de seu mestre de karatê. 

Escravidão Positiva

Em 2002 a competidora de agilidade consumada e professora Susan Garret foi autora de um panfleto de treinamento amplamente aclamado intitulado Ruff Love, publicado pela companhia de orientação ao esporte de agilidade canino, Clean Run Productions. Informada pela teoria de aprendizado behaviorista e os métodos populares positivos de treinamento resultantes que se multiplicaram na terra dos cães nos últimos vinte anos, o folheto instrui qualquer dono de cães que quer um relacionamento de treinamento mais próximo e mais responsável com seu cão. Problemas como a não vinda do cão quando chamado ou a agressão inapropriada são certamente em vista; mas, mais, Garrett trabalha para inculcar atitudes informadas pela pesquisa biocomportamental e colocar ferramentas efetivas nas mãos de seus estudantes de agilidade. Ela objetiva mostrar como elaborar um relacionamento de atenção enérgica que seria compensadora para os cães e seres humanos. O entusiasmo não opcional, espontâneo e orientado é para ser a realização do cão anteriormente mais frouxo e distraído. Tenho o forte sentido de que Marco tem sido o sujeito de uma pedagogia similar em sua progressiva escola primária. As regras são simples em princípio e astuciosamente exigentes na prática; a saber, marque o comportamento desejado com um sinal instantâneo e, em seguida, receba uma recompensa entregue dentro da apropriada janela de tempo para a espécie em questão. O mantra do treinamento positivo popular, “clique e trate”, é apenas a ponta de um vasto pós-icebergue do “vigiar e punir”.

Enfaticamente, como a parte de trás do folheto proclama um cartoon de Garrett, positivo não significa permissão. De fato, eu nunca tinha lido um manual sobre treinamento de cães mais comprometido com o controle quase total nos interesses de cumprir as intenções humanas, neste caso, o desempenho máximo em um esporte exigente e competitivo entre duas espécies. Este tipo de desempenho pode apenas vir a partir de um time que está altamente motivado, que não trabalha sob compulsão, mas conhecendo a energia de cada um e confiando na honestidade e coerência de posturas direcionais e movimentos de resposta.

O método de Garret é exigente, filosoficamente e praticamente. O parceiro humano deve definir as coisas de modo que o cão enxergue o bípede desajeitado como a fonte de todas as coisas boas. As oportunidades para que o cão receba recompensas de qualquer outra forma devem ser eliminadas sempre que possível pela duração do programa de treinamento, tipicamente poucos meses. O romântico poderia vacilar em face dos requisitos para manter o cão de alguém em uma caixa ou amarrado a si mesmo por uma trela frouxa. Proibidos ao vira-lata são os prazeres da folia à vontade com outros cães, correndo depois de um esquilo provocador ou subindo no sofá – a menos e até que tais prazeres sejam concedidos para a demonstração de autocontrole e responsividade aos comandos humanos com quase 100% de frequência. O humano deve manter registros detalhados da razão de respostas corretas atuais do cão para cada tarefa, ao invés de dizer contos sobre as alturas do gênio do próprio cão de alguém que certamente deve ter atingido. Um ser humano desonesto está em apuros no mundo do amor baseado no trunfo.

As compensações para o cão são legião. Aonde mais um cão pode contar em várias sessões focadas no treinamento por dia, cada uma projetada para que o cão não cometa erros, mas, em vez disso, seja recompensado pela entrega rápida de doces, brinquedos e liberdades, todas cuidadosamente calibradas para evocar e manter a motivação máxima a partir de um aluno particular e individualmente conhecido? Aonde mais na terra dos cães as práticas de treinamento levariam a um cão que tem aprendido a aprender e que ansiosamente oferece novos “comportamentos” que podem se tornar incorporados dentro dos esportes e rotinas de vida, ao invés de morosamente cumprir (ou não) com compulsões mal compreendidas? Garrett direciona o ser humano a fazer listas cuidadosas do que o cão realmente gosta; e ela instrui as pessoas a como brincar com suas companhias em uma maneira que os cães gostem, ao invés de prendê-los pelos lançamentos mecanicamente humanos de bola. Além de tudo isto, o humano deve realmente gostar de jogar de formas adequadas aos cães ou eles vão ser descobertos. Cada jogo no livro de Garrett pode ser orientado para construir o sucesso de acordo com os objetivos humanos, mas a menos que o jogo envolva o cão, ele é inútil.

Em suma, a maior demanda sobre o humano é precisamente o que muitos de nós nem se quer sabemos que não sabemos como fazer – a saber, como ver quem são os cães e escutar o que eles estão nos dizendo, não na abstração sem derramamento de sangue, mas no relacionamento um a um, na outridade-em-conexão.

Não há espaço para o romantismo sobre o coração selvagem do cão natural ou as ilusões da igualdade social através da classe Mammalia na prática e pedagogia de Garrett, mas existe um amplo espaço para a atenção disciplinada e a honesta realização. A violência psicológica e física não tem parte neste drama de treinamento; tecnologias de gestão comportamental têm um papel berrante. Eu tenho cometido erros de treinamento muito bem intencionados – alguns deles dolorosos para meus cães e alguns deles perigosos para as pessoas e outros cães, para não mencionar sem valor ao ser bem sucedido no esporte de agilidade – para prestar atenção a Garrett. As práticas cientificamente informadas e empiricamente fundamentadas importam; e a teoria do aprendizado não é uma hipocrisia vazia, mesmo se ela ainda for um discurso muito limitado e um instrumento grosseiro. Não obstante, eu sou o bastante de uma crítica cultural para ser incapaz de ainda as loucas ideologias do duro amor na América de alta pressão, orientada ao sucesso e individualista. Os princípios tayloristas do século XX de gestão científica e da ciência da gestão de pessoas da América corporativa têm encontrado uma caixa de segurança em torno do campo do esporte de agilidade pós-moderno.  Eu sou o bastante de uma historiadora da ciência para ser incapaz de ignorar as reivindicações facilmente infladas, historicamente descontextualizadas e excessivamente generalizadas de método e expertise no discurso do treinamento positivo.

E ainda, eu empresto o meu exemplar bastante manuseado do Ruff Love aos amigos e eu mantenho o meu clicker adestrador de cães e o snack de fígado canino no meu bolso. Mais para o ponto, Garrett me faz confessar a capacidade impressionante que donos de cães como eu tem de mentir para si mesmos sobre as fantasias conflitantes que projetamos sobre nossos cães em nosso treinamento inconsistente e avaliações desonestas do que está acontecendo realmente. Sua pedagogia da escravidão positiva torna possível um tipo sério e historicamente específico de liberdade para cães; ou seja, a liberdade para viver de forma segura em ambientes multi-espécies, urbanos e suburbanos com muito pouca contenção física e nenhuma punição corporal quando começa a jogar um esporte exigente com toda a evidência de motivação autorrealizável. Na terra dos cães, estou aprendendo o que os meus colegas professores dizem em seus seminários sobre liberdade e autoridade. Penso que meus cães um pouco como trunfo permanecem amorosos. Marco permanece mais cético.

Beleza Rude

Vicki Hearne – a famosa treinadora de animais de companhia, amante de cães caluniados como os American Staffordshire Terriers e os Airedales e filósofa da linguagem – é, a primeira vista, o oposto de Susan Garret. Hearne, que morreu em 2001, continua a ser um forte espinho na pata dos adeptos dos métodos positivos de treinamento. Para o horror de muitos treinadores profissionais e das pessoas comuns que gostam de cães, incluindo eu mesma, que tenham sido submetidos a uma conversão quase-religiosa a partir dos métodos de treinamento de cães do estilo militar Koehler, não é lembrado com carinho pelas correções como coleiras de junção e puxadas de ouvido, para que  rapidamente fossem entregues bolinhos de fígado para a alegria canina sob o olhar de aprovação de teóricos de aprendizagem behavioristas, Hearne não se desviou do velho caminho e abraçou o novo. O seu desdém pelo treinamento com o clicker de adestramento poderia ser cauterizado, superado apenas pela sua feroz oposição ao discurso dos direitos dos animais. Eu me encolho de dor quando belisco o ouvido de minha cachorra durante minhas práticas de treinamento que acabei de descobrir e nos gloriamos na sua relação alfa das ideologias dos direitos dos animais. A coerência e poder da crítica de Hearne de tanto o clicker dedicado, no entanto, comandam o meu respeito e me alertam para um vínculo de parentesco. Hearne e Garrett são irmãs de sangue sob a pele.

A chave para esta estreita linha de cruzamento é a sua focada atenção ao que os cães estão lhes dizendo, e assim exigindo delas. De encanto surpreendente, essas teóricas assistem os cães, em toda esta complexidade e particularidade situada canina, como a demanda incondicional de sua prática relacional. Não há dúvidas de que os treinadores behavioristas e Hearne têm diferenças importantes sobre os métodos, algumas das quais podiam ser resolvidas pela pesquisa empírica e algumas das quais estão incorporadas no talento pessoal e no carisma inter-espécies ou nos conhecimentos tácitos incomensuráveis de diversas comunidades de prática. Algumas das diferenças também provavelmente residem na teimosia humana e no oportunismo canino. Mas o “método” não é o que mais importa entre as espécies de companhia; a “comunicação” através da diferença irredutível é o que importa. A conexão parcial situada é o que importa; os cães e seres humanos resultantes emergem juntos neste jogo de cama de gato ou jogo do barbante. Respeito é o nome do jogo. Bons treinadores praticam a disciplina da relação das  espécies de companhia sob o sinal da outridade significante.

O livro melhor conhecido de Hearne sobre a comunicação entre os animais de companhia e os seres humanos, Adam’s Task (Random House, 1982), está mal intitulado. O livro é sobre a conversa bidirecional, não sobre o ato de nomear. Adão tinha isso mais fácil em seu trabalho categórico. Ele não precisa se preocupar com a resposta malcriada; e Deus, não um cão, fez dele quem ele era, à Sua própria imagem, não menos. Para tornar as coisas mais difíceis, Hearne tem que se preocupar com a conversa quando a linguagem humana não é o meio, mas não por razões que muitos linguistas ou filósofos da linguagem dariam. Hearne gosta do uso da linguagem comum de treinadores em seu trabalho; este uso acaba por ser importante para compreender o que os cães poderiam estar lhes dizendo, mas não porque os cães são peludos falantes cujo idioma é o humanês. Ela firmemente defende muitos dos chamados antropomorfismos e ninguém mais eloquentemente faz o caso para as práticas linguísticas carregadas de intenção  e de atribuição de consciência dos treinadores de circo, cavaleiros e entusiastas da obediência dos cães. Toda esta linguagem filosoficamente suspeita é necessária para manter os seres humanos alertas para o fato de que alguém está em casa baseando-se nos animais com os quais eles trabalham.

Apenas quem está em casa deve permanentemente estar em questão. O reconhecimento de que não se pode conhecer o outro ou a si mesmo, mas deve perguntar no que diz respeito por todo o tempo quem e o que está emergindo no relacionamento, é a chave. Que é assim para todos os verdadeiros amores, de qualquer espécie. Os teólogos descrevem o poder da “forma negativa de conhecimento” de Deus. Porque “Quem/O Que É” é infinito, um ser finito, sem idolatria, pode apenas especificar o que não é; ou seja, não a projeção do seu próprio self. Outro nome para este tipo de conhecimento “negativo” é amor. Eu acredito que estas considerações teológicas são poderosas para se conhecer os  cães, especialmente para entrar em um relacionamento, como o treinamento, digno do nome de amor.

Acredito que todo relacionamento ético, dentro ou entre espécies, é tricotado a partir do forte fio de seda do alerta permanente da outridade-na-relação. Nós não somos um, e o ser depende em permanecermos juntos. A obrigação é perguntar quem está presente e quem está emergindo. Sabemos a partir de pesquisas recentes que cães, mesmo filhotes criados em canis, são muito melhores do que geralmente os lobos mais brilhantes ou os chimpanzés parecidos com os seres humanos em responder a pistas visuais humanas, indexicais (indicação) e gravadas em um teste para encontrar comida. A sobrevivência dos cães no tempo das espécies ou individualmente de forma regular depende também de seus seres humanos intérpretes. Quisera que estivéssemos tão certos de que a maioria dos seres humanos responde melhor do que aleatoriamente se comparado ao que os cães lhes dizem. Numa frutífera contradição, Hearne pensa que os idiomas que atribuem intenção aos condutores de cães experientes podem evitar o tipo de antropomorfismo literalista que veem seres humanos peludos em corpos de animais e medem o seu valor em escalas de similaridade com os sujeitos  humanistas de direitos dos peludos da filosofia ocidental e teoria política.

A resistência dela ao antropomorfismo literalista e o seu compromisso com a outridade-na-conexão significante alimenta os argumentos de Hearne contra o discurso dos direitos dos animais. Dito de outra forma, ela está apaixonada pela realização interespécies que se tornou possível pela disciplina hierárquica de treinamento do animal de companhia. Hearne encontra a excelência em ação para ser bonita, difícil, especifica e pessoal. Ela é contra as escalas abstratas de comparação das funções mentais ou de consciência que classificam os organismos em uma grande cadeia do ser modernista e atribuem privilégios ou tutela de acordo. Ela é especificidade.

O ultrajante equacionamento da matança de Judeus na Alemanha Nazista, o Holocausto, com os açougues do complexo animal-industrial, que ficou famoso pela personagem Elizabeth Costello no romance The Lives of Animals de J. M. Coetzee ou a equiparação das práticas de escravidão humana com a domesticação dos animais não fazem sentido no quadro de Hearne. As atrocidades, assim como as conquistas preciosas, merecem as suas próprias linguagens convincentes e respostas éticas, incluindo a atribuição de prioridade na prática. A emergência situada de mundos mais habitáveis depende desta sensibilidade diferencial. Hearne está apaixonada pela beleza da coreografia ontológica quando os cães e os seres humanos conversam com habilidade, face a face. Ela está convencida que esta é a coreografia da “felicidade animal”, título de outro de seus livros.

Em seu famoso artigo na revista Harper’s em setembro de 1991 intitulado “Horses, Hounds and Jeffersonian Happiness: What’s Wrong with Animal Rights?” (disponível on-line com um novo prólogo em www.dogtrainingarts.com ), Hearne pergunta o que poderia ser a “felicidade do animal” de companhia. A resposta dela: a capacidade para a satisfação que vem do esforço, do trabalho e do cumprimento da possibilidade. Este tipo de felicidade expõe o que está dentro; ou seja, a partir do que Hearne diz, o que os treinadores de animais chamam de “talento”. Muito do talento dos animais de companhia só pode vir à fruição no trabalho relacional do treinamento. Seguindo Aristóteles, Hearne argumenta que esta felicidade é fundamentalmente sobre um compromisso ético do “fazê-lo direito”, para a satisfação da realização. Um cão e o adestrador descobrem a felicidade juntos no trabalho do treinamento. Este é um exemplo de naturezaculturas emergentes.

Este tipo de felicidade é sobre o anseio por excelência e ter a chance de tentar alcançá-la em termos reconhecíveis para os seres concretos, não para as abstrações categóricas. Nem todos os animais são iguais; a sua especificidade – de tipo ou indivíduo – importa. A especificidade de sua felicidade importa, e isto é algo que tem de ser trazido para a emergência. A tradução de Hearne da felicidade Aristotélica e Jeffersoniana é sobre o florescimento humano-animal como seres mortais siameses. Se o humanismo convencional está morto nos mundos pós-ciborgue e pós-coloniais, o canidade Jeffersoniana pode ainda merecer uma audiência.

Trazendo Thomas Jefferson para o canil, Hearne acredita que a origem dos direitos está no relacionamento comprometido, não em identidades categóricas separadas e pré-existentes. Portanto, no treinamento, os cães obtêm os “direitos” em humanos específicos. No relacionamento, cães e seres humanos constroem “direitos” entre si, tal qual o direito de exigir respeito, atenção e resposta. Hearne descreve o esporte de obediência canina como um lugar para aumentar o poder do cão de reivindicar direitos contra o humano. Aprender a acatar honestamente a um cachorro é a difícil tarefa do proprietário. A sua linguagem permanece implacavelmente política e filosófica, Hearne afirma que ao educar os seus cães ela “emancipa” um relacionamento. A questão acaba por não ser o que são os direitos dos animais, como se eles existissem pré-formados para serem descobertos, mas como um ser humano pode entrar numa relação de direitos com um animal? Tais direitos, enraizados na possessão recíproca, vão ser difíceis de dissolver; e as demandas que eles fazem são de mudança de mundo para todos os parceiros.

Os argumentos de Hearne sobre a felicidade, possessão recíproca e o direito pela busca da felicidade dos animais de companhia estão muito longe da atribuição da “escravidão” ao estado de todos os animais domésticos, incluindo os “animais de estimação”. Ao invés disso, para ela os relacionamentos face a face das espécies de companhia tornam algo novo e possivelmente elegante; e esta coisa nova não é a tutela humana no lugar de propriedade, assim como também não são relações de propriedade como convencionalmente entendidas. Hearne vê não apenas os seres humanos, mas também os cães, como seres com uma capacidade espécie-específica para o entendimento moral e a solene realização. Possessão – propriedade – é sobre a reciprocidade e os direitos de acesso. Se eu tenho um cão, meu cão tem um humano; o que isto significa concretamente está em jogo. Hearne remodela as ideias de Jefferson de propriedade e felicidade mesmo que ela os traga para os mundos de rastreamento, caça, obediência e costumes domésticos.

O ideal de felicidade e direitos dos animais de Hearne está também muito longe do alívio do sofrimento como a principal obrigação humana com os animais. A obrigação humana com os animais de companhia é muito mais exigente do que isto, mesmo tão assustador quanto a crueldade em curso e a indiferença estão também neste domínio. A ética do florescimento descrita pela feminista ambientalista Chris Cuomo está próxima da abordagem de Hearne. Algo importante vem ao mundo na prática relacional do treinamento; todos os participantes são remodelados por ela.  Hearne amou a linguagem sobre a linguagem; ela teria reconhecido o metaplasma por todo o caminho.

Aprendizado de Adestramento

De “Notas da Filha de um Escritor de Esportes”, Outubro, 1999:

            Prezada Vicki Hearne,

            Observando o meu cão Roland da raça Aussi-mix com você escondidos em minha lembrança na última semana me fez lembrar que tais coisas são multidimensionais e situacionais, e descrever o temperamento de um cão leva mais atenção do que eu tive. Vamos para uma praia com áreas específicas para cães e de falésias fechadas quase todos os dias. Existem duas classes principais de cão lá: os cães de caça e meta cães de caça. Roland é um meta cão de caça. Roland vai jogar bola com Rusten e eu de vez em quando (ou a qualquer momento em que estamos praticando algum esporte com um bolinho de fígado ou dois), mas seu coração não está nele. A atividade não é realmente autogratificante para ele e a sua falta de estilo mostra isto. Mas o meta cão de caça é outra questão. Os cães de caça veem quem quer que esteja prestes a atirar uma bola ou um bastão, como se as suas vidas dependessem dos próximos poucos segundos. Os meta cães de caça veem os cães de caça com uma sensibilidade apurada aos sinais direcionais e microssegundos da primavera. Estes meta cães não observam a bola ou o humano; eles observam os substitutos-ruminantes-nas-roupas-do-cão. Roland em meta modo se parece um Collie Aussie-Border escarnecido para uma lição no platonismo. Seus membros anteriores são reduzidos, pernas ligeiramente afastadas com uma em frente à outra num balanço extremamente sensível a qualquer provocação ou estímulo, seus olhos focados, todo o seu corpo pronto para entrar numa ação difícil e dirigida. Quando os cães de caça se desviam do projétil, os meta cães de caça movem-se para fora de seu intenso olhar e para perseguirem o alvo, cura, curva e corte das suas atribuições com alegria e habilidade. Os bons cães de caça meta podem até mesmo manipular mais de um cão de caça por vez. Os bons cães de caça podem se esquivar dos metas e ainda fazer as suas capturas em saltos incríveis de se ver – em surtos nas ondas, se as coisas tem ido para o mar.

            Uma vez que não temos patos, ovelhas ou gados substitutos na praia, os cães de caça têm que fazer o dever para os metas. Alguns donos de cães de caça consideram exceção a esta multitarefa de seus cães (mal posso culpá-los), então para aqueles de nós com metas que tentam distrair os nossos cães de vez em quando com algum jogo que eles inevitavelmente acham muito menos satisfatório. Eu tracei um desenho mental de Larson na quinta-feira observando Roland, um velho e artrítico cão de caça “Old English Sheepdog”, um Aussie amável e tricolor e uma mistura de Collie Border com um cão pastor de laboratório formando um anel, uma pletora da manta de retalhos de Goldens e um ponteiro de jogo que girava em torno de um ser humano que – um individualista liberal na América até o fim -  estava tentando lançar o seu bastão apenas para o seu cão.

Figura 3. Cayenne Pepper pulando através do obstáculo de pneu. Cortesia de Tien Tran Photography.

            Correspondência com Gail Frazier, professor de adestramento, de 6 de maio de 2001:

            Olá Gail,

            Seus pupilos, Roland Dog e eu, obtivemos pontuação para sermos qualificados no Standard Notice deste final de semana na competição USDAA! 

            O nosso jogo intitulado Gamblers do início da manhã no sábado foi uma má aposta. Tivemos um pífio desempenho na Prova de Adestramento, que finalmente aconteceu às 6 e meia da tarde. Em nossa defesa, depois de se levantar às 4h da manhã depois de três horas de sono e estar bem para o treino em Hayward, tivemos a sorte de estar de pé lá, muito menos correndo e saltando. Tanto Roland quanto eu fizemos percursos de salto totalmente separados, não sendo o que o juiz havia prescrito. Mas nossas corridas oficiais no sábado e domingo foram ambos bem legais e um de nós ganhou uma faixa de primeiro lugar. A pata de Roland e meus ombros pareciam nascidos para dançarem juntos.

            Cayenne e eu lideraremos no próximo sábado para a sua primeira prova divertida. Deseje-nos sorte. Existem muitas maneiras de destruir e queimar um percurso, mas até agora todas elas têm sido divertidas ou pelo menos instrutivas. Dissecando nossas respectivas corridas vespertinas de domingo em Hayward, um homem e eu estávamos rindo da arrogância cósmica da cultura estadunidense (neste caso, de nós mesmos), em que nós geralmente acreditamos que os erros tem causas e que nós podemos conhecê-las. Os deuses estão rindo.

A História do Jogo

Em parte inspirado pelos eventos de salto com cavalos, o esporte de adestramento de cães apareceu pela primeira vez no show de cães de Crufts em Londres em fevereiro de 1978, como diversão durante o intervalo após o campeonato de obediência e antes do grupo de julgamento. Também no pedigree do adestramento está o treinamento de cães da polícia, que começou um Londres em 1946 e que usava obstáculos como a estrutura alta e inclinada em formato de “A” que as Forças Armadas já haviam adotado para o seu corpo de cães. As Provas de Trabalhos de Cães, uma exigente competição britânica que incluía barras de salto de três pés de altura, saltos de painel de seis pés de altura e saltos largos de nove pés, acrescentava uma terceira vertente na linhagem de adestramento. Para os jogos de adestramento iniciais, gangorras foram desmontadas de playgrounds infantis; e poços de ventilação de minas de carvão foram colocados na competição como túneis. Os homens – muitos “rapazes que trabalhavam dentro das minas de carvão e queriam um pouco de diversão com seus cães”, nas palavras do treinador de cães inglês e historiador de competições de adestramento John Rogerson -  eram os entusiastas originais para estas atividades. Terrenos para competições e televisão, patrocinados pela Pedigree Pet Foods, assegurou que o gênero e classe humana seria como uma variável no esporte como a linhagem de seus equipamentos.

Imensamente popular na Inglaterra, a competição de adestramento se espalhou ao redor do mundo ainda mais rápido do que o tempo gasto para o adestramento de cães globalmente depois de sua domesticação. A Associação Estadunidense para a Competições de Adestramento de Cães (AECAC) foi fundada em 1986. Até 2000, o esporte de adestramento atraiu milhares de participantes dedicados em centenas de encontros ao redor do país. Tipicamente, um evento de final de semana atrai 300 ou mais cães e treinadores, e muitas equipes treinam mais de uma vez por mês e até semanalmente. A competição de adestramento floresceu em localidades como Europa, Canadá, América Latina, Austrália e Japão. O Brasil ganhou a Copa Mundial Fédération Cynologique Internationale em 2002. O evento da Grand Prix da AECAC é televisionado e seus vídeos são devorados por entusiastas de competições de adestramento por causa das novas acrobacias exibidas pelas equipes dos grandes treinadores e novos circuitos desenvolvidos por juízes desonestos. Os campos de treinamento ficam abertos no decorrer da semana com a participação de centenas de estudantes que trabalham com famosos treinadores-instrutores e são realizados em vários estados.

Evidenciado na lustrosa revista de esporte mensal Clean Run, a competição de adestramento está se tornando cada vez mais exigente tecnicamente. O trajeto é constituído por vinte ou mais obstáculos com saltos, obstáculos altos em forma de “A” com seis pés de altura, doze balizas dispostas em série, gangorras e túneis dispostos em padrões por juízes. Diferentes jogos – coisas chamadas como Snooker, Jogadores, Competição em Duplas e Saltadores com Balizas – envolvem diferentes configurações de obstáculos e regras e exigem diversas estratégias. Os jogadores veem os trajetos pela primeira vez no dia do evento e começam a caminhar através deles por cerca de dez minutos para planejarem suas corridas. Os cães não veem o trajeto até que as provas sejam realmente executadas. Os seres humanos dão sinais com a voz e o corpo; os cães passam pelos obstáculos a uma velocidade na ordem designada. As pontuações dependem do tempo e da precisão. Uma corrida tipicamente leva um minuto ou menos e os eventos são decididos por frações de segundos. O esporte de adestramento depende da rápida contração de músculos, esqueletos e nervos! Dependendo da organização patrocinadora, as competições em dupla (treinador/cão) ocorrem de duas a oito vezes por dia. O reconhecimento dos padrões de obstáculos, o conhecimento dos movimentos, tarefas sobre obstáculos difíceis e a perfeição da coordenação e da comunicação entre o cão e o treinador são importantes para boas corridas.

A competição de adestramento pode ser cara: viagem, acampamento, ingressos e o treinamento facilmente chegam a 2.500 dólares por ano. Para serem boas, as equipes precisam praticar várias vezes por semana e estarem fisicamente aptas. O compromisso de tempo não é trivial para cães ou pessoas. Nos EUA, as mulheres brancas de meia idade e classe média dominam o esporte de forma numérica; os melhores jogadores reconhecidos internacionalmente são mais variados em gênero, cor e idade, mas provavelmente não em classe social. Todos os tipos de cães jogam e vencem, mas raças específicas – Border Collies, Shetland Sheepdogs e Jack Russel Terriers – sobressaem-se em suas categorias de altura para o salto. O esporte é estritamente amador, pessoal e praticado por voluntários e participantes. Ann Leffler e Dair Gillespie, sociólogos em Utah que estudam (e praticam) o esporte, falam sobre o esporte de adestramento em termos de “ocupações apaixonadas” que problematizam a interface entre público/privado e trabalho/lazer. Trabalho para convencer meu pai escritor de esportes de que o esporte de adestramento deve deixar de lado o futebol e assumir o seu legítimo lugar na televisão com o tênis de classe mundial. Além do fato simples e pessoal da alegria no tempo e no trabalho com meus cães, porque eu me importaria? Na verdade, em um mundo cheio de tantas urgentes crises ecológicas e políticas urgentes, como eu posso me importar?

Figura 4: Roland pulando sobre uma barra de salto. Cortesia de Tien Tran Photography.

Amor, compromisso e desejo pela habilidade com o outro não são jogos de soma zero. Atos de amor como o treinamento no sentido de Vicki Hearne cruza atos de amor como se preocupar com e por outros mundos emergentes e concatenados. Este é o núcleo de meu manifesto das espécies de companhia. Eu experimento a competição de adestramento como um bem particular em si mesmo e também como um caminho para se tornar mais mundano; isto é, mais alerta às demandas da outridade significante em todas as escalas que tornam mais exigentes os mundos habitáveis. O demônio aqui, como alhures, está nos detalhes. As ligações estão nos detalhes. Algum dia, escreverei um grande livro chamado, talvez Birth of the Kennel em homenagem a Foucault ou então Notes of a Sports Writer’s Daughter em homenagem a outro de meus progenitores, para argumentar pela miríade de fios conectando cães com os muitos mundos que nós precisamos fazer florescer. Aqui, eu só posso sugerir. Para fazer isto, trabalharei tropicalmente ao apelar a três frases que Gail Frazier, meu professor de competição de adestramento, regularmente utiliza com seus estudantes: “você deixou o seu cão”; “seu cão não confia em você”; “confie em seu cão”.

Estas três frases nos retorna para a história de Marco, a escravidão positiva de Garret e a beleza agreste de Hearne. Um bom treinador de adestramento como eu, pode mostrar a seus estudantes exatamente aonde eles deixaram os seus cães e exatamente quais gestos, ações e atitudes bloqueiam a confiança. É tudo muito literal. Primeiro, os movimentos parecem pequenos, insignificantes; o tempo muito exigente, muito difícil; a consistência muito estrita, o professor muito restrito. Então, cão e humano descobrem, se apenas por um minuto, como chegarem juntos, como se moverem com pura alegria e habilidade ao longo de um trajeto difícil, como se comunicarem, como serem honestos. O objetivo é o paradoxo da espontaneidade disciplinada. Tanto o cão quanto o treinador têm que ser capazes de tomarem a iniciativa e responderem de forma obediente ao outro. A tarefa é se tornar coerente o suficiente em um mundo incoerente para se envolver em uma dança conjunta do ser que cruza o respeito e a resposta na carne, na corrida, sobre o trajeto. E então se lembrar como viver desta forma em cada escala, com todos os parceiros.

Histórias das Raças

Até agora este manifesto tem evidenciado dois tipos de escalas espaço-tempo co-constituídos por humanos, animais e agências inanimadas: 1) o tempo evolutivo ao nível do planeta Terra e suas espécies naturezaculturais e 2) o tempo face a face na escala dos corpos mortais e tempos de vida individuais. As histórias evolutivas tentam acalmar os meus medos políticos pessoais de reducionismo biológico e, com meu colega nos estudos da ciência, Bruno Latour, despertam a atenção nos empreendimentos muito mais animados das naturezaculturas. As histórias de amor e treinamento tentam honrar o mundo em seus detalhes irredutíveis e pessoais. A cada repetição, o meu manifesto trabalha fractalmente, re-inscrevendo formas similares de atenção, escuta e respeito.

            É hora de emitir sons em outra escala, nomeadamente, o tempo histórico sobre a escala de décadas, séculos, populações, regiões e nações. Aqui, peço emprestado do trabalho de Katie King sobre o feminismo e as tecnologias escritas, no qual ela pergunta como reconhecer as formas emergentes de consciência, incluindo métodos de análise, implicados em processos de globalização. Ela escreve sobre agências distribuídas, “camadas locais e globais” e futuros políticos ainda a serem realizados. Donos de cães precisam aprender como herdar histórias difíceis a fim de moldar futuros multi-espécies mais vitais. A atenção à complexidade em camadas e distribuída me ajuda a evitar tanto o determinismo pessimista quanto o idealismo romântico. A terra dos cães acaba por ser construída a partir de camadas locais e globais.

Preciso da antropóloga feminista Anna Tsing para pensar sobre o fazer da escala na terra dos cães. Ela questiona o que começa a contar como o “global” na ciranda financeira transnacional e na balança comercial na Indonésia contemporânea. Ela não viu entidades já pré-existentes nas formas e escalas das fronteiras, centros, locais ou globais, mas em vez disso “o fazer da escala” dos tipos de construções de mundo, em que reabrir o que parecia fechado permanece possível.

Finalmente, eu traduzo – literalmente, mais sobre terra dos cães – o entendimento de Neferti Tadiar da experiência como o trabalho histórico vivente, através do qual os sujeitos podem ser estruturalmente situados em sistemas de poder sem reduzi-los à matéria-prima para os Grandes Atores como o Capitalismo e Imperialismo. Ela pode me perdoar por incluir os cães entre aqueles sujeitos, e ela me daria a díade homem-cão ao menos provisoriamente. Vamos ver se ao contar histórias de dois tipos divergentes de cães – cães guardiães de gado (CGG) e pastores – e das raças institucionalizadas emergentes a partir daqueles tipos – Grandes Pirineus e Cães Pastores Alemães – assim como de cães de nenhuma raça ou tipo específico, pode ajudar a moldar uma eficaz consciência mundana em solidariedade com os meus camaradas feministas, antirracistas, queer e socialistas; ou seja, com a comunidade imaginada que só pode ser conhecida através do modo negativo de nomear, como todas as esperanças finais.

Nesse modo negativo, eu conto histórias negativas sem hesitar. Existe uma miríade de histórias de origem e comportamento sobre raças e tipos de cães, mas nem todas as narrativas nascem iguais. Meus mentores na terra dos cães me ensinaram as suas histórias das raças, que eu acho que honram tanto a lei quanto o documentário científico, a evidência oral, a experimental e a experiencial. As histórias seguintes são composições disso, interpelando-me em suas estruturas, mostram alguma coisa importante sobre as espécies companheiras vivendo nas naturezaculturas.

Grandes Pirineus

Os cães de guarda associados com os povos pastores de ovelhas ou cabras voltam milhares de anos e cobrem enormes extensões da África, Europa e Ásia. As migrações locais e de longo percurso de milhões de herbívoros, pastores, cães, de mercados e de pastagens de inverno e verão – a partir das montanhas Atlas do norte da África, cruzando Portugal e a Espanha, ao longo das montanhas Pirineus, através do sul da Europa, através da Turquia, pela Europa Ocidental, através da Eurásia e do Tibet e pelo deserto de Gobi, na China – têm literalmente esculpido profundas faixas de solo e rocha. Em seu importante livro, Dogs (Scribner, 2001), Raymond e Lorna Coppinger comparam estas faixas com a escultura das geleiras. Cães de guarda de gados regionais se desenvolveram em tipos distintos tanto na aparência quanto na atitude, mas a comunicação sexual sempre ligou populações adjacentes ou viajantes. Os cães que se desenvolveram em temperaturas mais frias, mais ao norte, são maiores do que aqueles que se desenvolveram nas ecologias mediterrâneas ou de deserto. Os espanhóis, ingleses e outros europeus trouxeram os seus cães guardiões de gado e do tipo de cães pastores de menor porte para as Américas naquela maciça troca de genes conhecida como a conquista. Tais populações interconectantes, mas muito longe de aleatoriamente misturadas, são os sonhos e pesadelos dos biólogos evolutivos e de genética de populações, dependendo daquela coisa dificultosa chamada história.

Os clubes de canis de cruzamento da segunda metade do século XIX intitulados CGGs (Cães Guardiões de Gado) com livros genealógicos inexplorados, derivados de uma variedade de indivíduos pesquisados a partir de tipos regionais, tais como o Cão Guardião de Gado Pirineu na área basca da Espanha, os Grandes Pirineus nas regiões bascas da França e Espanha, a Maremma na Itália, os Kuvasz na Hungria, e os Cães Pastores Anatolianos na Turquia. As controvérsias sobre a saúde genética e o significado funcional destas “ilhas” populacionais próximas chamadas de raças violentas na terra dos cães. Um clube de cruzamento é parcialmente análogo a uma associação de gestão de espécies ameaçadas de extinção, para o qual os gargalos populacionais e as interrupções dos sistemas de seleção natural e artificial genéticos passados exigem uma ação sustentada e organizada.

Tradicionalmente, os CGGs protegem os rebanhos de ursos, lobos, ladrões e cães estranhos. Os CGGs muitas vezes trabalham com cães pastores nos mesmos rebanhos, mas o trabalho dos cães é diferente e as suas interações limitadas. Regionalmente distintos, cães de pastoreio pequenos estavam por toda parte, incluindo hordas do tipo Collie sobre as quais vamos ouvir mais quando eu voltar ao assunto sobre os Cães Pastores Australianos. Pastores-camponeses em toda a enorme massa de terra e o intervalo de tempo das economias de pastoreio aplicaram eficazes padrões funcionais para os seus cães que afetaram diretamente a sobrevivência, as oportunidades de cruzamento e o tipo de miscigenação. As condições ecológicas também moldaram os cães e as ovelhas independentemente das intenções humanas. Entretanto, os cães empregando diferentes critérios, certamente exercitaram as suas próprias inclinações sexuais com seus vizinhos quando eles tiveram a chance.

            Os cães de guarda não arrebanham ovelhas; eles as protegem de predadores, principalmente ao patrulhar as fronteiras latindo incessantemente para avisar sobre estranhos. Eles atacarão e mesmo matarão intrusos que insistirem, mas a sua capacidade de calibrar sua agressividade ao nível de ameaçar é lendária. Eles também aperfeiçoaram um repertório de latidos distintos para tipos e níveis de alerta. Cães de guarda de rebanhos tendem a ter baixo impulso de predação; e poucos de seus filhotes brincam de jogos que envolvem perseguição, esconde-esconde, liderança e mordidas. Se eles começam a brincar  desta forma com rebanhos ou entre si, o pastor os dissuade. Aqueles que não dissuadem não ficam no pool gênico do CGG. Os CGGs trabalhadores mostram as cordas para os jovens, sem que, um ser humano estudioso deva ajudar um filhote solitário ou um cão mais velho a aprender a ser um bom guardião – ou, inversamente, de forma ignorante se define o neófito pelo fracasso.

            Os cães guardiões de rebanhos tendem a ser péssimos cães de caça e as suas predileções biossociais e educação conspiram para ensurdecer a maioria dos cantos de sirena da mais alta competição de obediência. Mas eles são capazes de impressionantes tomadas independentes de decisão em uma complexa ecologia histórica. As histórias sobre os CGGs ajudando ovelhas a dar à luz e lambendo o cordeiro recém-nascido para limpá-lo, dramatiza a capacidade de ligação dos cães com suas responsabilidades. Um cão de guarda de rebanhos, como um Grande Pirineu, pode passar o dia descansando entre as ovelhas e à noite vigiar e alertar eficazmente sobre algum problema.

            Os CGGs e os pastores tendem a aprender coisas com facilidade ou dificuldade diferencial. Nenhum tipo de cão pode realmente ser ensinado de suas funções principais e muito menos o trabalho de outro cão. O comportamento e as atitudes funcionais dos cães podem e devem ser direcionados e incentivados – treinados, neste sentido – mas um cão com pouca motivação em perseguir e recolher, além de não possuir nenhum interesse profundo em trabalhar com um ser humano, não pode ser evidenciado como um hábil cão de guarda. Pastores têm forte instinto de predação desde filhotes. Coreografados com pastores humanos e seus herbívoros, componentes controlados deste padrão de predação, menos matar e dissecar as partes, são precisamente o que é o pastoreio. Similarmente, um cão com pouca paixão por território, suspeita anêmica de intrusos e prazer obscuro no vínculo social não pode ser mostrado a partir do corte como pensar bem sobre estas coisas, mesmo com o maior clicker de adestramento do mundo.

Figura 5. Mary Crane em Julho de 1967, no Great Pyrenees Club of America National Specialty Show, em Santa Barbara, Califórnia. O cão próximo a senhora Crane é Armand (Clube Los Pyrtos Armand of Pyr Oaks), que venceu a competição cão naquele dia. Próximo a ele estão as suas duas irmãs, Impy, que foi a cadela Reserve Winners, e Drifty, que ganhou o título Best of Opposite Sex. Linda Weisser é a jovem mulher com Drifty, que morreu sem descendentes. O “cão do meu coração” de Weisser, Impy tem descendentes em quase todos os canis da costa ocidental estadunidense. Através de um filho, Armand está atrás do armazém do rancho de trabalho de Catherine de la Cruz. Foto por cortesia de L. Weisser e C. de la Cruz.

            Guardando rebanhos na Europa desde pelos menos os tempos romanos, os grandes e brancos cães de guarda apareceram nos registros da França ao longo dos séculos. Em 1885-86, os cães Pirineus de Montanha foram registrados pelo Kennel Club, em Londres. Em 1909, os primeiros Pirineus foram trazidos para a Inglaterra para cruzamento. Em sua monumental enciclopédia Les races des chiens de 1897, Conte Henri de Bylandt dedicou várias páginas para descrever os cães de guarda Pirineus. Formando clubes rivais em Lourdes e Argeles, em 1907, dois grupos de criadores franceses compraram cães da montanha que eles consideravam dignos e de “raça pura”. Somados à idealização romântica dos pastores-camponeses e seus animais característicos da modernização capitalista e da formação de classes que tornam estes modos de vida quase impossíveis, os discursos sobre o puro sangue e a nobreza assombram os cruzamentos modernos como os mortos-vivos.

            A Primeira Guerra Mundial destruiu tanto os clubes franceses quanto muitos dos cães. Os cães de guarda de trabalho nas montanhas foram devastados pela guerra e depressão, mas eles já haviam perdido a maioria de seus empregos na virada do século XIX devido à extinção dos ursos e lobos. Os Pirineus se tornaram mais propensos a sair como cães de rua e serem vendidos aos turistas e colecionadores do que colocados para trabalhar como guardiões de rebanho. Em 1927, o diplomata, juiz de competições, criador de cães para cruzamento e nativo dos Pyrenees, Bernard Senac-Lagrange juntou os poucos criadores remanescentes para se encontrar na Réunion des Amateurs de Chiens Pyreneans e escrever a descrição que permanece como o fundamento para os padrões atuais.

            Nos anos 1930, um grande arrebatamento de cães foi realizado por duas mulheres ricas, Mary Crane de Massachusetts (Basquaerie Kennels) e madame Jeanne Harper Trois Fontaine, nascida na Bélgica, mas casada na Inglaterra (de Fontenay Kennel), trouxeram muitos cães da França. O American Kennel Club reconheceu os Grandes Pirineus em 1933. A Segunda Guerra Mundial deu mais um impulso para exterminar o restante dos CGGs nos Pirineus e dizimou a maior parte dos canis registrados na França e do norte da Europa. Questionados sobre quão intimamente relacionados eles eram e qual foi a descendência deixada, os historiadores dos Pirineus tentaram descobrir quantos cães Mary Crane, madame Harper e alguns outros compraram, tanto de moradores quanto de criadores. Somente trinta cães, muitos relacionados entre si, contribuíram em qualquer forma contínua para o pool gênico dos Pirineus nos EUA. No final da Segunda Guerra Mundial, as únicas populações consideráveis de Pirineus no mundo estavam no Reino Unido e nos EUA, embora a raça mais tarde tenha se recuperado na França e no norte da Europa, com alguns intercâmbios entre os criadores de cães para cruzamento dos EUA e europeus. A perpetuação da raça foi em grande parte devida a entusiastas apaixonados de competições e criadores de cães para cruzamento. De 1931 quando Mary Crane começou a colecionar até os anos 1970, muito poucos Pirineus estadunidenses trabalharam como cães de guarda de rebanhos.

            Isso mudou com as emergentes abordagens para o controle de predadores nos EUA ocidental no início dos anos 1970. Cães soltos matavam muitas ovelhas. Os coiotes também matavam o rebanho; e eles foram ferozmente envenenados em massa, presos e alvejados por fazendeiros. Catherine de la Cruz – que teve a sua primeira cadela Pireneu, Belle, em 1967 e foi orientada em Grande Pirineus por Ruth Rhoades, a “madre superiora” na raça na Califórnia que também ensinou Linda Weisser – vivia numa fazenda leiteira no condado de Sonoma. Esta cena de classe média da costa oeste marca importantes diferenças na cultura e futuro da raça Pirineu.

            Em 1972, um cientista da Universidade da Califórnia telefonou para a mãe de la Cruz para conversar sobre as perdas de predadores. A universidade de pesquisa em agronegócios e o Departamento de Agricultura dos EUA começaram a levar a sério métodos não tóxicos para o controle de predadores. Ativistas ambientais e pelos direitos dos animais fizeram suas vozes serem ouvidas na consciência pública e na política nacional, incluindo as restrições federais sobre o uso de venenos para matar predadores. A Belle de la Cruz saiu com as vacas leiteiras entre as competições de cães; aquele rancho nunca teve qualquer problema com predadores. De la Cruz relata que “a luz se acendeu em sua cabeça”. O Great Pyrenees Standard descreve os cães guardando rebanhos de ursos e lobos, embora esta fosse mais a narrativa simbólica de entusiastas de campeonatos do que as descrições que qualquer um deles tinha visto. Independentemente do que esta postura possa representar, o padrão escrito em uma raça institucionalizada é sobre o tipo ideal e a narrativa de origem. Em sua própria história de origem, de la Cruz conta que ela começou a pensar que os Pirineus que ela conhecia podiam ser capazes de guardar ovelhas e vacas de cães e coiotes.

            De la Cruz deu alguns filhotes para os criadores de ovelha do norte da Califórnia que ela conhecia. A partir dessa região, ela e poucos outros criadores de cães para cruzamento, incluindo Weisser, colocaram os cães (incluindo alguns adultos) em ranchos e tentaram descobrir como ajudar os cães a se tornarem efetivos Cães de Controle de Predadores, como eram então chamados. A fazenda de gado leiteiro foi convertida num racho de ovelhas e de la Cruz se tornou parte da associação de produtores de lã. No final da década de 1970, ela conheceu Margaret Hoffman, uma mulher participativa no grupo dos produtores de lã que queria cães para repelir os coiotes. Hoffman obteve um carro-trenó de la Cruz, cruzou mais cães, e colocou 100% deles em postos de trabalho. Em uma entrevista concedida a mim em Novembro de 2002, de la Cruz falou sobre “fazer todo erro possível”, experimentando com a socialização e o cuidado com cães trabalhadores, permanecendo em  contato próximo com os fazendeiros e cooperando com Davis – Universidade da Califórnia e as pessoas do Departamento de Agricultura na pesquisa e localização.

            Nos anos 1980, Linda Weisser e Evelyn Stuart, parte do Great Pyrenees Club of America  organizaram uma comissão para revisar o padrão, tendo a certeza que os cães funcionais e trabalhadores foram destaque. Por volta dos anos 1980, de la Cruz, ainda mostrando cães em adaptação, estava colocando os Pirineus a trabalho em todo o país. Poucos cães vieram das pastagens, tinham os seus banhos, ganharam campeonatos, e foram diretos de volta para o trabalho. O “cão de dupla finalidade” se tornou um ideal moral e prático no cruzamento de Pirineus e no adestramento da raça. A orientação para atingir este ideal envolve todos os tipos de práticas de trabalho – e trabalho intensivo – incluindo a gestão de alta qualidade de listas de internet como a Livestock Guardian Dog Discussion List e o diretório da seção de tópicos da Great Pyrenees Discussion List. Especialistas leigos, trabalho voluntário e comunidades colaboradoras de prática são cruciais. Não menos, cada Pirineu adestrado nos EUA vem de um petshop e de uma competição que é prova histórica de mais de quatro décadas. As espécies de companhia e as naturezaculturas emergentes aparecem em toda a parte que olho.

            Começando na metade dos anos 1970, primeiro Jeffrey Green e então também Roger Woodruff da US Sheep Experiment Station do Departamento de Agricultura dos EUA (DAEUA) em Dubois, Idaho, são atores-chave nesta história. Seu primeiro cão de guarda foi um Komondor (Hungria) e ele então trabalhou com Akbasg (Turquia) e os Pirineus. Os meus informantes de Pirineus discutem sobre estes homens com enorme respeito. Fazendeiros estimulam os cães de guarda, os homens do DAEUA solicitaram a ajuda dos criadores de cães para cruzamento e os trataram como colegas. Por exemplo, Woodruff e Green deram um seminário especial sobre os CGGs no Great Pyrenees Club of America National Specialty em Sacramento, em 1984. Outra parte da história da reemergência dos CGGs em atuação na América do Norte foi no início dos anos 1980 no estudo de Hal Black das práticas de ordenamento de ovelhas pelos Navajo com cães mestiços para coletar experiências para outros fazendeiros.

            A reeducação dos fazendeiros era uma parte importante do projeto do DAEUA, e os criadores de Pirineus se envolveram energeticamente neste processo. Mergulhados nas ideologias de modernização das universidades de base científica e de concessão de terras e no agronegócio, os fazendeiros tendiam a ver os cães como à moda antiga e os venenos comerciais como progressivos e lucrativos. Os cães não são uma solução rápida; eles exigem práticas laborais transformadas e investimentos de tempo e dinheiro. Convencer fazendeiros para efetuarem mudanças tem sido moderadamente bem sucedido.

            Em 1987 e 1988, o projeto do DAEUA comprou cerca de 100 filhotes de cães de guarda ao redor dos EUA, muitos deles Pirineus. Os cientistas do DAEUA concordaram com a insistência sobre a esterilização e castração dos cães das pessoas do clube de cruzamento colocada através do projeto, que manteve, pelo menos, aqueles cães fora da produção industrial de filhotes e outras práticas de cruzamento que as pessoas do clube acreditavam perigosas para o bem estar e à saúde genética dos cães. Para reduzir o risco de displasia do quadril de cães trabalhadores, todos os progenitores dos filhotes tiveram os seus quadris radiografados. Por volta do final dos anos 1980, as pesquisas indicavam que cerca de 80% dos fazendeiros encontraram seus cães de guarda – especialmente os seus Great Pyrenees – como sendo um ativo econômico. Em 2002, alguns milhares de CGGs estiveram encarregados da proteção de ovelhas, lhamas, gados, cabras e avestruzes através dos EUA.

Raymond e Lorna Coppinger e seus associados no New England Farm Center, em Hampshire College, começaram com os cães Pastores Anatolianos trazidos da Turquia no final dos anos 1970, também fizeram pesquisa e colocaram centenas de CGGs nas fazendas e ranchos estadunidenses. Raymond Coppinger tem um PhD na tradição do legado etológico de Niko Tinbergen, da Universidade de Oxford e o Coppingers também tinham uma história importante em corrida de cães de trenó. Os Coppingers sempre estiveram mais aos olhos do público e melhor conhecidos pelos cientistas, com exceção daqueles diretamente envolvidos no trabalho CGG, que os criadores leigos a quem eu enfatizo em minha história. Os Coppingers discordam em muitos pontos da perspectiva dos cães de guarda mantidos pelos meus criadores de Pirineus. O projeto do Hampshire College não esteriliza os cães que eles criam. Acreditar que o ambiente social durante a maturação era a única variável crucial na formação de um efetivo guardião de rebanhos, eles geralmente não levavam à sério as distinções de raça. O projeto de Hampshire colocou jovens filhotes, ensinou uma visão diferente de desenvolvimento biossocial e preferências genético comportamentais e lidou com a tutoria de pessoas e cães de forma diferente.

A maioria dos donos de Pirineus não cooperaram com os Coppingers e animosidades começaram desde o início. Efetivamente, os Coppingers tinham pouco acesso aos Grandes Pirineus, onde a ética do clube de cruzamento era forte. Eu não posso avaliar as diferenças aqui e o leitor pode encontrar os pontos de vista dos Coppingers em Dogs. No entanto, neste livro, não existe menção aos criadores de Pirineus, incluindo o fato de que eles colocaram os cães de guarda de rebanhos e estiveram em cooperação com Jeff Green e Roger Woodruff desde o início. Os leitores também não vão aprender como eles podiam na publicação de 1990 do DAEUA, que na pesquisa de 1986 com 400 pessoas, envolvendo 763 cães, conduzida pela Universidade de Idaho, os Grandes Pirineus perfaziam 57% da população. Pirineus e Komodors, outra raça cujos donos não contribuíram com o Projeto Hampshire, representaram 75% dos CGGs no estudo. Este estudo e outros mostraram que os Pirineus tendem a ter as notas mais altas em qualquer cruzamento para o sucesso do trabalho. Isto inclui morder poucas pessoas e ferir menos rebanhos. Em um estudo de cães com um ano de idade envolvendo 59 Pirineus e 26 Cães Pastores Anatolinos, 83% dos Pirineus tiveram uma pontuação de “bom” comparado a 26% dos Anatolianos.

A introdução das economias de camponeses-pastores em expansão, dos cães da montanha Pirineus Bascos, que foram alimentados no anseio de cães de raça pura para os ranchos do oeste americano para proteger o gado e as ovelhas xenobiológicos dos fazendeiros Anglos sobre o habitat das pastagens (onde poucas gramíneas nativas sobrevivem) do búfalo uma vez que caçados pelos índios das planícies montados em cavalos espanhóis – juntamente com o estudo das culturas de pastores de ovelhas da reserva Navajo contemporânea derivada da conquista e catequização espanholas – devem oferecer ironia histórica suficiente para o manifesto das espécies de companhia. Mas há mais: dois esforços para trazer de volta espécies de predadores extintos reabilitados a partir do status de vermes para vida selvagem natural e atração turística, um nas montanhas Pirineus e outro nos parques nacionais do oeste americano, nos levará ainda mais para a internet.

Endangered Species Act nos EUA deu ao Departamento do Interior a jurisdição sobre a reintrodução do lobo cinza em regiões de sua linhagem anterior, tais como o Parque Nacional Yellowstone, onde quatorze lobos canadenses foram introduzidos em 1995 em meio às maiores populações de alces e búfalos do país. A migração de lobos canadenses começou a aparecer em Montana por sua própria vontade. Em 1995-96, mais de cinquenta e dois lobos foram introduzidos em Idaho e Wyoming. Cerca de 700 lobos vivem no norte das Montanhas Rocky em 2002. Em geral, os fazendeiros permanecem irreconciliáveis, mesmo que obtenham uma indenização monetária integral pelas perdas do estoque e os lobos que matam o rebanho serem removidos ou mortos pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem do Departamento do Interior. De acordo com o repórter do New York Times, Jim Robbins, de 17 de Dezembro de 2002 (pág. D3), 20 %  dos lobos gerenciados de perto usam colares de monitoramento eletrônico. O número de coiotes está baixando; os lobos os matam. O número de alces está baixo. Isto faz os caçadores infelizes, mas agrada os ecologistas preocupados com os danos causados por herbívoros privados de seus predadores. Os turistas – e os estabelecimentos comerciais que os servem – estão muito felizes. Mais de 100.000 turistas avistadores de lobos foram registrados em safaris de carro no Vale Lamar, em Wyoming. Nenhum turista foi morto, mas os números nacionais em 2002 mostraram que 200 integrantes de rebanhos de gado, 500 ovelhas, 7 lhamas, 1 cavalo e 43 cães foram mortos. De quem eram aqueles 43 cães?

Alguns deles eram Grandes Pirineus mal preparados. O Departamento do Interior colocou lobos no Parque Nacional Yellowstone contra os desejos dos fazendeiros; sem coordenação com o Departamento de Agricultura dos criadores de CGGs, em Idaho; e, sem, suspeito, mesmo com imagens de conhecidos criadores de cães da raça Pirineu, que são também mulheres brancas de classe média que mostram seus lindos cães em adaptação. Os departamentos do Interior e da Agricultura são mundos à parte na cultura da tecnociência. Os lobos espalhados pelas fronteiras do parque. Lobos, rebanhos e cães foram todos mortos, talvez desnecessariamente. Os funcionários da vida selvagem mataram cerca de 125 lobos errantes; os fazendeiros tem ilegalmente alvejado pelo menos dezenas deles. Conservacionistas da vida selvagem, turistas, fazendeiros, burocratas e comunidades têm se polarizado, talvez desnecessariamente. Melhores relações de espécies companheiras precisam ser formadas ao redor, desde o início, entre os seres humanos e os não-humanos.

Os cães são sociais e territorialistas; lobos são sociais e territorialistas. Os CGGs experimentais em grupos estabelecidos grandes o suficiente são capazes de deter os lobos cinzentos do norte que comem gado. Mas trazendo os Pirineus à cena depois que os lobos se estabeleceram ou usar muito poucos ou inexperientes cães são receitas certas para o desastre tanto para as espécies caninas quanto para a vida selvagem e a ética na pecuária tecidas em conjunto. O grupo Defensores da Vida Selvagem tem comprado os Pirineus para os fazendeiros que tiveram perdas em seus rebanhos com os lobos; os lobos parecem ativamente atraídos e matam os cães como concorrentes invasores em seu habitat. As práticas que podem ter levado os lobos a respeitarem cães organizados não estavam em atividade; pode ser tarde demais para os CGGs serem atores efetivos nas florescentes alianças dos lobos e fazendeiros conservacionistas. Talvez os lobos controlem os coiotes enquanto os Pirineus são protegidos em abrigos durante a noite.

Entretanto, a ecologia da restauração tem seus sabores europeus. Nos Pirineus, o governo francês tem introduzido Ursos Marrons Europeus da Eslováquia, onde a indústria turística pós-comunista faz uma boa soma promovendo o avistamento de ursos, para preencher o nicho vazio deixado pela matança dos ursos residentes locais. Criadores franceses de Pirineus, tais como o criador de cabras e proprietário de canil Benoit Cockenpot of du Pic de Viscos, trabalha para obter os cães de volta nas montanhas dizendo que os ursos eslovacos têm a ordem pós-moderna apropriada das coisas. Os criadores de Pirineus franceses estão aprendendo sobre como lidar com Pirineus a partir de seus colegas estadunidenses. O governo francês oferece aos fazendeiros um cão de guarda gratuito. Mas o seguro reembolsa os agricultores pela perda de animais causada por predadores, e isto está se tornando mais atraente do que o cuidado diário com os cães. Os cães de guarda têm um período de aprendizado longo levando-se em consideração o aparato atuarial que repele os ursos.

Longe da conservação multi-espécie e da política agrícola, os Pirineus nunca pararam com a sua destreza como cães de competição e animais de estimação. No entanto, a expansão numérica da raça tanto como trabalhadores quanto animais de estimação significou fuga considerável do controle do clube de cruzamento, muito menos o controle de uma economia pastoral-camponesa viável, nos infernos e limbos da produção comercial de filhotes e a criação caseira. Indiferença à saúde; ignorância de comportamento, socialização e treinamento; e condições cruéis são também frequentes. Dentro dos clubes de cruzamento, a controvérsia reina sobre o que constitui a reprodução responsável, especialmente quando os temas difíceis de digerir da diversidade genética e genética de populações nas raças puras de cães estão no cardápio. O uso excessivo de cães reprodutores populares, faz sigilo sobre os problemas dos cães, e o desejo pelos campeonatos de adestramento às custas de outros valores são práticas conhecidas para cães em perigo. Muitas pessoas ainda fazem isto. O amor dos cães proíbe isto e eu tenho encontrado muitos destes amantes em minha pesquisa. Estas são pessoas que jogam sujo e são conhecedoras de todos os mundos nos quais vivem os seus cães – em fazendas, laboratórios, campeonatos, lares e em outros lugares. Eu quero que o seu amor floresça; essa é uma razão pelo qual escrevo.

Pastores Australianos

A raça de pastoreio conhecida nos EUA como Pastores Australianos, ou Aussies, levanta tantas complexidades quanto os Grandes Pirineus; vou esboçar apenas algumas. A minha questão é simples: Conhecer e viver com estes cães significa herdar todas as condições de sua possibilidade, tudo o que faz para que o ato de se relacionar com estes seres seja real, todas as preensões que constituem as espécies companheiras. Amar significa ser mundano, estar em conexão com a outridade significante e os outros significantes, em muitas escalas, em camadas de locais e globais, em teias ramificadas. Eu quero saber como viver com as histórias que eu venho a conhecer.

Figura 7. O Dogon Grit de Beret vencendo o High in Sheep em 2002 no Australian Shepberd Club of America National Stock Dog Finals em Bakersfield, Califórnia. Cortesia de Glo Photo e Gayle Oxford.

            Se algo é certo sobre as origens dos Pastores Australianos é que ninguém sabe como o seu nome surgiu e ninguém conhece todos os tipos de cães vinculados à ancestralidade destes pastores talentosos. Talvez, o mais certo de tudo é que os cães deveriam ser chamados de Cães de Rancho do Oeste dos Estados Unidos. Não “Americanos”, mas “Estados Unidos”. Deixe-me explicar porque isto importa, especialmente desde que muitos (mas longe de tudo) dos ancestrais eram provavelmente variedades dos tipos Collie que imigraram com seus donos a partir das Ilhas Britânicas para a costa leste da América do Norte a partir do início dos tempos coloniais. A Corrida do Ouro na Califórnia e as consequências da Guerra Civil são as chaves para a minha história nacional regional. Estes eventos épicos fizeram o oeste americano parte dos Estados Unidos. Eu não quero herdar estas histórias violentas, conforme Cayenne, Roland e eu levamos nossos cursos sobre o esporte de adestramento e conduzimos nossos assuntos de oralidade; é por isto que eu tenho que contar a eles. As espécies companheiras não podem oferecer amnésia evolutiva, pessoal ou histórica. A amnésia corromperia o signo, a carne e amor mesquinhamente. Se eu conto a história da Corrida do Ouro e da Guerra Civil, então, talvez eu pudesse lembrar as outras histórias sobre cães e seus donos – histórias sobre imigração, mundos indígenas, trabalho, esperança, amor, jogo e a possibilidade de co-habitação através de reconsiderar a soberania e as naturezaculturas ecológicas em desenvolvimento.

            As histórias de origens românticas sobre os Aussies têm pastores Bascos do final do século XIX e o início do século XX trazendo seus pequenos cães Melros azuis com eles na terceira classe conforme eles migravam, através da estada na Austrália conduzindo as ovelhas Merino da Espanha para os ranchos da Califórnia e Nevada para cuidar das ovelhas de um oeste pastoral intemporal. “Na terceira classe” dá-se o jogo como perdido; homens da classe trabalhadora na terceira classe não estavam em condições para trazerem os seus cães para a Austrália ou para a Califórnia. Além disso, os Bascos que imigraram da Austrália não se tornaram pastores, mas trabalhadores das plantações de cana de açúcar; e não desceram até o século XX. Não necessariamente pastores antes, os Bascos vieram para a Califórnia, algumas vezes via América do Sul e México, no século XIX com milhões de pessoas cobiçadas pelo ouro e que acabaram ordenhando ovelhas para alimentar outros mineiros decepcionados. Os Bascos também estabeleceram grandes restaurantes especializados em pratos de cordeiro, em Nevada que se tornou o polo central do sistema de estradas interestaduais depois da II Guerra Mundial. Os Bascos obtinham os seus cães de ovelha a partir de cães de pastoreio trabalhadores locais, que eram um lote misto, para se dizer o mínimo.

            Os missionários espanhóis favoreceram a pecuária de caprinos para civilizar os índios, mas em sua versão on-line da história dos Aussie (www.glassportal.com/herding/shepherd.htm ), Linda Rorem observa que por volta dos anos 1840, o número de ovelhas (para não mencionar de pessoas indígenas) no extremo oeste tinha diminuído muito. A descoberta de ouro mudou radical e permanentemente a economia alimentar, a política e a ecologia da região. Grandes rebanhos de ovelhas foram transportados de navio para serem vendidos na costa leste por volta de Horn, e conduzindo-os por terra a partir do meio oeste e o Novo México, e enviando-os a partir desta colônia branca “próxima” com uma economia pastoral colonial, a Austrália. Muitas destas ovelhas eram Merinos, tipicamente de origem espanhola, mas vindas para a Austrália através da Alemanha, como presentes do Rei da Espanha à Saxônia, que desenvolveu um próspero comércio de exportação colonial em caprinos.

            Com o início da Corrida do Ouro e o rescaldo do fim da Guerra Civil, o ocorreu o amplo influxo de colonos anglos (e alguns afroamericanos) para o oeste com a destruição militar, a contaminação dos indígenas americanos e a consolidação das terras expropriadas dos mexicanos, californianos e indígenas.

            Todos estes movimentos de ovelhas também significaram movimentos de seus cães pastores. Estes não eram os cães guardiães das velhas economias pastorais eurasianas, com suas rotas de mercado estabelecidas, pastagens sazonais, ursos e lobos locais – que foram, não obstante, amplamente empobrecidas. As colônias de povoamento na Austrália e nos EUA adotaram uma atitude ainda mais agressiva aos predadores naturais – construindo cercas em torno de Queensland para manterem distantes os dingos e interceptar, envenenar e alvejar qualquer coisa que possuísse dentes caninos afiados e que se movesse sobre a terra no oeste dos EUA. Os cães de guarda não apareceram na economia caprina do oeste estadunidense até depois destas táticas se tornarem ilegais na época de movimentos ambientais efetivos.

            Os cães pastores que acompanhavam as ovelhas imigrantes tanto da costa leste quanto da Austrália e eram principalmente dos velhos tipos Collie trabalhador / pastor. Estes eram cães fortes e polivalentes com um “olhar de ampla varredura” e uma honrada postura de trabalho – ao invés de com um olhar restrito e cabisbaixo  - a partir dos quais derivam várias raças de canil. Entre os cães que foram para o oeste estadunidense a partir da Austrália estavam frequentemente os “Collies Alemães” Melros coloridos, que se parecem muito com os modernos Pastores Australianos. Estes eram “collies” oriundos da Grã-Bretanha e pastores para todos os fins, chamados de “alemães” porque colonos alemães viviam na área da Austrália onde estes cães eram comuns. Os cães que se pareciam com os Aussies contemporâneos poderiam ter obtido o seu nome por estarem associados a rebanhos chegando em barcos, se vinham ou não nestes barcos. Ou, associados com cães imigrantes posteriores, estes tipos podem ter começado a serem chamados de “Pastores Australianos” tão tarde quanto a I Guerra Mundial. Registros escritos são escassos. E não houve uma “raça pura” em vista por um longo tempo.

            Existem, no entanto, linhas identificáveis na Califórnia, Washington, Oregon, Colorado e Arizona, desenvolvidas por volta dos anos 1940 que se tornaram registradas como Pastores Australianos, começando em 1956. O registro não era comum até a metade ao final dos anos 1970. A gama de tipos ainda era ampla e os estilos de cães foram associados a famílias e ranchos específicos. Curiosamente, um artista de rodeio de Idaho chamado Jay Sisler é parte da história da moldagem de um tipo de cão em uma raça contemporânea, completa com seus clubes e políticas. Por vinte anos, os “cães azuis” de Sisler representaram um rodeio popular de mostra de truques. Ele conheceu os pais da maioria destes cães, mas que é tão profundo quanto a genealogia detectada no início. Sisler obteve os seus cães de vários fazendeiros, vários dos quais os Aussies se tornaram as matrizes da raça. Entre os 1371 cães identificados fora os 2046 ancestrais em sua árvore genealógica de dez gerações, eu conto sete cães Sisler na família de minha Cayenne. (muitos com nomes como “Cão avermelhado da fazenda” e “Cão Azul”, 6170 de mais de um milhão de antepassados são conhecidos em sua árvore de vinte gerações; que deixa algumas lacunas).

            Um treinador incrível do tipo Vicki Hearne teria amado, Sisler considerada Keno, que por volta de 1945, foi considerado seu primeiro cão realmente bom. Keno contribuiu com a prole que se tornou a raça; mas o cão de Sisler que fez o maior impacto (ascendência percentual) para a população atual de Aussies foi John, um cão com antecedentes desconhecidos que andava um dia pelo racho Sisler e em pedigrees registrados. Existem muitas destas histórias de cães progenitores. Eles podiam todos ser microcosmos para um pensamento sobre as espécies companheiras e a invenção da tradição na carne, assim como no texto.

            O clube de pais dos Aussie, o Australian Shepherd Club of America (ASCA), foi fundado em Tucson por um pequeno grupo de entusiastas em 1957. O ASCA escreveu um padrão preliminar em 1961 e outro mais efetivo em 1977 e obteve o seu próprio registro de clube de cruzamentos em 1971. Organizado em 1969, o ASCA Stock Dog Committee organizou provas e títulos de pastoreio; e os cães que trabalhavam em fazendas começaram a sua considerável reeducação para o circuito de julgamento. As competições de conformação e outros eventos se tornaram populares e números consideráveis de donos de Aussies viram a afiliação AKC como o próximo passo. Outros donos de Aussie viram o reconhecimento da AKC como o caminho para a ruína de qualquer pesquisa genealógica racial. As pessoas pró-AKC se separaram para fundar seu próprio clube, a United States Australian Shepherd Association (USASA), que obteve pleno reconhecimento pela AKC em 1993.

            Todos os dispositivos biossociais de cruzamentos modernos emergiram – incluindo ativistas de saúde experientes, leigos e geneticistas, cientistas pesquisando doenças comuns no cruzamento e talvez estabelecendo companhias de comercialização dos produtos biomédicos veterinários resultantes, pequenos negócios Aussie-temáticos, artistas apaixonados por cães adestrados  e obedientes, tanto de finais de semana suburbanos quanto cães protetores de celeiros em vigília, trabalhadores de pesquisa e resgate, cães de terapia e seus donos, cruzadores comprometidos em manter o cão versátil que herdaram, outros cruzadores apaixonados por grandes competições de adestramento com talento não testado para o pastoreio e muito mais. A C.A. Sharp, com sua mesa de cozinha produziu o Double Helix Network News e o Australian Shepherd Health & Genetics Institute que ela ajudou a fundar – para não mencionar a reflexão dela sobre suas próprias práticas como um cruzador e sua adoção de um bem pequeno cão de resgate Aussie depois da morte do último cão de seu raça – corporifica para mim a prática de amor de uma raça em sua complexidade histórica.

            Os cruzadores de Cayenne, Gayle e Shannon Oxford no Vale Central da Califórnia, são ativos tanto no USASA quanto no ASCA. Comprometidos com o cruzamento e o treinamento de cães protetores de celeiros e também mostrando suas habilidades em configuração e agilidade, os Oxfords me ensinaram sobre “o versátil Aussie”, que vejo como análogo ao discurso do “duplo propósito” ou do “cão em um todo” dos donos de Pirineus. Estes idiomas atuam para prevenir a divisão das raças em pools gênicos ainda mais isolados, cada qual dedicado a um objetivo limitado de especialistas, quer este seja em um esporte de adestramento, beleza ou algo mais. O teste do escudo rochoso de um Pastor Australiano, no entanto, permanece a capacidade de ordenhar com habilidade consumada. Se a “versatilidade” não começa neste momento, a raça trabalhadora não sobreviverá.

Uma Categoria de Si Próprio

Qualquer um que tenha feito pesquisa histórica sabe que o não documentado muitas vezes tem mais a dizer sobre como o mundo é do que o que já foi oficialmente registrado nos anais históricos da genealogia canina. O que nos diz as relações contemporâneas das espécies companheiras entre humanos e cães “não-registrados” na tecnocultura sobre as histórias herdadas – ou talvez melhor, de habitação – como também sobre o forjamento de novas possibilidades? Estes são os cães que precisam de “Uma Categoria de Si Mesmos”, em homenagem à Virginia Woolf. Autora do famoso tratado feminista, “A Room of One’s Own”, Woolf entendeu o que acontece quando o impuro passeia sobre os gramados dos devidamente registrados. Ela também compreendeu o que acontece quando estes seres evidenciados (e característicos) obtém credenciais e uma renda.

Escândalos genéricos chamam a minha atenção, especialmente aqueles que escancaram o sexo racializado e a raça sexualizada para todas as espécies envolvidas. O que eu deveria chamar de cães categoricamente determinados, mesmo se fico apenas na América? Vira-latas, mestiços, Todo-Americanos, cães de raça aleatória, Heins 57, raças misturadas ou apenas cães de planície? E porque deveriam as categorias para cães na América estar em inglês? Não apenas “as Américas”, mas também os Estados Unidos é um mundo altamente poliglota. Acima, concentrei-me nos Grandes Pirineus e nos Pastores Australianos, tenho que sugerir enigmas de histórias locais e globais herdadas nas raças modernas por um par de histórias de cães de pelos desgrenhados. Similarmente, aqui eu não posso começar a mergulhar nas histórias de todos os tipos de cães que não se encaixam nem na raça do tipo funcional e nem na institucionalizada. E assim por diante, eu vou oferecer apenas uma história, mas uma que se ramifica ainda em teias de complexidade mundana a cada recontagem. Vou contar sobre Satos.

“Sato” é uma gíria em Porto Rico para um cão de rua. Aprendi este fato em dois locais: na Internet em www.saveasato.org e através da atuação de Twig Mowatt no ensaio de outono de 2002 da brilhante revista sobre cultura de cães Bark. Ambos os registros me levaram em cheio nas naturezaculturas do que é chamado educadamente “modernização”. “Sato” é apenas sobre a única palavra em espanhol que aprendi na internet; que me levou na direção do tráfico semiótico e material nesta zona da terra dos cães. Eu também descobri que Satos são capitalizados, na convenção lexical e no investimento monetário, no processo de se moverem das inóspitas ruas do “mundo em desenvolvimento” do sul para os “lares sempre iluminados” do Norte.

Também de grande importância, aprendi que estou interpelada nesta história pela mente e pelo coração. Não posso renegá-la por chamar a atenção a seus tons e estruturas racialmente tingidos, sexualmente infundidos, estamentos saturados, coloniais e estruturados. Repetidamente em meu manifesto, eu e minha gente precisamos aprender a habitar histórias, não renegá-las, muito menos através dos truques baratos da crítica puritana. Na história de Sato, existem dois tipos de tentações superficialmente opostas para a crítica puritana. A primeira é se saciar no sentimentalismo colonialista que vê apenas o resgate filantrópico (filocanídico?) do abuso no tráfico de cães nas ruas de Porto Rico para os abrigos seguros de animais nos Estados Unidos e de lá para os próprios lares. A segunda é se saciar nas análises históricas estruturais em uma forma que nega tanto as ligações emocionais quanto a complexidade material e assim evita a participação sempre confusa na ação que pode melhorar as vidas através de muitos tipos de diferença.

Cerca de 10.000 cães de Porto Rico tem feito a transição da vida de rua para lares suburbanos desde 1996 quando a funcionária de companhia aérea Chantal Robles de San Juan se uniu à Karen Fehrenbach, ao visitar a ilha a partir de Arkansas, para inaugurar a Fundação Salve um Sato. Os fatos que as levaram à ação são alarmantes. Milhões de cães férteis, frequentemente doentes e com fome, vasculham as ruas em busca de comida e abrigo em bairros pobres de Porto Rico, áreas de construção, depósitos de lixo, postos de gasolina, estacionamentos de fast foods e zonas de venda de drogas. Os cães são rurais e urbanos, grandes e pequenos, reconhecidamente a partir de uma raça institucionalizada e também vira-latas. Eles são na maioria jovens – cães ferozes não tendem a ficarem muito velhos; e existem muitos filhotes, tanto abandonados pelas pessoas quanto nascidos de cadelas de rua. Abrigos oficiais para animais em Porto Rico na maioria matam os cães e gatos capturados e recolhidos em suas diligências. Algumas vezes estes cães abatidos são adotados e cuidados; mas eles vivem de forma irregular, vulneráveis a denúncias e a ação oficial. As condições nos abrigos municipais são a substância de um show de horror aos direitos dos animais.

Muitos cães de todos os tipos em Porto Rico são, claro, bem tratados. Os pobres, assim como os ricos, apreciam os animais. Mas se uma pessoa abandona um cão, então eles são muito mais propensos a deixarem o cão solto do que trazê-lo para um “abrigo” subsidiado e mal equipado que com certeza acabará matando os animais. Além disso, a ética do bem-estar animal de esterilização de cães e gatos baseada em classe, nação e cultura não está generalizada em Porto Rico (ou em boa parte da Europa e de muitos outros lugares nos EUA). A esterilização obrigatória e o controle reprodutivo têm uma história muito inexpressiva em Porto Rico, mesmo quando se restringe a memória histórica para se policiar as espécies não-humanas. No mínimo, a noção de que o único cão apropriado é um cão estéril – exceto para aqueles sob o cuidado de criadores responsáveis (na perspectiva de quem?) – nos faz colidir com o mundo do biopoder e seus aparatos tecnoculturais na metrópole e nas colônias. Porto Rico é tanto uma metrópole quanto uma colônia.

Nada disso elimina o fato de que cães ferozes férteis se acasalem, tenham muitos filhotes que eles não podem alimentar, e morram de doenças terríveis em situações agonizantes em larga escala. Isto não é apenas uma narrativa. Para piorar a situação, Porto Rico não está mais livre do que os Estados Unidos de pessoas danosas e abusivas de todas as classes sociais que infligem terríveis lesões mentais e físicas sobre os animais, tanto deliberadamente quanto de forma indiferente. Os cães de rua, como os indigentes, são o jogo justo – ou talvez melhor, alvo livre -  nas zonas de livre comércio.

As medidas tomadas por Robles, Fehrenbach e seus apoiadores são, para mim, tão inspiradoras quanto perturbadoras. Eles estabeleceram e conduzem um abrigo privado em San Juan que funciona como uma casa de passagem para cães a caminho principalmente de adoção internacional. (Mas Porto Rico é parte dos Estados Unidos, ou não é?) A demanda em Porto Rico por estes cães é pequena; não é um fato natural, mas sim biopolítico. Qualquer um que tenha refletido sobre a adoção internacional de seres humanos sabe disso. A Fundação Salve um Sato levanta dinheiro, treina voluntários para levar os cães (e alguns gatos) para o obrigo sem traumatizá-los mais, organiza os veterinários porto-riquenhos que tratam e esterilizam os animais gratuitamente, socializa os futuros adotados em maneiras apropriadas para o norte, prepara artigos para eles e negocia com as companhias aéreas para transportar cerca de trinta cães por semana em voos comerciais para uma rede de abrigos seguros em vários estados, a maioria no nordeste. Depois do ataque terrorista de 11 de setembro, turistas que embarcam em voos de San Juan são recrutados para reivindicar suas caixas de transporte de cães imigrantes como sua bagagem pessoal de modo que o aparato anti-terrorista não feche o ciclo de auxílio.

 A Fundação mantém um website em inglês para informar o seu potencial público de pessoas adotantes e ligar grupos de apoio às pessoas que adotam os cães, no idioma do website, seus “famílias para sempre”. O website é cheio de relatos de adoções bem sucedidas, histórias de horror na pré-adoção, fotos do tipo “antes e depois”, convites para tomar medidas e contribuir financeiramente, informação para encontrar um Sato para adoção, e links úteis para a cibercultura da terra dos cães.

Uma pessoa em Porto Rico pode se tornar um membro da Fundação Salve um Sato ao resgatar um mínimo de cinco cães por mês. Os voluntários principalmente pagam quaisquer que sejam os seus custos de seus próprios bolsos. Eles encontram, alimentam e cuidam dos cães antes de colocá-los em caixas de transporte para as casas de passagem. Filhotes e cães jovens são a prioridade primeira, mas não os únicos adotados. Cães que estão muito doentes e sem perspectivas de melhora são sacrificados, mas muitos cães severamente lesionados e doentes se recuperam e são adotados. Todos os tipos de pessoas se tornam voluntários. No website há uma matéria de uma mulher idosa que vive da seguridade social e que praticamente não tem moradia própria que recrutou moradores de rua para cuidar e coletar cães, para os quais ela paga 5 dólares de seus escassos recursos. Conhecer o desenrolar de uma história não silencia o seu poder – ou sua verdade. As fotos no site parecem ser na maior parte de mulheres de classe média de Porto Rico, mas a heterogeneidade na Fundação Salve um Sato não é exclusividade apenas de cães.

O avião é um instrumento em uma série de tecnologias transformadas pelo sujeito. Os cães que saem do compartimento de carga do avião estão sujeitos a um contrato social diferente do que aqueles que lá nasceram. No entanto, não é que qualquer desabrigado em Porto Rico esteja susceptível a obter o seu segundo nascimento neste útero de alumínio. Cães menores, como garotas na cena humana, são o padrão ouro no mercado de adoção de cães. O medo estadunidense da agressão a partir do Outro conhece poucos limites e certamente não aqueles das espécies ou do sexo. Para seguir este ponto, precisamos partir do aeroporto para o excelente abrigo em Sterling, em Massachusetts, que tem abrigado mais de 2000 Satos (e cerca de 100 gatos) desde que se juntou ao programa em 1999. Mais uma vez, acho que me orientei na exuberante cibercultura da terra dos cães (www.sterlingshelter.org).

            Os abrigos para cães no nordeste dos EUA em geral tem poucos cães na faixa de 10-15 libras para atender a demanda. Ser o dono (ou guardião) de um cão de tamanho médio, esterilizado, recuperado e bem comportado confere um alto status em boa parte da terra dos cães nos EUA. Alguns destes status vêm do orgulho em não sucumbir aos discursos eugênicos que continuam a divertir os mundos dos cães de raça pura. Mas a adoção de um cão de rua ou abandonado, vira-lata ou não, dificilmente remove esse animal dos pântanos das ideologias de melhora classistas e enraizadas na cultura, biopolíticas familiares e modas pedagógicas. De fato, a eugenia e outros discursos de melhoramento da vida “moderna” têm tantos ancestrais compartilhados (e irmãos vivos) que o coeficiente de cruzamentos excede mesmo àqueles da cópula pai-filha.

            Adotar um cão de um abrigo dá muito trabalho, uma quantidade razoável de dinheiro (mas não tanto quanto os custos para se preparar os cães), e uma vontade de se submeter a um aparelho governamental suficiente para ativar as alergias de qualquer libertário Foucaultiano ou paisagistas das mais diferentes estirpes. Eu apoio este aparato – e muitos outros tipos de poder institucionalizados – para proteger classes de sujeitos, incluindo os cães. Eu também apoio vigorosamente a adoção de animais resgatados e oriundos de abrigos. E então minha dispepsia em reconhecer de onde vem tudo isto terá de ser suportado ao invés de aliviado.

            Bons abrigos obtêm muitos de pedidos para cães Sato. Receber um cão faz com que as pessoas comprem em lojas de animais e apoiem a indústria de filhotes. O abrigo Sterling nos disse que 99% dos filhotes comprados a partir dos EUA são cães médios ou grandes, todos os quais foram adotados. Muitos filhotes e cães jovens de grande porte vieram para o Sterling tendo vindo do Homebound Hounds Program, que importa cães provenientes do nordeste em parceria com abrigos no sul dos EUA – outra área do mundo onde a ética de cães e gatos esterilizados não é segura, para dizer o mínimo. E ainda, as pessoas que procuram por cães pequenos de abrigo estão sem sorte no mercado doméstico. Estas estratégias de ampliação familiar das pessoas exigem diferentes camadas locais e globais. No entanto, assim como com a adoção internacional de crianças, não é fácil obter um cão importado. Entrevistas e formulários detalhados, visitas domiciliares, referências de amigos e veterinários, comprometimento para educar o cão de forma adequada, aconselhamento de criadores locais, comprovante de propriedade domiciliar ou documentação escrita dos locatários de que é permitido animais de estimação e, então, longas listas de espera: tudo isto, e mais, é normal. O objetivo é um lar permanente para os cães.

            Os meios são um aparelho de fazer parentesco que alcança e se baseia na história “da família” de todas as maneiras imagináveis, literalmente. Prova da efetividade das espécies de companhia, os aparelhos de formação de famílias encontram-se numa análise pouco narrativa. As histórias de sucesso de adoção regularmente se referem a irmãos e outros parentes multi-espécies como mães, pais, irmãs, irmãos, tias, tios, primos, avós, etc. As histórias de adoção de animais de raça pura seguem o mesmo fluxo, e estes processos de adoção/propriedade envolvem muitos dos mesmos instrumentos documentais e sociais antes que se possa qualificar para se obter um cão. É quase impossível – e geralmente irrelevante – interpretar a partir das histórias a quais espécies estão se referindo. Uma ave de estimação é a irmã de um cão novo e o bebê humano irmão e a tia gata idosa e todos são representados de forma relacional com os seres humanos adultos da casa como mães e/ou pais. A heterossexualidade não é apropriada, a heteroespecificidade sim.

            Eu me recuso ser chamada de “mãe” dos meus cães porque temo a infantilização dos cães adultos e a identificação equivocada do importante fato de que quero cães, não bebês. Minha família multi-espécies não é sobre barriga de aluguel ou substitutos; estamos tentando viver em outros tropos, outros metaplasmos. Precisamos de outros substantivos e pronomes para os gêneros de parentesco das espécies de companhia, assim como fizemos (e ainda fazemos) para o espectro de gêneros. Exceto em um convite de partido ou uma discussão filosófica, o “outro significante” não vai fazer por parceiros sexuais humanos; e o termo desempenha pouco melhor para abrigar os significados cotidianos das relações de parentesco com os godos na terra dos cães.

            Mas talvez eu me preocupe muito com as palavras. Tenho que admitir que não está claro que os idiomas de parentesco convencionais em uso na terra dos cães nos EUA se referem à idade, às espécies ou ao status biológico reprodutivo de forma ampla (exceto para exigir que muitos dos animais não-humanos sejam estéreis). O ponto não são os genes e o que, certamente, é um alívio. O ponto é o fazer das espécies de companhia. É tudo em família, para o melhor ou para o pior, até que a morte nos separe. Esta é uma família formada no ventre do monstro das histórias herdadas que têm de ser habitadas para serem transformadas. Eu sempre soube que se eu aparecesse grávida, eu gostaria que o ser em meu útero fosse um membro de outra espécie; talvez esta acabe por ser a condição geral. Não é só vira-latas, dentro ou fora do tráfico de adoção internacional, que procura uma categoria de sua autoria na outridade significante.

            Eu anseio por muito mais reflexão na terra dos cães sobre o que significa herdar o legado multi-espécies e implacavelmente complexo que cruza escalas de tempo evolutivas, pessoais e históricas das espécies de companhia. Cada raça registrada, na verdade cada cão, está imerso em práticas e histórias que podem ou deveriam amarrar os donos de cães numa miríade de histórias de trabalho vivido, formação de classe, elaborações de gênero e sexo, categorias raciais e outras camadas locais e globais. Muitos cães sobre a Terra não são membros de raças institucionalizadas. Cães de vila ou cães ferozes rurais e urbanos levam a sua própria outridade significante para as pessoas com as quais vivem, e não apenas para pessoas como eu. Nem são os vira-latas ou os chamados cães de “raça aleatória” no “mundo desenvolvido” como os tipos funcionais de cães que emergiram nas economias e ecologias que já não florescem mais. Os cães andarilhos de Porto Rico chamados “Satos” se tornam membros das “eternas famílias” de Massachusetts, sem contar as histórias de complexidade e consequências atordoantes. Nas atuais naturezaculturas, raças podem ser meios necessários, se profundamente falhos, para continuar os tipos úteis de cães de onde eles vieram. Os atuais fazendeiros estadunidenses têm muito a temer por causa da especulação imobiliária de algumas empresas de São Francisco ou Denver do que de lobos, não importa o quão longe eles fiquem dos parques ou dos indígenas americanos, não importa o quão efetivo eles sejam na corte.

            Em minha própria naturezacultura pessoal e histórica, conheço em minha carne que a maioria dos donos brancos de classe mediada da terra dos Pirineus e Aussies tem uma responsabilidade, ainda que desarticulada, em participar na re-imaginação das ecologias pastoris e nos modos de vida que foram difundidos em parte significativa pelas mesmas práticas agrícolas que exigem o trabalho destes cães. Através de seus cães, pessoas como eu, estão ligadas aos direitos de soberania indígenas, à pecuária econômica, à sobrevivência ecológica, à reforma radical do complexo industrial da carne, à justiça racial, às consequências da guerra e migração e às instituições da tecnocultura. Isto é sobre, nas palavras de Helen Verran, “ficar juntos”. Quando a Cayenne “de raça pura”, o Roland “de raça misturada” e eu tocamos, nós corporificamos na carne as conexões dos cães e das pessoas que nos tornaram possíveis. Quando eu afaguei o sensual Grande Pirineu de Susan Caudill, Willem, eu também toco os lobos cinzentos canadenses realocados, readequo os ursos eslovenos e a ecologia da restauração internacional, assim como campeonatos de cães e economias pastoris multinacionais. Juntamente com o cão por inteiro, precisamos de todo o legado que é, depois de tudo, o que torna possível todas as espécies de companhia. Não tão estranhamente, todos estes conjuntos são nós não-euclidianos de conexões parciais. Habitando aquele legado sem a pose de inocência, podemos esperar a graça criativa do jogo.

Do “Notas da Filha de um Escritor de Esportes”, Junho de 2000: 

            A senhorita Cayenne Pepper ao menos mostrou a sua verdadeira espécie de ser. Ela é uma fêmea Klingon no cio. Você pode não assistir muita televisão ou ser fã do universo de Jornada nas Estrelas como eu, mas eu aposto que a notícia de que as fêmeas dos Klingons são seres sexuais formidáveis, cujos gostos se tornam ferozes, têm alcançado a todos nos planetas federados. O cão Pirineus em nossa terra, o Willen intacto de 20 meses de idade, tem sido o parceiro de Cayenne desde que eles eram filhotes, começando com 4 meses de idade. Cayenne foi castrada quando ela tinha 6 meses e meio de idade. Ela está sempre feliz, recostada nas costas convidativas de Willem, começando na sua cabeça com o nariz apontando para a sua calda, enquanto ele se deita no chão tentando morder a sua perna ou lamber a área genital rapidamente. Mas durante o nosso final de semana memorial na terra de Healdsburg, as coisas esquentaram, mas levemente. Willem é uma alma masculina adolescente, excitada, gentil e totalmente inexperiente. Cayenne não tem o hormônio do cio em seu corpo (mas não vamos esquecer aqueles córtices adrenais muito presentes bombeando os chamados andrógenos que estimulam o embelezamento do desejo mamífero em machos e fêmeas). Ela, no entanto, se transformou numa putinha com Willem, e ele está INTERESSADO. Ela não faz isto com nenhum outro cão, ‘intacto’ ou não. Nenhuma de suas brincadeiras sexuais tem alguma coisa a ver com o comportamento reprodutivo heterossexual funcional – nenhum esforço de Willem de acasalar, nenhuma apresentação de um dorso feminino atrativo, nenhuma farejada genital, nenhuma lamentação ou estímulo, nenhuma de todas aquelas coisas reprodutivas. Não, aqui temos a pura perversidade polimórfica que é tão querida aos corações de todos nós que ficamos adultos nos anos 1960 lendo Norman O. Brown.

            O Willem de 110 libras se deita com um olhar brilhante em seus olhos. Cayenne, pesando 35 libras, parece definitivamente enlouquecida conforme ela esfrega sua área genital em cima da cabeça dele, o nariz dela apontando em direção ao rabo dele, pressiona para baixo e balança as costas dela vigorosamente. Quero dizer com força e rapidamente. Ele tenta o quanto pode passar a sua língua sobre os genitais dela, que inevitavelmente a desaloja da parte de cima da cabeça dele. Parece um pouco como um rodeio, com ela montando um cavalo e ficando o maior tempo possível. Eles têm objetivos levemente diferentes neste jogo, mas ambos estão comprometidos com a atividade. Certamente se parece com o eros para mim. Definitivamente não o ágape. Eles se mantêm assim por cerca de três minutos pela exclusão de qualquer outra atividade. Então, eles voltam para outra rodada. E outra. O riso de Norman Susan e o meu, se rouco ou discreto, não merece a atenção deles. Cayenne rosna como uma fêmea Klingon durante a atividade, com os dentes à mostra. Lembro-me de  quantas vezes a mestiça Klingon B’Elanna Torres nas Viagens de Jornada nas Estrelas coloca o seu amante viajante humano Tom Paris na enfermaria?  A brincadeira de Cayenne, oh meu, que jogo. Willem está  muito compenetrado. Ele não é um Klingon, mas quais feministas de minha geração chamariam de um amante atencioso.

            A sua juventude e vitalidade fazem uma paródia da hegemonia heterossexual reprodutiva, assim como as gonadectomias promotoras de abstinência. Agora, eu, de todas as pessoas, que tem escrito livros infames sobre como nós, seres humanos ocidentais, projetamos sem escrúpulos as nossas ordens e desejos sociais sobre os animais, deveríamos conhecer melhor do que ver a confirmação do Corpo do Amor de Norman O. Brown em minha castrada Aussie e o Cão Guardião da Pastagem talentoso de Susan com aquela língua grande, desleixada e aveludada. E ainda, o que mais poderia estar acontecendo? Insinuando: este não é um jogo de busca ou perseguição.

            Não, esta é uma coreografia ontológica, que é daquele tipo vital de jogo que os participantes inventam fora das histórias de corpo e mente que eles herdaram e reformularam nos verbos carnais que os tornam quem eles são. Eles inventaram este jogo; este jogo os remodela. Mais uma vez o metaplasmo. Ele sempre reaparece no sabor biológico das palavras importantes. A palavra é feita carne em naturezaculturas mortais.


[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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Capítulo 14 – O Cabelo de Cassie

Material Feminisms

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BORDO, Susan. Capítulo 14 – O Cabelo de Cassie. In: ALAIMO, Stacy e HEKMAN, Susan (ed.). Feminismos Materiais. Indiana University Press: Blooming & Indianapolis, pág. 400 – 424, 2008. - Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

Aprendendo a Fazer o Cabelo de Cassie

            No primeiro ano e meio de vida de Cassie, seu cabelo não era basicamente um problema porque ela não tinha muito. Então, um dia, ela veio para casa da creche com uma dúzia de pequenas tranças marcando um padrão complexo e delicado em sua pequenina cabeça. Eu fiquei, em primeiro lugar, mistificada. Eu não tinha idéia de que ela tinha cabelo suficiente para fazer algo assim. De onde é que vieram todos aqueles cabelos? Como é que a professora dela os reuniu daquele jeito? E como ela conseguiu mantê-la sentada o tempo suficiente para fazê-lo?

           Quando a minha amiga Annice descobriu o que tinha acontecido, ela ficou indignada – por mim. “Com que direito aquela professora tinha mexido com o cabelo de sua filha?”

            Eu compreendi porque ela, como uma mulher negra cujo próprio cabelo tinha sido trançado por sua avó e tias poderia ter tido esta reação. Porque ela, como uma pessoa cujos ancestrais tinham os seus direitos parentais ignorados, ficaria horrorizada com a ideia de outra mulher se apropriando, sem permissão, de um ritual tão íntimo de ligação mãe-filha.

            Mas para mim, com a minha história pessoal muito diferente de cuidado de cabelo mãe-filha – basicamente, nenhum – isto não se parecia como uma afronta aos diretos dos pais, parecia que minha filha tinha ingressado em uma comunidade. Quando fui buscá-la naquele dia, todas as professoras negras estavam reunidas em torno dela, proferindo interjeições, colocando seu rosto em suas mãos. “Você olharia para esta linda boneca?”

            Ela estava, de fato, linda. Ela também parecia, pela primeira vez, inegavelmente negra. Desde a infância, Cassie, cuja mãe biológica é branca e o pai biológico é negro, havia sido tomada por muitas etnias diferentes. Tínhamos comido em restaurantes indianos e os proprietários perguntavam se ela era indiana. Os asiáticos pensavam que ela era asiática. E assim por diante. “De onde ela veio?” Eu tinha perguntado. As pessoas ficavam muitas vezes surpresas quando eu respondia do “Texas”. Mas agora, a cabeça dela repleta com trancinhas enraizadas, ficava absolutamente claro que Cassie era uma criança negra. E eu tinha dado uma mensagem, com ou sem a intenção por parte de sua professora que, como mãe, eu tinha duas escolhas: entrar neste mundo, verdadeiramente dentro dele, ou permanecer uma mãe branca sem noção.

            Isto era a última coisa que eu queria ser. Mais tarde, quando Cassie estava na pré-escola, eu estava a par do desdém confuso das mães negras pelas mães brancas de crianças negras e birraciais que não sabiam como cuidar do cabelo de suas crianças. Uma mãe branca, por exemplo, estava tão intimidada pela própria perspectiva de pentear o cabelo de sua filha que ela teve que cortar tudo quando, descuidado, se amontuou em uma massa de fios emaranhados irreversíveis. Esta mulher foi o sujeito de um monte de risadas, sua filha o objeto de pena. “Aquela pobre criança”. Eu nunca quis que minha filha fosse objeto daquele tipo de pena. Ou eu o objeto daquele tipo de desprezo.

            Então empreendi o projeto de educar-me. Li, perguntei, procurei, e tentei. Produtos que eu nunca tinha ouvido antes – loção rosa, spray de cabelo, lenços – se tornaram os grampos de minha vida. Novos termos: concurso de cabeça – que Cassie definitivamente parecia ser; cozinha – aquela porção de cabelo localizado na parte de trás do pescoço, mais propenso a dobras e emaranhados, mais resistentes a se mesclarem. “Se já ouve uma parte de nosso passado africano que resistiu a assimilação”, escreve Henry Louis Gates, “foi a culinária. Não importa o quão quente o ferro, não importa o quão poderosa a química… nem Deus, nem a mulher, nem Sammy Davis Jr. podiam alisar a cozinha” (1994, pág. 42). Primeiro li estas palavras no Colored People vários anos antes de adotar Cassie. Mas agora, com Cassie no meu colo, a cozinha já não era uma peça fascinante do conhecimento interior, mas um marcador preciso da ancestralidade de Cassie – e um desafio prático para mim, como a mamãe que tinha que lidar com ela.

            Para uma instrução prática, olhei menos para os livros que para Annice. Eu observava atentamente como ela fazia o cabelo de Cassie, maravilhada com a capacidade e paciência dela. Annice, a mãe de um garoto, alegou ser uma cabeleireira terrível; e ainda assim ela conseguiu essas peças retas e mais limpas que eu jamais poderia. Repetidamente ela as fez, até que ela considerasse a minha filha apta a sair em público. Achei difícil ser tão exigente. Meus dedos pareciam menos ágeis e me senti, em certos momentos, como se estivesse faltando uma aptidão hereditária. Fiquei espantada com a abundância de loção que Annice (corretamente) considerava necessária para o cabelo de Cassie e – como alguém que tinha crescido ouvindo que gorduroso era algo que você não queria que seu cabelo fosse – tinha quase uma aversão corporal em se lambuzar em tal quantidade. Minha paciência e minha resistência logo se esgotaram – estas sessões podem levar horas, dependendo da destreza e complexidade do estilo – e eu muitas vezes mandei Cassie para fora com tranças que eram apenas aceitáveis. Não me incomodou da forma como isso incomodava Annice, de quem eu aprendi que a minha falta de ansiedade sobre o ser de minha filha é vista como menos do que perfeitamente penteada (leia-se: não respeitável e não cuidada, passível de ser vista como um “animal” selvagem) era um privilégio de minha raça.

            Mas haviam também privilégios conferidos para a mamãe negra, conforme eu descobri quando eles se tornaram meus privilégios também. À medida que eu me acostumei a deixar de lado pelo menos duas horas para fazer o cabelo de minha filha, fiquei viciada no prazer da proximidade física ininterrupta que o ritual proporcionou. Conforme ela crescia como uma criança mais e mais independente e ativa, eu soube que eu poderia contar com pelo menos duas horas a cada semana quando eu a tinha  em meu colo, seu pequeno corpo inclinado sobre o meu, às vezes (conforme eu obtia o melhor penteado) até ela adormecer como fazia quando era um bebê. Primeiro eu estava intimidada por cada toque, ao mesmo tempo parecia como um monte de trabalho para ter o tempo para fazê-lo com cuidado e suavemente, trabalhando a partir da extremidade em cima. Mas eu descobri que havia um tipo de Zen nisto. Uma vez que você se entrega a ele, todo o resto retrocede ao fundo na intimidade de sua criança, os cuidados a tomar, a permissão de tocar, cheirar e cuidar dela, se torna um centro absoluto, um lugar de paz e segurança.

            E, em seguida, também havia o prazer da comunidade com outras mamães negras, conforme discutíamos as variadas texturas de cabelo de nossas filhas, suas qualificações em concursos de beleza e com que idade, caso isso já tivesse acontecido, tínhamos as deixado alisar seus cabelos. Eu nunca me aproximei de seu nível de expertise sobre quaisquer destes itens. Mas eu sabia, também, que elas não me consideravam como também uma ingênua. Em uma ocasião, eu até ganhei um elogio pelas tranças de Cassie e me foi perguntado como eu as havia feito. Eu orgulhosamente mostrei à mamãe, deixando de mencionar que Annice havia me ensinado como fazê-las. Mas então, todas tinham aprendido com alguém também.

Teorizando Sobre e Vivência Interior

            Eu aprendi algo mais do que apenas como fazer o cabelo de minha filha. Eu tinha sempre me imaginado muito astuta sobre “as intersecções de raça, poder, beleza e corpo”. Eu tinha escrito artigos criticando a tirania que padroniza as normas de beleza anglo-saxãs; eu tinha uma enorme coleção de slides, históricos e contemporâneos, de produtos de alisamento de cabelo e clareadores de pele. Eu sabia tudo sobre práticas históricas como o teste do saco marrom e o teste do pente que foram utilizados para excluir os negros de pele escura e de cabelos crespos e encaracolados dos clubes e das igrejas e que são ainda empregados, embora raramente, em algumas irmandades negras hoje para limitar a adesão a mulheres de pele mais clara. Eu conversei, em minhas aulas, sobre os processos judiciais contemporâneos envolvendo mulheres que haviam sido demitidas por usar trancinhas para trabalhar e mostrei slides de Sara Baartman – bem antes da menção dela se tornasse politicamente obrigatória em qualquer discussão de raça e corpo. E assim por diante.

            Uma coisa é, no entanto, saber sobre estéticas racistas e sua história. Outra é ter uma cabeleireira negra recomendanda, no pleno alcance da voz de sua filha de cinco anos, que ela deveria ter seu cabelo alisado. Uma questão sobre a qual eu tinha conversado e escrito era agora algo que eu estava vivendo pessoalmente. E viver pessoalmente, se tornou muito mais complicado.

            Quando isto aconteceu, Annice e eu lançamos rápidos olhares furiosos uma para a outra. Estávamos conscientes do fato de que Cassie já estava recebendo a mesma mensagem a partir de filmes e da televisão, onde o cabelo liso, mais liso do que eu nunca pensei ser possível para qualquer um, agora reina absoluto. Cada “transformação” em The Swan e Extreme Makeover inclui um alisamento obrigatório para os concorrentes negros. Os comerciais de fim de noite e início da manhã para pentes de cerâmica e milagrosas loções de alisamento e que caracterizam o estado  emocional “antes e depois” de mulheres negras e brancas com estilos de cabelo despenteados e “naturais” miraculosamente transformadas em modelos de elegância e brilho. O que é mais inacreditável sobre estes comerciais são as reações das mulheres. Elas choram e falam de miseráveis vidas superadas, de sonhos de beleza realizados, de nada menos do que a deformidade corrigida e a salvação alcançada. Ter o cabelo alisado alcançou um status de beleza transracial quase tão importante quanto não ser gorda.

            Dói-me quando Cassie me diz que ela odeia seus cachos (como ela os chama). Mas como ela não podia, quando mesmo Latifah – uma de suas ídolas – tinha o cabelo como o cetim? No mundo das bonecas, havia uma explosão de produção e comercialização “étnica” e “urbana”, com bonecas como a atrevida e estilo-consciente Bratz começaram a dar à Barbie uma verdadeira corrida pelo seu dinheiro (ou melhor, o nosso). Mas embora algumas destas bonecas tenham o cabelo feito em trancinhas e tranças, desfazem aqueles formatos e ainda é o mesmo velho cabelo de garotas brancas. Duas exceções são a Barbie da alta moda urbana moderna (que tem dois enormes coques afros) e a Barbie “Tesouros da África” – descrita no catálogo FAO Schwartz como “ricamente desenhada a partir de uma modelo africana mas completamente definida pela alta costura”, e ostentando um sensacional cabelo afro. Estas bonecas são claramente uma ilustração do princípio que esta cultura permite principalmente a “diferença” ao torná-la exótica. Estas Barbies, de modo nenhum as suas garotas “estadunidenses” cotidianas, são as bonecas equivalentes da inclusão no mundo da moda das modelos de pele escura apenas quando elas estão indo para o drama, a “alteridade” de sua diferença. (A boneca negra “American Girl” é uma escrava fugitiva).

            Ao mesmo tempo em que isto vem acontecendo, no entanto, quase ninguém – ou seja, fora da academia – considera que o alisamento capilar seja uma prática com implicações perturbadoras para a identidade racial e a preservação da memória histórica. Eu olho para trás para a “Material Girl”, um ensaio que escrevi há mais de quinze anos atrás que considera a questão com a diminuição da consciência pública das políticas das práticas corporais tais como a alteração cirúrgica das características étnicas, lentes de contato azuis, alisamento capilar e assim por diante (Bordo, 1991), e percebi que nos anos que se passaram desde que eu escrevi aquele ensaio, tal consciência tem desaparecido quase inteiramente. Um anúncio atual para os produtos de cabelo do Orgulho Africano resume a atitude predominante: “Alguns o usam de forma correta. Alguns o usam de forma natural. Tudo isto diz orgulho para você”. Em outras palavras, seja o que for.

            Em “American Girl” eu me preocupava que ao obliterar tais distinções estava também obliterando a memória da história racista e de qualquer consciência de normalização racial continuada. Hoje em dia, no entanto, comecei a me preocupar se sou uma relíquia dos anos 60 ou uma torre de marfim acadêmica que cresceu sem contato com a cultura. Estou constantemente consciente, hoje em dia, não apenas dos significados e práticas históricas, mas também da realidade contemporânea da vida de minha filha, dentro da qual há alguns de seus modelos de papéis mais poderosos – Latifah, as irmãs de Williams, Lisa Leslie, Marion Jones – todas tem cabelo liso. Penso que qualquer mulher negra altamente pública que não – Whoopi ou Toni Morrison, por exemplo – e ela é provavelmente velha demais para a minha filha extremamente atlética, aspirante-a-ser-legal de seis anos de idade a se identificar. Quais são as implicações disto para o futuro? Eu me pergunto. Quais tradições étnicas extraordinárias podem se tornar perdidas? Por outro lado, quais seriam as consequências de meu desafio à identificação de minha filha com as mulheres negras que eram modelos maravilhosas de força e criatividade para ela?

            Eu também tenho consciência do fato de que a minha própria crítica anterior do alisamento capilar, sendo inteiramente “política” na natureza, era de fato muito arrogantemente alheia a todas as razões práticas pelas quais as pessoas negras alisam seu cabelo. Em meus dias pré-Cassie, como a maioria das pessoas brancas ignorantes, eu teria proferido interjeições sobre o cabelo despenteado de criança nos comerciais da Gap com bebês. “Que linda!” Pensei – e ainda penso. Eu amo Cassie com seu cabelo solto e livre – “pétalas de flores onduladas e macias, cheias de caracóis e felpas”, como Bell Hooks coloca em Happy to Be Nappy (1999, pág. 3-4). Mas eu também sei que dentro de uma questão de dias que aquele delicioso despenteado começará a encrespar e vai se tornar infernal para pentear. Os tufos de cabelos, uma vez formados, não podem ser penteados; eles têm de ser cortados (como aquela mamãe que falei antes de descoberta). Então, a menos que sua criança tenha idade o suficiente para escolher tufos de cabelo ou você tenha tempo suficiente para dedicar uma hora ou mais todas as manhãs para pentear o seu cabelo ou você tenha uma cabeleireira pessoal – é assim que os modelos adoráveis o controlam, claro – “naturais” (a menos que muito curto) não é um estilo muito prático cotidiano. Você tem “que fazê-lo” de alguma forma – mesmo que seja apenas um rabo de cavalo repuxado – ou você pode alisá-lo. Quando aquela cabeleireira aconselhou o alisamento do cabelo de Cassie era, a partir de seu ponto de vista, “para facilitar as coisas” – não para fazer Cassie parecer “mais branca”.

            A ideia que o cabelo alisado está relacionado ao fato de parecer “mais branca” é uma questão sobre a qual há uma grande variedade de opiniões entre estadunidenses negros. Ayana Byrd e Lori Thorps, autoras do Hair Story, enfatizam que a busca pelo cabelo liso nunca tinha apenas sido sobre a “conformidade à moda vigente”, mas tem sido um reconhecimento que “o cabelo liso traduzia a oportunidade econômica e a vantagem social”, ambas dentro da escravidão e do depois (2001, pág. 17). Maxine Leeds Craig, em Ain´t I a Beauty Queen? vê o “significado social” do alisamento capilar sobre como ganhar respeito e respeitabilidade em um ambiente hostil através da alienação do corpo de todos os significantes da frouxidão, preguiça e hipersexualidade (2002, pág. 30-37). A poetisa Linda Hardnett, em um poema chamado “If Hair Makes Me Black, I Must Be Purple” (Ebong, ed., 2001, pág. 80), protesta contra a noção de que o alisamento de seu cabelo está vendendo a sua negritude:

Sim, meu cabelo é

Liso

Mas isto não significa que não sou

Negra

Nem tenha orgulho

Tudo que isto significa é que meu cabelo é

Liso.

 

            Por outro lado, memórias e poemas numerosos recordam, amargamente, o processo doloroso de ter o “cabelo ruim” normalizado nos padrões brancos de beleza, como no “Good Hair” de  Debraha Watson (Ebong, ed., 2001, pág. 81):

No ritual matinal no início de domingo

Eu posso ouvir a voz de Moma dizendo

Sente-se aqui garota

Dobre sua cabeça

Distribua seus cabelos pelos ombros

Para que eu possa chegar a esta cozinha

Apertando o cabelo enrolado

Não queira que ele fique igual ao cabelo das garotas

Brancas

Meu cabelo é rebelde

Ela travou uma batalha dura contra

O pente de alisamento

Derrotou os desenrolados

Que foram alisados pela temperatura do pente

Orelhas queimadas, couro cabeludo queimado

Meu preço pela beleza…

 

            Hoje em dia, claro, os métodos de alisamento são muito mais suaves, e são poucas as mulheres e crianças negras que estão fazendo uso deles. Assim como cada atriz ou modelo tem o cabelo liso – de Beyonce à dramaticamente branca (e antigamente de cabelos encaracolados) Nicole Kidman. “É coisa de menina”, como um comercial de condicionador capilar deixa explícito: “Meus cabelos podem balançar. É o desejo número um entre as garotas”. Em linha com esta prescrição, que não desloca os significados raciais, mas liga as diferenças de gênero que flexionam aqueles significados, menos homens negros estão alisando seus cabelos hoje em dia do que eles fizeram nos dias quando Malcolm X teve o seu famoso cabelo alisado. A disparidade de gênero é muito clara no mundo dos videoclipes de música negra, um mundo povoado por homens com trancinhas e tranças criativamente individualizadas, e símbolos sexuais femininos virtualmente indistinguíveis com corpos sinuosos e cabelos sedosos, ambos os quais podem fazer “o ideal número de uma garota”: o balançar de seu cabelo. E isto também é reproduzido no mundo das bonecas: a única boneca negra na linha Barbie que tem cabelos que realmente parecem “naturais” até no toque são os de um boneco – um dos amigos do Ken Malibu.

            Eu muitas vezes aliso o meu próprio cabelo hoje em dia – não quimicamente, mas com uma prancha de cerâmica. Quando eu era uma jovem garota, Mary Travers e Judy Collins puseram o padrão da garota branca de ouro para os garotos que eram meus seguidores de esquerda e eu estava bem consciente de que eu estava muito longe disto: eu tinha “cabelo comprido” (e ainda para piorar, cabelos vermelhos) num momento em que era esteticamente e politicamente incorreto para qualquer um exceto Angela Davis. Eu desesperadamente invejei minhas amigas que, apesar de seus genes judeus, tinham longos cabelos lisos; e quando eu fui para a faculdade, fora do alcance de minha mãe (que provavelmente não se importaria de qualquer maneira), eu alisei o meu próprio cabelo com ferro em meu dormitório. Quando Farrah Fawcett ajudou a tornar o look de cabelos despenteados como se estivessem dispostos em camadas elegante, eu finalmente tinha um cabelo que tornava “natural” o que a cultura queria dele.

            Mas o look liso, aparentemente, se recusa a ceder a sua hegemonia legal sobre a modernidade. E hoje em dia é ainda mais difícil para muitas de nós atingirmos esse objetivo porque é tanto liso quanto em camadas, uma reverência para a “meta número um entre as garotas” (o cabelo que balança de um lado para outro), mas “queerizado” por cachos assimétricos (à la The L-word) ou cobrindo a face em comprimentos decrescentes absolutamente livres de ondas, em níveis livres de curvas. É um estilo que só posso alcançar – apenas marginalmente, e apenas temporariamente, até o tempo abafado fazê-los “voltar” – com um monte de produtos e pranchas de cerâmica da marca CHI.

            Eu me sinto mais jovem e bonita quando meu cabelo está alisado – e incomodada pela mensagem que estou enviando à minha filha. Não é apenas as imagens de comerciais e da mídia, claro, mas também de nossos próprios corpos, nossas próprias escolhas que estamos vivendo, respirando propagandas a nossas crianças. Eu estou também consciente do quão diferente e o quão semelhante o “fator cabelo” é para Cassie e eu. Mesmo com o meu cabelo grosso, é muito mais fácil para eu transitar entre o cabelo selvagem e o liso, tratar estas opções como meras escolhas “da moda”. Eu saio do chuveiro. Se eu decido que quero ficar “natural” naquele dia, eu só borrifo um pouco de espuma, limpo com a toalha, não penteio o meu cabelo e voila, é um cabelo rebelde da moda (ou pelo menos relativamente rebelde da moda); não é, no entanto, fácil pentear no dia seguinte. Se eu decido deixar o cabelo liso, basta meia hora com a prancha de cerâmica na pior das hipóteses. Isto nunca vai ser assim para Cassie; a escolha de alisar ou deixá-lo crespo, manter natural ou com tranças, sempre envolverá tempo, esforço e consequências que não podem ser revertidas em um banho.

            O que Cassie e eu compartilhamos, no entanto, embora no contexto de histórias raciais diferentes, é o sentimento de estar “do lado de fora”, olhando para um ideal que parece vir sem esforço àqueles nascidos com a herança genética favorecida pela “moda”. Mas nenhum ideal cultural é mesmo uma “simplicidade” da moda, como eu tenho argumentado repetidas vezes em meu trabalho; todos os estilos são carregados de significados históricos, culturais, políticos e de gênero. Quando eu era mais jovem, eu via o meu cabelo “difícil de domar” como “judeu” e liso e com balanço como entre os muitos privilégios de ser Gentil. Eu posso estar errada sobre a genética real do cabelo (muitos judeus herdam seu cabelo naturalmente liso), mas eu não estava errada sobre as associações e valorizações culturais. Cassie, também, sabe – sem o conhecimento histórico, e talvez numa forma confusa e fragmentada – que o cabelo liso não é “apenas da moda”. Eu sei que ela sabe disso porque, apesar de suas expressões saudosas ocasionais de inveja do cabelo liso, ela insiste em trancinhas para si mesma. Vivendo em uma família branca, com um pai PASB (Protestante Anglo-Saxão Branco) cujo cabelo é naturalmente liso e uma mãe judia que usa uma prancha CHI, ela no entanto quer parecer com L’il Romeo e não Hillary Duff – ou Raven Simone. Nisto, estou convencida que em seus imperfeitos seis anos de idade, Cassie está tanto resistindo à normalização de gênero quanto insistindo em sua identidade racial.

Os Limites da Teoria

            Quando os meus estudantes leram, no Ain´t I a Beauty Queen?, de Maxine Leeds Craig, sobre a estudante negra nos anos 60 – a primeira mulher negra a ser aceita em sua faculdade – que era incapaz de cumprir o requisito da natação porque para estar na aula de natação significaria ter seu cabelo alisado várias vezes por semana, eles ficariam abismados. A ideia de que o interesse sobre seu cabelo as manteria fora da piscina de natação é totalmente estranha para elas.

            As pessoas brancas, mesmo aquelas que teorizam com sofisticação sobre as “diferenças culturais” e os perigos do etnocentrismo, são muitas vezes ingênuas quando se trata das formas concretas e práticas em que “raça importa”. Nós sabemos pouco, por exemplo, sobre a história das estéticas negras e seu significado dentro das comunidades negras. A poetisa Nikky Finney, em “To Be Beheld”, sua introdução ao livro de fotografias de Bill Gaskin, Good and Bad Hair (1997), descreve alguns daqueles significados:

            Temos as cabeças enfeitadas desde o início dos tempos. É gesto antigo e da raça negra ondular, usar tocas térmicas e enrolar em suprema celebração àquela parte de nós mesmas que vive mais próxima do sol e outros corpos celestiais. Aquela parte mais alta e suntuosa de nós tem muitas vezes sido o que chegamos a elaborar em primeiro lugar quando nós temos tanto a dizer sobre quem somos. Nós adornamos esta parte de nós mesmas principalmente para nós mesmas, mas também para qualquer outra pessoa no hemisfério precisando de permissão visual para criar alguma autenticidade audaciosa de estilo em sua própria vida.

            Tendemos para esta paisagem corporal particular que, conscientemente ou não, mantém as joias culturais de uma sensibilidade africana que muitos tentaram arrancar de nós. Nós temos mantido por meio de diferentes comprimentos de memória cultural que vemos como dever, como responsabilidade, como os filhos de gênio e muitos da realeza, para lembrar de nossas vidas contemporâneas através dos ossos de nossas avós e avôs. E ainda, de fato, nos lembramos de nós mesmos através do ritual e tendo o nosso cabelo feito.

            Através do varrimento, empilhamento, bloqueio e suave construção metódica de nosso cabelo, nós insistimos em sermos vistas e insistimos em proclamar mais do conhecimento de quem somos que nós nunca aprendemos em qualquer escola. Esta é apenas uma maneira que pegamos a história que volta como um bumerangue para nós e que mantém nosso espírito livre. Algumas de nós têm se esforçado para enfeitar nossas cabeças de formas mais elaboradas que as das outras. Muitas de nós sempre estiveram interessadas em diferenciar nossos penteados do dia a dia de trabalho de nossos penteados para festas. Algumas de nós na tradição do cerimonial de embelezar-nos precisam esperar por ocasiões específicas a fim de prestar atenção a nossos cabelos, seja casamento, funeral ou o domingo de manhã de Páscoa. Mas quanto mais o mundo tem tentado (e conseguido em alguns níveis) alterar a estrutura social e física de nossas vizinhanças na qual nós não temos nos sentado nas poltronas do poder, quanto mais nós trazemos nossos estilos de cabelo soltos, fantasiosos, elaborados para o estilo principal de nossas vidas cotidianas e o mosaico mais amplo da vida estadunidense, para dizer, sem dúvida, que eu serei a dona do jeito que eu sou…

 

            Eu acredito que nós temos nos focado e sido obcecadas com o cabelo a fim de manter nossas mãos e vistas umas sobre as outras. Acredito que ficamos em estado de cuidado entre si a fim de lembrar a nós mesmas da linguagem do toque sempre que possível, a fim de nos amarmos umas às outras em voz alta, como o racismo institucionalizado gritaria para nós para transformar entre si e manter vomitando o ódio daquela maneira. No momento mesmo que este mundo de barbeiros e salões de beleza – com nomes como Amazon Hair Braiding, Africuts, Khimit Kinks, Brenda´s Braids, The African Hair Gallery, Maxamillion e Ultimate U – nos dá um lugar físico e permissão espiritual para tocar, cuidar e administrar conjuntamente, se apenas por algumas horas antes de termos de endurecer nossos corações novamente e a cabeça de volta para aquele outro mundo. 

            Hoje, editando este artigo depois de cinco dias de assistir as imagens do rescaldo medonho do furacão Katrina, estou me lembrando das crianças que, em meio a todo o horror, tinham trancinhas perfeitas. Esta é, como Nikky Finney diz, uma prática inquebrável de tocar, cuidar e administrar – mesmo em, especialmente em, um mundo que parece estar fazendo todo o possível para ferir você.

Figura “Toda a experiência – o ritual de lidar com cuidado do cabelo – que é prazerosa. O sentar-se, todo mundo se lembra de se sentar entre as pernas de outra mulher, ter seu cabelo penteado e trançado. A sensação dos joelhos em sua bochecha” (Bell Hooks). “Woman Combing Hair, Abidjan, Ivory Coast, 1980”, Kent Reno.

 

            Os estilos de cabelo afroamericanos – os padrões elegantes e elaborados de hip-hop, as trancinhas ingênuas, as extensões engenhosamente entrelaçadas, esculpidas e os coques artisticamente elaborados, a miríade e as combinações infinitamente individualizantes de linhas e tranças – é também sobre fazer arte refinada com o corpo, em desafio de uma cultura para a qual aquele corpo tem sido associado com tudo de indomável e primitivo. “Barbearias e salões de beleza afroamericanos”, um artigo no New Yorker diz, “são estufas da auto-expressão anárquica e confidente” (Thurman, 2004, pág. 144). Então porque, eu me pergunto, nós nunca vemos este corpo de trabalho discutido quando os acadêmicos brancos escrevem sobre “modificações corporais” criativas – como por exemplo, o de outro modo excelente In the Flesh, de Victoria Pitts ou o livro de textos e fotos de Ted Polhermus e Randall Housk, The Customized Body (1996)? Ambos os livros lidam extensivamente com as muitas formas – tatuagens, piercings, escarificação, raspagem da cabeça, e o ato de esculpir o cabelo – em que os indivíduos e grupos fazem uso, como Pitts coloca isto, do “corpo como um espaço com a necessidade de ser recuperado a partir da cultura” (2003, pág. 7). Nem faz qualquer menção ao penteado afroamericano.

            Talvez Pitts, Polhermus e Housk vejam o penteado negro contemporâneo como pertencente ao reino do “fashion” ao invés do “corpo como um espaço que necessita ser recuperado a partir da cultura”. Assim, eles têm muito a aprender sobre as raízes emaranhadas, como Ayna Byrd e Lori Thorps as chamam, do cabelo negro nos EUA. Os anos de escravidão, privados dos implementos e produtos indígenas africanos para o auto cuidado. Os estilos criativos que evoluíram apesar dessas severas limitações. As políticas raciais de cabelo “bom” e “ruim”. O contexto em curso entre as normas “brancas” e a recuperação de estilos africanos. Se isso tudo é “apenas fashion”, isto é o fashion que tem se desenvolvido no contexto da luta atual com a cultura dominante, enquanto tenta cavar o seu próprio espaço dentro daquela cultura.

            Qualquer que seja a explicação, o fato é que apesar de sua sofisticação sobre as dinâmicas culturais de “alteridade” e marginalização, tanto Pitts e Polhemus quanto Housk são de fato culpados de inconscientemente reproduzirem aquelas dinâmicas. Pitts é uma teórica bastante incisiva quando ela critica as apropriações pelos “primitivos modernos” das tatuagens, alargamento de pele e outras marcas tribais  a fim de “queerizar, escurecer e desarmar” as identidades ocidentais. Ela nos lembra que esta subcultura é composta quase inteiramente das aparências ocidentais brancas para “re-escrever” nossos corpos com identidades mais culturalmente diferentes e livres – como nós a imaginamos. Como Pitts aponta, os “outros primitivos” os quais copiamos não têm nenhum papel além de nossas projeções brancas e de consumo: “É o ocidental branco cujo corpo aparece como uma tela em branco pronta para a escrita auto-inventiva através de várias formas de consumismo. Os corpos dos não-ocidentais, no entanto, não estão em branco. Em vez disso, eles já estão marcados com o ‘erótico’, sensual, ‘primitivo’ ou tradicional e… lido sob um olhar ocidental privilegiado” (2003, pág. 149).

Figura “É antigo e negro frisar, usar toucas térmicas e enrolar em suprema celebração daquela parte de nós mesmas que vive mais próximas do sol e outros corpos celestiais” (Nikky Finney). Imagem do século XIX de penteados de mulheres etíopes por Guglielmo Massaia; “Talk Shop”, John Peden.

            Mas a própria Pitts – e Polhemus e Housk, também – me parece ser culpada de precisamente o que ela acusa como os “primitivos modernos”. A única diferença é que na paisagem da modificação corporal contemporânea que elas descrevem, são os negros estadunidenses ao invés do “mundo não-ocidental” cujo status como auto-inventivos culturais capazes de se apropriarem de suas próprias histórias, inventando novos estilos artísticos desafiadores e declarações externas que não possuem lugar em seus discursos [1].

            Uma melhor teoria ajudaria Polhemus, Housk e Pitts a ver tudo aquilo que Nikky Finney enxerga nos penteados dos afroamericanos? Eu acho que não. Eu não acho que elas precisem de uma teoria melhor; penso que elas necessitam ser levadas a um salão de cabelos negros. O equivalente daquilo, com respeito ao significado cultural da forma do corpo, me aconteceu alguns anos atrás. Uma de minhas palestras públicas naquele ano foi sobre a globalização dos transtornos alimentares, um fenômeno que eu tenho mapeado por uma década. Entre outros exemplos nesta conversa, eu trouxe o caso da Nigéria, que tem recentemente visto uma mudança dramática na incidência dos problemas alimentares, atribuído pela maioria da mídia estadunidense a uma mudança nos ideais de beleza. A estória, como apresentada no New York Times e parafraseada em minha conversa, foi esta:

            Na África Central, as culturas tradicionais têm celebrado mulheres voluptuosas. “Uma garota africana deve ter quadris”, diz o estilista Frank Osodi. “Nós temos quadris. Nós temos traseiros avantajados. Nós gostamos de carne na África”. Por anos, a Nigéria tinha enviado a sua versão local de beleza ao Miss World Competition, nos quais as competidoras obtiveram resultados pífios. Em seguida, um empreendedor esclarecido foi contra os ideais locais e eis que entrou em cena Agbani Darego, uma beldade de pele clara e muito magra. (Ele teve a sua inspiração a partir do M-Net, a rede sul-africana vista em toda a África na televisão via satélite, que transmite principalmente filmes e programas de auditório  estadunidenses). Agbani Darego venceu o Miss World Pageant, a primeira negra africana a fazê-lo. E agora as adolescentes nigerianas têm começado a jejuar e fazer exercícios, tentando se tornarem “lepas” – uma gíria popular para as meninas consideradas ícones obcecadas pela magreza.

            Eu dei este exemplo em vários campi universitários, onde foi recebido sem crítica (verbalizada). Os acadêmicos ocidentais acharam isto irrepreensível, acredito, porque isto reconhece a “diferença” cultural nos ideais corporais. Eu sempre fui uma entusiasta, durante os anos 1980 e 90, quando sugeri que os problemas de imagem corporal não eram a seara exclusiva das garotas brancas muito privilegiadas. A paranóia sobre o “essencialismo” e a “universalização”, naquele momento, era um obstáculo constante para que as pessoas vissem como as tradições estéticas diferentes culturalmente tênues estavam em um mundo de imagens globalmente implantadas e uma tecnologia expansionista de alteração corporal. As pessoas veem a erosão das estéticas locais agora – tornou-se bastante óbvio para eles não verem – embora o reconhecimento da “diferença” seja ainda mais calorosamente recebido do que as críticas da normalização das imagens. O meu ponto sobre a Nigéria, reconhecendo tanto as diferentes tradições da África negra quanto sua erosão pelas estéticas ocidentais, não conseguiu ser desviado.

            Então, eu dei uma palestra em uma faculdade cujo público incluía uma mulher nigeriana. Ela apontou que as meninas nigerianas estavam fazendo dieta bem antes de Agbani Darego ganhar a sua coroa e que, na sua opinião, a tendência era menos sobre o fascínio dos ideais de beleza ocidentais do que sobre a rejeição das identidades tradicionais e o sistema de dominação masculina em que elas estavam ancoradas. Era para os homens, ela explica, que as mulheres nigerianas foram encorajadas a possuírem traseiros avantajados, por homens que elas muitas vezes foram enviadas para estabelecimentos de engorda para adquirirem o peso padrão para a noite de núpcias. Agora, as jovens mulheres modernas estão insistindo no direito de seus corpos serem menos voluptuosos, menos domesticamente “projetados” para o prazer sexual e o conforto dos homens.

            Ouvir isto foi fascinante, esclarecedor e um lembrete que ver algo de fora está ligado a ser uma melhor visão parcial. Paradoxalmente, então, o que eu não tinha visto era a similaridade (ao invés da “diferença”) entre as jovens nigerianas que fazem dieta e a primeira geração de anoréxicas (do século XX) neste país. Muitas delas, como as jovens mulheres nigerianas, estavam também se rebelando contra um ideal voluptuoso, orientado para os homens e sexualizado – aquele da geração pós II Guerra Mundial. Números significativos delas tinham sido sexualmente abusadas ou testemunharam suas mães sendo maltratadas. Ser um brinquedo sexual atraente, uma Marilyn Monroe; era o seu horror; Kate Moss e outras (como Agbani Darego para as jovens nigerianas) forneceram um paradigma cultural alternativo em quem se inspirar.

            Em “Feminism, Postmodernism, and Gender-Skepticism” (1990, pág. 133-56) e outros ensaios, tenho argumentado que, ao invés de nos assediarmos e envergonharmos por “essencialismo” e coisas do tipo, devemos colocar nossas energias nas transformações práticas em nossas vidas institucionais e pessoais – transformações que iriam concretamente (e não meramente de forma teórica) ampliar a esfera de nosso conhecimento da cultura e da experiência humana. Colocando de forma simples, nós temos que gastar menos tempo “teorizando a diferença” e mais tempo aprendendo de e sobre as diferenças e similaridades das vidas uns dos outros. No entanto, não é tão fácil, talvez especialmente nas comunidades acadêmicas. Tive a sorte de ter uma acadêmica nigeriana replicando o meu discurso [2]. Infelizmente, as comunidades acadêmicas raramente são diversas a contento para permitirem tais interações. E quando elas são, nós estamos muitas vezes com muito medo de sermos vistas como estúpidas, teoricamente simples, ou – pior de tudo – racistas, para perguntar as questões que precisamos perguntar ou mostrar a curiosidade que nós naturalmente temos sobre os mundos com que não estamos familiarizados.

            Não é surpreendente que as pessoas hesitariam em expor o que elas não sabem, dadas a posição dogmática, a negativa e algumas vezes hostil que muitos teóricos da “diferença” tem tido sobre as possibilidades de compreensão dos “outros” de “grupos dominantes”. Ien Ang, por exemplo, argumenta que “o conhecimento subjetivo do que significa estar no fim da recepção da outridade racializada – o que quer que isto signifique às pessoas negras individuais – simplesmente não está acessível às pessoas brancas” (1997, pág. 60). Ela continua a dizer que o que esta incomensurabilidade da experiência nos deixa, para os propósitos de afiliação política, é o que Jodi Dean tem chamado “uma solidariedade de estranhos”, uma solidariedade que está “baseada na declaração ‘Eu não posso saber com o que se parece ser racialmente abusado, mas eu sei que isto te machuca’”. Ela propõe esta “solidariedade de estranhos” como uma alternativa para o “‘nós’ sólido e unificado” que as políticas convencionais, incluindo as políticas feministas, costumavam imaginar ser possível.

            Alguns destes parecem certos para mim e alguns não. Eu quero que as categorias de Ang sejam historicizadas e contextualizadas para uma coisa e para o conceito de “pessoas brancas” ser menos homogeneizante. Eu quero dizer a ela que, como uma judia, eu certamente sei com o que se parece estar na extremidade receptora da outridade cultural, especialmente no sul, onde vivi por pelo menos onze anos com uma consciência permanente, se não sempre aguda, de que o Cristianismo é o único jogo de verdade na cidade. Minha filha já está aprendendo pelas crianças da vizinhança que tudo que conta vai para a igreja e que ela é estranha por não o fazer. Mas também é verdade que hoje em dia, neste país, a “alterização” não acontece a mim numa forma racializada que ainda é, rotineiramente, para as pessoas negras. No entanto, o mesmo não pode ser dito para meus ancestrais, incluindo minha mãe, cuja família escapou de uma Polônia virulentamente anti-semítica antes dos campos de concentração serem institucionalizados.

            Eu não sou negra e nunca serei. Mas o que eu sou não é tão facilmente “teorizado” – e não apenas devido ao hibridismo da identidade, que para mim inclui o meu pano de fundo judeu e de classe operária, e inúmeros outros específicos que tornam a minha “branquitute” específica ao invés de genérica (algo que é verdade para todas as pessoas “brancas”) – mas também porque eu sou agora um membro de uma família multirracial que, embora não biológica, tem alterado cada molécula de meu ser. Em conexão com esta experiência, a aparente negação de Ang de que pode haver afiliações interraciais e daí, entendimentos, que vão mais fundo do que um reconhecimento respeitoso das diferenças entre nós tanto me enfurecem quanto entristecem. Certamente, existem outras possibilidades além de um “‘nós’ sólido e unificado” em um extremo e uma “solidariedade de estranhos” em outro. O primeiro – o “nós unificado” – é, claro, um mito – e, eu pensaria por agora, um cavalo morto entre os acadêmicos. Mas o último me parece como não menos abstrato, quase deliberadamente obtuso, e totalmente alheio às realidades concretas da intimidade racial misturada nesta cultura.

            O poder epistemológico do amor, até agora, não fui muito bem tratado pelas teorias acadêmicas da “diferença”. Eu não sei com o que se parece ser negra, não no sentido de que não posso ficar dentro da subjetividade de uma pessoa negra nesta cultura. Mas eu não posso permanecer dentro da subjetividade de minha mãe também. Eu ouvi estórias, claro. Eu sei que quando ela era uma menininha, ela foi arrastada através do solo por um porco que ficou preso à sua mão, cheirando o mingau que estava esfriando no peitoril da janela de sua casa de campo e em que minha mãe tinha mergulhado seus dedos ansiosos. Eu quase poderia imaginar aquela cena; a mão de minha mãe ainda tinha a cicatriz. Mas outras experiências mais profundas nem sequer foram descritas para mim. Meu conhecimento de história me diz que sua família tinha que ter sido afetada pelas chacinas que massacraram milhares de judeus na Rússia e no leste europeu, mas ela nunca disse uma palavra. Nem ela me disse nada sobre a sua travessia oceânica e chegada na América. Eu posso apenas imaginar o que deve ter sido ter oito anos de idade, conduzida por Ellis Island, perplexa e com medo nos alojamentos de terceira classe quentes, lotados e cheios de vermes. Mas tão incompleto e inadequado quanto o meu conhecimento da vida de minha mãe era, isto não pode ser comparado àquela da vida de um estranho. Éramos íntimas. Eu conhecia os seus hábitos cotidianos, as fobias e sintomas físicos que a visitavam ao longo de sua vida, sua culinária – uma estranha mistura de expertise do leste europeu e conveniência americana – o modo como ela se maquiava, a forma como ela fumava seus cigarros, a forma como ela contava uma piada. Eu sabia das coisas que a agradavam. Eu sabia como seu corpo se sentia quando eu me reclinava sobre ela para assistirmos juntas as novelas.

            Na medida em que temos, desenvolvemos ou lutamos por este tipo de intimidade com os outros, se eles são ou não biologicamente relacionados a nós, a frase “solidariedade de estranhos” mostra-se fria e absolutamente inadequada. Cassie é negra e eu sou branca, mas ela está longe de ser uma estranha para mim – de fato, ela é a pessoa mais amada em minha vida – e meu relacionamento com ela tem criado contextos que eu não tive antes de relações de amada intimidade com outras pessoas negras, e de fato, com a própria “negritude” nesta cultura. Existe uma linha no trabalho de Nikky Finney: “O coração de amar a mim mesma sempre teve a ver com amar a minha negritude”. É impossível para eu saber exatamente como eu teria respondido a esta linha antes de Cassie. No entanto, eu suspeito que poderia ser maçante e talvez clichê quando comparado ao imaginário preso e poético do resto de seu trabalho. Eu sei que agora, como uma mãe que quer mais do que qualquer coisa para sua filha crescer amando a si mesma, eu não posso interpretar isto sem uma onda selvagem de alegria e esperança.

Legal

            A primeira vez que Cassie teve seu cabelo ajeitado em trancinhas – algo que ela tinha pedido há muito tempo – eu a levei para a escola de beleza local. Isso me machucou muito e ela só poderia suportá-lo pressionando a minha cabeça firmemente contra a dela o tempo todo. Estou certa de que éramos uma visão – minha bunda de meia idade apontando para cima no ar, interferindo no trânsito de pessoas da escola de beleza, conforme Cassie puxava minha cabeça para baixo em direção ao seu peito. Mas a dor valeu a pena para ela porque ela poderia se parecer do jeito que ela queria: em uma palavra, legal. Depois de ter sido feito, ela saiu para a rua sentindo-se superior, tão orgulhosa de si mesma que os raios de sol pareciam estar saltando para fora de seu sorriso. Todo dia, conforme eu a vejo colocar junto a sua própria versão do estilo hip-hop, sua própria mistura de força e sensibilidade, eu sou lembrada das palavras de Nikky Finney, “não importa como, o círculo nunca será quebrado, que cada geração vai torcer e transformar as velhas formas de seu próprio jeito e os próximos de nós passarão mais perto da borda e deixarão seus coques mais altos em direção ao sol, mas juntos nós nunca cairemos ou ficaremos longe” (Gaskins, 1997).

            As trancinhas de Cassie, é verdade, tem interferido com a intimidade de nossa rotina semanal, uma vez que não aprendi ainda a fazê-las, mas ela tem se tornado milagrosamente menos “preocupada com o seu cabelo” agora que eu a levei à casa de Shamara ao invés da escola de beleza. O arranjo é melhor para todos nós. A escola de beleza em que Shamara estudava não lhe pagava um centavo por seu belo trabalho. E ainda ela muitas vezes ficava fazendo horas extras para terminar o cabelo de Cassie. Ela raramente teve a chance de fazer tranças, ela disse, com tantos clientes negros alisando seus cabelos, e ela amava fazê-las. Como para Cassie, na escola de beleza não havia nada para distraí-la. Agora, conforme ela se senta sobre o piso, jogando Homem-Aranha no PlayStation com o Antônio, o filho de Shamara, ela não reclama. Eu também estou feliz. Tajdzha, a filha de Shamara, tomou gosto por mim e se senta no meu colo, trazendo de volta os deliciosos dias de bebê de Cassie para mim. Cassie já não é mais um bebê; agora eu tenho de desenvolver habilidades muito mais elaboradas para satisfazer seus gostos em estilos de penteados.

Figura: Capa do livro “It’s All Good Hair: The Guide to Styling and Grooming Black Children’s Hair”, de Michele N-K Collison. Reimpresso com permissão de HarperCollins Publishers.

            Até agora, eu nem sequer tentei. Tenho receio – medo de frustração, de fracassar. Observando Shamara, eu posso ver o quanto é preciso destreza. Sentindo-me inadequada e muito branca, eu me conforto com um artigo que nós estamos lendo em uma aula minha. Chamado “The Art of the Ponytail”, é escrito por uma jovem da “terceira onda” feminista que desistiu de alisar e estilizar em favor de simplesmente puxar o seu cabelo para trás em um rabo de cavalo. Admitindo que “o tempo e a atenção que alguns [afroamericanos] dedicam a seus cabelos é uma forma de orgulho, um produto de sua criatividade”, Akkida McDowell mesmo assim insiste sobre o direito de seu rabo de cavalo significar a sua própria “natureza causal”. Dada a ampla gama de pessoas negras em todo o mundo”, ela escreve, “nós precisamos expandir os limites da aceitação. A negritude não é (e não deveria ser) definida totalmente por um penteado. Acredito que há espaço para todas as nossas expressões”, incluindo a rejeição do “concurso de beleza negra” (1998, pág. 130, 132). O ensaio de McDowell, juntamente com as insistências da cantora/compositora contemporânea India Aries, em sua música popular, que “I Am Not My Hair”, me lembra, não apenas que você não precisa ser branco para achar o penteado negro desafiador, mas também que existem significados geracionais assim como raciais e de classe em nossos estilos estéticos, no que nós escolhemos e refutamos em fazer com nossos corpos. Cassie, uma criança extraordinariamente ativa e de mente esportiva, que prefere a facilidade das roupas de garotos à moda das garotas, pode em última análise rejeitar tanto as trancinhas quanto o cabelo liso em favor de um estilo bem curto que exige pouco cuidado. As “diferenças” que emergem entre Cassie e eu – assim como os significados e experiências compartilhadas – são imprevisíveis e apenas serão descobertas através de nossas vidas conjuntas.

            Na outra noite, Annice se ofereceu para me ajudar a fazer as trancinhas de Cassie. Eu geralmente faço isto em uma semana ou menos antes dela lhes reestilizar e fazer o seu cabelo por mim – ou Annice fazê-lo – no interino. É um longo processo. Eu sou grata pela ajuda e nós nos divertimos compartilhando juntas o cuidado de minha filha. Agora, como muitas vezes antes, nos sentamos no sofá ao lado dela, Bob Esponja na televisão, e começamos a desfazer as tranças. No meio do processo eu percebo que estou me sentindo estranhamente competitiva. Quando Cassie reclama, eu quero que seja o toque de Annice de quem ela está reclamando. Eu quero fazer mais rápido a cabeça de Cassie e deixar menos emaranhados soltos do que Annice. Eu rejeito uma sugestão de Annice de colocar o cabelo de Cassie temporariamente um uma única trança, afirmando o meu conhecimento superior do que ela vai gostar de fazer pela manhã. Eu quero “vencer” no que tem subitamente se tornado um concurso em minha mente. Estou me sentido um pouco com vergonha por meus sentimentos e ações proprietários, mas Annice leva tudo com muito humor. Talvez – eu assim presumo – ela está mesmo satisfeita. No início eu tinha sido tão hesitante, tão respeitosa de minha filha como um indivíduo separado que, pela graça extraordinária do universo, tem sido colocada em meus braços que eu mal senti que tinha quaisquer “direitos” em tudo. Eu sei que Annice tomou prazer em ver-me, desde então, verdadeiramente me tornar a mamãe de Cassie.

            Na noite seguinte eu terminei de trançar o cabelo de Cassie sozinha. Ela e eu acabamos de tomar um banho e cantávamos trechos de canções uma para a outra à medida que ensaboávamos nossos cabelos. “Pare de cantar estas coisas dos anos sessenta!” ela grita quando eu sugiro, por minha vez, o “Teach Your Children Well” de Crosby, Stills, Nash e Young. Quando é a vez dela, ela tenta conquistar-me com canções inventadas falando de extremidades sendo cortadas, pontas e peidos. Depois de termos passado toneladas de loção sobre nossos corpos (algo de que nós precisamos, a pele seca sendo uma tendência que negros e ruivas de pele clara compartilham) e ela colocou o roupão de banho do Bob Esponja, nos sentamos para fazer o cabelo.

            “Oh! Você está me machucando!”

            “Vamos lá, não é tão ruim assim. Dói muito mais em você quando Shamara coloca as trancinhas e você nunca reclama dela.”

            “Não! Não dói quando ela faz isto! Dói apenas quando você faz!”

            Agora ela esta colocando o lábio inferior para fora e me encarando. Ninguém me encara como Cassie. Mas eu não estou perturbada. É o meu trabalho e gosto de ter minhas “mãos e olhares” nela e eu tenho feito isto por um longo tempo até agora. Eu sei quando eu atinjo um obstáculo e eu sei quando ela está apenas cansada de ficar sentada. Eu sei que eu realmente e de forma rara a machuco e que ela apenas teve um dia muito longo e seu corpo está ansioso para se esparramar no sofá e brincar com o cachorro. Eu sei que mesmo que doa um pouco, tem que ser feito. E eu sei também que quem faz o seu cabelo, eu sou aquela cujo toque ela conhece melhor, cujo corpo ela pode se deixar adormecer.

Notas

            Uma versão deste trabalho, intitulada “The Truble With ‘Difference’”, foi originalmente apresentada como uma conversa ilustrada através de slides em abril de 2005 no Grinnell College; eu agradeço aos estudantes e à faculdade que responderam então tão calorosamente. “Cassie´s Hair” era, então, o título de uma versão curta que eu estava desenvolvendo. Quando, sem saber sobre a versão curta, Sandra Bartky me disse, “Eu gostaria que você chamasse esta peça apenas de ‘O Cabelo de Cassie’”, eu percebi que isto era o que estava destinado a ser. Minha gratidão especial a Janet Eldred, Kathi Kern, Binnie Klein, Ellen Rosenman, Paul Taylor e Althea Webb pelos comentários extremamente úteis sobre as versões anteriores da versão escrita; a Neil Painter pelas nossas conversas por e-mail sobre raça e beleza e por sugerir o título (perfeito) para a última seção do ensaio; e à “Annice” – por tudo.

[1] Neste contexto, é impressionante que no capítulo sobre o cabelo de Polhemus e Housk, as únicas fotos de negros são os dos bonitos gêmeos com “coques” curtos e o idoso com cabelos loiros tingidos. É como se para Polhermus e Housk, assim como para Pitts, as próprias práticas pós-modernas das pessoas brancas de autodefinição corporal. Os estilos corporais das pessoas negras podem apenas ser imaginados ou como a substância da qual as pessoas brancas fazem aquela formação – como quando nós copiamos antigas práticas africanas – ou o que pensamos como formas contemporâneas “primitivas” – como os coques – ou como aspirações reveladoras sendo como nós (por exemplo, o homem idoso que vira loiro).

[2] Tenho tentado sem sucesso descobrir o nome da pessoa cujos comentários sobre a Nigéria eram tão iluminados. Espero que a publicação deste ensaio permita a ela se identificar de modo que eu possa adequadamente reconhecer a minha gratidão a ela em publicações e conversas futuras.

Referências

Ang, Ien. 1997. “Comment on Felski´s ´The Doxa of Difference’: The Uses of Incommensurability”. Signs (Outono): pág. 57-64.

Bordo, Susan. 1990. “Feminism, Postmodernism, and Gender-Skepticism”. In Feminism/Postmodernism, ed. Linda Nicholson, pág. 133-56. New York: Routledge.

______. 1991. “Material Girl; The Effacements of Postmodern Culture”. In The Female Body: Figures, Styles, Speculations, ed. Laurence Goldstein, pág. 106-30. Ann Arbor: University of Michigan Press.

Byrd, Ayana, e Lori Thorps. 2001. Hair Story: Untangling the Roots of Black Hair in America. New York: St. Martin´s.

Craig, Maxine Leeds. 2002. Ain´t I a Beauty Queen? Black Women, Beauty, and the Politics of Race. Oxford: Oxford University Press.

Ebong, Ima, ed. 2001. Black Hair. New York: Universe.

Finney, Nicky. 1997. “To Be Beheld”. Introdução de Bill Gaskins, Good and Bad Hair: Photographs. Newark, N. J.: Rutgers University Press.

Gates, Henry Louis. 1994. Colored People. New York: Vintage.

Hooks, Bell. 1999. Happy to Be Nappy. New York: Hyperion.

McDowell, Akkida. 1998. “The Art of the Ponytail”. In Body Outlaws, ed. Ophelia Edut, pág. 124-32. Berkeley: Seal.

Pitts, Victoria. 2003. In The Flesh: The Cultural Politics of Body Modification. New York: Palgrave Macmillan.

Polhemus, Ted, e Randall Housk. 1996. The Customized Body. London: Serpent´s Tale.

Thurman, Judith. 2004. “Roots”. New Yorker, 15 de Março, pág, 143-46.


[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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Capítulo 13 – Empatia Orgânica: Feminismo, Produtos Psicofarmacêuticos e a Incorporação da Depressão

Material Feminisms

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WILSON, Elizabeth A. Capítulo 13 – Empatia Orgânica: Feminismo, Produtos Psicofarmacêuticos e a Incorporação da Depressão. In: ALAIMO, Stacy e HEKMAN, Susan (ed.). Feminismos Materiais. Indiana University Press: Blooming & Indianapolis, pág. 373 – 399, 2008. - Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

            Judith Kegan Gardiner abriu sua revisão de 1995 do Listening to Prozac, Talking Back to Prozac e Prozac Nation para o jornal Feminist Studies com esta anedota:

            Recentemente assisti um encontro interdisciplinar feminista que assumia um consenso sobre o construtivismo social e o trabalho acadêmico crítico que foi percebido como “essencialista”, porque ele atribuía uma base biológica para os atributos de gênero. Durante as refeições e intervalos, no entanto, eu ouvi uma história diferente. Várias mulheres estavam tomando Prozac ou drogas similares para a depressão. Algumas de suas crianças, que possuíam capacidade de aprendizagem abaixo da média ou comportamentos perturbados na escola, estavam também sendo medicadas. Estas discussões informais eram centradas em sintomas, efeitos colaterais e alívio. Elas sugeriam, mas não discutiam uma perspectiva da personalidade como influenciada bioquimicamente… A potencial contradição entre tais soluções privadas e a ideologia publicamente declarada do construtivismo social nunca foi ouvida (Gardiner, 1995, pág. 501-502).

            Entre outras coisas, a história de Gardiner é sobre as dificuldades enfrentadas pelo feminismo acadêmico ao tentar pensar sobre a relação entre personalidade e bioquímica. Estas dificuldades têm sido enormemente intensificadas pelas mudanças dramáticas da paisagem psicocultural que se seguiram a liberação do Prozac no mercado estadunidense em 1989. Cada vez mais pessoas estavam tomando medicamentos antidepressivos – não porque as novas drogas ISRS (inibidores seletivos de recaptura de serotonina) e IRSN (inibidores da recaptura de serotonina-noraepinefrina) são mais efetivas como antidepressivos (elas não são), mas porque elas pareciam ter menos efeitos adversos do que os medicamentos mais antigos [1]. As pessoas tinham se tornado mais conscientes da depressão em si mesmas e nos outros, apesar das opiniões divergirem – muitas vezes acentuadamente – quanto ao fato de os novos medicamentos permitirem condições depressivas anteriormente despercebidas serem tratadas ou se provocavam uma epidemia de diagnósticos desnecessários e farmaceuticamente orientados de depressão (Rose, 2003). A comercialização e o uso generalizado de ISRSs e IRSNs também deram credibilidade às teorias biológicas do humor – particularmente a hipótese de que a depressão era uma consequência dos baixos níveis de serotonina no cérebro.

            É esta última transformação (um entusiasmo por pensar a depressão em termos bioquímicos) que parece ter apreendido as análises feministas dos eventos psicofarmacológicos contemporâneos. Como a anedota de Gardiner indica, a pesquisa feminista foi gerada em um ambiente que é separado de dados e teorias biológicas. Relatos da maleabilidade cultural e psíquica se desenvolveram de forma independente dos dados biológicos e também – se aceitarmos a veracidade da história de Gardiner – independentemente de certas experiências cotidianas. O feminismo tem pensado a biologia mais como um local de estase e pré-determinação e menos como uma fonte de variação, diferenciação e conversão (Wilson, 2004b); e isto tem deixado o feminismo acadêmico em uma posição singularmente ineficaz ao analisar os novos tratamentos bioquímicos dos estados depressivos. Aquelas feministas que têm voltado a sua atenção aos novos tratamentos farmacêuticos da depressão muitas vezes lutam para encontrar a influência crítica. Ainda aliadas com o movimento antipsiquiátrico dos anos 1960 e 1970, estas autoras enfatizam as motivações culturais para se manter as mulheres medicadas, elas são críticas das práticas de empresas farmacêuticas e dos médicos que colaboram com elas, e elas se mantém ambíguas sobre a eficácia dos tratamentos farmacêuticos para as condições que elas diagnosticam como essencialmente sociais na origem. Neste registro, o trabalho de Camilla Grigers (1997, 1998) tem sido paradigmático [2]. Discutindo o relato autobiográfico de Suzanna Kaysen da institucionalização psiquiátrica (Girl Interrupted), Griggers canaliza a celebrada tese de R. D. Laing em Sanity, Madness and the Family:

            Se alguém é enfaticamente surpreendido como no caso da família de Kaysen, cuja designada louca é a irmã perturbada. O limite social da insanidade, no entanto, dificilmente termina com a família. Não apenas é a individuação da psicopatologia dentro da psiquiatria represente um sistema de supressão pelo sistema nervoso em geral, mas a edipianização do sujeito na psicanálise e psicoterapia, ou seja, a redução da identidade e do significado de sujeito social à sua história familiar, é uma supressão do grupo psicose e disfunção geral no socius (Griggers, 1998, pág. 120).

            Em tal meio social, Griggers argumenta que os produtos psicofarmacológicos reforçam as normas culturais e suprimem a capacidade para a mudança. Mulheres, em particular, têm sido o alvo destas práticas:

            As mulheres são uma grande parte do mercado psicofarmacológico; muitos daqueles que tomam o antidepressivo Prozac, por exemplo, são mulheres em idade fértil. Porque a memória é um estado emocional dependente, a intervenção psicotrópica no e modulações do afeto feminino produzido em nível neurobiológico de um sujeito prostético químico generificado cujas memórias reprimidas das violências circulantes no sistema nervoso são o objeto da canalização, regulação, pesquisa e desenvolvimento (1998, pág. 114).

            Não é claro, no entanto, que as políticas antipsiquiátricas sejam imediatamente relevantes ao ambiente pós-Prozac. A maioria da agitação política e clínica na antipsiquiatria era em relação a esquizofrenia e pacientes institucionalizados (Cooper, 1967; Laing e Esterson, 1964; Szasz, 1961). Os antidepressivos ISRS e IRSN são administrados principalmente em contextos ambulatoriais (Rose, 2003). Neste sentido, a experiência de Kaysen em 1967 de ser internada por depressão é atípica das intervenções psiquiátricas por depressão desde 1989. Foi a propagação do diagnóstico da depressão distímica fora do hospital e muitas vezes além do alcance da profissão psiquiátrica (a maioria das prescrições de antidepressivos nos EUA, Reino Unido e Austrália são aviadas por clínicos gerais) que tem alimentado o extraordinário crescimento recente no uso de antidepressivos.

            Além disso, a condensação de Griggers da psicofarmacologia, psiquiatria, neurociência, psicoterapia e psicoanálise em uma entidade monolítica simples – o que em outros lugares tem sido chamado de “ciências psi” (Rose, 1998) – obscurece, ao invés de elucidar, a natureza dos eventos  depressivos e seus possíveis tratamentos. Existe um número de diferenças axiomáticas importantes entre estes conhecimentos: o que está em jogo conceitualmente difere consideravelmente (ou seja, é a mente uma atividade neuronal? A mente é libidinal? A mente está construída através de padrões diádicos de ligação?) e suas recomendações para o tratamento (comprimidos versus sessões de psicanálise) têm sido notoriamente agonísticas. No contexto em que Griggers vê conluio epistemológico e a implantação tirânica do poder, argumentarei por uma orientação mais empática dos dados: é nos momentos de empatia entre estes conhecimentos heterogêneos, alego, que se abrem novos caminhos para a investigação política; novas formas de usar os dados, teorias e informações úteis geradas por estes domínios; e novas formas de pensar sobre o que os materiais das análises feministas podem ser.

            Em contraste com a literatura acadêmica, a escrita feminista autobiográfica sobre ser deprimida e tomar drogas como o Prozac teve um perfil político bastante amplo e afetivo [3]. Estas autoras descrevem a esperança e o entusiasmo assim como a raiva e a desilusão. Elas podem gravitar rumo ao reparo; sua cooperação com o tratamento farmacêutico aumenta e diminui, assim como seu interesse na psicoterapia. Elas expressam intensas e mistas paixões pelo seu meio cultural, sua bioquímica, seus médicos, sua família, seus amigos e por elas mesmas. O que diferencia este gênero de história do de uma geração anterior e de seus parentes acadêmicos é uma curiosidade sobre o papel dos produtos farmacológicos no tratamento da depressão e uma vontade de se envolver mais estreitamente, de forma mais ativa com o caráter biológico dos estados depressivos. O The Loony-Bin Trip (1990) de Kate Millet, que descreve suas lutas com a depressão maníaca e o lítio, é um bom ponto de contraste a estas narrativas feministas mais recentes. O The Loony-Bin Trip é um texto desafiador, teimoso e furioso que explicitamente se alinha com a antipsiquiatria. Publicado em 1990, ele está no limite desta transição das políticas feministas sob a influência da antipsiquiatria às políticas feministas depois do Prozac. As excelentes análises de Jonathan Metzl dos constrangimentos narrativos no trabalho do feminismo pós-Prozac documenta esta mudança:

            As mudanças trazidas pelo Prozac… permitiram uma nova maneira de falar na narrativa sobre a doença mental da mulher. Desde o final do século XIX, o gênero foi marcado pelos relacionamentos muitas vezes torturantes entre as mulheres e o estabelecimento psiquiátrico… [No entanto] as mulheres dentro destas narrativas sobre o Prozac não significariam nada além do fato de estarem presas atrás do papel de parede ou constrangidas por uma civilização construída pelos filhos medrosos de mães psiconeurogênticas. Em vez disso, elas estão envolvidas na criação ativa dos termos de sua doença e a busca ativa por sua própria felicidade. (2003, pág. 174-76)

            Metzl observa que o Prozac geralmente falha nestas autoras: ele não restaura magicamente a auto-estrutura, nem fornece o alívio sustentado a partir da aflição social e psicológica. Mesmo assim, fica claro a partir da interpretação de Metzl que a política feminista da doença mental e dos produtos farmacêuticos mudaram depois de 1989. Os produtos psicofarmacológicos agora são menos susceptíveis de serem pensados como agentes de coerção (como haviam sido para Millet); eles se tornaram uma maneira – entre outras – através da qual a experiência da depressão pode ser explorada e compreendida.

            Este ensaio argumenta por um envolvimento mais íntimo com a biologia na escrita acadêmica feminista sobre as políticas de uso de antidepressivos. O cisma entre política e biologia que foi fundacional para a pesquisa crítica contemporânea criou dificuldades consideráveis para as análises feministas dos produtos psicofarmacológicos. O construtivismo social, em particular, tem amplificado uma profunda desconfiança de argumentos biologicamente baseados. O sucesso do construtivismo social como o modo principal de análise feminista nas ciências sociais nos anos 1990 pode ser atribuído em grande parte a um antibiologismo axiomático:

            A teoria do construtivismo social está… centralmente preocupada com o entendimento de como a linguagem que nós usamos e as categorias tomadas como certas que empregamos constroem nossa experiência em formas que nós, então, reificamos como “naturais”, “universais” e “o modo como as coisas tem sido”.

            Uma forma “fraca” de construtivismo social é amplamente aceita por toda a sociologia e psicologia e consiste de pouco mais do que a alegação de que os indivíduos não podem ser adequadamente compreendidos sem olhar para o contexto social, histórico e cultural dentro do qual eles estão incorporados. Em contraste, a forma “forte” do construtivismo social profundamente desestabiliza tanto a ciência social convencional quanto muito da feminista ao propor que as categorias da ciência social (tais como “o indivíduo”, “emoções”, “sexo” e, de fato, o próprio “conhecimento científico”) são produtos sociais ao invés de naturais. (Kitzinger, 2000, pág. 451)

            É esta preferência no construtivismo social pelas explicações sociais à custa das explicações naturais que tem sido a fonte tanto de seu sucesso quanto agora, eventualmente, da sua inervação. A separação entre biologia e política que é emblemática do construtivismo social tem também se tornado um traço definidor da pesquisa acadêmica feminista: mais frequentemente do que nunca, a biologia é pensada como tendo consequências para a política, mas os próprios substratos (ou seja, neurônios, genes, hormônios) não são considerados materiais políticos. São questões familiares como “Os cérebros de homens e mulheres são diferentes?” “O Q.I é herdado?” ou “Os hormônios controlam a preferência sexual?” que vêm à tona (como se neurônios, genes, e hormônios estivessem diante de eventos políticos). Preocupações mais curiosas, mas não menos políticas, como a performatividade da matéria (Barad, 2003) ou a alfabetização da natureza (Kirby, 2003), vem menos prontamente a uma audiência feminista. Jo-Ann Wallace, por exemplo, está interessada nos efeitos revitalizantes que a atenção ao detalhe biológico pode ter para o feminismo. No final, no entanto, a natureza de tal envolvimento com a biologia é perspicaz e não familiar. Ela hesita:

            Como está, o mundo vertiginoso material e pós-humanista revelado pelos estudos feministas no novo “dado da biologia” parece tanto muito pequeno quanto muito grande, muito íntimo e muito impessoal de imaginar e suas implicações para as mulheres permanecem obscuras… [A]s consequências ontológicas dos novos desenvolvimentos na neurobiologia parecem um pouco mais claras neste ponto do que as consequências feministas ou políticas (Wallace, 2001, pág. 38-39).

            Para Wallace, as análises do dado biológico perderam a sua marca feminista: cativantes como estas novas ontologias podem ser, elas não abordam preocupações políticas tangíveis. É meu argumento, no entanto, que a análise da matéria biológica é importante nem tanto porque existem consequências que suportam o feminismo, mas porque a própria biologia é “tão” ativamente alfabetizada, enumerada, inventiva como qualquer coisa que nós possamos querer incluir dentro da Cultura” (Kirby, 2003, pág. 438). Ou seja, a capacidade de transformação – o sine qua non da política como ela é geralmente entendida – já é nativa ao substrato biológico. Nós não precisamos levar a política à biologia, ou esperar por uma biologia para julgar sobre nossos eventos políticos (como se fosse uma autoridade inatacável); em vez disso, nós podemos explorar as formas peculiares em que o material biológico escreve, calcula e fabrica. Meu interesse reside menos na desconstrução da biologia do que na aprendizagem de como a própria biologia desconstrói [4]. Esta mudança no foco maciçamente expande o alicerce das análises feministas e elas alteram o que conta como material político ou ação política.

            Este ensaio colocará pressão, então, sobre o pressuposto feminista de senso comum de que a biologia e a política são domínios separados e que a biologia é um suplemento (um adjunto perigoso) da política. O feminismo poderia ser mais curioso sobre o substrato biológico dos estados depressivos; de fato, sem o interesse conceitual nas vicissitudes da biologia – como ela inventa, transforma, elabora algo de forma artesanal, redistribui, incorpora e perpetua – as feministas permanecerão perplexas com o caráter dos eventos psicofarmacológicos. Começarei, então, com um foco sobre o dado farmacocinético: Onde as drogas antidepressivas são absorvidas no corpo? Como elas são metabolizadas? Quais órgãos estão envolvidos na circulação destas drogas? É minha aposta de que uma atenção de perto e conceitualmente rigorosa ao detalhe biológico irá promover relatos mais dinâmicos (e mais politicamente vibrantes) da depressão e seu tratamento do que tem até agora suspeitado [5].

Produtos Farmacocinéticos

            Deixe-me começar com um dado prosaico, mas importante, sobre os novos medicamentos antidepressivos: todos eles são administrados oralmente. Ou seja, eles são feitos na forma de comprimidos e eles são engolidos [6]. Ao mesmo tempo em que é o caso de que a maioria dos produtos farmacêuticos é administrada oralmente (Kottke e Rudnic, 2001), existe um significado particular na administração oral dos antidepressivos: existe uma conexão íntima entre o intestino e a depressão (Wilson, 2004a, 2004b), tornando a intervenção através do intestino um meio especialmente oportuno de tratamento para o humor depressivo. Enquanto os textos neurocientíficos e psiquiátricos convencionais muitas vezes postulam uma ligação direta da droga ao cérebro, uma atenção especial aos detalhes da absorção, distribuição, metabolismo e excreção das drogas (o que é chamado de farmacocinética da droga) mostra que as vísceras são também essenciais ao modo como os distúrbios de humor se tornam instanciados e como eles podem ser tratados. Ao invés de validar um local central simples de determinação do humor (o cérebro), a farmacocinética das drogas antidepressivas lança luzes sobre como a depressão é distribuída, tanto no registro orgânico quanto no psíquico, toda através do corpo. Estreitar um foco sobre o cérebro oclui outros eventos importantes no metabolismo dos antidepressivos, o que torna difícil pensar de novo sobre a natureza das relações corpo-mente.

            Para qualquer droga administrada oralmente, o trato gastrointestinal (TG) é o local em que a droga é absorvida no corpo, a aflição do TG (náusea, esvaziamento gástrico retardado e prisão de ventre) é um efeito adverso comumente experimentado. Porque a administração oral das drogas é tão difundida, a gestão da resposta do intestino às drogas se tornou uma parte crucial dos tratamentos farmacêuticos. Por exemplo, existem inúmeras tecnologias disponíveis para controlar em qual ponto as drogas são liberadas no trato gastrointestinal. Os comprimidos podem ser especialmente revestidos de modo que eles não se dissolvam no estômago (um ambiente de baixo pH) mas que se dissolverão no intestino (que tem um elevado pH); ou as pílulas podem ser fabricadas para flutuar no suco gástrico, assim, estendendo seu tempo no estômago (Jantzen e Robinson, 2002). Em muitos casos, o próprio intestino não é o alvo de ação terapêutica; a droga está sendo liberada no corpo a alguma distância de seu local pretendido de ação (Katzung, 2001). As vias do intestino ao local alvo são muitas vezes sinuosas e são estas vias que tem atraído o meu interesse crítico.

            Uma droga como um antidepressivo que é projetada para o sistema nervoso central (SNC) deve primeiro passar pelo lúmen intestinal dentro da corrente sanguínea. Uma vez que tenha passado através da mucosa intestinal, a droga é transportada através da veia portal ao fígado, no qual as enzimas removem uma certa quantidade da droga (isto é chamado de clearance de primeira passagem). A partir do fígado, a porcentagem remanescente da droga se move pela circulação geral (sistêmica) no corpo, na qual ela é distribuída dentro do fluido e entre as células dos tecidos e órgãos do corpo. O cérebro é alvejado rapidamente, assim como o fígado, os rins e outros órgãos que são bem irrigados com sangue. Eventualmente (isso pode levar independente do órgão de vários minutos a várias horas), o tecido muscular, as demais vísceras, a pele e a gordura corporal serão também infundidos na droga (Wilkinson, 2001) [7]. A itinerância fisiológica de um antidepressivo permanece em cada órgão do corpo; por isto não se pode perguntar sobre os efeitos dos antidepressivos nestes outros locais?

            A passagem de uma droga a partir da circulação sistêmica para o cérebro é também um processo muito elaborado. O cérebro está protegido por uma barreira (a barreira hematoencefálica) que previne o trânsito de moléculas maiores e solutos potencialmente tóxicos do sangue para o cérebro (Begley, 2003). A serotonina, por exemplo, não pode passar a barreira hematoencefálica (ela é muito grande). Apesar de existirem reservas significantes de serotonina no resto do corpo [8], o cérebro deve sintetizar sua própria serotonina a partir de outras moléculas que são capazes de atravessar a barreira hematoencefálica. Colocando isto em uma forma cotidiana: é impossível aumentar os níveis de serotonina no cérebro simplesmente ingerindo mais serotonina. Uma das formas em que a barreira hematoencefálica funciona é simplesmente obstrutiva – as células que constituem as paredes dos capilares do cérebro são hermeticamente encapsuladas juntas de tal forma que as drogas não são capazes de passar entre essas células e o tecido cerebral (como fariam em outras partes do corpo): “A barreira hematoencefálica é o único fator mais significativo limitando a disponibilização da droga no SNC” (Begley, 2003, pág. 85). Impedidas de passar entre as células, as drogas devem passar através das células e ao fazê-lo, elas requerem alguma assistência a partir de um sistema químico de transporte. Um dos métodos mais amplamente usados para se obter drogas que cruzem a barreira hematoencefálica é torná-las solúveis em lipídios (Wilkinson, 2001) [9]. Os ISRSs (Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina) são pequenas moléculas que são lipofílicas e que prontamente passam através a barreira hematoencefálica (Brosen e Rasmussen, 1996).

            Uma vez dentro do cérebro, imagina-se que os ISRSs aumentem a quantidade de serotonina que está disponível para os neurotransmissores (ao inibir a sua recaptura na sinapse); e por sua vez, credita-se que este aumento na serotonina eleve o humor. Tem sido convencional (tanto nos textos biopsiquiátricos quanto nas literaturas críticas que se agitam contra eles) enfocar sobre este destino particular de um antidepressivo – como se a sinapse cerebral fosse um antidepressivo natural ou o mais importante deles na prática. Meu interesse tem sido desviado para outros lugares – aos muitos locais e processos biológicos implicados na ingestão de um comprimido antidepressivo [10].

Corpo e Cérebro

            Existem duas questões que eu gostaria de tirar destes dados que podem ajudar a informar as teorias feministas de corpo e mente.

            Em primeiro lugar, as drogas atuam com todo o corpo. Enquanto que os antidepressivos se destinam ao cérebro, os seus efeitos terapêuticos são recolhidos a partir de uma grande variedade de respostas em outros órgãos. Dado que ISRSs e IRSNs são amplamente distribuídos no corpo pela circulação sistêmica e que eles atuam efetivamente sobre as sinapses no SNC, parece provável que eles estão também alcançando as sinapses dos nervos no sistema nervoso periférico, especialmente o intestino. Qualquer alívio farmacêutico da sintomatologia distímica, então, não pode ser atribuído unicamente aos efeitos nas estruturas corticais e subcorticais no cérebro; ele deve também incluir os efeitos calmantes e de vitalização nas vísceras (Wilson, 2004a, 2004b). Os dados farmacocinéticos apoiam os modelos de corpo em que linhas simples de causa e efeito (drogas para o cérebro ao humor) são refratadas e estes dados são imensamente valiosos para o feminismo conforme ele argumenta por relatos mais dinâmicos e expansivos dos estados psíquicos incorporados.

            Apesar de o intestino não ser mencionado como um local alvo para a ação dos ISRS nos textos psiquiátricos e farmacológicos, o tratamento farmacêutico efetivo da depressão exige o envolvimento com a periferia orgânica (especialmente o intestino) assim como o cérebro. Talvez porque o intestino é o sistema de entrega destas drogas, considerado simplesmente como um canal para a ação da droga e não como um participante em seus efeitos terapêuticos. Os esquemas conceituais que privilegiam o centro sobre a periferia ou que desenha distinções radicais entre agentes (ativos) e vasos (passivos) tem sido o alvo da intervenção feminista atual [11]. Se as ciências neurológicas e farmacológicas têm sido locais particularmente convincentes para reforçar estas estruturas conceituais problemáticas, não parece ser, apesar do dado que elas estão gerando, por causa delas.  De fato, os dados neurológicos e farmacocinéticos sobre os antidepressivos indicam enfaticamente que o corpo, como um todo, está implicado nos estados depressivos. As vísceras não são meras estações de transferência para agentes que terão seus efeitos em outro lugar. Ao invés disso, o fígado e o intestino fornecem o tom bioafetivo das depressões: se nossas depressões são agitadas, soporíferas, raivosas ou anorexígenas, este fato é devido, em grande parte, à atitude dos órgãos viscerais.

            De fato, o diagnóstico psiquiátrico formal da depressão distímica é muito dependente da sintomatologia somática (ver nota 5). A distimia pode ser diagnosticada quando dois ou mais dos seguintes sintomas estão presentes: falta de apetite ou gula; insônia ou hipersônia; fatiga; baixa auto-estima; dificuldade de concentração ou dificuldade em tomar decisões; sentimentos de desesperança. Existem debates sobre se os sintomas da desordem distímica no DSM-IV serem muito  relacionados ao distúrbio somático:

            Vários estudos (incluindo os testes de campo do DSM-IV) sugerem que o Transtorno Distímico pode ser melhor caracterizado por uma ampla gama de sintomas cognitivos e interpessoais, especialmente os seguintes: perda generalizada de interesse ou prazer; retraimento social; sentimentos de culpa; saudosismo; sentimentos subjetivos de irritabilidade ou raiva excessiva; e efetiva diminuição de atividade ou produtividade. O Grupo de Trabalho sobre os Transtornos de Humor do DSM-IV era especialmente conservador e decidiu que existia evidencia insuficiente para justificar uma mudança nos sintomas do Transtorno Distímico (First, Frances e Pincus, 2004, pág. 203).

            Embora seja louvável que o DSM descreva os sintomas da depressão de uma forma tão exaustiva quanto possível, a ênfase atual (conservadora) sobre a perturbação somática tem a vantagem de manter a visibilidade da periferia orgânica e que ela retém a memória das condições neuróticas e histéricas que têm sido gradualmente removidas do DSM. O acréscimo de sintomas mais cognitivos não necessita de ampliação ou remodelação do aparelho conceitual do DSM – isto pode ter o efeito de enraizar ainda mais as tendências centradas no cérebro e na consciência da psiquiatria biológica. Isto também mudaria a prática da psiquiatria para ainda mais longe dos tratamentos psicodinamicamente orientados rumo a tratamentos cognitivo-comportamentais de curto prazo. A importância de se reter algum interesse no conhecimento psico-analítico quando envolvido com antidepressivos é algo que voltarei na seção final deste ensaio.

            A segunda questão que eu gostaria de considerar nos dados farmacocinéticos diz respeito ao cérebro e sua interface com os sistemas extracerebrais. Quão isolado e autocrático é o cérebro? As bases biológicas dos estados distímicos são exclusivamente cerebrais? As descrições neurológicas e farmacológicas da barreira hematoencefálica (BHE) parecem salientar o sequestro do cérebro:

            O propósito da BHE é duplo. Em primeiro lugar, o ambiente interno do cérebro, a composição do fluido intersticial cerebral (FIC) e do fluido cérebro espinhal (FCE) tem de ser controlada dentro de limites estreitamente sutis, muito mais do que do fluido extracelular somático, de modo que os neurônios possam desempenhar suas complexas funções integradoras… Alguns aminoácidos no sangue, que estão presentes em altas concentrações, tais como a glicina, glutamato e aspartato, são potentes neurotransmissores excitatórios no SNC e seus níveis no fluido extracelular cerebral devem ser controlados de forma muito precisa. As sinapses neuronais centrais exigem este pano de fundo bastante estável contra o qual funcionar. Em segundo lugar, uma função importante da BHE é a neuroproteção. Ao longo da vida, o SNC será exposto a uma ampla gama de metabólitos neurotóxicos e xenobióticos adquiridos, que podem causar lesão e morte celular (Begley, 2003, pág. 84).

            Tais noções de cérebro como um órgão autônomo e autocontido são suficientemente comuns tanto no imaginário científico quanto no popular. No entanto, o dado farmacológico sobre a barreira hematoencefálica elucida não simplesmente a natureza defensiva da barreira, mas também sua função como um sistema de comunicação com o lado de fora. Conforme nós seguimos estes dados, encontramos que o cérebro está sempre necessariamente implicado nas relações com outros órgãos e outros sistemas extracorporais. A barreira hematoencefálica é um local particularmente intensivo para aquelas transmissões xenobióticas. Por exemplo, o cérebro não fabrica internamente e de forma independente do corpo a serotonina. Ao invés disso, as sínteses de serotonina exigem a troca em curso entre o cérebro e o intestino, e o meio cultural. O bloco básico de construção da serotonina é o triptofano, um aminoácido que é suficientemente pequeno para cruzar a barreira hematoencefálica. O triptofano é um aminoácido essencial, o que significa que ele não pode ser produzido pelo corpo – ele deve ser incorporado ao corpo como parte da dieta. Chocolate, banana, leite, carne e peixe são todos repletos de triptofano. Uma vez que o triptofano tenha sido absorvido pelo intestino, passado pelo fígado e liberado na circulação sistêmica, ele cruza a barreira hematoencefálica no SNC, na qual a serotonina é sintetizada em um processo de duas etapas: o triptofano é convertido em 5-hidroxitriptofano (5-HTF) e este é convertido em 5-hidroxitriptamina (5-HT ou serotonina). A serotonina é então transportada para os terminais finais das células nervosas, onde é usada como um meio de transmissão através da fenda sináptica (Marsden, 1996; Yuwiler, Brammer, e Yuwiler, 1994).

            A produção da serotonina no SNC é dificultada ainda mais pela quantidade de carboidrato que é ingerido na dieta. O triptofano compete com outros aminoácidos conforme eles cruzam a barreira hematoencefálica. O transportador que carrega os aminoácidos através da barreira hematoencefálica é limitado em capacidade e a captação de triptofano pode apenas ser uma porcentagem de todo o trânsito de aminoácidos. No entanto, se a dieta é cheia de carboidratos (pão, bolo, sorvete), o corpo produzirá insulina a fim de controlar o açúcar elevado no sangue. A insulina removerá a maioria dos outros aminoácidos do sangue, reduzindo a competição na barreira hematoencefálica e permitindo uma quantidade desproporcional de triptofano passar do sangue para o cérebro (Wurtman et al., 2003) [12]. Isto significa que o nível de serotonina no cérebro é dependente de uma variedade de sistemas extracerebrais, por exemplo, enzimas no fígado, as condições no lúmen intestinal, e as circunstâncias culturais e comportamentais que conduzem a dieta. Nenhum destes sistemas coordena inteiramente o tráfico de serotonina. Em vez disso, a atividade serotoninérgica é uma rede de relações entre órgãos e entre sistemas biológicos e culturais.

            É o meu argumento de que qualquer regulação do sistema serotoninérgico – incluindo a ingestão de ISRSs para regular o humor – precisa entender esta lógica de rede de trabalho a fim de ser bem sucedida. Estreitar demais o foco sobre o cérebro como a única fonte biológica da doença psicológica obstruirá as linhas de conexão que ligam órgão a órgão e que sustentam a possibilidade biológica de recuperação. Para emprestar de Winnicott – não existe tal coisa como o cérebro; existe sempre o cérebro e outro sistema [13]. A desintegração biológica do humor é uma avaria, não do próprio cérebro, do fígado ou do intestino, mas das relações entre órgãos. O tratamento farmacêutico da depressão tem de ser gerido – não de um lugar ou de um centro ou até mesmo uma via neurológica – mas de uma capacidade orgânica de conexão. Quando eles atuam, os ISRSs reiteram as redes de atuação serotoninérgicas que atravessam o corpo e elas reanimam as afinidades entre os órgãos. Efetivamente administrados, os ISRSs podem promover uma profunda empatia orgânica de longa duração.

Biologia e Transferência

Nós podemos tratar um neurótico de qualquer maneira que quisermos, ele sempre se trata psicoterapeuticamente, isto é, com transferências.

- Sándor Ferenczi, 1909

            Em uma de suas histórias de caso, Peter Kramer (1993) examina uma paciente (Lucy) que foi ajudada enormemente tanto pela psicoterapia quanto pelos antidepressivos ISRS. Através da psicoterapia, Lucy obteve certa quantidade de insights sobre os princípios emocionais que organizavam a sua experiência de mundo – ela era muito sensível à rejeição e ela podia algumas vezes se comportar de modo autodestrutivo. Apesar do sucesso da aliança terapêutica com Kramer, haviam partes desesperadas de sua constituição emocional que a psicoterapia não podia mover. Durante um período particularmente angustiante, Kramer prescreveu Prozac e inicialmente Lucy respondeu bem. A droga parecia estabilizar suas relações para estudar e se relacionar com seu namorado, deixando-a mais conectada com o mundo e mais fisicamente robusta como uma consequência. Então, como outros pacientes, ela começou a se sentir agitada e afinal se decidiu que ela deveria interromper o uso de Prozac. Kramer relata que ele poderia ter prescrito à Lucy outra droga, exceto que ela continuasse a melhorar sem medicação adicional. Esse período breve com o Prozac parece ter proporcionado um insight à Lucy: “Nós podemos dizer que a medicação agiu como uma interpretação na psicoterapia” (Kramer, 1993, pág. 103). Ou seja, Lucy estava contida e reorientada pela medicação de um modo não diferente daquele proporcionado pela interpretação psicoterapêutica enpaticamente baseada. De fato, para Kramer, a ação de medicar e interpretar são amplamente homólogas:

            É agora algumas vezes possível usar medicamento para se fazer o que só era possível com a psicoterapia – chegar a uma pessoa e alterar um elemento particular da personalidade. Em se decidindo em fazê-lo, o psicofarmacologista deve confiar em habilidades que nós normalmente associamos com a psicoterapia ( Kramer, 1993, pág. 97).

            Tem sido usual ver a medicação e a psicoterapia como relacionadas de forma agonística. As batalhas políticas sobre o tratamento da depressão muitas vezes descem a uma disputa sobre qual destes métodos é o mais efetivo (psicologicamente e/ou economicamente). Estou usando Kramer para me mover numa direção diferente: para destacar a afinidade entre os registros biológicos e os psicológicos. Se o psicofarmacologista bem sucedido precisa agir como o psicoterapeuta sintonizado e se o insight emocional pode ser obtido somaticamente, isso implica não apenas uma similaridade estrutural entre estes processos, mas uma convivência íntima do bioquímico e do psicológico. A intervenção em um registro vai reorganizar os padrões de organização em outro registro, não porque um determina o outro, mas porque os dois registros são ontologicamente congênitos. Como eu comecei a sugerir acima, existe uma relação de simpatia entre palavras e comprimidos: o empático e o orgânico são organizados de acordo com o sentimento de solidariedade [14]. Para colocar a questão um pouco diferente: as interpretações não são eventos confinados a um encontro psicológico (ou cognitivo). Nem são simplesmente ações que um sistema cognitivo pode inspecionar  em um sistema somático (um tipo simplista de sugestão psicosomática). A biologia pode também decifrar, analisar e avaliar. As ruminações da parede do intestino, as ações do fígado conforme ele extrai certa porcentagem de um antidepressivo do sangue, a análise dos aminoácidos na barreira hematoencefálica – estes são momentos do corpo testar as suas necessidades e limitações. Se Lucy pode ser contida e tomada mais emocionalmente robusta por um período de curta duração de Prozac, é porque as capacidades interpretativas de sua biologia e sua psique são semelhantes.

            Estas noções são suportadas pela pesquisa empírica hegemônica no tratamento da depressão. Há duas descobertas muito robustas nesta literatura. Primeiro, a combinação da intervenção farmacêutica e psicoterapêutica parecem atuar melhor (em média) que o tratamento com os produtos farmacêuticos ou terapia sozinhos (de Jonghe et al., 2001; Keller et al., 2000; Pampallona et al., 2004; Thase et al., 1997). Os efeitos de um parecem amplificar ou fortalecer os efeitos do outro. A escolha entre Freud e Prozac, entre a conversa e a ingestão, é transformada em menos ideológica e medicamente definitiva que temos sido levadas a acreditar nos anos pós-guerra, pós-Freud, pró-farmacêuticos do século XX. A psicanálise e psicofarmacologia não são ideologias em competição pela doença depressiva – elas são linhas diferentes de ataque ao mesmo sistema bioafetivo. Qual linha de ataque, por quanto tempo e a que nível de intensidade é uma questão para cada indivíduo em consulta a seu profissional de saúde mental e de acordo com as circunstâncias, ansiedades e preferências emocionais do paciente e o quadro de tratamento do profissional. Não é uma questão de princípio ou política que pode ser julgada com antecendência (e por esta razão é extremamente difícil para aqueles que não atuam na linha de frente psicológica saberem se, ou não,  os antidepressivos estão sendo usados em excesso). Os debates pró-Freud/anti-Freud, pró-drogas/antidrogas que têm ocupado o campo político desde o movimento antipsiquiatria dos anos 1960 estão se tornando menos eficazes conforme vemos a crescente sofisticação (e crescente colaboração) na pesquisa psicodinâmica e psicofarmacológica. Nos próximos anos, a diferença entre tratar a depressão bioquimicamente e tratá-la psicologicamente pode ser menos polêmica do que se supõe atualmente. Com este futuro em mente, um desejo por uma grande variedade de recursos para tratar a depressão leve ou moderada não precisa ser também um grito contra os produtos psicofarmacológicos [15].

            O segundo maior achado na literatura de pesquisa é que talvez a variável mais importante em predizer um resultado psicoterapêutico bem sucedido para a depressão não é o modo do tratamento psicológico (ou seja, terapia cognitiva versus terapia psicodinâmica), mas a qualidade da relação que a terapia proporciona (Hovarth e Asymonds, 1991; Klein et al., 2003; Krupnick et al., 1996; Martin, Garske, e Davis, 2000). Independentemente do fato do clínico ser cognitivamente ou psicodinamicamente orientado, se uma forte aliança de trabalho é formada entre o clínico e o paciente, podemos esperar um resultado melhor do que a média. Para colocá-lo de forma psicanalítica: é a transferência que cura.

            As definições de transferência têm mudado consideravelmente desde a sua clássica formulação inicial. Para Freud, a transferência era um caso unilateral – o paciente transfere memórias antigas para o analista: “[Transferências] são novas edições ou fac-símiles dos impulsos e das fantasias que são despertadas e tornadas conscientes durante o progresso da análise… Elas substituem uma pessoa anterior pela pessoa do médico” (Freud, 1905, pág. 116). Ele inicialmente pensava que a transferência era um obstáculo ao tratamento; era uma distorção da realidade que o paciente implantava inconscientemente no serviço da resistência. Mas depois ele veio a vê-la também como “o instrumento terapêutico mais poderoso” (Freud, 1923, pág. 247). Esta última mudança (juntamente com formulações mais sofisticadas de contratransferência) abriu o caminho para muitos dos pós-Freudianos (por exemplo, Heinz Kohut, Michael Balint) reconfigurarem a transferência como um relacionamento. Isto ampliou a base do tratamento psicanalítico da clássica transferência da neurose (ou seja, fobias, histerias e neuroses obsessivas) e tem facilitado o tratamento do que Freud chamou de neurose narcisista (ou seja, melancolia, doença maníaco-depressiva) assim como a fragmentação psicótica dos transtornos de personalidade. Nestas formulações contemporâneas, a transferência não é simplesmente a revivificação de uma relação passada; é uma afinidade específica para a dupla analítica que exige atenção em seu próprio direito:

            A abordagem relacional que estou defendendo enxerga a relação paciente-analista como continuamente estabelecida e restabelecida através da influencia mútua em curso em que tanto o paciente quanto o analista sistematicamente afetam e são afetados, um pelo outro. Um processo de comunicação é estabelecido entre o paciente e o analista em que a influência flui em ambas as direções (Aron, 1991, pág. 248).

 

            O que cura a depressão, nos modos e tratamentos clássicos e contemporâneos, é uma intervenção nos padrões de relacionamento do paciente. Na depressão, estes padrões de relacionamento são geralmente dominados pela perda: pelo choque das perdas reais através da morte ou do estranhamento, pela expectativa incessante da perda devido ao cuidado subótimo ou por uma ansiedade que as próprias demandas agressivas irão instigar a perda. O objetivo de trabalhar em uma transferência bem-sucedida é restabelecer a capacidade psíquica pela conexão que foi rompida por uma perda súbita ou talvez nunca estabelecida de forma apropriada devido às perdas precoces crônicas. A transferência clínica é uma invenção provisória de uma robusta relação na esperança de que isto irá eventualmente se tornar autossustentada e autopropagada.

 

            Este segundo achado de pesquisa (os efeitos curadores da transferência) ajuda a explicar o primeiro achado de pesquisa (a montagem cooperada bem sucedida das terapias farmacológica e da fala). Ou seja, a imbricação bem sucedida dos tratamentos biológico e psicológico da depressão se deve a consanguinidade de seus métodos; ambos são capazes de animar através da empatia e, assim, fomentar uma conexão orgânica e emocional robusta. O efeito de amplificação que a medicação farmacêutica tem tido na relação clínica (“podemos dizer que a medicação age como uma interpretação”) sugere que as transferências operam nos registros biológicos assim como psicológicos. O relacionamento orgânico fomentado pela medicação antidepressiva (a qualidade da relação entre, digamos, o cérebro e o intestino) ressoa com a conexão emocional que um forte relacionamento clínico pode fornecer. A fala pode fortalecer a conexão orgânica e as drogas podem facilitar a afinidade intersubjetiva porque os reinos orgânico e psíquico compartilham uma lógica relacional (transferencial). As repartições na distimia, tais como a fadiga, pouco apetite, culpa e desesperança são o resultado de perdas – não de objetos e órgãos em si – mas de relações com objetos e órgãos. Segue-se, então, que os estados distímicos podem ser melhorados com mais sucesso restaurando o relacionamento tanto no registro emocional quanto orgânico.

 

            Este ensaio é uma tentativa de fomentar o sentimento pelo orgânico na escrita acadêmica feminista. Sem dúvida, o deslocamento precoce do feminismo oriundo de dados e teorias biológicas foi um gesto político brilhante e indispensável. Nos últimos anos, no entanto, a constituição das fundamentações da política feminista como axiomaticamente antibiológica tornou-se demasiado restritiva. Ao se envolver tão pouco com as vicissitudes dos sistemas biológicos, o feminismo está se fechando para uma fonte vibrante de agência e energia política. Os projetos feministas que interrogam o caráter heterodoxo dos órgãos do corpo – projetos que apoiam e amplificam os dados biológicos – podem fornecer agora, uma base vital para o feminismo. Tem sido meu argumento aqui que a empatia pela biologia pode gerar novas maneiras de pensar sobre a natureza da depressão e as políticas de seu tratamento. Os dados psicofarmacológicos sobre a ação dos antidepressivos, sobre o metabolismo da serotonina e sobre o tráfego entre os órgão do corpo demonstram sistemas sofisticados de organização somática.

            O interesse nas vicissitudes do sistema serotoninérgico não significa o cumprimento da retórica e política da Big Pharma, no entanto. De fato, ao invés de dar os domínios da bioquímica e da neurofisiologia a estes interesses corporativos como sua legítima propriedade, a curiosidade sobre a farmacologia do humor pode recapturar a biologia para o feminismo. Um feminismo assim informado sobre o caráter da substância biológica estará melhor equipado para se envolver com a cena psicofarmacêutica contemporânea.

Notas

[1] A nova geração de antidepressivos inclui os inibidores seletivos de recaptura de serotonina (ISRS) Prozac/fluoxetina/Zoloft/sertralina, Paxil/paroxetina, Celexa/citalopram e Luvox/fluvoxamina. Assim como os ISRSs, existem os novos antidepressivos “atípicos” que vieram para o mercado estadunidense por volta do mesmo período: Serzone/nefazodone, Effexor/venlafaxina, e Wellbutrina/bupropiona. Estas drogas são mais heterogêneas em sua ação farmacológica – elas são menos específicas ao sistema serotoninérgico e agem em outros sistemas de neurotransmissores, especificamente a noraepinefrina (Potter e Hollister, 2001). Eles são algumas vezes chamados de antidepressivos de terceira geração, heterocíclicos ou inibidores da recaptura de serotonina-noraepinefrina (IRSN). Nikolas Rose (2003) estima um aumento de 1300% das prescrições nos Estados Unidos de ISRS e produtos farmacêuticos relacionados de 1990 a 2000.

[2] Para análises feministas do Prozac e da biopsiquiatria semelhantemente orientadas, ver Blum e Stracuzzi (2004), Nicki (2001) e Zita (1998). Como Metzl observa, o comentário crítico sobre o Prozac é agora extensivo (“uma forma tão generalizada que ameaça ser genérica juntamente com a medicação” (2003, pág. 166). Entre os mais influentes destes comentários estão: Breggin e Breggin (1994), Elliot e Chambers (2004), Fee (2000), Gardiner (1995), Kramer (1993, 2005), Healy (1997, 2004), Hastings Center Report (vol. 30, n. 2, 2000), a edição especial do Journal of Medical Humanities sobre os estudos culturais da psiquiatria (vol. 24, edição 1-2, 2003), Masters e McGuire (1994), Rose (2003), e Solomon (2001). O astuto trabalho feminista de Mariam Fraser (2001) e Jonathan Metzl (2003) sobre o Prozac, e Jennifer Radden (2003) e Juliana Schiesari (1992) sobre a depressão, têm sido particularmente úteis para os argumentos que eu faço neste ensaio.

[3] O mais lidos destes são o Prozac Nation (1995) de Elizabeth Wursztel, Prozac Highway (1997) de Persimmon Blackbridge e o Prozac Diary (1998) de Lauren Slater.

[4] Estou usando a desconstrução aqui em dois sentidos muito diferentes. Por “a desconstrução da biologia”, me refiro ao sentido agora prevalente de desconstrução como um método para se encontrar a falha: o Oxford English Dictionary caracteriza a desconstrução como um meio de “expor suposições metafísicas inquestionáveis e as contradições internas”. Neste sentido, a desconstrução da biologia seria uma exposição das formas em que os conhecimentos biológicos são construídos com estruturas binárias convencionais; estou menos interessada nesta rota. O meu segundo sentido de desconstrução (“a biologia desconstrói”) enfoca sobre a natureza dinâmica dos processos biológicos. Como a biologia envolve, dissemina, fabrica e cruza? Este último uso da desconstrução, que é colocado para fora em detalhe em Wilson (1998), subscreve as análises empreendidas neste ensaio.

[5] Eu limito as minhas análises aqui ao tratamento da distimia – a depressão persistente e de baixo nível:

            A característica essencial do Transtorno Distímico é um humor cronicamente depressivo que ocorre na maioria dos dias por pelo menos 2 anos (Critério A). Os indivíduos com o Transtorno Distímico descrevem o seu humor como triste ou “como se eles estivesse no lixo”. Nas crianças, o humor pode ser irritável ao invés de depressivo e a duração mínima exigida é de apenas 1 ano. Durante os períodos de humor depressivo, pelo menos dois dos seguintes sintomas adicionais estão presentes: falta de apetite ou gula, insônia ou hipersônia, baixa energia ou fadiga, baixa auto-estima, falta de concentração ou dificuldade de tomar decisões, e sentimentos de desesperança (Critério B). Os indivíduos podem observar a presença proeminente de baixo interesse e autocrítica, muitas vezes se vendo como desinteressantes ou incapazes. Como estes sintomas tornaram-se uma parte muito importante da experiência do dia a dia do indivíduo (isto é, “eu sempre fui assim”, “é assim que eu sou”), essas respostas não são muitas vezes relatadas, a menos que diretamente perguntadas pelo entrevistador. (Associação Americana de Psiquiatria, pág. 376-77).

            O Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM) IV-TR distingue entre o Transtorno Distímico e o Transtorno da Depressão de Maior Intensidade em termos de “gravidade, cronicidade e persistência” (pág. 374). A distimia é menos grave, mas mais crônica e persistente que o Transtorno da Depressão de Maior Intensidade. Ela foi introduzida pela primeira vez como um transtorno de humor no DSM-III em 1980 e, até o DSM-IV em 1994, ela era também conhecida como neurose depressiva. É um aumento no diagnóstico da distimia que tem acompanhado o crescimento fenomenal no uso de antidepressivo desde 1989.

[6] O Prozac/Fluoxetina é também fabricado na forma líquida. Os outros ISRSs e os antidepressivos atípicos são apenas fabricados na forma oral (Porter e Hollister, 2001). Alguns dos antidepressivos tricíclicos bem estabelecidos (por exemplo, Elavil/amitriptylina e Tofranil/imipramina) podem ser administrados por injeção: “A administração intramuscular de alguns antidepressivos tricíclicos (notavelmente amitriptylina e clomipramina [Anafranil]) pode ser feita sob circunstâncias especiais, particularmente com pacientes gravemente deprimidos e anoréxicos que podem recusar a medicação oral ou a eletroconvulsoterapia (ECT – electroconvulsive therapy)” (Baldessarini, 2001, pág. 463).

[7] Este circuito não é o mesmo para cada antidepressivo, tornando as diferenças entre as drogas uma questão significativa, bioquímica e fisiologicamente. Cada um dos ISRSs varia em termos do quanto da droga alcança a circulação sistêmica depois de ter passado através do lúmen intestinal e através do fígado – isto é chamado de biodisponibilidade da droga. A biodisponibilidade de uma droga administrada oralmente é medida como a porcentagem da biodisponibilidade da mesma droga se ela tivesse sido administrada de forma intravenosa. Por definição, uma droga IV administrada tem uma biodisponibilidade de 100 por cento, uma vez que ela evita tanto o intestino quanto o fígado e está plenamente disponível no sangue. Geralmente são fornecidas doses intravenosas e orais da droga a um grupo de pacientes em ocasiões separadas: a biodisponibilidade da formulação oral é simplesmente calculada como uma proporção da quantidade disponível quando administrada de forma intravenosa. A biodisponibilidade do Paxil/paroxetina é cerca de 50 por cento, enquanto que o Prozac/fluoxetina tem uma biodisponibilidade razoavelmente alta (70 por cento). A Luvox/fluvoxamina é ainda mais alta (maior do que 90 por cento) (Porter e Hollister, 2001, pág. 502). As diferenças na biodisponibilidade são amplificadas ainda mais pelo fato de que os metabólitos dos ISRSs (por exemplo, as substâncias produzidas pelo metabolismo da droga no fígado e em outros locais) podem também ter efeitos antidepressivos: “A paroxetina [Paxil] e a fluvoxamina [Luvox] não produzem quaisquer metabólitos que, pelo menos nas doses terapêuticas, são susceptíveis de fazer uma contribuição significativa a seus efeitos farmacológicos. Em contraste, a fluoxetina [Prozac] e a citalopram [Celexa] produzem metabólitos farmacologicamente ativos cujas ações provavelmente contribuem para os efeitos antidepressivos do seu composto original” (Leonard, 1996, pág. 42). De fato, o metabólito da fluoxetina (norafluoxetina) é quatro vezes mais potente como um inibidor de recaptura da serotonina que a própria fluoxetina.

[8] Noventa e cinco por cento da serotonina do corpo está armazenada do lado de fora do SNC – no sangue e nas extensas redes de nervos que envolvem o intestino (Wilson, 2004b). De fato, a serotonina foi descoberta pela primeira vez no sangue, onde ela foi estudada como um vasoconstritor (assim, o nome sero-tonina: um agente do soro que afeta o tônus vascular). Há alguns anos atrás foi localizada no cérebro e aceita como uma substância neurotransmissora tanto no sistema central quanto o periférico (Gershon, 1998).

[9] Considere, por exemplo, os compostos relacionados morfina, codeína e heroína. A morfina tem uma absorção relativamente baixa através da barreira hematoencefálica. A codeína pode ser criada através de uma ligeira alteração da estrutura química da morfina (a substituição de um grupo hidroxila por um grupo metila). Isto aumenta a solubilidade lipídica e a absorção do cérebro é aumentada dez vezes. A lipidização adicional da coideína (a adição de dois grupos acetilas) cria a heroína, que tem 30 vezes de aumento de captação no cérebro (Begley, 2003). Embora as drogas possam ser injetadas diretamente no cérebro, este método tem um número de inconvenientes técnicos e não é muitas vezes usado clinicamente. O nariz pode ser uma forma efetiva de liberar as drogas diretamente no SNC: as drogas podem passar da mucosa nasal para o fluido cérebro-espinhal com relativa facilidade. Antibióticos, insulina, AZT e progesterona “têm todos sidos liberados no SNC de forma bem sucedida através da rota nasal” (2003, pág. 87).

[10] Para críticos como Peter Breggin (1994) esta distribuição do efeito antidepressivo além das estreitamente definidas vias serotoninérgicas no cérebro é um dos sinais de que as drogas como o Prozac são substâncias tóxicas. Em primeira instância, ele perturba a seletividade dos antidepressivos ISRS:

 

            Os ISRSs, de fato, acabam impactando fortemente outros sistemas de neurotransmissores. O Prozac, por exemplo, foi demonstrado estimular indiretamente o sistema neurotransmissor adrenérgico, resultando em mudanças significativas e compensatórias generalizadas dentro dos receptores daquele sistema. Um dos efeitos secundários mais ameaçadores do Prozac… deve-se, provavelmente, pelo menos em parte, aos seus efeitos em outro neurotransmissor, a dopamina. (Breggin e Breggin, 1994, pág. 24)

 

            E ele vê esta disseminação dos efeitos da droga como um tipo de tirania:

 

            O Prozac demonstrou interferir com as funções da serotonina por todo o corpo, incluindo as plaquetas do sangue, respondendo em parte pela ampla variedade de efeitos colaterais.

 

            De forma geral, a linha promocional de Eli Lilly sobre os efeitos seletivos do Prozac sobre o sistema nervoso deveria ser visto com cautela e ceticismo. Ninguém prescrevendo ou recebendo a droga pode compreender plenamente o impacto global do Prozac sobre o cérebro e todo o corpo, porque isto está além de nosso atual entendimento científico (1994, pág. 26).

 

            Como qualquer droga, os antidepressivos podem gerar efeitos biológicos e psicológicos adversos. Os pacientes recebendo antidepressivos tricíclicos e IMAO (Inibidores da Monoamina Oxidase) podem relatar sintomas como boca seca, disfunção intestinal, constipação, ganho de peso, tontura, taquicardia, e retenção urinária. Os IMAOs também forçam os pacientes a hábitos alimentares bastante restritivos: alimentos comuns como o queijo podem gerar pressão arterial perigosamente alta, que em algumas instâncias tem sido fatal (Potter e Hollister, 2001). Os antidepressivos ISRSs e IRSNs têm poucos efeitos colaterais; e é isto, ao invés de qualquer aumento demonstrável na eficácia antidepressiva, que sustenta o seu sucesso terapêutico (Baldessarini, 2001). Alguns efeitos gastrointestinais são ainda evidentes com os novos antidepressivos e a disfunção sexual tem emergido como um problema comum com ISRSs específicos. Mais notoriamente, existem relatos de agitação aumentada e ideias suicidas com os novos antidepressivos, embora os dados relativos a estes eventos sejam ainda incertos e a situação política e legal permaneça acalorada (Healy, 2004).

 

            O trabalho de Breggin é politicamente sem efeito, na minha opinião, porque não usa esta disseminação do efeito da droga para repensar os modelos convencionais de relacionamento entre o substrato biológico e a doença psicológica. Além do mais, os efeitos alegadamente tóxicos dos antidepressivos não são menos esclarecedores que seus efeitos supostamente terapêuticos. Estes dados não podem provocar conjecturas sobre a natureza da função sexual ou dos padrões de sono ou da intenção suicida tais que eles possam ser reencaminhados por uma molécula? Se isso é simplesmente fácil de dizer que a psicologia é fabricada além do alcance da bioquímica ou que a psicologia é inteiramente prescrita pela bioquímica, então quais modelos de imbricação biofísica podemos começar a imaginar? Com a extensão que Breggin aceita um modelo muito convencional de linhas diretas e firmes de influência da droga ao comportamento (o Prozac me fez matar a minha esposa), ele é mais fiel à biopsiquiatria hegemônica do que ele supõe.

[11] O trabalho de Gayatri Chakravorty Spivak, por exemplo, tem sido muito influente na desconstrução feminista de centro e periferia (primeiro mundo/terceiro mundo), começando mais ferozmente com Spivak (1988). Ela tem argumentado que é “este desejo por um centro, uma pressão de autorização que gera oposições hierarquizadas. O termo superior pertence à presença e o logos; o inferior serve para definir seu status e marcar uma queda” (Spivak, 1976, 1xix). A importância do trabalho de Spivak reside em sua insistência (seguindo Derrida) de que nunca é suficiente simplesmente inverter estas estruturas conceituais (para privilegiar a periferia sobre o centro e colocar a questão em pausa). Em vez disso, estamos presos em um inquérito incessante de como cada termo em uma hierarquia informa, destrói e amplifica o outro.

 

            Evelyn Fox Keller (1995) explicita uma abordagem analítica similar em sua interpretação da embriologia do século XX. Ela observa que “muitos debates sobre a importância relativa do núcleo [centro] e do citoplasma [periferia] na herança inevitavelmente refletem os velhos debates sobre a importância relativa (ou atividade) das contribuições materna e paterna na reprodução, na qual a esmagadora tendência histórica tem sido a de atribuir atividade e força motriz à contribuição masculina enquanto relega a contribuição feminina ao papel do ambiente passivo e facilitador” (1995, pág. 39-40). Keller observa como os desenvolvimentos contemporâneos na biologia molecular complicam estas presunções convencionais; não simplesmente revertendo uma antiga dicotomia (atividade/passividade), os dados recentes revelam um sistema dinâmico de influência biológica: “Os resultados… não apontam nem para a determinação citoplasmática, nem a nuclear, mas sim para um sistema complexo e altamente coordenado de dinâmicas regulatórias que operam simultaneamente em todos os níveis: ao nível da ativação da transcrição, da tradução, da ativação proteica e da comunicação intracelular – no núcleo, no citoplasma, de fato no organismo como um todo” (1995, pág. 29-30). As análises do cérebro (centro) e intestino (periferia) que estou construindo aqui e em outros lugares (Wilson, 2004a) seguem esta mesma abordagem geral.

[12] Parecem existir ligações entre o desejo por carboidratos e depressões atípicas (por exemplo, transtorno afetivo sazonal, transtorno pré-menstrual). Moller (1992) sugere que “o excesso de consumo de carboidratos por pacientes com TPM (Tensão Pré-Menstrual) ou DAS (Desordem Afetiva Sazonal) reflete uma automedicação que temporariamente alivia os sintomas vegetativos [de depressão] através da atividade serotoninérgica central aumentada” (1992, pág. 61; ver também Fernstrom e Wurtman, 1971).

[13] “Uma vez arrisquei a observação, ‘Não há tal coisa como um bebê’ – significando que se você se propõe a descrever um bebê, você se encontrará descrevendo um bebê e alguém. Um bebê não pode existir sozinho, mas é essencialmente parte de um relacionamento” (Winnicott, 1964, pág. 88).

[14] O Oxford English Dictionary registra a etimologia de simpatia como originária do grego “ter sentimento de solidariedade” e dá como sua primeira definição de simpatia: “Uma afinidade (real ou suposta) entre certas coisas, em virtude da qual elas são similarmente e de forma correspondente afetadas pela mesma influência, afetam ou influenciam um ao outro (especialmente em alguma forma oculta) ou atraem ou tendem um para o outro”; e, em relação à patologia, uma “relação entre dois órgãos ou vias corporais (ou entre duas pessoas) tal que o transtorno, ou qualquer condição, de um induz uma condição correspondente no outro”.

[15] Este ponto se argumenta ainda mais em Wilson (2005).

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[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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Capítulo 12 – De Raça/Sexo/Etc à Glicose, Sonda de Alimentação e Luto: A Matéria em Deslocamento do Feminismo Chicana

Material Feminisms

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BOST, Suzanne. Capítulo 12 –De Raça/Sexo/Etc à Glicose, Sonda de Alimentação e Luto: A Matéria em Deslocamento do Feminismo Chicana. In: ALAIMO, Stacy e HEKMAN, Susan (ed.). Feminismos Materiais. Indiana University Press: Blooming & Indianapolis, pág. 340 – 372, 2008. - Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

A doença me concedeu um conjunto de experiências que, de outra forma, não seria acessível. Ela me libertou das rotinas que teriam me levado, de forma inconteste e inalterada, à morte discreta… A experiência tem também ratificado a minha convicção de que eu, e também você, somos inequivocamente constructos físicos, espetacularmente complicados.

- Inga Clendinnen, The Tiger´s Eye

            Quando Gloria Anzaldúa e Cherríe Moraga escreveram juntas pela primeira vez em This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color no final dos anos 1970, sua preocupação primária abordava as opressões simultâneas experimentadas pelas mulheres não-brancas ao longo dos eixos de raça, classe, sexo e sexualidade. Conforme elas desafiavam o sujeito masculinista do nacionalismo Chicano, estas escritoras se voltaram para a construção de coalizões e a colaboração editorial para localizarem a si mesmas na intersecção de múltiplas identificações sociopolíticas. Coleções como Bridge mudaram a crítica feminista em direção a uma maior sensibilidade aos modos em que a política de identidade feminista atravessa as diferenças raciais e sexuais. Uma limitação deste foco crítico é uma tendência míope de ver a identidade apenas em termos das categorias sociopolíticas existentes, especialmente raça e sexo, ao invés de imaginar novas formas de pensamento sobre identidade e novas bases para a formação de coalizões (como as necessidades físicas ou ambientes compartilhados que não são específicas de raça ou sexo). Além disso, desde esta mudança teórica de vinte e cinco anos atrás, as discussões de “raça/sexo/etc.” são cada vez mais superficiais: listas repetidas de forma mecânica, desculpas por não ter relatado como a heterogeneidade pode complicar um argumento e gestos não teorizados rumo à inclusão que não pensa de forma crítica sobre a bagunçada matéria corporal, psicológica e política de raça, sexo, ou o vazio “etc” [1]. A política de identidade muitas vezes protege sua fronteira ao não analisar os seus interiores.

            Em “Speaking Secrets: Living Chicana Theory”, Deena González critica as formas em que as análises feministas Chicanas da diferença tendem a estudar apenas as “fronteiras ou conflitos que residem entre as vozes das maiorias e minorias”, presumindo uma voz feminista Chicana unida e que evita as contradições internas a fim de combater a marginalização (1998, pág. 46-47). Para desafiar a reificação da “identidade feminista Chicana”, ela propõe “falar os segredos” sobre as diferenças, colocando as personalidades transgêneras e transexuais como um “contra-discurso a toda questão da identificação” (1998, pág. 56). E ainda, a fluidez das pessoas “trans” é suprimida conforme estas identidades são mobilizadas, codificadas e inscritas politicamente dentro de coalizões sexuais como o “LGBT”.

            O que aconteceria se pensássemos sobre a política em outros termos que não o da proteção de identidades? Em States of Injury, Wendy Brown explica como “ao se basear sobre o significado historicamente eclipsado de narrativas rompidas e fragmentadas de etnia, raça, gênero, sexualidade, região, continente ou nação… permite um sentido de situação – e muitas vezes um sentido de filiação ou comunidade – sem exigir uma compreensão profunda do mundo em que estamos situados” (1995, pág. 35). Em oposição à segurança nominal da política de identidade, ela propõe que os “nossos espaços [políticos], embora exijam alguma definição e proteção, não podem ser limpos, nitidamente delimitados, desincorporados ou permanentes: para se envolver com os modos pós-modernos de poder e honrar conhecimentos especificamente feministas, eles devem ser heterogêneos, itinerantes, relativamente não-institucionalizados e democráticos ao ponto de exaustão” (1995, pág. 50; ênfase no original).

            Eu encontrei este tipo de política aberta apenas nas obras mais recentes de Anzaldúa e Moraga (1981), que se separaram (em termos de gêneros, editores e esforços de colaboração) nos anos 1980. Após esta separação, contudo, ambas se voltaram de formas diferentes, mas igualmente materiais ao sujeito do feminismo Chicana. As experiências pessoais de doença, dor e tratamento médico levaram ambas a um foco cada vez mais aprofundado sobre o corpo. O ensaio de 2002 de Anzaldúa deixa claro que a diabetes que moldou a sua existência cotidiana também moldou seu pensamento e política. Os escritos de Moraga sobre dar a luz a um bebê prematuro e de viver toda a vida inicial dele na unidade de cuidado intensivo neonatal mudou também o foco de sua política de identidade. Tenho a convicção de que os seus escritos autobiográficos (muitas vezes ignorados) sobre seus corpos desvendados explicam o sujeito cada vez mais sem limites de suas políticas.

            Exames de ressonância magnética, microscópios, e testes de sangue veem o corpo além do que entendemos como identidade. A “matéria” que as lentes médicas revelam é um fluxo, imprevisível e tremendamente complexo. Os tecidos formados de formas variadas de corpos específicos alteram qualquer noção compartilhada de feminilidade, raça ou mesmo da própria saúde [2]. Este ensaio, então, examinará a matéria em deslocamento dos corpos no trabalho de Anzaldúa e Moraga, de doença e cuidado com saúde à morte e luto, para descobrir o que estes estados de fronteira corporal têm a oferecer no lugar da política de identidade. Para lançar luz sobre esta questão, eu convoco uma variedade de abordagens críticas: os estudos sobre as deficiências, o feminismo pós-moderno, a teoria queer, e os estudos culturais, conforme eles intersectam com os Estudos Chicana/o. Muitos críticos (incluindo, em alguns casos, eu mesma) se opõem a usar a “teoria branca” para os Estudos Chicana/o. O que eu espero revelar aqui é a falsidade da suposta oposição nesta oposição. Ou seja, as histórias de Anzaldúa e Moraga são também queer, sobre deficiências, teóricas e – com o grau com que estas múltiplas identificações são inseparáveis das fragmentações, tecnologias e circulações da pós-modernidade -  pós-modernas.

            Eu acho o trabalho de Linda Singer e Eve Sedgwick, ambas as quais estudaram as intersecções da AIDS e pós-modernidade e ambas as quais se voltaram cada vez mais ao material corporal quando os seus próprios corpos desenvolveram câncer, particularmente útil para este estudo. Eu considero as inesperadas identificações e relacionamentos forjados pela doença como uma fundação alternativa para a política: uma fundação que não é exatamente pós-identidade, mas que já não está investida nas fronteiras da identidade. Sedgwick observa com ambivalência as surpreendentes comunidades e dependências que acompanham o diagnóstico de AIDS, levando os sofredores “a confiar em tantas pessoas quanto possível com seu corpo e necessidade reais, as histórias de alguém sobre seu destino, os sonhos e fontes de informação ou hipóteses sobre doença, cura, negação, e violência estatal ou institucional que também estão investidas na doença” (1993, pág. 261). Assim como a doença altera o funcionamento externo e interno de um corpo, ela também desafia o lugar de alguém na sociedade, a natureza do relacionamento de alguém e as suas rotas de movimento.

            Eu espero que ao utilizar os estudos sobre deficiências ao feminismo Chicana se lance uma  nova luz sobre os sujeitos tradicionalmente vistos apenas através das lentes de raça/sexo/etc. Os estudos sobre as deficiências focam sobre as formas em que certos corpos são ex-cêntricos às expectativas sociais, construções legais e ideais culturais/sexuais. Como muito do feminismo Chicana inicial e, como a maioria das contribuições ao Bridge, a crítica dos estudos sobre a deficiência é dedicada à particularidade corporal e é frequentemente baseada nos corpos reais de seus autores. Embora esta abordagem funcione através de categorias sociopolíticas entrincheiradas, existe uma tensão entre a particularidade corporal e o conteúdo político da deficiência. Os ativistas da deficiência têm tradicionalmente promovido uma nova categoria de identidade, “pessoas com deficiência”, ao localizar um eixo adicional de opressão que opera em uma forma análoga ao racismo ou sexismo. Em termos práticos, localizar um sujeito deficiente tem ajudado a identificar as formas em que as sociedades excluem as pessoas com deficiência e têm ajudado a organizar as demandas pelos direitos em torno de coerentes “classes desfavorecidas”. Mas como com todo movimento baseado em identidade, as pessoas encarnadas reais com deficiências esforçam-se contra o conteúdo de sua condensação política imaginada. Talvez este esforço seja ainda mais dramático com uma categoria de identidade como “deficiência”, que é usada para descrever tanto o crônico quanto o temporário, o visível quanto o invisível, o mental e o físico, assim como as condições genéticas e induzidas por traumas. Em Bending Over Backwards, Lennard Davis sugere que esta “fundação maleável e trêmula” sobre a qual as políticas sobre deficiência têm sido construídas “podem ser o começo de um modo inteiramente novo de pensamento sobre as categorias de identidade” e a relação entre os corpos reais e o movimento político (2002, pág. 5).

            Em contraste ao centro corporal dos estudos sobre as deficiências, Linda Singer deliberadamente evita o seu próprio corpo (doente). No início do seu “Author´s Introduction” ao Erotic Welfare: Sexual Politics in the Age of Epidemic, Singer invoca a si mesma apenas como uma série de questões não-respondidas: “Quem eu sou e aonde eu estou escrevendo isto…? Porque a primeira pessoa a começar, quando a questão da identidade está em jogo…? Sou eu a professora associada… ? Ou sou a criança que aprendeu… ?” (1993, pág. 25). Este gesto estabelece a identidade como uma problemática central que escapa da solidez material, mantendo a complexidade da identidade ao manter a sua reclusão ao domínio especulativo da teoria.

            Poderíamos repetir esta complexidade sem se esquivar do corpo? A introdução de Judith Butler ao autoconsciente e um tanto culpado Erotic Welfare localiza o livro dentro do contexto do câncer de Singer e sua morte, uma contextualização necessária para explicar o estado inacabado do manuscrito, mas abertamente em desafio à própria inclinação de Singer rumo aos “discursos mais amplos, mais conceituais, teóricos, abstratos, visionários e especulativos sobre a relação entre sexo, poder e filosofia” (1993, pág. 25). No segundo parágrafo da introdução, Butler declara que “Linda Singer era contra o caráter personalista e confessional de alguns trabalhos nos estudos das mulheres” (1993, pág. 1). Esta obliteração estilizada do corpo de Singer é palpável através do Erotic Welfare, particularmente em seu capítulo final sobre a hospitalização, que é o único no livro a não usar a primeira pessoa “Eu”. Mesmo assim, Butler diz, num modo hiper-pessoal, “eu não posso escrever este texto sem deixar você, o leitor, conhecer alguma coisa sobre o tipo de pessoa que ela era, a partir de qual luta este trabalho emergiu e como ela contraiu a sua doença como uma ocasião para intensa especulação, crítica radical e uma conexão compreensiva com aqueles que sofrem de AIDS” (1993, pág. 1). Então, quando Butler então nos conta sobre o tempo de Singer no hospital, tratamentos particulares aos quais ela resistiu e a parafernália médica específica que ela necessitava, é, num modo bem Butleriano, uma performance estilizada e subversiva que torna Butler e Singer como atrizes (uma vez que as atrizes colocam os corpos reais “sob obliteração”) em um drama sobre os parâmetros da teoria feminista. “Linda Singer”, como abordado na introdução, age com um convincente papel encenado na resistência aos mecanismos de sujeição da medicina, de sua primeira admissão dramática ao hospital às suas últimas palavras recordando aquele momento, de acordo com a circularidade de tais narrativas.

            Como Anzaldúa e Moraga nos contam sobre seus próprios corpos, eles estão similarmente incorporados nas narrativas políticas, editadas, apesar da ilusão da proximidade criada pela descrição gráfica. Esta estratégia as permite encenar suas ideias com a questão. O que eu considero de Singer é o seu compromisso com as políticas pós-identidade, e eu disponho em camadas as suas formas teóricas provocantes com o conteúdo corporal da doença, racismo, sexismo e homofobia teorizada em Anzaldúa e Moraga. Para citar Singer, novamente: “É esta justaposição das nobres reivindicações e tropos da filosofia – verdade, conhecimento, lógica, ordem – com o movimento aleatório de contágio entre os próprios corpos suados uma heresia… ?” (1993, pág. 26). Anzaldúa e Moraga não só respondem “não” a esta questão, mas negariam qualquer oposição conceitual entre o movimento de forma aleatória, corpos suados e verdade/conhecimento/etc.

            Sedwick enquadra esta questão de um forma um pouco diferente, com maior disposição de deixar a teoria da reforma dos corpos:

            Como um princípio geral, eu não gosto da ideia de “aplicar” modelos teóricos a situações ou textos particulares – é sempre mais interessante quando a pressão de aplicação segue em ambas as direções – mas ao mesmo tempo é difícil não pensar nesta contínua experiência [câncer, cirurgia, quimioterapia, perda de cabelo] como, entre outras coisas, uma aventura na desconstrução aplicada. Como eu poderia ter chegado a uma demonstração mais eficiente das supostas oposições que estruturam uma experiência do “self”? (1993, pág. 12)

            Ao contrário de outros exemplos que se apresentaram a ela antes, a própria identidade dissecada da doença de Sedgwick, desconstruindo oposições entre “a parte e o todo”, “a segurança e o perigo”, “o natural e o tecnológico” sem centralizar qualquer eixo único de identidade – a não ser que a doença, em si, conte como tal eixo – como o componente definidor desta experiência. Com a possibilidade aberta de metástase, o câncer deixa o corpo em um “pânico interpretativo em queda livre” (1993, pág. 13). Claro, isto não é para se romantizar a doença como um ideal teórico. A tensão que Sedwick mantém entre teoria e corpo possui o desconforto físico e a possibilidade de morte sempre no centro. O Tendencies, em si, oscila entre teorias, corpos e artefatos culturais; e a inclusão de duas peças memoriais de amigos que morreram de AIDS, “Memorial for Craig Owens” e “White Glasses” (para Michael Lynch), perturba qualquer narrativa teórica suave com o cenário inquietante da morte. De fato, o trabalho de todos os quatro escritores é justaposto com tal pano de fundo: AIDS para Moraga, Singer e Sedgwick e as próprias mortes dos autores nos casos de Anzaldúa e Singer. Este pano de fundo mantém a questão da doença situada em um continuum com a morte. Em um sentido, ler estes escritores é um ato de luto ao mesmo tempo em que é um ato de interpretação, teorização e experiência senciente.

            As teorias corporais e o afeto no trabalho de Anzaldúa e Moraga são baseados na primeira cultura mexicana. Quando elas descrevem dor e doença, elas também invocam as antigas tradições mesoamericanas de sacrifício que tornam sagrados os estados de fronteira corporal (como dor, hemorragia e mudança de forma). Reivindicando descendência cultural dos astecas é um gesto comum no pensamento chicano/a, mas Anzaldúa e Moraga, ao contrário de seus antepassados nacionalistas chicanos, invocam não o ideal guerreiro asteca, mas a deusa fertilidade que também representa destruição, desmembramento, sexualidade e a mudança de forma. Em seu estudo compreensivo da antiga medicina asteca, Gonzalo Aguirre Beltrán escreve sobre as independências estabelecidas na sociedade asteca baseadas em crenças religiosas e na organização comunal da vida privada:

            Esta relación de dependencia que responde a la ansiedad resultante de un sentimiento de desamparo, de uma sensación de limitación de recursos, de falta de fortaleza y capacidad y qye es uma actitud de solicitación de ayuda, de apoyo y protección, tiñe todos los apartados de la medicina azteca. [Esta relação de dependência corresponde à ansiedade resultante de um sentimento de desempoderamento, de uma sensação de recursos limitados, de perda de força e capacidade e é uma atitude de buscar ajuda, apoio e proteção que afeta todos os aspectos da medicina asteca]. (Aguierre Beltrán, 1963, pág. 42-43).

            Os corpos possuem significados diferentes em uma cultura que valoriza a independência comunal e a intervenção divina mais do que os indivíduos. Transgredir os limites corporais tatuando, colocando piercing, sangrando e mudando de forma foram valorizados como chaves à divindade, à fertilidade e à consciência expandida – talvez porque eles visivelmente indicam tênues fronteiras humanas em relação ao outro e aos deuses. Rituais públicos centrados na punção dos corpos, liberando a sagrada força vital; o sacerdote muitas vezes esfolando a pele das vítimas sacrificadas, passando estas peles ao redor e as usando como símbolos de regeneração [3]. A transfiguração através do nagualismo permite aos humanos exteriorizar suas almas e encarnar outros seres. A “identidade” deve ser experimentada como fluida e potencialmente compartilhada ao invés de auto-interessada [4]. Eu apresento esta reverência pelo cruzamento de fronteiras como aquilo que permitiu Anzaldúa e Moraga construir a política feminista Chicana a partir do terreno movediço da doença, assistência médica e luto [5]. Estes entendimentos da Mesoamérica antiga fornecem uma maneira de sair das fronteiras identitárias que conturbaram Sedwick e Singer.

            A assistência à saúde contemporânea nos Estados Unidos se opõe de forma veemente à fluidez material. O Erotic Welfare de Singer estuda os discursos do “contágio” que cada vez mais regulam os corpos na era da AIDS. Em seu argumento, ao invés de cuidar dos que sofrem da doença, a cultura dominante tem, em vez disso, focado na quarentena, dividindo a população no normal e o patológico, o saudável e o “de alto risco”. Difamar o doente como que o constituído de fora de uma sociedade saudável envolve não prestar atenção ao conteúdo da doença, colocando fronteiras ao invés da cura, classificando-nos para manter o queer e o doente longe da família saudável mitologizada. Singer argumenta que esta lógica, derivada a partir das políticas sexuais e culturais da AIDS, têm declinado a regulação de toda doença, na verdade de todos os corpos, atualmente:

            Os grupos conservadores com uma gama de interesses tão diversos quanto aqueles de Lyndon Larouche e Jerry Falwell foram capazes de explorar a ansiedade que opera em condições de pragas como uma base de apoio não apenas para regular os corpos daqueles nos grupos de alto risco, como os gays e os usuários de drogas, cujos corpos são fetichizados como frascos de contágio e morte, mas também para controlar o processo pelo qual a vida é gerada, na forma de uma proposta de emenda constitucional contra o aborto, a limitação ao apoio para a educação sexual e a contracepção e as oposições ao desenvolvimento das tecnologias reprodutivas. (1993, pág. 31).

FIGURA: Coatlicue, fotografia original tirada no Museu Nacional de Antropologia, México, DF., 2005.

            Uma das questões primárias que eu quero considerar aqui é: podem os limites regulamentares desenhados em torno das mulheres e os “grupos de alto risco” ser discriminados ao enfocar sobre a complexidade material dos corpos reais? Estudar a matéria fluida da própria doença, em desafio dos discursos médico e cultural que demonizam tal matéria, problematizam as identidades e as distinções sob as quais tais fronteiras se baseiam. Substituindo a lógica do contágio com o cuidado e ao reformular a família como lésbicas Chicanas “de fora” com feridas abertas e doenças incuráveis, Anzaldúa e Moraga sangram além das fronteiras da identidade. Com base no modelo de Coatlicue, a deusa azteca da criação e destruição, permite a elas transcender as oposições, fundindo nascimento e morte, amor e luto. Com sua cabeça de serpente e seu colar de mãos, crânios e corações, Coatlicue fornece um modelo de corporalidade que excede a identidade individual.

Reinterpretando Anzaldúa

            Reinterpretando o Borderlands de Gloria Anzaldúa com o conhecimento de que ela sofreu de diabetes reformula a sua política de identidade. Acredito que a diabetes informou a obsessão com flutuação e equilíbrio em seus escritos sobre a formação da identidade mestiza: “Eu fico tonta e mentalmente nebulosa quando eu estou tendo uma hipoglicemia. Eu perco meu equilíbrio e caio. O refluxo gastrointestinal me faz vomitar e ter diarreia… Coisas como estas mudam sua imagem de si mesma, sua identidade” (2000b, pág. 289-90). O impulso teórico da consciência mestiza – sintetizando as diferenças sanguíneas e enganos – se torna concreto, imperativo e imediato com seringas e níveis de açúcar no sangue. O conteúdo da diabetes quebra a assumida fixidez de um corpo e a submete a uma intervenção externa. Lynda Hall interpreta Anzaldúa através de uma lente de “ameliorografia”, alegando que o corpo de seu trabalho reflete “os desejos para curar a si mesma” e “as tentativas de aliviar a dor pessoal como uma pessoa ‘alterizada’ (Hall, 2000, pág. 13). A doença de Anzaldúa complica (modifica, internaliza) esta designação de “alteridade”. O medo de se ter o interior irrompido em público impõe uma alteridade diferente daquela do racismo e sexismo. A alteridade assume a oposição binária, muitas vezes em torno de categorias de identidade singulares. Uma vez que os mapas da diabetes compartilham a incorporação através de assumidas identidades, Anzaldúa poderia ter-se visto dependente de um médico branco, indicado por uma comadre ou alienada de seu próprio eu – outro à alteridade.

            A passagem de Anzaldúa que Hall cita apoiar seu argumento passa a descrever “o dar sentido à dor” como um estado de ser suspenso, em vez de cura (Anzaldúa, 2000b, pág 276). Como Norma Alarcón sugere, em seu privilégio da “alteridade infinita”, migração e as “partes que nunca farão o seu todo”, Anzaldúa “arriscou a ‘condição patológica’ ao representar a não-linearidade e o rompimento com visão de desenvolvimento da autoinscrição” (Alarcón, 2003, pág. 362, 367). Embora possa ter feito os críticos mais confortáveis, o corpo autobiográfico de Anzaldúa nunca assimilado por nenhuma categoria de identidade (incluindo aquela do “outro”) ou “desenvolvido” numa plenitude saudável e estática. Sua corporificação foi, como as fronteiras em si, uma “ferida aberta” (Anzaldúa, 1987, pág. 3). Em “agora vamos mudar”, ela propõe uma revolução na forma que pensamos sobre a identidade, e esta redefinição segue a sua aceitação dos efeitos da diabetes: “Você foi escolhido para compor uma nova história e self… Seu corpo doente já não é um obstáculo, mas uma posse, testemunhando a dor, falando com você, exigindo toque. Es tu cuerpo que busca conocimiento; juntamente com sonhos de seu corpo é a estrada real para a consciência” (2002, pág. 558-59). A doença abre novos caminhos de consciência e expande o sentido de corporificação, mas este pensamento está no trabalho de Anzaldúa durante todo o tempo, nestas passagens aparentemente abstratas e místicas de Borderlands que muitas críticas feministas parecem ter evitado: “Em nossa própria carne, a (r)evolução funciona fora da classe das culturas… Nuestra alma el trabajo, a obra, o grande trabalho alquímico; a mestizaje espiritual, uma ‘morfogênese’, um desdobramento inevitável. Nós nos tornamos o movimento acelerado da serpente” (1987, pág. 81). Esta passagem alude à sua teoria dos Estados de Coatlicue, em que as identidades devem continuamente dissolver e reformar para manter a consciência de se tornar estagnada. Coatlicue “devora” o self para permitir a “evolução” e uma nova “germinação”, chutando um buraco das velhas fronteiras do self e deslizando sob ou sobre, arrastando a velha pele, tropeçando sobre ela” (1987, pág. 46-47, 49). O afeto que Anzaldúa evoca a partir de Coatlicue sente esta dolorosa fluidez como produtiva. O atrito entre esta interpretação da sensação e a suposição da medicina moderna de que a saúde deve ser estática, delimitada e anestesiada reflete as formas em que seu trabalho a empurra contra o pensamento dominante sobre a corporificação.

            Os poemas em Borderlands recebem muito pouca atenção crítica, mas (ou talvez porque) eles são povoados com corpos, imaginados e não-imagináveis e seus desconfortos materiais. Em seu poema “Cihuatlyotl, Mulheres Sozinhas”, Anzaldúa descreve seu relacionamento ambivalente com a política de identidade Chicana em termos de desmembramento para refletir a dificuldade de se adaptar à experiência incorporada nos tipos raciais construídos:

            E conforme eu crescia             você extirpou

            as partes         de mim                        que      eram diferentes

            Oh, foi difícil,

            Raza    para separar a carne da carne                       eu nos arrisquei

            tanto    a sangrar até a morte

                        não há

            nada mais que você possa cortar       ou enxertar em mim que

            mudará a minha alma                        Eu continuo sendo quem eu sou, múltipla

            e uma  do rebanho, mas não do mesmo. (1987, pág. 173)

            Mesmo com uma identidade racialmente misturada como la raza Chicana, os corpos individuais sempre contêm diferenças que excedem o ideal raza: corporificações “desviantes” devem ser “extirpadas” e os “traços essenciais” que faltam devem ser enxertados. A personificação de “Raza” no poema de Anzaldúa, uma abordagem comum nos escritos do nacionalismo Chicano, atribui agência à própria raça, dando-lhe as mãos com as quais moldar as identidades a fim de solidificar a nação. No processo de autodefinição, Raza tem amputado partes que são talvez feministas, lésbicas ou doentes. E ainda, Anzaldúa insiste, onde a diferença individual é censurada pelas políticas de identidade comunais, ela permanece “múltipla”, além “do fundamento do meu próprio ser” (1987, pág. 173). O espaçamento neste poema enfatiza a ruptura. Ela insere espaços tanto antes quanto depois “de mim”, tornando a frase destacada a partir da linha com visibilidade, independência e integridade individual; mas a oradora é tanto “do” quanto “não do” rebanho. Sustentando esta contradição, como Anzaldúa faz, rompe com a oposição entre o individual e o comunitário, identificando com la raza sem renunciar que excede la raza [6].Cihuatlyotl” investe a identidade individual com a contaminação pelos outros:

            Estou totalmente formada       esculpida

            pelas mãos dos antigos,          encharcada com

            o fedor das manchetes de hoje.           Mas as minhas próprias

            mãos talham   o trabalho final           em mim. (1987, pág. 173)

            Apesar dela estar “plenamente formada”, estando sujeita às “manchetes de hoje”, no presente contínuo, mantendo-a totalmente aberta à revisão também. Nos primeiros escritos de Anzaldúa, então, as contradições entre a política de identidade e a individualidade incorporada permanecem não resolvidas, em dolorosa tensão.

            Quinze anos depois de Borderlands, em seu ensaio “agora nos deixe mudar”, Anzaldúa rompe mais radicalmente com os sujeitos das políticas feministas e Chicano. Ela defende o uso crítico do espírito, da alma e do corpo para formar “pensamentos menos estruturados, categorizações menos rígidas”, cruzando além das fronteiras corporais e acadêmicas a fim de ultrapassar o status quo (2002, pág. 568, 570). Em minha interpretação, esses cruzamentos de fronteiras emergem não apenas a partir das terras da fronteira do Texas/México onde ela cresceu: eles também refletem a experiência de alguém que está doente, que deve continuamente submeter seu corpo a exames médicos, agulhas e produtos farmacêuticos. Um diabético não pode manter limites firmes, uma vez que o seu corpo precisa de tecnologia da cultura dominante, Anzaldúa finalmente recorre à política de identidade tradicional para formar novos tipos de acoplamentos:

            A princípio a história de la nueva se assemelha ao monstro Frankestein de Shelley – partes incompatíveis reunidas artificialmente – mas logo a nova versão energiza o seu impulso para buscar conhecimentos alternativos e emergentes… Crenças e valores a partir da sabedoria das tradições espirituais do passado de diversas culturas acopladas com o conhecimento científico atual é base de novas sínteses. (2002, pág. 561)

            Para além da consciência mestiza de Borderlands, esta nova síntese pertence ao quarto estágio do “el camino de conocimiento” [caminho/andar da consciência] que ela delineia em seu ensaio final.

            Em última análise, Anzaldúa propõe o que ela chama de “um novo tribalismo” como uma alternativa à política de identidade. Ela começa com a imagem familiar de raízes, mas estas raízes não são metáforas para a ascendência racial: “Sua identidade tem raízes que você compartilha com todas as pessoas e os outros seres – espírito, sentimentos e corpo se tornam uma categoria de identidade maior… As raízes del árbol de la vida de todos os seres planetários são natureza, alma, corpo” (2002, pág. 560). Ao invés de falar da identidade como a base para as políticas, essa visão faz com que seja impossível separar identidades individuais, não apenas entre si, mas até mesmo do próprio mundo (árvores, florestas e córregos). Se, por vezes, a proposta de “repensar a si mesmo em termos mais globais-espirituais ao invés das categorias convencionais de cor, classe e carreira” parece estar irremediavelmente forjando política a partir do éter, Anzaldúa consistentemente traz isto de volta para a matéria corporal. De fato, o poder do que ela propõe reside em sua fricção contra os limites materiais existentes: “Nesta narrativa, as fronteiras nacionais que nos dividem dos ‘outros’ (nos/otras) são porosas e as rachaduras entre os mundos servem como portais” (2002, pág. 561). Usando a própria linguagem material dos “poros” e das “rachaduras”, como o corte em “nos/otras”, muda a nossa atenção para os lugares reais onde os “mundos” e “corpos” se encontram e as ocasiões reais que rompem os tecidos de nossas fronteiras. A diabetes forçou Anzaldúa a aceitar a identidade que “não está contida pela nossa pele”, que “ocorre ao alargar as fronteiras psíquicas/corporais” e os usos das “feridas como aberturas para se tornar vulnerável e disponível (presente) para os outros” (2002, pág. 555, 571-72). A linguagem da doença fornece uma metáfora para as políticas baseadas em feridas e conexões específicas ao invés da universalização das identidades.

A Nova Família de Moraga

            Podemos ver a tensão entre a anatomia universalizada e as incorporações particulares na assistência à saúde e ainda os hospitais que são dedicados aos desvios a partir da “saúde padrão” e os voluntários são treinados a localizar, compreender e curar feridas específicas dos indivíduos. Os encontros com as doenças são encontros com a diferença. Cherríe Moraga observa a surpresa contínua e a reconfiguração que acompanham o nascimento de seu filho, começando com a facilidade com que ela engravida usando um pote de conserva e uma seringa. Atenta à vida do bebê, Moraga submete seu corpo à diferença, culminando em duas inesperadas (e indesejadas) incorporações: carregando um filho ao invés de uma filha, e dando à luz com apenas 28 semanas de gestação. Waiting in the Wings: Portrait of a Queer Motherhood (1997), reconta os primeiros três meses desta “maternidade queer” passados na unidade de terapia intensiva neonatal enquanto Rafael Angel luta na fronteira entre a vida e a morte. Ao contrário do eu hospitalizado escondido de Singer, esta narrativa combina as entradas originais do diário da autora com os comentários tecidos por ocasião da publicação, confessando seus sentimentos originais e mais tarde analisando este self jornalístico através de lentes críticas.

            Embora Moraga possa ter percebido mais cedo o seu self lésbico Chicana em oposição às tecnologias brancas/patriarcais/capitalistas da medicina moderna, sendo forçada à intimidade com os médicos, enfermeiras, tubos e máquinas que a fizeram re-conceber as fronteiras materiais de sua identidade. O início da vida de seu bebê está entrelaçado com máquinas conforme o exoesqueleto sustentado do corpo dele muda do útero para a incubadora no Berçário de Cuidados Intensivos (BCI) depois do nascimento. A superfície do vapor desenvolvido pela incubadora isolou o bebê para que pudesse respirar (1997, pág. 70). O contato entre a respiração e incubadora do bebê, como o leite materno que corre através dos tubos plásticos que nutrem o lactante, cruza fronteiras entre corpo e plástico, mãe e máquina. Moraga sente uma “conexão perfeita” entre “aquelas paredes da incubadora e seu seio corporal enrijecido e com pouco leite” (1997, pág. 57). Ela cerca sua incubadora com pedras com capacidade de cura e ícones da Virgem. Esta intimidade da vida com a máquina “queeriza” ainda mais a “maternidade queer” que Moraga narra, desamarrando a maternidade a partir da essência feminina, reprodução “natural”, cópula heterossexual e famílias do tipo mãe-pai [7].

            Conforme Moraga delineia a família queer de Rafael Angel, ela incorpora uma comunidade racial e sexualmente heterogênea de ativistas Chicana/o, escritores gays e lésbicas, e um legado de pensadoras feministas em seu parentesco espiritual. O “fazer” desta “família a partir das rachaduras” envolve mais do que nascimento. Moraga explica que “a minha própria história queer de gravidez, nascimento e os primeiros anos de maternidade” é uma história de “luta pela sobrevivência/pela vida na era da morte/ a era da AIDS” (1997, pág. 14, 22). O paralelismo nesta descrição enfatiza como o nascimento é experimentado em tensão com a morte, particularmente em uma idade quando (e em uma cidade – São Francisco – onde) o viver acontece contra o pano de fundo da AIDS. Esta narrativa é, assim, entrelaçada com doença e a morte iminente, não apenas do bebê, mas a morte de César Chavez, as memórias do câncer e o funeral de Audre Lorde, as mortes da mãe e do pai da lésbica Chicana Myrtha Quintanale, as mortes por AIDS dos poetas Ronnie Burke e Tede Mathew, as mortes do tio de Moraga e o pai do pai do nascimento, o envelhecimento dos pais de Moraga, a “deformação” gradual do companheiro de sua mãe pela doença de Parkinson e as próprias batalhas aparentemente constantes de Moraga com dor, depressão, ansiedade, resfriados, gripes e alergias. Adoecer e morrer ocupa muito mais espaço narrativo aqui do que a concepção, gestação e nascimento, por isto é apropriado que a maior parte do texto seja baseado em hospitais. “Não é a morte que assusta tanto”, ela escreve, “é a lenta dissolução humilhante do corpo” (1997, pág. 32-33). Ao invés de enfocar sobre o término do nascimento ou da morte, esta narrativa é retomada pelos processos da dolorosa reorganização dos tecidos e a erosão “humilhante” do self que tanto a gestação quanto a doença envolvem. Ao recordar os Estados de Coatlicue, Anzaldúa ressignifica a sensação deste fluxo corporal. Durante a sua gestação e a nova maternidade, Moraga estava trabalhando em sua peça teatral The Hungry Woman: A Mexican Medea, que reformula a morte da criança de Medea através das lentes de Coatlicue (para quem a criação e destruição estão entrelaçadas) e sua filha desmembrada, a deusa da lua Coyolxauhqui (cujo declínio e depilação continuamente desmembra e reconstitui seu corpo nos céus). Este quadro asteca privilegia a incorporação que é fluida ao invés de “fixada” e apoia a própria dor e a ambivalência maternal de Moraga com a história cultural da dor e ambivalência maternal.

            A centralidade da destruição nas histórias de maternidade de Moraga é parcialmente explicada em uma entrevista conduzida por Rosemary Weatherston um pouco depois que Rafael Angel nasceu. Moraga liga a sua “perigosa” decisão de escrever uma peça teatral sobre a morte de filhos de lésbicas com sua preocupação com a “ferida feminina”:

            Eu sei que, como mulheres, temos sido deformadas, por não nos ser permitida a completa humanidade. Com esta peça teatral [A Mulher Faminta], eu escolhi uma das muitas encenações sobre tabus e relações antissociais que uma mulher pode cometer como a essência da trama. O único papel das mulheres que são dadas sanções na sociedade é a maternidade, certo? Eu digo, uma boa mulher é uma boa mamãe. E assim, qual é a pior coisa que você pode fazer contra a sociedade, ou seja, contra o patriarcado? Matar a maternidade. A assassina de crianças é a maior aberração para a sociedade tanto quanto a lésbica (2000, pág. 82).

            Esta resposta sugere que uma das formas de libertar as mulheres da “deformação” do patriarcado é agredir o papel mais precioso para as mulheres do patriarcado: a maternidade. Neste contexto, tanto The Hungry Woman quanto Waiting podem ser interpretadas como uma reformulação da maternidade livre das expectativas do patriarcado (e anglo-americanas). Quando ela fica doente durante sua gestação, Moraga escreve que “esta doença es una limpieza”, suando o estigma herdado para limpar o caminho para a criação de um novo significado (1997, pág. 33). E o nascimento de seu bebê prematuro em um círculo de família lésbica e “urgentes mãos com luvas de látex, tubos plásticos e monitores piscando” de fato ressignificam o parto. Ao contrário dos recém-nascidos colocados sobre a barriga de suas mães “nos filmes”, Rafael Angel é “todo ferida”, índio, peludo, “macaco” e incomensuravelmente frágil em seu “peso de passarinho” (1997, pág. 53, 54, 65). Moraga desmistifica os ícones românticos da maternidade bem-aventurada e dos bebês do sexo masculino saltitantes ao apontar as feridas recíprocas construídas dentro do processo médico do parto e as contorções exigidas para formar seres humanos racialmente e sexualmente ideais.

            Em seu livro sobre Moraga, Yvonne Yarbro-Bejarano incisivamente interpreta o trabalho de Moraga como que “constantemente des[mantelando] para além do corpo feminino inteiro, reconhecendo como ele tem sido apropriado e tentando reivindica-lo” (2001, pág. 5). Yarbro-Bejarano discute esta fragmentação em termos de resistência, como a tentativa de Moraga para servir o corpo das normas patriarcais/brancas/heterossexistas e reconstruí-las “a partir do projeto” de seu próprio desejo (2001, pág. 7). Neste argumento, o poeta desconstrói o corpo apenas no contexto da cura possível, “com uma visão de uma nova forma de ser inteira” como uma lésbica feminista Chicana (2001, pág. 10). Eu encontrei o oposto desta lógica em Waiting in the Wings. Como Linda Singer, Moraga se recusa a submeter o corpo de seu filho à saúde institucionalizada, enquadrando a sua vida, em vez, disso no contexto da “mulher-ferida comunal que passamos as nossas vidas tentando curar” (1997, pág. 33, ênfase acrescentada). Como um bebê, “Ele é todo ferida e é meu filho” (1997, pág. 65). Embora ele acabe sobrevivendo, a sua sobrevivência é uma contínua incorporação da morte. Ela descreve os primeiros anos de sua vida como “o caminho tomado para com a vida… e a morte” (1997, pág. 85). As seções escritas depois de levar o bebê para casa quanto teve alta do hospital continuam a enfocar sobre a doença. Em sua primeira visita à árvore sagrada em Watsonville (onde a imagem da Virgem de Guadalupe apareceu em 1992), a atenção da autora é consumida, não pelo seu próprio filho – que permanece “despercebido” sob o seu rebozo – mas sobre uma criança de seis ou sete anos de idade em um carrinho alto com “pernas de espaguete”, incapaz de andar: “E eu estou lá naquela pele de mãe, conforme eu evoco o Rafaelito em mim, segurado por sua querida vida, sua querida saúde. Sabendo que eu poderia ter sido dela. Ainda posso” (1997, pág. 89). A possibilidade real das estruturas de deficiência da vida de Rafael. A vida da mãe, também, continua no segundo ano como “a névoa de uma doença prolongada e privada, um agudo esgotamento”, temendo cada vez que ela se deita de que ela “não possa se levantar novamente” (1997, pág. 105). Se existe uma ordem instalada na extremidade desta narrativa, desordenamento contínuo é a sua lógica regente:

            Rafael Angel é um mensageiro da morte, não no sentido negativo da palavra, mas no qual ele traz a notícia do milagre cruel e súbito do ciclo de nossas vidas. Eu posso escrever que ele é um mensageiro da vida, mas eu sei que é mais verdadeiro reconhecer que a minha tristeza, algumas vezes tranquila, nos mais profundos momentos de alegria com minha criança, tem a ver com este completo conhecimento da impermanência. (1997, pág. 127)

            Esta dissolução atual, crueldade e mudança súbita irradiam do bebê para toda a sua familia.

            A família liga Moraga e sua parceira formada no INC mostra como os processos fisiológicos muitas vezes importam mais do que as categorias sociopolíticas abstratas assumidas como moldando as relações humanas. Conforme o bebê abre seu corpo aos tubos plásticos e instrumentos cirúrgicos, as mães devem abrir seus próprios corpos ao detergente industrial, odores hospitalares e as alegações que os outros têm sobre a vida de seu bebê: “Diariamente temos assistido ao veneno do medo passar através dos tubos plásticos, para dentro e para fora das veias abertas e dos órgãos em miniatura. Eu sei o cheiro do medo presente no detergente industrial da boneca do tamanho dos lençóis e cobertores de meu bebê. Levamos a sua indiferença inodora para casa conosco em nossas roupas, em nossa pele” (1997, pág. 66). As culturas da familia queer e do hospital infectam uma à outra através da disseminação de objetos entre elas. Conforme os quartos do hospital são transformados pelo tipo de maternidade de Moraga, da mesma forma ela também deve tomar as tecnologias do hospital em sua casa, seu corpo, e o corpo de seu filho: “Ele se lembra de despertar às 3 horas da manhã sob o olhar quente das lâmpadas do hospital, nenhuma mamãe à vista, uma dor aguda perfurando seu intestino? Gostaria de saber onde em seu pequeno corpo ele tem colocado todo aquele sofrimento, quais vestígios disso irão residir nele como um homem adulto” (1997, pág. 106). Estas fronteiras cruzadas gradualmente formam uma política de abertura ao invés de oposição. Embora ela inicialmente “se ressinta destes tipos de pediatras masculinos brancos com suas esposas enfermeiras e sete crianças que limitam o seu caminho em minha psique mexicana”, ela não pode expelir as suas intervenções cirúrgicas ou a sua dependência de seu conhecimento médico. O hospital acaba por ser mais do que um lugar de normas homofóbicas, patriarcais e anglocêntricas. A equipe de voluntárias – “Rose, Stacey, Bobbie, Sue, Gurline, Donna, Terry e outras as quais nunca encontramos” – “assistiram [Rafael] ao longo da noite enquanto nós durmíamos” e o tratavam como mais do que um trabalho. “Algumas delas chegaram mesmo a amar Rafa, imaginando-o como ‘seu bebê’”. Inicialmente, Moraga tem medo de sua dependência destas mulheres, mas em uma reflexão posterior ela revela, “Não é a nossa dependência destas enfermeiras que eu temo, tanto quanto a perda da conexão. Estas mulheres se tornaram a nossa família” (1997, pág. 78). A maternidade de Moraga incorporou as práticas e as atenções das voluntárias do hospital. Os presentes e as apostilas com as orientações das enfermeiras as acompanham dentro do carro quando voltam para casa.

            Os novos relacionamentos de Moraga não apenas situam um limite entre sua família queer e os médicos brancos, a resistência e a instituição. Há também Alex, que tinha membros adormecidos; Simone, que é cega; Freddy, que é Down; e outros animais humanos de um, dois ou três quilos com cérebros inchados, derrames, corações fracos e viciados em drogas, além de famílias problemáticas”, espelhando o próprio estado em apuros de Rafa” (1997, pág. 69). Mães e pais com quem Moraga aparentemente não teria nada em comum fora do hospital compartilham médicos, enfermeiras e máquinas com Rafa e Moraga no INC – Instituto de Neurociência Cognitiva. A fundação para estas novas conexões familiares é a vulnerabilidade compartilhada e a complexidade de suas diferenças e situações em comum torna os limites incoerentes. Singer descreve o hospital como um lugar punitivo, de exílio e ameaçador onde o que está “errado” (ou pode dar errado, no caso aparentemente anômalo do parto) é separado da sociedade saudável. A experiência de Moraga desafia esta oposição entre saúde e doença ao fazer a familia no hospital, bilíngue, queer, contra o pano de fundo da morte, mesmo quando ela própria não está mais “doente”. Ela implode a distinção entre as culturas e as identidades associadas com a “norma” (saúde, maternidade e família) e aquelas associadas com o “patológico” (doença, queeridade e fronteiras corporais erodidas).

            Ao tornar a AIDS central em sua história, que não é necessariamente uma história sobre AIDS, Moraga invoca a cultura epidêmica sobre a qual Singer escreve, mas trazendo a queeridade “nela” e tendo as ferramentas de cuidado à saúde do hospital “fora” com ela e que desafia a quarentena do queer do saudável. Ao invocar a AIDS também se invoca a sua “cultura paciente” politizada, que Singer alega resistir “ao isolamento imposto pela doença… [ao] manter algum sentido de comunidade e circunscrição”, mobilizando a doença como um veículo político (1993, pág. 105). Da mesma forma que Butler caracteriza a experiência de Singer com a hospitalização como um paciente de câncer, Moraga, também, “traz um número de discursos no circuito médico de intercâmbio discursivo, emperrando o sistema, perturbando seus ritmos regulatórios, realizando a crítica até o final” (1993, pág. 12).

Amar Através das Fronteiras

            Repensar a identidade através das conexões corporais às voluntárias e próteses é uma das contribuições teóricas mais importantes dos estudos sobre as deficiências. Janet Price e Margrit Shildrick argumentam que o pensamento dominante sobre os problemas das deficiências sobre identidade, relacionamentos e diferença, considera como as pessoas são levadas a refletir sobre suas próprias vulnerabilidades quando elas interagem com o deficiente. Ao escrever sobre as suas próprias experiências com a reciprocidade na prestação de cuidados, elas comentam:

            O que foi descoberto durante este período agudo da doença de Janet [esclerose múltipla] foi que, apesar da mutualidade e reversibilidade do toque, estamos num processo contínuo de mútua reconstituição de nossos eus incorporados. Além disso, a instabilidade dos corpos com deficiência é apenas um exemplo extremo da instabilidade de todos os corpos. (2002, pág. 72).

            As experiências de Moraga em Waiting revelam que o doente e o deficiente não são os únicos moldados pela doença e deficiência. Resistindo ao tabu que mantém os processos corporais privados e desafiando a lógica cultural de que “a separação ao invés do contato constituem o eu adulto” (2002, pág. 71), Moraga compartilha a vulnerabilidade de seu bebê com uma extensa família de queers, Chicana/os, o pessoal do hospital e mesmo os leitores. O sofrimento público demonstra a susceptibilidade de todos os corpos; todos nós estamos, afinal de contas, apenas temporariamente saudáveis.

            No estudo de Singer, a “lógica do contágio” postula que, na esteira da AIDS, “a comunicação tem se tornado comunicabilidade; o acesso é agora retratado como uma ocasião para a transmissão e o contágio” (1993, pág. 28). Com a circulação cortada para se evitar a propagação da doença, as políticas dos objetos estigmatizados podem apenas ser retratadas através de sua exclusão ou, para recordar Wendy Brown, seus “estados de lesão”. Os estudos sobre as deficiências devem circular de forma diferente, abrindo o acesso e expandindo a forma da saúde. Nancy Mairs lamenta a falta de feridas dos “normais” – “Não acho que seja a própria culpa dos normais a falta de deficiências para aprofundar e complicar seu entendimento do mundo” – e um dos entendimentos mais complicados que ela desenvolveu com MS é que “ativamente nutrindo seus semelhantes…. desenvolve e disciplina que… parte da psique humana que transcende o autointeresse” (1996, pág. 72, 78).

            A flutuação, mutualidade e sofrimento corporal são radicais para os ideais da modernidade Ocidental porque eles têm sido expurgados da individualidade adulta saudável (ou seja, autointeresse), delimitados da interação social “segura” e “pública” e contidos dentro da clínica ou do conhecimento dos antigos. O que é radical sobre as histórias de deficiência não é a sua oposição ao dominante, mas o seu desafio àquelas delimitações, rompendo a oposição entre o “normal” e o “deficiente”, entre corpo e corpo. Uma ética do cuidado é baseada no cruzamento de fronteiras entre os indivíduos e o reconhecimento da dependência e vulnerabilidade. Deste modo, isto difere radicalmente da política de identidade, cuja fundação é a solidariedade do grupo. Uma ética do cuidado enfoca sobre as necessidades específicas de corpos particulares, filtradas através dos sistemas de valores culturais, das dinâmicas de poder, da incorporação sexualizada e acesso a recursos para fazer uma consideração muito mais material de opressões que se intersectam do que  raça/sexo/etc [8].

            A partir da análise das deficiências temos aprendido a compreender a fragilidade da incorporação assim como a construtibilidade das normas médicas e dos contextos sociais/geográficos que privilegiam estas normas. Mas os estudos sobre as deficiências também são um campo baseado na identidade buscando a igualdade de acesso para um grupo impedido de direitos. Muito do ativismo dos deficientes é baseado nas asserções visíveis da diferença que são também muitas vezes asserções visíveis das necessidades políticas (pelo acesso a cadeiras de rodas, por exemplo). Em The Rejected Body (1996), Susan Wendell valoriza a visibilidade da doença e da deficiência “como ou fontes de conhecimento ou formas valiosas de ser”, forçando-nos a pensar de outro modo sobre as nossas expectativas dos corpos. As pessoas com deficiências visíveis têm um impacto político potencial, como “lembranças constantes da incapacidade da ciência e da medicina de proteger todo o mundo da doença, deficiência e morte”. Vendo a deficiência em paralelo com a pobreza, um corpo feminino ou pele escura poderia apresentar uma crítica implícita do sistema médico capitalista (implicitamente racista e sexista). Em contraste estão aqueles que Wendell chama de “os ‘heróis deficientes’”, cujas acomodações às normas e expectativas culturais dominantes “simbolizam o controle heroico contra todas as probabilidades e suas imagens públicas confortam as pessoas não-deficientes ao reafirmar a possibilidade de superar o corpo” (1996, pág. 63-64). O argumento de Wendell sobre o conhecimento contido dentro da deficiência é convincente, mas ela assume que a deficiência é a única cultura separada do “normal” pela diferença visível. É difícil retratar este tipo de fronteira em torno de uma identidade que está ela mesma constantemente em mudança – como com a diabetes, a esclerose múltipla ou a recuperação pós-operatória. Algumas identidades nem sempre são idênticas entre si, às vezes são visivelmente deficientes e, por vezes, não-deficientes. As experiências variáveis da deficiência (tanto dentro quanto entre os indivíduos deficientes) deveriam forçar o reconhecimento de que os corpos não são apenas diferentes entre si – como identidades monolíticas – mas algumas vezes os corpos individuais, em si, não são reconhecíveis como entidades singulares, estáveis ou categorizáveis. Anzaldúa estende a sua experiência de transfiguração a toda incorporação, desestabilizando a identidade com a reivindicação de que “a cada sete anos o seu corpo perde as suas células completamente conforme ele regenera novas células” (2002, pág. 562). Não apenas é difícil desenhar linhas claras de identidade em torno de grupos de corpos, mas corpos individuais em si mesmos não preenchem de forma consistente os mesmos padrões [9].

            O que as políticas permeáveis e migratórias têm a ver com o feminismo Chicana, como tal? Proponho que, embora os sujeitos deficientes nos trabalhos recentes de Anzaldúa e Moraga incorporem as necessidades e movimentos além dos limites da identidade Chicana, elas falam para os objetivos declarados do feminismo Chicana melhor do que o nacionalismo da política de identidade. Mesmo que elas transbordem a denotação do “feminismo Chicana”, sua conotação é profundamente Chicana e feminista: “feminista” em sua busca pela agência com corpos que são permeáveis, fluidos e sexualmente específicos, e o “feminismo Chicana” em sua insistência sobre a linhagem cultural mexicana, experiência racializada, e autoridade pelas posições de sujeitos politicamente vulnerabilizados. De fato, como Chela Sandoval nos lembra em uma recente “Mesa Redonda sobre o Estado dos Estudos Chicano”, “Chicano/a (como o rótulo feminista, marxista, capitalista, socialista e assim por diante) é um termo político”, não apenas uma identidade (Davalos et al., 2002, pág. 149; ênfase no original). (O Número de Americanos Mexicanos que rejeitam o rótulo “Chicano” ou “Chicana” é evidência deste fato). “Chicano/a”, como “deficiente”, é uma afiliação política de pessoas que são heterogêneas em termos de sua cor de pele, sua classe, seu gênero, sua região, sua linguagem e sua distância geracional do México. Depois de quarenta anos de política de identidade Chicano/a, esta heterogeneidade cada vez mais demanda uma filiação mais aberta com as necessidades e preocupações em mudança.

            Mudanças recentes no feminismo Chicana compartilham afinidade com os desenvolvimentos no feminismo pós-moderno, mas Moraga e Anzaldúa não abandonaram suas próprias confissões corporais como uma fonte de teorização feminista. Além disso, elas não abandonaram raça, sexo, ou classe como realidades materiais que determinam a existência do dia-a-dia. (De fato, as experiências de adoecimento são sempre mediadas por raça, sexo e classe). Em vez disso, as experiências médicas as forçaram a enfocar o corpo como senciente, em constante mudança, sempre importante e altamente vulnerável. Esta fundamentação na experiência sensorial de contato com o mundo nos ajuda a compreender como raça, sexo e classe importam nas situações reais. Ao mesmo tempo, as comunalidades que estas autoras encontram com outros em relação oblíqua aos eixos de raça/classe/etc. – e sua aceitação dos corpos como entidades fluidas que não são sempre reconhecíveis de acordo com os quadros familiares – nos lembram que raça, sexo e classe não são horizontes da experiência, não são internamente consistentes, e não são sempre marcadores precisos da diferença. Nós devemos então aceitar outros aspectos corporais como quadros igualmente importantes para a construção de coalizão política.

            Concluo com uma análise de um exemplo desta nova configuração para a política feminista Chicana para além da identidade: o altar on-line, Rest in Peace Gloria, que foi construído em http://gloria.chicanas.com, depois da morte de Anzaldúa, de maio a outubro de 2004. A ideia de um altar on-line em si reflete a “nova síntese” que ela propôs, fundindo espiritualidade, sentimento e tecnologia; e o altar carrega alguns atributos “Frankensteinianos”. A partir da carta aberta de Moraga às “Comadres, Compadres, Amigos e Estudantes”, contando a eles da morte de Anzaldúa e convidando-os a construir seus próprios altares, o altar on-line então cresce vertiginosamente, uma miscelânea de gestos não planejados. Embora as submissões sejam moderadas, elas não são editadas, formando uma cacofonia envolvente de fragmentos, cartas e orações com suas revelações pessoais, diferenças políticas, erros de ortografia e digitação. Alguns posts são imaturos, enquanto que outros mais se assemelham a ensaios formais ou poemas polidos. Os contribuintes são homens, mulheres e pessoas transgêneras. Embora a maioria se auto-identifique como Chicana, eles são também cubanos, mexicanos, guatemaltecos, indígenas estadunidenses, brancos, havaianos, chineses, judeus/batistas do Sul, do Sri Lanka/europeus orientais e aqueles racialmente não identificados. Eles são acadêmicos, estudantes, escritores, editores, donos de livrarias, agricultores, turistas e diabéticos. Quase todos os posts incluem as cidades de onde eles escreveram, abrangendo o globo.

            Em seu post, Irene Reti descreve o altar como “ondas de dor de todos vocês ao redor do mundo” e Elga J. Martinez observa que, “Mesmo depois de sua morte, você está ainda construindo comunidades… olhe para nós… lá de cima… quantos estão conectados através de seu falecimento” (Rest in Peace Gloria, 2004). Martinez passa a delinear os movimentos por justiça social que “sempre incluem pessoas como você e eu no centro”, mas o altar em si desafia ao colocar qualquer identidade – qualquer um “como nós” – no centro. Embora todas estas vozes se reúnam para chorar por Gloria, os processos deste luto são desordenados e não regulados. Coisas surpreendentes acontecem. Os posts começam o cruzamento entre si, se disputando mutuamente. Os tributos começam a intersectar com outras causas, outras mortes, adoecimentos, projetos de escrita e planos de carreira. Embora eles todos estejam juntos por uma causa, eles vêm de forma diferente.

            Embora seja completamente descentrado, o conteúdo político do altar é implicitamente feminista. Os enlutados, com todas as suas colocações diferentes sobre o trabalho de Anzaldúa, produzem declarações que são libertadoras para as mulheres e outros. Aqueles que conheceram Anzaldúa através de sua ênfase feminista, sua “ruptura com a possessão que o patriarcado tinha sobre nossa cultura” (Sandra Benedet) e a descreve como “um modelo inspirador verdadeiro para nosostras las ‘Soldaderas de la Nueva Era’” (Marlene Chavez) (Rest in Peace Gloria, 2004). Mas aquelas que não se autoidentificam como uma “soldadera” (mulher soldado) assumem posições que são parentes do feminismo. É notável como muitos descrevem a política de Anzaldúa como amorosa, um gesto que vai contra a visão “guerreira” de uma soldadera defendendo seu território. Beatriz Lopez-Flores a elogia como “uma mulher verdadeiramente notável com a clareza de visão de uma Dolores Huerta, a bondade de uma internacionalista que praticou suas crenças como uma lutadora por igualdade, amor e respeito” [10]. Erin Fairchild credita a Anzaldúa por lhe mostrar que o trabalho contra a opressão “é vida, é necessário, é bonito, é ter um coração maior e mais forte do que quaisquer dos sistemas que iriam trabalhar para quebrar nossas misericórdias”. E Ellie Hernandez alega que a “consciência mestiza” é realmente sobre o amor transcendente”: o “amor da mulher não-branca, das mulheres e queers pobres da classe trabalhadora” de Anzaldúa (Rest in Peace Gloria, 2004). Estas práticas políticas são claramente baseadas a partir do feminismo Chicana, mas o amor, como um método, abre de forma ampla ao invés de escorar os limites da identidade. O amor torna o self vulnerável e assume que existe algo a ser ganho a partir da conexão com o outro.

            Um homem biológico anônimo que “nunca gostou de se autoidentificar como um ‘homem’ lembra a política feminista Chicana de Anzaldúa deste modo: “O problema, você escreveu, é o sistema de ideologias que clivam além de nossas vidas e corpos, que criam ‘o outro’, que exigem que enxerguemos tudo em termos de opostos irreconciliáveis, que começaram a divisão do mundo e que estão pavimentando as estradas deste caminho para a aniquilação do mundo” (Rest in Peace Gloria, 2004). O “outro”, neste relato, não é claramente definido sexualmente; de fato, sexo é parte do problema desta “alterização” particular. Embora a “mulher” seja o ponto inicial para o feminismo, isto não tem que ser o seu horizonte [11]. (Também, embora a cultura mesoamericana seja o ponto inicial para a metafísica de Anzaldúa, esta metafísica tem horizontes porosos). Este post anônimo (provavelmente uma interpretação da figura de Anzaldúa da “Besta Sombra”) critica qualquer sistema que força os corpos em quadros limitantes e que dividem a materialidade em binarismos. Além dos insights de Simone de Beauvoir sobre a alteridade, a Besta Sombra é imprevisível, transumana, sombreando mais do que apenas sexo ou raça. Anzaldúa chama isto de “a rebelde um mim”, a projeção dos homens heterossexuais que caem em “peças de pesadelos”, ao invés de simplesmente formas racializadas e sexualizadas. Como Coatlicue, com cobras pela cabeça, ela tem “olhos de serpente sem pálpebras” nos quais qualquer um pode ver tanto “o desejo de poder e destruição” quanto “ternura” em sua face (Anzaldúa, 1987, pág. 16-17, 20). A alteridade desta criatura incorpora uma simultaneidade de posições políticas que acompanham a simultaneidade das opressões. Não é apenas um insight feminista Chicana, mas é isto também.

            Invoco aqui as análises de culpa da AIDS de Sedgwick para compreender a monumentalização do luto coletivo. Sedgwick em primeiro lugar e de forma otimista interpreta a culpa como uma coalizão de retalhos de identidades heterogêneas e, assim, um gesto militante, desafiando os binarismos impostos entre o hetero e o queer, o doente e o saudável: Produzido mecanicamente deste moinho de identidades cruzadas por desejos analisados por identificações é, parece – ou certamente parecia um outubro de 1987 – um corpo fraturado e portanto militante de rebelião queer” (1993, pág. 264-65). Mas então, depois de um parágrafo interrompido, ela reinicia, “Mas ninguém pode realmente reivindicar ou possuir as relações de luto”, invocando a nostalgia apolítica e o discurso de homogeneização do Names Project. Ela conclui que a culpa é uma “voz abissal vorazmente desnudante, homogeneizante, implacavelmente antropomorfizante e ainda implacavelmente desorientadora” (1993, pág. 265). Esta lista de adjetivos é muito atraente. “Desnudante” apresenta uma metáfora vividamente corporal para o confronto entre estados corporais supostamente privados (amor, doença, morte, luto), o memorial público e a maior parte dos enlutados em Rest in Peace Gloria estão claramente cientes deste processo de desnudamento. “Desorientador” parece neutralizar o “homogeneizante”, conforme o altar on-line fornece um caleidoscópio de diferentes sentimentos ao invés de uma orientação telescópica. O advérbio “vorazmente” captura de forma clara o vazio físico e o desejo insaciável da perda. Mas o que está sendo “antropomorfizado” (presumivelmente injustamente) pela culpa da AIDS? A vítima ausente, aquelas que testemunham a culpa à medida que passam em exposição ou a culpa em si? A morte transcende o corporal?

            Um dos aspectos mais marcantes do conteúdo de luto em Rest in Peace é a sua materialidade corporal, sua “implacável antropomorfização” de Anzaldúa, dos enlutados e da comunicação eletrônica. Em descrevendo suas lágrimas, sua própria doença, suas dores, as mãos usadas no trabalho, seus arrepios, suas formas e tamanhos corporais e suas sexualidades, os enlutados neste site web multiplicam os marcadores corporais além de raça/sexo/etc. e desvendam os limites entre os corpos para formar uma materialidade coletiva caleidoscópica. A diabetes de Anzaldúa combina visceralmente com aquela da avó de Monica Dacumo (“tão estranha e chocante de perceber que ela podia ser afetada por tal doença mundana, assim como a minha avó foi, vivendo uma vida que girava em torno das injeções de insulina e do abuso de açúcar), então a irmã e a mãe de Dacumos e, em última análise, “minhas próprias lutas com meu corpo”, convidando outros enlutados a encontrar seus próprios pontos de identificação baseados em dietas, suor, cuspe, e “a autoculpa por não ter sido disciplinado o suficiente, bem o suficiente, magro o suficiente” (Rest in Peace Gloria, 2004).

            Os visitantes on-line utilizam a barra de rolagem do site para a leitura das várias histórias de enlutados e suas várias expressões de luto em uma forma que se torna materialmente presente em seus próprios corpos. Quando eu li isto, me arrepiei. Esta materialidade é particularmente surpreendente, dado o meio “virtual” e o fato  de que muitos dos enlutados nunca encontraram Anzaldúa pessoalmente. “Eu nunca imaginei que alguém que eu não conhecia pessoalmente pudesse ter tal impacto importante em minha vida”, escreve Bethany De Herrera-Schnering, e Raquel Evita Seidel sente “suas mãos sobre a minha vida, apesar da distância física” (Rest in Peace Gloria, 2004). A extensão em que estes enlutados sentem o corpo ausente de Anzaldúa sugere que sua obra ainda é uma “ferida aberta” que sangra para outros (Anzaldúa, 1987, pág. 3). Alicia Gaspar de Alba escreve: “Sua passagem é extremamente pessoal e dolorosa para mim (como ela é, estou certa, a muitos de nós), e sinto como uma perda de uma parte mais elevada de mim mesma” (Rest in Peace Gloria, 2004). Em outro lugar, Inés Hernández-Ávila descreve sua dor como uma incorporação gradual da ausência de Anzaldúa: “Meu corpo está relutantemente registrando em cada célula que você não está mais fisicamente conosco” (citado em Gonzales e Rodriguez, 2004). Isto pode parecer como se os enlutados de Anzaldúa fossem “seguidores”, dolorosamente se esticando em direção ao corpo de sua antepassada materna, assim como Anzaldúa tensiona contra as políticas coletivas de la Raza, mas estes tributos estão completamente fundamentados nas diversas incorporações de uma “nova tribo”: “Nada é empurrado para fora, o bom o mal e o feio, nada rejeitado, nada abandonado” (Anzaldúa, 1987, pág. 79).

            Em seu Pósfácio à coleção editada por David Eng e David Kazanjian, Loss, Judith Buttler teoriza o tipo de política que emerge na esteira da morte [12]. A perda se torna condição e necessidade para certo sentido de comunidade”, ela escreve e o patos então “se torna estranhamente fecundo, paradoxalmente produtivo” (2003, pág. 468). Eu colocaria este sentido de comunidade como uma resposta possível ao sujeito defensivo e estritamente nominal da política de identidade. O luto está incorporado nos corpos individuais e sentimentos compartilhados. É também, como Sedgwick diz, “implacavelmente inclusivo” (1993, pág. 265). O altar on-line, como a culpa da AIDS, está em aberto, viajando, acessível (pelo menos para aqueles com computadores). Ele convida à meditação recíproca sobre a “lesão” sem exigir a identificação baseada naquela ferida. Ele forja uma comunidade que não é uma comunidade em qualquer sentido tradicional. Ele mantém o atrito entre diferentes identidades, e este atrito é uma das muitas qualidades palpáveis do website. Como a deficiência, doença e a morte, o luto por definição cruza fronteiras. Ele reside entre os corpos, onde um perde outro.

            Claro, um altar é anômalo como um gesto político: seu foco é mais corporal e emocional do que muitos movimentos políticos, e se abre um serviço memorial para acolher o público em formas que não necessariamente se abrem a um encontro político. Seria possível interpretar este altar como Sedgwick, em última análise, interpreta a culpa da AIDS: como uma forma retrógrada que enfoca toda a sua energia sobre uma vítima perdida, estática e icônica. E ainda o sujeito político de Anzaldúa se abre ao altar on-line através a lista desvelada de diferentes experiências pessoais, sentimentos únicos e interpretações encarnadas que reconstituem uma variedade de “Anzaldúas”. Esta política que emerge a partir de tal heterogeneidade está baseada na diferença ao invés do assumido consenso, professores aliados, cristãos, judeus, lésbicas, mulheres e homens hétero, quer eles se percebam ou não sendo aliados. E estas alianças produzem novas alianças, se movendo em direção ao futuro. É revigorante interpretar todas as improváveis conexões que são forjadas por aqueles que fazem o luto de Anzaldúa. O Coletivo da Chuva e do Trovão de Oakland envia “apoio e força e amor e revolução” para todos os enlutados no site, enquanto outros oram ou dedicam suas dissertações a Anzaldúa, formando uma rede conceitualmente feminista de cuidado (Rest in Peace Gloria, 2004).

            Embora estes métodos divergentes possam estremecê-los, eles são consistentes com o impulso original de Anzaldúa e Moraga de abraçar as contradições e construir pontes [13]. Em This Bridge Called My Back, Moraga escreveu: “Somos mulheres sem uma linha. Somos mulheres que se contradizem… Para as mulheres neste livro, darei meu corpo por esta visão [total]. This Bridge Called My Back. No sonho, eu sempre me encontro num rio” (Anzaldúa e Moraga, 1981, pág. XIX). Ao invés de assumir que as diferenças levam a divisões, e ao invés de usar os corpos para embasar as políticas de identidade, esta visão complicada usa os corpos para chegar aos outros. Uma passagem similarmente contraintuitiva em Borderlands abre a política feminista Chicana para além da identidade Chicana; “Já não podemos culpá-la, nem renegar as partes brancas, as partes masculinas, as partes patológicas, as partes queer e as partes vulneráveis. Aqui estamos desarmadas com braços abertos, apenas com a nossa mágica. Vamos tentar da nossa forma, o modo mestiza, o modo Chicana, o modo feminino” (Anzaldúa, 1987, pág. 88). Se este é ainda a “forma Chicana”, é porque os corpos, crenças e lares particulares de Anzaldúa e Moraga chegam de braços abertos e não por fronteiras.

Notas

[1] “Raça/Sexo/Etc.” reflete como classe fica abandonada em muitas discussões da política de identidade, assim como raça e etnia, assim como sexo e gênero, se tornam sinônimos.

[2] O “consumismo médico” e a “gestão da saúde” transformaram os corpos em locais para a exploração, manipulação e padronização capitalista. Como David Morris escreve, “A saúde (ou uma aparência de saúde) se tornou uma mercadoria apreciada, como orgulhosamente exibida como um novo SUV (veículo utilitário deportivo), enquanto que a doença é um mal repelido com multivitaminas e academias de ginástica” (2001, pág. 59-60). Neste contexto, toda saúde é política, endossa ou critica as ideias da cultura dominante e a própria materialidade da saúde esclarece as apostas de assimilar o corpo de alguém para tais ideias.

[3] Ver, por exemplo, Clendinnen (1991).

[4] Susan Hekman argumenta que “sem uma identidade coerente, os atores não podem agir; eles exigem um sentido estável de self para evitar a fragmentação e estilhaçar o que é a marca da insanidade” (2004, pág. 15). Esta é uma suposição lógica a partir da perspectiva das compreensões “ocidentais” modernas de subjetividade e sanidade. Com base nas compreensões mesoamericanas antigas, no entanto, permite a Anzaldúa e Moraga experimentar a fluidez e a autofragmentação como expansões de seus corpos e seus estados de consciência.

[5] Uma vez que a visão dominante nos Estados Unidos contemporâneo é a de que o cruzamento de fronteiras é uma ameaça à segurança (tanto pessoal quanto nacional), Anzaldúa, em particular, tem trabalhado para resistir a esta visão. Borderlands/La Frontera começa com um número de imagens de cruzamentos de fronteiras como um ideal político, intelectual, estético e humanitário. Em oposição às proibições “antinaturais” instaladas na fronteira dos EUA/México, Anzaldúa descreve crianças que de forma inocente chutam a sua bola de futebol através dela; ela assiste as ondas “prateadas” e “marmorizadas” do oceano tensionando a cerca de arame farpado que divide os dois países; e ela teoriza o “terceiro país” da região das fronteiras como o lar para a mistura, ambivalência e transgressão (1987, pág. 1-4).

[6] Em outro lugar, Anzaldúa engendra este compromisso dentro do feminismo Chicana: “Em nos/otras nós somos eles e eles são a gente, contaminados uns pelos outros”. “Nos/otras” reflete esta “contaminação” ao dividir o feminino plural nós ao meio – fragmentando o sujeito do feminismo Chicana – e usando a barra simultaneamente para dividir e fundir o “nós” e o “eles” (2000a, pág. 11).

[7] Muitas feministas criticam os meios artificiais de reprodução como um deslocamento dos corpos das mulheres pela ciência patriarcal – como “o triunfo de longa duração do sonho dos alquimistas de dominar a natureza através de suas práticas de autoinseminação e masturbatórias” – mas, como Rose Braidotti observa, aparentemente fusões monstruosas de mãe e máquina também ajudam a transgredir “as barreiras entre normas ou definições reconhecidas”, para imaginar “novos modos de relacionamento”, para redefinir “o que temos aprendido a reconhecer como sendo a estrutura e os objetivos da subjetividade humana em seus relacionamentos com a diferença, com o ‘outro’” (1994, pág. 82, 88, 93, 94). A história da reprodução mecanizada está entrelaçada com o racismo e a misoginia, mas estas mesmas tecnologias poderiam ser usadas para contar as suas próprias origens opressivas ao re-conceber a maternidade distante das normas racistas e misóginas. A tecnologia médica pode separar a maternidade dos domínios que romantizam a reprodução de acordo com os ideais nacionalistas, patriarcais, homofóbicos ou religiosamente governados. Permitindo a tecnologia na maternidade e a maternidade na tecnologia acolhe a “alteridade” conceitual em ambas, acrescentando escolhas deliberadas à maternidade e à humanidade emocionalmente e corporalmente fundamentadas na tecnologia – um gesto feminista com a capacidade de redesenhar as fronteiras que tem circunscrito a feminilidade, família e maternidade.

[8] Uma ética feminista do cuidado postula a prestação de tratamentos como uma alternativa à competição, dominação, diferenciação e outros tais enquadramentos através dos quais os relacionamentos interpessoais são muitas vezes negociados. Esta idealização da prestação de cuidados tem sido criticada ao se romantizar o papel das mulheres como cuidadoras, ao ignorar as dinâmicas de poder e ao assumir postura paternalista em relação àqueles com necessidade de cuidado. Rosemarie Garland Thomson, por exemplo, explica que “a controversa ética do cuidado feminista tem também sido criticada pelas acadêmicas feministas especializadas em deficiências por subestimarem as relações simétricas e recíprocas entre as mulheres deficientes e não-deficientes, assim como por sugerirem que o cuidado seja apenas de responsabilidade das mulheres” (1997, pág. 26). Margrit Shildrick, em contraste, teoriza a prestação de cuidados como um empreendimento mútuo e dinâmico que transforma tanto a pessoa que fornece cuidado quanto quem recebe, requerendo “o encontro com a vulnerabilidade sobre a qual paira uma abertura à estranha imprevisibilidade e ao excesso, uma abertura que torna o self vulnerável” (2002, pág. 78; ênfase no original).

[9] Ana Castillo, que inicialmente colaborou com Anzaldúa e Moraga nos anos 1980, chega a uma conclusão similar em Massacre of the Dreamers (1994), fundindo as lições de sua avó curandera com ciência para delinear uma igualdade radical e interconectividade com todas as coisas. Se nós fazemos uso da física moderna, ela argumenta, “nós integramos uma percepção da vida como estando fisicamente conectada de átomo a átomo, nenhuma parte sendo mais essencial nem mais grandiosa do que o resto e que nós todos somos vitais uns para os outros” (1994, pág. 156). Esta reivindicação substitui o microscópio pelo telescópio como a ferramenta para o exame político, olhando para os corpos, não como membros individuais de uma coletividade sociopolítica, mas como uma coletividade de átomos que continuamente interagem com um ambiente em mudança. Não é só que Castillo abre as fronteiras dos corpos; ela expõe a instabilidade inerente de qualquer fronteira que podemos visualizar.

[10] Dolores Huerta co-fundou a União dos Trabalhadores Unidos na Agricultura com César Chavez e tem estado na vanguarda do movimento pelos direitos civis Chicana/o desde os anos 1960.

[11] Ver Butler (1992).

[12] Em Loss, Eng e Kazanjian teorizam o potencial produtivo da perda e de “as novas perspectivas e novos entendimentos” criados pela melancolia. Vivendo com ruptura e perda com base no dia a dia pode ser tanto retrospectivo quanto prospectivo, “levant[ando] a questão o que torna possível um mundo de objetos, lugares e ideias novas” (2003, pág. 4). Andando sem os fantasmas do passado transforma a forma que andamos através do mundo.

[13] Uma das passagens mais frequentemente citadas em Borderlands declara que “a nova mestiza compete ao desenvolver uma tolerância pelas contradições, uma tolerância pela ambiguidade” (Anzaldúa, 1987, pág. 79).

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[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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Capítulo 11 – Quão Real é Raça?

Material Feminisms

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HAMES-GARCÍA, Michael. Capítulo 11 – Quão Real é Raça? In: ALAIMO, Stacy e HEKMAN, Susan (ed.). Feminismos Materiais. Indiana University Press: Blooming & Indianapolis, pág. 308 – 339, 2008. - Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

(a) O estado não deve classificar qualquer indivíduo por raça, etnia, cor ou origem nacional…

(b) Nada nesta seção deve evitar que os oficiais de aplicação da lei… de descrever pessoas específicas de outra maneira de formas legais. Nem… o legislador, nem qualquer agência estatal deverá exigir que os oficiais de aplicação da lei mantenham registros que identifiquem os indivíduos com base nas ditas classificações…

- The Racial Privacy Initiative, submetido ao Advogado Geral da Califórnia, 28 de Setembro de 2001.

            Uma leitura rápida da Ward Connolly´s Racial Privacy Initiative (que teria eliminado o uso de raça na Califórnia como um meio de classificação) revela muito sobre as contradições no discurso público sobre raça. Entre outras coisas, ela explicitamente prevê a retenção da discriminação racial por parte da polícia enquanto libera os departamentos policiais de terem que identificar a raça das pessoas que eles prendem ou detém. O referendo, promovido através da retórica liberal e antirracista, teria frustrado todas as tentativas de demonstrar os padrões discriminatórios de vigilância, prisão ou perseguição pela polícia. Raça claramente importa e, ainda em toda a sua história como um conceito, a sua elaboração tem sido escorada pelas ficções biológicas que não se sustentaram ao escrutínio científico. Neste ensaio, exploro algumas das contradições entre as concepções sociais e biológicas da realidade da raça e sugiro que o que é preciso agora é uma experimentação criativa com as identidades raciais, ao invés de seu abandono.

             Poucos negariam que a identidade social tenha se tornado um meio primário para a ação política dentro da democracia liberal. Muitos, no entanto, lamentam este fato e a “política de identidade” tem se tornado uma abordagem pejorativa e com frequência na melhor das hipóteses improdutiva para a mudança social. Dentro da academia, um forte corpo de trabalho tem emergido que se opõe à identidade – especialmente à identidade racial. Embora existam muitas alternativas, uma profunda desconfiança da identidade racial tem sido uma posição altamente influente (mesmo fora da academia, como demonstrado pela Racial Privacy Initiative) [1]. Neste ensaio, argumento tanto que as identidades raciais podem ser úteis, produtivas e transformadoras, quanto que o seu progressivo potencial político possa se beneficiar de um relato substantivo de sua realidade material. Se as identidades sociais, incluindo raça, fazem uma diferença significativa para como as pessoas vivem as suas vidas, para quais tipos de experiências elas são susceptíveis de ter e de como elas são tratadas pelos outros, certamente a progressiva luta política se beneficiaria de um relato substantivo do que faz importar as identidades e como elas devem ser abordadas. Em vez disso, no entanto, alguns teóricos procuram desaparecer com as identidades raciais, em grande parte argumentando que elas deveriam, ao invés de abordar as condições materiais que dão origem e resultam delas. Gostaria de começar, portanto, considerando dois exemplos de perspectivas antirrealistas de identidade social e raça que as veem como obstáculos às políticas transformadoras e como perdendo os referentes “reais” substanciais no mundo.

Identidade Racial como Problema ao Invés de Solução

            Existem duas grandes abordagens para os argumentos contra raça e identidade. A primeira vê qualquer invocação de identidade coletiva outra que não a identidade de classe como um divisor impeditivo à luta radical de transformação social. A segunda destaca a identidade racial especificamente como encontrada sobre uma ficção biológica e, portanto, como uma categoria inválida para a análise social. Estas duas posições não são mutuamente exclusivas e os críticos muitas vezes as invocam simultaneamente. A título de ilustração, tentei enfatizar cada abordagem nos escritos de dois influentes acadêmicos, ambos os quais ganharam notoriedade em parte devido à sua rejeição das identidades sociais, incluindo a identidade racial.

            A primeira, a acusação mais geral de identidade (racial) emerge no livro States of Injury, do teórico político Wendy Brown, que retrata uma imagem pessimista das políticas de identidade. De acordo com Brown, a política de identidade ou se compromete com a prevenção das desigualdades de classe ou fica presa num ciclo improdutivo de culpa e ressentimento. Ambos os resultados contornam a transformação radical e progressiva da sociedade. Brown, assim, acusa a política de identidade de apenas procurar obter um lugar na mesa, seguido de um pedaço de torta e motivado pelo ressentimento de ser excluído da sociedade (1995, pág. 54). Ela pergunta, “Até que ponto a política de identidade exige um padrão interno à sociedade existente contra a qual lançar as suas reivindicações, um padrão que não apenas preserva o capitalismo da crítica, mas mantém a invisibilidade e a falta de articulação da classe – não de forma acidental, mas endemicamente? Poderíamos ter tropeçado sobre um motivo pelo qual classe é invariavelmente chamada, mas raramente teorizada ou desenvolvida no mantra multiculturalista, ‘raça, classe, gênero e sexualidade’”? (1995, pág. 61). No relato de Brown, a política de identidade é “um protesto contra a exclusão” que procura inclusão dentro (o que acaba por ser) de um ideal comunal ficcional ao invés de procurar a transformação da sociedade; a política de identidade, assim, reforça aquele ideal ficcional e as suas várias exclusões (1995, pág. 65) [2]. De acordo com o relato insistentemente psicológico de identidade de Brown, a política de identidade busca vingança pela exclusão (1995, pág. 64) [3]. Os participantes na política de identidade permanecem presos, de acordo com Brown, pela sua incapacidade de superar o passado (descrito de forma variada como “um dano do passado” ou uma “história de sofrimento”), e eles, portanto, localizam uma razão para aquela história no presente. Ao basear a sua identidade sobre um dano do passado, gera-se “uma política de etnicidade… de recriminação que procura vingar a dor mesmo enquanto ela reafirma isso” e que não pode oferecer um “futuro – para si ou outros – que triunfe sobre esta dor” (1995, pág. 74).

            Ao admitir que não se pode simplesmente acabar com a identidade, no entanto, Brown realmente oferece uma cura para o que aflige a política de identidade na forma de duas sugestões. A primeira é algo ao longo das linhas de um comitê da verdade e da reconciliação que permitiria as pessoas dizerem a sua dor, para serem ouvidas sem procurar vingança, sem perguntar por nada no presente para visar o passado (uma vez que isso iria inscrever o passado no presente) [4]. Depois, ela sugere que nós falemos e interpretemos a política de identidade menos em termos do “Eu sou” e mais em termos do “Eu quero isto para nós”, assim, mudando a ênfase para longe a partir de uma afirmação de identidade no presente rumo a um foco sobre os quereres, necessidades, desejos e o futuro (1995, pág. 75).

            O relato de Brown da política de identidade, no entanto, é deliberativamente a-histórico e antimaterialista, e ela lança a sua crítica em termos abstratos e gerais, implicando que a dela é um relato de qualquer tipo de políticas baseadas sobre a afirmação de uma identidade. A crítica dela seria condenável, exceto que ela apenas oferece um exemplo simples de política de identidade em seu capítulo (uma portaria antidiscriminação em sua cidade local), abstendo-se de consideração dos movimentos sociais que têm se tornado a expressão dominante da política de identidade. Embora a crítica dela da política de identidade possa ser válida para alguns exemplos dos movimentos com base na identidade dos EUA contemporâneo, isto exigiria uma quantidade significativa de dados históricos e etnográficos para determinar que é verdadeiro para todos ou mesmo para a maioria, destes movimentos. Tais dados estão simplesmente ausentes.

            Finalmente, uma vez que o trabalho de Brown permanece descomprometido com a história da política de identidade, mesmo nos Estados Unidos, penso que ela perde muitas das formas em que a história demonstra as complexas relações que são possíveis entre a afirmação da identidade, as histórias de opressão e a articulação de futuros mais livres e mais igualitários. Além disso, os movimentos políticos com base na identidade têm muitas vezes perseguido futuros socialmente transformadores em formas mais complexas do que mesmo a mudança de Brown do “Eu sou” para “Eu quero isso para nós” pode relatar. Brown estritamente retrata as origens da política de identidade em uma necessidade psicológica por reconhecimento, ao invés de numa injustiça material, histórica e econômica, e entende a política de identidade como apenas procurando reconhecimento dentro de uma ordem social não reconstruída. Consequentemente, ela oferece uma solução que é em si linguística, ao invés de material, deixando sem solução as preocupações materiais que dão à identidade a sua saliência política para se começar. Ao invés da transformação social radical (algo que ela critica a política de identidade por ser incapaz de invocar), sua solução equivale essencialmente a uma mudança na linguagem política [5].

            Minhas objeções ao trabalho de Brown não implicam uma completa rejeição das ideias dela. Ao invés disso, parece-me que ela muito estritamente circunscreve a sua concepção de política de identidade. Além disso, ela não reconhece suficientemente os limites daquela concepção (dando ao trabalho dela o tom de uma aquisição definitiva em tudo o que é a política de identidade). Finalmente, ela faz tudo isto sem o apoio empírico, sem qualquer envolvimento substantivo com (ou mesmo referência) a longa história de lutas políticas baseadas em identidade. Um exame desta longa história revelaria que um objetivo da inclusão é muitas vezes compatível com um objetivo de transformação social radical. Além disso, muitos tipos de políticas de identidade (das muitas versões de nacionalismo ao separatismo lésbico) simplesmente não buscam inclusão. Embora alguns destes movimentos possam vir a inscrever um passado no presente e falham em ir além da afirmação da identidade, esta questão empírica requer uma consideração cuidadosa de cada movimento social. Não é algo que se possa resolver antes dos fatos.

            Outro oponente da identidade, o crítico literário Walter Benn Michaels, oferece algumas objeções similares às de Brown, mas acrescenta a reivindicação mais específica do que raça é uma categoria injustificável de classificação social. Ele coloca a sua reivindicação específica sobre raça mais acentuadamente em um artigo de 1997:

            Na medida em que ambos os projetos – o que celebra raça e o que a revoga – dependem de uma concepção de raça como um fato social, gostaria de argumentar que nenhum pode ter sucesso. Nós não podemos pensar raça como um fato social, como a escravidão ou… como classe… Argumentarei que raça não é como classe, que ela nem acontece e nem pode ser feita para não acontecer. E apesar daqueles que querem “respeito e preservação” ao invés de abolir raça, argumentarei que não faz mais sentido respeitar a diferença racial do que tentar aboli-la… Nossas atuais práticas raciais… no entanto, “anti-essencialistas”, podem ser compreendidas apenas como a expressão de nosso compromisso com a ideia de que raça não é uma construção social, e quero insistir que se desistirmos deste compromisso, devemos abandonar a ideia de raça completamente. Ou raça é uma essência ou não existe tal coisa como raça (1997, pág. 125).

            Michaels observa que para os teóricos críticos sobre raça, “a reivindicação de que não existem raças na natureza – de que raça é uma construção social – não pretende negar que exista tal coisa como raça; que se destina a nos dar um relato melhor do que é raça” (1997, pág. 132-33). Ou seja, os construtivistas sociais sobre raça, ao invés de argumentar que raça é meramente uma ficção, argumentam que ela existe, não apenas como um dado natural ou biológico fora de ou anterior aos significados culturais. Para Michaels, no entanto, raça ou é um fato biológico ou uma ficção biológica; não é nem uma localização estrutural dentro de um sistema econômico como classe, nem  uma malha de práticas culturais como etnia. De fato, a biologia é tipicamente o elemento definidor nas distinções modernas entre raça e etnia [6].

            Uma vez que raça acaba por ser irredutível a um critério simples e físico (por exemplo, cor de pele, descendência ou distância genética), Michaels conclui que os construtivistas sociais devem acreditar que raça é uma consequência daquilo que se faz, uma expressão dos comportamentos [7]. Aqui é o ponto em que a (des)analogia à classe social se torna importante. Embora Michaels concorde que existam as classes sociais, apesar das classes não serem “naturais”, ele nega que o mesmo raciocínio possa ser aplicado à raça (de que poderia não ser um fato natural e, no entanto, real). Classe (no sentido marxista em que Michaels está usando) é uma função do que alguém faz (ou seja, ao trabalhar ou ao possuir), e não de quem uma pessoa está de acordo com a sociedade ou como a pessoa se autodefine. É um local social puramente estrutural. Em contraste, Michaels acredita que raça seja “irredutível à ação” porque é possível para alguém agir em uma forma incompatível com a raça dele ou dela. Se uma pessoa negra pode “agir como uma branca” sem, no entanto, se tornar branca, ou uma pessoa branca pode “agir como uma negra” sem se tornar negra, em outras palavras, então raça deve ser uma parte do ser de alguém ao invés de uma consequência da ação de alguém (1997, pág. 134-40). Michaels impõe o seu ataque com mais sucesso, portanto, contra aqueles que parecem definir raça como estritamente cultural ao invés de biológica, uma vez que um relato de raça que recusa o critério biológico não pode adequadamente explicar a persistência das características físicas para determinar a identidade racial. Ele vai mais longe, no entanto, e nega a possibilidade de uma definição cinza e “embaçada” de raça como algo decorrente, de forma complexa, das interações de biologia e cultura. Michaels insiste que a “identidade que é irredutível às ações é essencial, não socialmente construída, e a identidade que é idêntica à ação não é realmente uma identidade – é apenas o nome da ação: trabalhador, capitalista. Se, então, nós não acreditamos na identidade racial como uma essência, nós não podemos acreditar na identidade racial como uma construção social e devemos abandonar completamente a ideia de identidade racial – deveríamos… negar que existem tais coisas como judeus, negros ou brancos” (1997, pág. 142) [8].

            Entre os problemas com a posição de Michaels, portanto, está o seu reducionismo. Ele baseia o seu argumento sobre a convicção de que raça deve ter apenas um significado e apenas um fator determinante. Raça, como muitos conceitos sociais, no entanto, significa muitas coisas diferentes e não é redutível a categorias puras e ordenadas. Como já afirmei em outro lugar, as identidades sociais, incluindo raça, têm fronteiras indistintas, mudam ao longo do tempo e de lugar para lugar, e produzem ambiguidades e indeterminações (Hames-García, 2000, esp. 110-11). Como Michaels, concordo que raça não é redutível nem ao comportamento, nem aos genes, nem é exclusivamente uma função da fisionomia. Raça não é a mesma coisa, em outras palavras, como cultura, classe, nação ou cor. O fato de algo não ser facilmente definido, de que contém exceções, ambiguidades e fronteiras indeterminadas, no entanto, não significa que não exista ou que não faça sentido falar disso (Wittgenstein, 1967, I, 66).

            Em fazer o seu caso geral contra a identidade, o objetivo final de Michael consiste em substituir as discussões políticas sobre o ser com debates sobre crenças. Ele caracteriza os proponentes da política de identidade como que reivindicando que “as coisas que você faz e as crenças que você mantém podem ser justificadas por uma descrição de quem você é” (2004, pág. 10). Como Brown, no entanto, ele assume, ao invés de demonstrar, que esta reivindicação é a base dos movimentos políticos com base na identidade. Se, no entanto, a declaração de Michaels fosse para interpretar que as coisas que se faz e as crenças que se mantêm podem ser explicadas, em parte, através de uma descrição de quem se é e o que se tem experimentado, então penso que seria um modo mais simples de pensar além de grande parte das políticas de identidade. Claro, nesta formulação é difícil para mim ver como os argumentos de Michael fornecem uma base para a oposição. Afinal, o que mais pode levar uma pessoa a manter uma crença particular senão as experiências dele ou dela (ver Wilkerson, 2000, pág. 272-75)? Esta reivindicação não precisa reduzir tudo o que uma pessoa é à raça, ao gênero, à classe, à sexualidade, à capacidade física, e assim por diante. Além disso, a alegação de que a identidade contribui para a crença da pessoa não precisa implicar que todas as pessoas com identidades similares irão manter as mesmas crenças. Considere a famosa comunista Angela Davis, que cresceu como alguém de classe média, negra, mulher e intelectualmente dotada em Birmingham, no Alabama; e a famosa anticomunista Condoleezza Rice, que cresceu como alguém de classe média, negra, mulher e intelectualmente dotada em Birmingham, no Alabama, apenas dez anos depois. O fato de que elas mantêm crenças políticas diametralmente opostas não significa que suas identidades como mulheres negras não tenham nada que ver com o fato de como elas sustentam aquelas crenças. Para argumentar o contrário pareceria beirar a teimosia ou então sugerir que as identidades sociais não pudessem manter qualquer significância sem que elas fossem absolutamente delimitadas, uniformes, determinadas e fundacionais.

            Os estudos de raça mostram que este termo é um conceito poderoso que tem se transformado repetidamente ao longo dos últimos cinco séculos. Também é pouco provável que desapareça tão cedo. Ao invés de diminuí-lo, acredito que os teóricos críticos devem perguntar quais são as possibilidades para a sua reinvenção adicional e como aquelas possibilidades podem promover a progressiva mudança social. Em uma veia similar, o Prêmio Nobel Toni Morrison escreve,

            Por trezentos anos. os afroamericanos insistem que “raça” não é um fator distintivo útil nos relacionamentos humanos. Durante aqueles mesmos trezentos anos cada disciplina acadêmica… insistia que “raça” era o fator determinante no desenvolvimento humano. Quando os negros descobriram que eles tinham moldado ou se tornado uma raça culturalmente formada, e que isto tinha uma diferença específica e reverenciada, de repente eles foram informados que não existe tal coisa como “raça”, biológica ou cultural, que a matéria e o intercâmbio intelectual genuíno não podem acomodá-la… Sempre me pareceu que as pessoas que inventaram a hierarquia de “raça”, quando ela é conveniente para elas que não devem ser as únicas a explicá-la, agora que não se adequa a seus propósitos para existir. (2000, pág. 26)

            As palavras de Morrison podem provocar alguém a perguntar o que os críticos têm a ganhar desconsiderando identidade e raça. A quais interesses servem as polêmicas contra identidade e raça? [9].

            Claro, os acadêmicos sobre raça podem recolher importantes insights a partir de críticos como Brown e Michaels. Pode-se ver o trabalho de Brown como um aviso importante contras as versões da política de identidade que falham tão facilmente em um quadro democrático liberal sem questionar a reprodução da desigualdade econômica, assim como contra aquelas versões que falham na tendência a divisão e no ato de olhar para seus próprios umbigos. Similarmente, pode-se generosamente interpretar o trabalho de Michael como uma advertência contra um excesso de investimento na linguagem racial. Teóricos e ativistas não devem reter a linguagem de raça simplesmente porque somos atraídos por ela, tentando fazer dela o trabalho da cultura, etnia e classe [10]. Deve-se também estar em guarda contra os elementos remanescentes do racismo científico do século XIX no discurso racial contemporâneo assim como contra a tendência coletiva da esquerda estadunidense de confundir raça com classe e cultura. Penso que Michaels está errado, no entanto, em pensar que, porque as pessoas muitas vezes confundem raça com estes outros conceitos, ele não descreve absolutamente qualquer realidade. Raça não precisa ser um relato de uma diferença biológica absoluta e naturalmente dada, nem uma fusão das formas de agir com as categorias sociais a fim de ser real. Ao invés de perguntar seriamente o que significa raça, se é ou não é útil, se ofusca realmente ou não a exploração econômica e se é ou não real com referência aos seus desenvolvimentos nos contextos materiais, Michaels, como Brown, opta por respostas abstratas e teóricas voltadas para transcender o tempo e o espaço. O que raça significa e descreve (ou tenta descrever) em diferentes tempos, lugares, e contextos é uma questão empírica que devo considerar neste ensaio. Minha própria abordagem é inegavelmente teórica, mas uma vez que meu argumento tem a necessidade de ser tanto teórico quanto empírico, vou me basear na pesquisa empírica de outros.

O Poder da Raça e a Colonialidade do Poder

            Um dos pensadores empíricos e teóricos mais influentes sobre identidade nos últimos anos é o sociólogo Manuel Castells, que oferece um amplo relato da nova forma de organização social global que ele acredita que tem rapidamente substituído tanto o capitalismo industrial quanto as formas socialistas de estado da sociedade no final do século XX. O que ele chama de “a sociedade em rede” é um sistema global universal caracterizado pela “globalização de atividades econômicas estrategicamente decisivas”, “a flexibilidade e instabilidade do trabalho e a individualização laboral”, formas dispersas de organização e mídia e a impregnação da ideologia através das categorias mais fundamentais da vida (1997, pág. 1). Dentro da sociedade em rede, os movimentos de identidade coletiva têm ganhado significância como o mais poderoso contraponto à globalização. Para Castells, os movimentos políticos baseados em identidade envolvem não apenas “movimentos pró-ativos, com o objetivo de transformar as relações humanas em seu nível mais fundamental, tais como o feminismo e o ambientalismo”, mas também “os movimentos reativos que constroem as trincheiras de resistência em nome das… categorias fundamentais de existência milenares agora ameaçadas” por “forças tecno-econômicas e movimentos sociais transformadores”, por exemplo, Deus, nação, família e assim por diante (1997, pág. 2).

            Com base em uma ampla gama de exemplos, Castells argumenta por uma tipologia em três partes da identidade coletiva: identidades legitimadoras, identidades de resistência, e identidades de projeto (1997, pág. 8). As identidades legitimadoras surgem através de instituições formais e informais, mas “oficiais”, tais como a igreja, o voto, a escola, a mídia corporativa e assim por diante. As identidades legitimadoras, tais como “o cidadão” ou a identidade da classe média estadunidense, em última análise servem para reforçar e legitimar as estruturas sociais existentes de controle e dominação. As identidades de resistência vieram a existir através das ações de pessoas que têm sofrido opressão, exclusão ou dominação; elas rejeitam as normas da sociedade e afirmam normas opostas. As identidades de projeto afirmam redefinir a posição do grupo e o papel na sociedade, mas diferente das identidades de resistência, elas se expandem na busca da transformação radical da sociedade como um todo. Sua tipologia se sobrepõe: alguns movimentos começam como identidades de resistência e depois se tornam identidades de projeto, legitimadoras ou uma mistura de algumas ou de todas elas.

            O relato de Castells das identidades de projeto torna acessível toda uma gama de possibilidades que são excluídas pelo relato de Brown e levanta sérios desafios à nostalgia de Michael pelos movimentos políticos (supostamente) puramente baseados na crença, em oposição aos baseados em identidade. De acordo com Castells, a identidade de projeto se torna parte de um amplo processo de sociedade reinventada e reordenada. Embora o processo de criar uma identidade de projeto possa começar através da afirmação de uma identidade denegrida, ela tem o potencial de se expandir “rumo à transformação da sociedade como o prolongamento deste projeto de identidade, como no… exemplo de uma sociedade pós-patriarcal, liberando mulheres, homens, e crianças através da realização da identidade das mulheres” (1997, pág. 10). Embora as identidades de projeto não precisem necessariamente ser politicamente progressistas, Castells acredita que elas são, na época contemporânea, necessárias para a mudança social (1997, pág. 11). Castells reconhece que muitas das identidades contemporâneas não se tornam identidades de projeto, permanecendo presas em uma postura reativa (1997, pág. 65). No entanto, apesar das chances ruins, a identidade permanece a melhor esperança para transformar a sociedade em rede global atual em um mundo melhor e mais humano.

Dado o poder do relato de Castells, é importante examinar como ele entende as perspectivas para raça como uma identidade de projeto. No entanto, antes de voltar à consideração de Castells de identidade racial no período contemporâneo, gostaria de reconstruir rapidamente a longa história da raça como uma categoria social. Em particular, eu gostaria de voltar ao relato do sociólogo historiador e teórico de sistemas mundiais Aníbal Quijano da origem e do significado de raça. Faço isto porque a teoria dos sistemas mundiais provou ser um dos modelos mais eficazes para analisar a mudança histórica em uma escala global e porque Quijano tem estado na linha de frente do uso desse modelo para compreender raça. O seu uso da teoria dos sistemas mundiais oferece um sentido mais duradouro e amplo das origens de raça do que os seus relatos que tornaram o racismo científico e as classificações legais do século XIX como exemplos definitivos de pensamento racial.

            Para Quijano, raça emerge no século XVI, ao lado de uma (re)organização complexa e global do poder em torno de três fatores interrelacionados e inseparáveis: “colonialismo”, capitalismo e Eurocentrismo. O desenvolvimento do conceito de raça é essencial para explicar como estes fatores são mutuamente constituídos:

            O que é chamado de globalização é o culminar de um processo que começa com a constituição da América [a “descoberta das Américas”] e o capitalismo Eurocentrado colonial/moderno como um novo poder global. Um dos eixos fundamentais deste modelo de poder é a classificação social da população do mundo em torno da ideia de raça, uma construção mental que expressa a experiência básica de dominação colonial e permeia as dimensões mais importantes do poder global, incluindo a sua racionalidade específica: o Eurocentrismo. O eixo racial tem uma origem e caráter colonial, mas ele tem provado ser mais durável e estável do que o colonialismo em cuja matriz foi estabelecida. Portanto, o modelo de poder que é globalmente hegemônico hoje pressupõe um elemento de colonialismo. (Quijano, 2000, pág. 533)

            Duas coisas sobre raça são cruciais para Quijano. Primeiro, sua origem supõe a existência de diferenças biológicas a partir da qual seguir uma hierarquia natural ente grupos superiores e inferiores. Em segundo lugar, raça permite (e foi permitida por) novas relações sociais e econômicas; as identidades raciais, assim, se tornam “constitutivas” de papéis, locais, crenças e práticas desiguais (2000, pág. 534). Assim, de acordo com Quijano, raça, em sua origem, foi uma teia de crenças que serviam para legitimar a dominação, naturalizar as desigualdades para que as pessoas a aceitassem como inevitáveis e eternas, ao invés contingentes e produzidas. No processo, a ideologia de raça “invadiu” a ideologia de dominação de gênero, mutando e transformando-a (2000, pág. 545-56) [11].

            De acordo com Quijano, raça veio a existir (separadamente de etnia ou nação) como um marcador de diferenças herdadas, “naturais” e hierarquicamente classificadas, no temperamento, moralidade, capacidade intelectual e aptidão para a realização cultural e científica entre populações. Estas supostas diferenças justificaram a naturalização das relações sociais de dominação. Raça emergiu tanto como uma justificação da dominação social quanto uma forma básica de lugares determinados dentro do mercado de trabalho (2000, pág. 538). Raça divide o mundo em populações inferiores e superiores que, então, legitimam uma divisão racial do trabalho. (Assim, o trabalho assalariado era restrito aos brancos, enquanto que a ordem racial atribui aos não-brancos a servidão e a escravidão). Quijano escreve, “Deste modo, tanto raça quanto a divisão do trabalho permanecem estruturalmente ligadas e mutuamente reforçadas, apesar do fato de que nenhuma delas era necessariamente dependente da outra a fim de existir ou mudar” (2000, pág. 536) [12]. A independência da raça da divisão do trabalho é significativa para seus efeitos persistentes (a “colonialidade do poder”).

            Concorrente com a consolidação de um sistema econômico mundial Eurocentrado, foi a Eurocentrificação de conhecimento, cultura e história. A classificação de acordo com raça da população do mundo, em outras palavras, veio a ter intensos efeitos epistêmicos e culturais [13]. O Eurocentrismo, para Quijano, nomeia a dimensão cognitiva e cultural do novo modelo de poder global dominante desde o século XVI. Ele implica tanto a imposição de uma identidade “racial, colonial e negativa” sobre os não-europeus e a classificação de sua cultura como “naturalmente” inferior e historicamente anterior à Europa (como pré-moderna ou primitiva) (2000, pág. 551, 552). Os muito discutidos dualismos ligados do pensamento ocidental moderno são apenas um legado duradouro da colonialidade do poder: razão/corpo, cultura/natureza, superior/inferior, macho/fêmea, branco/preto, norte/sul. A separação no século XVII do corpo da mente e a identificação do corpo com a natureza (e feminilidade, indiani-dade, e negritude) tornou possível, de acordo com Quijano, o racismo científico do século XIX (2000, pág. 555) [14].

            Vale a pena notar que tanto Castells e Quijano retrataram raça em termos quase que exclusivamente negativos [15]. Depois de uma longa consideração da importância da raça (em termos de opressão e discriminação) para os Afroamericanos, Castells finalmente sustenta que o conceito de raça (que ele aqui funde com etnia) só pode ter  importância comum significativa uma vez que combine com categorias mais amplas (gênero, nação, religião, classe e assim por diante) (1997, pág. 53, 59, 65) [16].

            Etnia não fornece a base para os céus comunais na sociedade em rede, porque é baseada nas ligações primárias que perdem significado, quando cortadas de seu contexto histórico, como uma base para a reconstrução do significado em um mundo de fluxos e redes… Os materiais etnicos estão integrados em comunas culturais que são mais poderosos e mais amplamente definidos que etnia, tais como religião ou nacionalismo, como declarações da anatomia cultural em um mundo de símbolos… Raça importa, mas dificilmente constrói significados por mais tempo. (1997, pág. 59).

            A base primária para esta surpreendente afirmação (surpreendente porque Castells não faz a mesma afirmação sobre nacionalidade ou religião) reside na popularização de classe crescente dos negros nos Estados Unidos. No caso de raça, Castells conclui que a fratura da identidade em um exemplo a previne de ser uma fonte de significado em todos os casos (embora a fratura de algumas identidades nacionais não exclua a coesão de algumas outras identidades nacionais para Castells). No entanto, ele oferece o seu próprio contraexemplo de uma identidade de projeto racial, embora ele não a enquadre como tal. Retornarei a este contraexemplo em minha seção de conclusão.

Isto é Real? Isto é Realmente Real?

            Dado o relato de raça de Quijano, existem obviamente boas razões porque alguém pode querer argumentar contra a sua realidade biológica – talvez, mais na esteira ainda das versões dos séculos XIX e XX de racismo científico. E ainda como Castells observa, como um aceno para o Cornell West, “raça importa muito” (1997, pág. 57). Determinar em que consiste aquela importância, então, se torna uma tarefa crucial. Se compreendermos raça, como Quijano sugere, como diferente de cultura, etnia, classe ou nação, então, sugiro que a alegação de que raça é real pode significar pelo menos três coisas diferentes: (1) Raça tem uma realidade material-econômica nos efeitos e legados imediatos de racismo. (2) Raça tem uma realidade social e psicológica como um sistema existente de crenças e atitudes com efeitos materiais (isto incluiria certos efeitos epistêmicos na produção e aquisição do conhecimento). (3) Raça existe em uma forma física e biológica, como uma questão corporal.

            Se nós pensamos raça como meramente abreviando a referência aos efeitos da classificação racial e do racismo na sociedade contemporânea, então, é difícil negar a sua realidade (embora alguns possam). Castells cita uma série de estudos sobre o empobrecimento e o aprisionamento dos negros nos Estados Unidos (1997, pág. 53-55). Como o criminologista Coramae Richey Mann observa, “As minorias raciais suspeitas desproporcionalmente se tornam réus (na corte) e como réus são desproporcionalmente enviados para a prisão ou desproporcionalmente executados” (1993, pág. 219). Um estudo aprofundado da pena de morte na Georgia pelos criminologistas David Baldus, Charles Pulaski e George Woodworth (1983) encontrou que os réus foram quatro vezes mais prováveis de receber uma sentença de morte por matar vítimas brancas do que por matar vítimas negras. Além disso, os negros condenados por assassinar brancos eram vinte e duas vezes mais prováveis de receber uma sentença de morte do que negros condenados de assassinar negros. O estudo encontrou que o fator raça é muito mais influente do que duas centenas de outros fatores possíveis que influenciam a condenação (incluindo vários tipos e graus de agravamento e motivação, se as vítimas fossem policiais, pessoas muito jovens ou mulheres, e se o réu tinha um registro anterior) (1983, pág. 689-95, 707-10). É difícil compreender o tratamento desproporcional das minorias raciais nos Estados Unidos como qualquer outra coisa que um efeito e legado do racismo. Mesmo os argumentos politicamente conservadores de que a pobreza e a desvantagem são o resultado de traços culturais que são dependentes do pensamento racial enquanto eles identificam o problema como a cultura dos negros pobres, latinas/os e dos indígenas americanos, mas não de brancos pobres. A pobreza dos negros, em outras palavras, se torna uma consequência do ser negro, enquanto que a pobreza dos brancos simplesmente resulta de ser pobre. No mínimo, raça é importante para compreender, explicar e abordar os efeitos do racismo contemporâneo e histórico [17].

            A próxima forma em que raça pode importar é um conjunto de crenças com efeitos materiais.  Dito de outra forma, as ideias sobre raça influenciam a forma como as pessoas pensam e agem? Nos anos recentes, os psicólogos sociais têm oferecido respostas surpreendentes a estas questões. Em 1995, Claude Steele e Joshua Aronson conduziram um estudo em que os pesquisadores aplicaram exames difíceis em graduandos negros e brancos da Universidade de Stanford para medir os conhecimentos avançados em língua inglesa. Quando os pesquisadores disseram aos respondentes dos testes que o exame era diagnóstico de capacidade verbal, os negros tiveram um desempenho 50% inferior bem como os brancos. Quando o mesmo exame foi dado e os respondentes ao teste disseram que ele não diagnosticava a capacidade, mas meramente a forma de estudar como as pessoas resolvem problemas, negros e brancos tiveram um desempenho aproximadamente o equivalente (Steele, Spencer e Aronson, 2002, pág. 382-84; Steele e Aronson, 1995). Outro grupo de pesquisadores foi capaz de produzir resultados similares no domínio do desempenho físico, tendo os atletas universitários negros e brancos jogado 10 buracos de golfe em um curso de laboratório. Quando foi dito aos atletas que o objetivo era medir a “capacidade atlética natural”, os negros superaram os brancos de forma significativa; quando foi dito a eles que o teste mensurava a “inteligência estratégica esportiva”, o resultado foi o oposto (Steele, Spencer e Aronson, 2002, pág. 386; Stone et al., 1999). Assim, deixando de lado a questão de que se o racismo (intencional ou estrutural) existe atualmente, fica claro que raça como um conjunto de ideias existe e tem efeitos materiais significativos não apenas sobre o pensamento das pessoas, mas também sobre o seu desempenho em uma ampla variedade de tarefas mentais e físicas. Além disso, estes efeitos não são arbitrários, mas sim tem claras conexões com a longa história do Eurocentrismo e das hierarquias avaliativas recontadas por Quijano (branco/negro, mente/corpo e assim por diante).

            Talvez, o significado mais controverso da alegação de que raça importa (ou de que raça é real) seria a sugestão de que raça tem, como uma base, estruturas causais biológicas e físicas que resultam nas diferenças sociais que se encontra entre grupos raciais contemporâneos socialmente definidos. Entre os problemas com esta alegação, como a tenho colocado, é a assumida separabilidade da biologia e da cultura. Além disso, ela corre o risco de lidar com o pensamento racista histórico e de senso comum. O paleontólogo e historiador da ciência Stephen Jay Gould, entre outros, tem meticulosamente documentado os abusos do racismo científico do século XIX como uma tentativa de legitimar as classificações raciais socialmente definidas e suas desigualdades sociais assistentes em termos de diferenças biológicas (por exemplo, a ideia de que o tamanho do cérebro ou a capacidade intelectual tem uma conexão direta com a cor da pele) (Gould, 1996, esp. 26-36; Harding, ed. 1993; Hubbard e Wald, 1999, pág. 13-38). Mais recentemente o biólogo evolutivo Joseph L. Graves Jr. (2004) compilou uma gama de dados científicos e sociais para argumentar que as categorias comparativas das raças socialmente definidas são geralmente inúteis, e muitas vezes perigosas, para tentar compreender o comportamento sexual, a saúde, a medicina, as capacidades esportivas e a inteligência. Embora ele também procure por considerações como densidade óssea e massa muscular, os principais alvos do argumento de Grave são as explicações genéticas das diferenças sociais. Ele observa que a humanidade como uma espécie veio a existir muito recentemente, em termos evolutivos. Mesmo a dispersão mais recente das populações humanas geograficamente e as populações num tempo relativamente curto passaram no isolamento geográfico não tem sido suficiente para o desenvolvimento de raças geográficas diferentes como o termo é aplicado para outras espécies. Em outras palavras, em contraste com muitos outros mamíferos, os seres humanos são notavelmente similares quando olhamos para os nossos genes [18]. Além disso, com relação à suposta predisposição genética racial a doenças, Graves mostra que as nossas raças atuais socialmente definidas obscurecem as associações e diferenças genéticas atuais de várias populações. Os genes para as células falciformes, por exemplo, embora prevaleçam nas pessoas da África Ocidental, o Mediterrâneo, o Oriente Médio e a Índia são incomuns entre as pessoas da África Oriental. Similarmente, embora muita coisa tenha sido feita para se identificar uma predisposição supostamente genética entre os Afroamericanos para alta pressão sanguínea, os nigerianos tem taxas muito mais baixas de pressão arterial alta do que os brancos estadunidenses (a diferença entre os nigerianos e os brancos estadunidenses sendo mais do que o dobro da diferença entre os brancos estadunidenses e os negros estadunidenses) (2004, pág. 226). Como Graves observa, “a distância geográfica não iguala necessariamente a distância genética. Na verdade, assumindo que duas pessoas são geneticamente diferentes porque parece que elas vieram de diferentes partes do mundo pode ser realmente perigoso para a sua saúde… porque coisas como o tipo sanguíneo das pessoas ou sua capacidade de aceitar órgãos transplantados são ditados pelo quão geneticamente próximos eles são, não necessariamente por onde os seus ancestrais vieram geograficamente” (2004, pág. 8) [19].

            Existem, então, boas razões para ser cético sobre as tentativas de ligar biologia à raça – especialmente considerando tais exemplos familiares de determinismo biológico racial como retumbantemente refutado no livro The Bell Curve de Richard J. Herrnstein e Charles Murray [20]. No entanto, penso que existem importantes razões para não eliminar toda a consideração de biologia e do corpo a partir de nossas discussões de raça, desde que entendamos a biologia como mutuamente constituída com a cultura e como significativamente menos determinada do que é muitas vezes considerada como sendo. Em particular, gostaria de sugerir que uma importante dimensão do que é raça e como ela funciona resulta da interação das ideologias sociais de raça com a visível diferença humana. Esta dimensão é perdida se os acadêmicos são incapazes de considerar a matéria física da raça. Enquanto tais diferenças exteriores como a cor da pele, a textura do cabelo ou a forma dos olhos podem manter pouco ou nenhum significado para o nosso funcionamento biológico como organismos ou para as nossas capacidades inatas, elas são cruciais, nas sociedades ocidentais, para o nosso funcionamento social [21].

            Isto ajuda a compreender o físico ou o natural como alguma coisa que não está simplesmente dada ou inerte, passiva e posta em prática pela cultura. A física teórica Karen Barad sugere que uma adequada teoria social do corpo precisa relatar “como a materialidade do corpo – por exemplo, a sua anatomia e fisiologia – e outras forças materiais ativamente importam para os processos de materialização” (2003, pág. 809; ênfase no original). Com base na física quântica de Niels Bohr, a perspectiva dela dos corpos procura rejeitar a separação entre o observador e o objeto e, portanto, também entre sociedade/cultura/ideologia e matéria. Se compreendermos o mundo como fundamentalmente uma grande sopa de processos inseparáveis, com fronteiras indeterminadas que estão constantemente em fluxo (que é mais fácil de fazer no nível quântico dos átomos, partículas e ondas), então se pode começar a ver o grau de mútua constituição em jogo entre observadores e objetos. Tanto o “observador” (que incluiria os pressupostos teóricos assim como os instrumentos usados para observar e medir) e a “matéria observada” interagem (ou, como Barad insiste, “intra-agem”) a fim de produzir um evento ou fenômeno. Tanto o observador quanto a matéria são “agenciais”. O observador não é, portanto, neutro no relato de Barad, nem a matéria passiva: “O mundo é um processo dinâmico de intra-atividade na reconfiguração em curso de estruturas causais localmente determinadas com fronteiras, propriedades, significados e padrões determinados de marcas sobre os corpos” (2003, pág. 817). A agência é, então, um processo através do qual a intra-ação causal de diferentes partes do mundo produz o fenômeno inteligível. Como Bohr observa, a indeterminação é particularmente saliente no estudo do fenômeno quântico, tal que relatando por um fenômeno que exige uma profunda descrição “de todas as características relevantes do arranjo experimental” (Bohr, 1963, pág. 4; citado em Barad, 2001, pág. 82-83).

            Extrapolando as ideias de Barad e Bohr para o reino da teoria social, eu argumentaria que a indeterminação e mútua constituição são igualmente características do fenômeno social, político e histórico quanto do fenômeno quântico. Ao considerar raça, muitos reducionismos biológicos tendem a evitar as histórias de racismo como características relevantes, embora muitas tentativas de desmerecer o racismo científico tendem a desconsiderar a importância das diferenças físicas biologicamente superficiais para o entendimento da realidade racial. Como Barad adverte, no entanto, “as explicações de vários fenômenos e eventos que não consideram o material, assim como o discursivo, restrições falharão em proporcionar relatos empiricamente adequados (não é qualquer história que irão fazê-los)” (2001, pág. 88). Além disso, a tentativa de eliminar raça como uma categoria de análise em favor da cultura, etnia ou classe, embora bem intencionada, pode falhar precisamente por não relatar o papel ativo das, de outro modo, diferenças físicas superficiais, assim como os costumes de atribuir significado à descendência familiar, em moldar as formações raciais.

            A não ser que aceitemos o papel causal da matéria na formação dos significados e fenômenos raciais, as nossas teorias de sociedade serão incapazes de explicar como e porque as pessoas experienciam a raça como elas o fazem. Para ser franco, como eu posso compreender a minha vontade em chamar um táxi na cidade de Nova Iorque ou Washington, D.C., em face de inúmeras estórias de amigos negros que tiveram que caminhar 40 quarteirões sem que nenhum táxi parasse? Ao longo de linhas semelhantes, um estudo de 1991 de Verna Keith e Cedric Herring constatou que, embora os Afroamericanos identificados como “muito claros” alcançassem 80% da média de renda dos brancos estadunidenses em 1980, os Afroamericanos “muito negros” alcançavam 53% – com a renda dos Afroamericanos “morenos claros”, “morenos médios” e “morenos escuros” formando uma curva negativamente inclinada entre os dois extremos (1991) [22]. No último caso, pelo menos duas explicações são imagináveis, ambas as quais apontam para as intra-ações dos corpos racializados e as ideologias sociais de raça. A primeira possibilidade é que, devido ao racismo biológico, os negros de pele mais escura enfrentam maior discriminação que seus pares de pele mais clara, resultando em diferenças de renda herdadas e adquiridas. A segunda possibilidade é que, dado que a cor da pele nos conjuntos de dados de Keith e Herring, foram autorrelatados, os respondentes da pesquisa de onde os dados vieram enxergavam os seus próprios corpos como mais escuros ou mais claros em relação aos seus status econômicos e sociais. Estas duas explicações não são certamente mutuamente exclusivas e ambas sugerem que os efeitos continuados da divisão racial do trabalho que Quijano vê emergindo no século XVI. Em qualquer caso, quero observar que uma teoria racial que não relate pela intra-ação da cultura e do corpo é inadequada para explicar os dados. Alguns dos estudos em psicologia social discutidos acima também sugerem a importância de considerar a ativa participação dos corpos nos significados raciais. Steele, Spencer e Aronson observam, por exemplo, que quando um teste de capacidade verbal foi aplicado a estudantes universitários negros e brancos e descrito como culturalmente justo, os brancos não superaram os negros. Quando foi apresentado como um teste diagnóstico normal, no entanto, os brancos superaram os negros – e os negros (embora não reportassem maior ansiedade do que os estudantes brancos) tinham níveis de pressão arterial “drasticamente” maiores (2002, pág. 400-401) [23]. O corpo biológico não é uma matéria inerte em face das ideologias raciais.

            Raça é em fenômeno que emerge através da intra-ação de um número de coisas, incluindo as diferenças fenotípicas humanas tais como a forma dos olhos e do nariz, o tom de pele, a textura do cabelo e assim por diante. Estas diferenças se tornam salientes no processo em curso da formação racial. Elas se tornam significativas como componentes no fenômeno da intra-atividade da raça, que por sua vez variam através do tempo e espaço. Assim, o significado daquelas diferenças corporais mudam e não está sempre mesmo presente quando o conceito de raça emerge. Não se pode plenamente explicar certos fenômenos raciais, no entanto, sem referência aos corpos humanos. Tentativas de reconfigurar raça unicamente como cultura ou ficção legal caem no absurdo se elas não podem considerar o papel significativo da diferença corporal no “embranquecimento” dos imigrantes europeus nos Estados Unidos (ou na capacidade desigual de diferentes mexicanos americanos de “se tornar” brancos) [24]. O embranquecimento pode não apenas resultar de uma perda de melanina, mas ela certamente ajuda a tornar a pele clara a fim de qualificá-la como branca. Os estudos sobre a ambiguidade da categoria de embranquecimento, de fato, apoiam a ligação entre o tom da pele e o embranquecimento social. Depois de tudo, a ambiguidade sobre quem é qualificado como branco nos Estados Unidos não afeta os imigrantes da Nigéria ou Suécia. O próprio fato de que a jurisprudência nos EUA que determina as fronteiras da identidade racial enfoca de forma esmagadora questões relacionadas a asiáticos, imigrantes do Oriente Médio, latinas/os e as pessoas mestiças mostram a extensão com que a aparência física é um fator causal, se não sempre fator determinante na materialização da raça nos Estados Unidos (Haney López, 1998).

            Os corpos não têm significados inerentes. E ainda, dado as propriedades físicas dos corpos e o sedimento histórico de suas intra-ações com as ideologias e práticas político-econômicas, não se pode atrelar nenhum significado a qualquer corpo. Em outras palavras, o corpo é algo mais do que um objeto inerte e passivo sobre o qual a ideologia inscreve o significado, mas, em vez disso, ele é uma realidade agencial com o seu próprio papel causal na marcação do significado. Uma pessoa negra, por exemplo, não pode se tornar branca simplesmente através das façanhas discursivas, porque a produção de melanina do corpo dele ou dela é um componente inseparável na produção racial. Além disso, raça não é apenas cor, embora em algumas ocasiões e lugares a cor se torne não meramente um componente indispensável, mas determinante da raça. Raça é um fenômeno produzido e intra-ativo, envolvendo o sistema de gênero moderno/colonial (ele próprio um fenômeno com muitos componentes de intra-ação), diferenças corporalmente individuais e histórias de descendentes familiares, assim como ideologias e práticas sociais (incluindo aquelas de cortes, legislaturas e polícia/prisões). Isto consequentemente varia e muda através do tempo e espaço. Que nos Estados Unidos contemporâneo duas pessoas com pigmentação muito clara e conhecida ancestralidade subsaariana africana possam ser consideradas negras, enquanto que no Brasil contemporâneo um irmão e uma irmã de cores diferentes, mas com a mesma ancestralidade possam ser considerados de raças diferentes, não significa que raça não exista. Ao invés disso, tais diferenças indicam que o fenômeno social da raça emerge de forma diferente devido a intra-ações entre as diferenças históricas, econômicas, legais e de corporalidade humana nas sociedades contemporâneas estadunidense e brasileira.

É de todo Ruim? Projetos de Identidade Racial

            Considerando mais de três séculos de pensamento racial que precederam o surgimento do racismo científico no século XIX, parece estranho insistir que raça precise inerentemente ser reduzida às classificações biológicas daquele período. Parece consideravelmente menos adequado insistir que raça seja uma construção inerentemente opressiva que legitima a desigualdade, a dominação e a exploração social (ou seja, afirmar que raça é igual a racismo). Assim, fica relativamente fácil compreender raça como uma localização social em que alguém se encontra situado nas classificações raciais, com base em substanciais dados empíricos sobre os efeitos das ideologias sociais de raça. Fica difícil defender raça como uma escolha autoconsciente do ponto de vista necessário à luta antirracista [25]. Fica particularmente difícil dado a persistente caracterização da raça como uma construção negativa, uma que tem tido os efeitos sobre a construção do conhecimento descrita por Quijano e outros [26]. No restante deste ensaio, eu gostaria de sugerir que a elaboração criativa dos pontos de vista raciais não são apenas compatíveis com, mas necessários para, a transformação social radical.

            Um número crescente de acadêmicos tem argumentado que a identidade é um constructo teórico indispensável que molda o acesso cognitivo de alguém ao mundo. Se este acesso é mais ou menos claro é uma questão empírica, mas a sua resposta não torna as identidades socialmente construídas mais ou menos reais. Além disso, é através da luta social ativa (ou a elaboração da identidade de projeto) que se pode tanto transformar o mundo quanto gerar um novo conhecimento sobre o que o mundo é e o que ele pode se tornar. Pode se então compreender algumas identidades de projeto como a elaboração de um ponto de vista a partir de uma localização social a fim de agir no mundo de tal modo que a localização social é alterada para sempre. Fica muitas vezes difícil (mesmo, ou talvez particularmente, para aqueles que são oprimidos por alguém) imaginar uma identidade imposta e negativa como uma fonte de esperança e transformação [27].

            Quero oferecer brevemente dois exemplos de identidades de projeto raciais por meio da conclusão deste ensaio. A estudiosa de performances Carrie Sandahl relata um exemplo do potencial para uma identidade de projeto racial progressiva em sua análise da obra Weights, do artista performático negro e cego Lynn Manning. De centralidade especial para a sua análise do lugar de performance de Manning é a sua renúncia a partir da tradicional narrativa “de superação” da deficiência, em que a “experiência da deficiência se torna uma metáfora generalizada para o ajuste psicológico” (Sandahl, 2004, pág. 584). De acordo com esta narrativa tradicional (uma narrativa com falta de similaridades à prescrição de Brown pela política de identidade), uma pessoa que acabou de se tornar deficiente física é a primeira devastada pela deficiência dele ou dela e eventualmente aprende a transcendê-la e alcançar um estado sábio e mais otimista devido aos esforços para superá-la (Sibers, 2004, pág. 13-16). O ponto central quando Weights começa a partir da narrativa de superação e que ocorre quando Manning recupera a consciência depois de ser alvejado e aprende que ele perdeu a sua visão. Neste momento, ele recorda-se de “algo semelhante à alegria surge através de mim” (Sandahl, 2004, pág. 588). Embora o seu médico veja a sua resposta como “anormal”, Manning não está tão feliz por estar cego como ele está feliz por estar cego e ainda vivo. No entanto, mais tarde ele começa a revelar em sua cegueira. Como Sandahl observa, “o que Manning aprende poderia apenas ser conhecido através da configuração biológica de seu novo corpo ou o que [Paula] Moya chama de ‘restrições causais’ do mundo natural. Ele descobre novas dimensões, ou novas verdades, sobre o que ele pensa que ele tinha conhecido. Isto seria necessário para uma experiência fenomenológica com a cegueira para fazer estas descobertas” (2004, pág. 591).

            Para Sandahl, o que é significativo sobre a resposta de Manning ao se tornar cego é que a cegueira fornece a ele um “quadro interpretativo” para compreender o mundo ao seu redor. Com base nos insights de abordagem da identidade explicitados na antologia Reclaiming Identity, Sandahl argumenta que o quadro interpretativo de Manning, ao invés de impedir o conhecimento objetivo sobre o mundo, o torna possível” [28]. A fim de obter conhecimento sobre o mundo a partir do ponto de vista de uma pessoa cega, Manning deve abraçar a sua cegueira e revelar em sua deficiência, ao invés de procurar eliminar ou superá-la. O projeto que Sandahl traz no trabalho de Manning, além disso, é múltiplo. Ele deve considerar o conhecimento que ele tem sobre o que significa ser negro e o que significa ser cego e integrar os dois pontos de vista. A sua integração das identidades da deficiência e negritude suscita uma reimaginação adicional das lutas e categorias sociais, transformando a própria elaboração das identidades de projeto. A materialidade do corpo de pele escura e cegueira de Manning (a sua localização social) é relevante, mas não determinante. Ao invés disso, este é um dos fatores agenciais no fenômeno emergente de seu ponto de vista de homem cego e negro. Como Sandahl observa na conclusão, “a performance de Manning deixa claro que precisamos gastar mais tempo explorando o que é e pode ser a deficiência, juntamente com o que a negritude é e pode ser, em tantas variações quanto possíveis” (2004, pág. 602). Não é coincidência que as análises de Sandahl abordem tanto raça quanto deficiência. Os ativistas de deficiência e os estudos sobre as deficiências têm estado na vanguarda dos projetos de identidade de desenvolvimento pró-ativos. Embora enfatizando a natureza construída da realidade, alguns dos principais acadêmicos nos estudos da deficiência têm também apontado para a persistência dos corpos físicos concretos que são irredutíveis para a “cultura” (compreendidos como separados da, ao invés de mutuamente constituídos pela, natureza) [29].

            O projeto de revelar a identidade da minoria, como argumenta o teórico literário Satya Mohanty, é necessário, não simplesmente para o bem-estar das minorias, e não simplesmente para o seu próprio bem, como se todos os projetos de identidade levassem naturalmente a progressiva mudança social (Moya e Hames-García, 2000, pág. 60-64, 186-87, 313-15). Ao invés disso, é muitas vezes ao explorar as identidades e promover a resistência comunal que se pode revelar os conflitos sociais produzidos pela modernidade e pelo colonialismo e começar a reconhecer as possibilidades que podem levar a um melhor conhecimento ético e a progressiva mudança social. Claro, pode-se mais facilmente conceder importância de abraçar o gênero ou a identidade cultural, o que parece ter referentes prontos para além da opressão, exploração e dominação, do que faz a identidade racial. Sob esta ótica, no entanto, vale a pena notar o relato de Castells dos zapatistas em Chiapas, no México. Castells acha notável que a formação da identidade Zapatista seja historicamente sem precedentes, na medida em que as comunidades indígenas de Chiapas têm estado separadas por diferenças étnicas e linguísticas por séculos. Assim, “não parece que a defesa da identidade étnica seja um elemento dominante no movimento” porque uma “nova identidade indígena foi construída através de sua luta e veio a incluir vários grupos étnicos” (1997, pág. 77, 78) [30]. Apesar das alegações anteriores de Castells para descontar a identidade racial, fica difícil imaginar o que as “novas identidades indígenas” zapatistas podem ser senão uma identidade racial. Não é nem etnia, nem cultura, nem nação, nem linguagem. Sua “nova” identidade racial, por sua vez, não faz sentido (como Castells observa) para além dos quinhentos anos de luta contra a colonialidade do poder (como descrito por Quijano). E ainda Quijano também descreve raça em termos puramente negativos, como uma “construção mental” que é mapeada sobre corpos e populações (passivas) a fim de naturalizar a diferença social e a hierarquia de valor, conhecimento e trabalho. O que torna “nova” a identidade racial Zapatista, no entanto, é precisamente o fato de que não é completamente dependente do significado sobre como raça tem tomado forma dentro da colonialidade do poder. Embora o Eurocentrismo seja o ponto de vista epistemológico que emerge a partir do nascimento do sistema mundial colonial/moderno, o zapatismo emergiu no final do século XX como um ponto de vista Indígena autoconsciente procurando criticar e transformar aquele sistema mundial (Mignolo, 2002, pág. 245). Como um ponto de vista crítico, não está comprometido com a retenção das categorias e hierarquias raciais tais como existem atualmente, mas o seu nascimento em uma análise de uma localização social racialmente específica é inegável na Primeira Declaração a partir do Lacandon Jungle: “Nós somos o produto de cinco séculos de luta” (Marcos et al., 1995, pág. 51). O projeto de identidade racial deles é radical, sem precedentes e transformador que tem como objetivo reimaginar criativamente as possibilidades de existência, não apenas para os Indígenas, mas para todas as pessoas.

            Nós precisamos de projetos de identidade racial criativos mais do que precisamos de argumentos filosóficos contra raça. Raça não é mais ou menos ficção do que nação ou etnia, e é tão improvável de desaparecer. Não se pode descartá-la facilmente como “apenas cultural” ou “apenas ideológica” porque ela emerge a partir da intra-ação da história, cultura, economia e dos corpos humanos materiais. Isto tem desempenhado um papel constitutivo em moldar o mundo moderno e ela continua a moldar os comportamentos mais íntimos e inconscientes das pessoas. Além disso, as suposições das hierarquias raciais e do determinismo biológico sobre a diferença racial não vão evaporar sem uma significante reorganização das relações econômicas, políticas e culturais em níveis pessoal e da sociedade, assim como um relato de como diferentes corpos intra-agem com as categorias e as ideias raciais. Esta reorganização, por sua vez, deve vir em parte a partir de projetos de identidade racial que não simplesmente reafirmam o que raça é e tem sido, mas, em vez disso, procura uma transformação de raça em algo novo.

            Existiram e continuam a existir muitas tentativas de transformar as identidades raciais, incluindo a dos zapatistas. Outros projetos criativos e transformadores de identidade racial incluem o Harlem Renaissance, o movimento da Negritude, as formações Pan-Africanas, Pan-Indígenas e formações contemporâneas das identidades asiáticas americanas e Chicanas/os [31]. Enquanto internamente heterogêneos e muitas vezes imperfeitos, estes projetos começaram recentemente (recentemente, ou seja, dado que a ordem racial presente assumiu quinhentos anos para acontecer) a imaginar o que raça pode ser algo além de um meio para opressão e exploração. É só através do incentivo a estas e outras identidades de projeto a florescer que seremos capazes de encontrar possibilidades para um futuro mais igualitário.

Notas

            Eu gostaria de agradecer a Ernesto Martinéz e Paula Moya por seus valiosos comentários nas versões anteriores deste ensaio. Stacy Alaimo e Susan Hekman também me deram maravilhosos feedbacks que fortaleceram este ensaio. Gostaria também de agradecer Rosemarie Garland Thomson, Satya Mohanty, Carrie Sandahl, e Tobin Siebers pelas conversas sobre várias partes deste ensaio que se originou como parte do Projeto de Estudos sobre o Futuro das Minorias do simpósio sobre “Estudos da Deficiência e a Teoria Realista da Identidade”.

[1] O trabalho sobre identidade (e questões relacionadas como subjetividade e agência) é amplo. Além dos trabalhos que considerei neste ensaio, exemplos da posição anti-identitária incluem Butler, 1990; Gilroy, 2001; Gitlin, 1995; Hobsbawm, 1996; Rorty, 1998; Zizek, 1998. No entanto, muitos teóricos recentes têm abordado a questão da identidade com uma nova seriedade, tendo em seu centro as críticas da identidade enquanto exploram melhores formulações dela. Ver, entre outros, Alcoff, 2006; Alcoff et al., 2006; Moya e Hames-García, 2000. Outro apanhado produtivo recente da questão da identidade é Hekman, 2004.

[2] Outros articulam críticas similares das políticas de identidade (Aronson, 1995; Hobsbawm, 1996). Para algumas respostas, ver Alcoff, 2006, pág. 20-46; Hames-García, 2004, pág. 249-54; Kelley, 1997, pág. 103-24.

[3] Para Brown, a opressão pode ser material, mas a identidade é uma resposta psicológica à opressão, além de ser uma resposta psicológica improdutiva que:

            Vinga-se como uma “reação”, um substituto para a capacidade de agir, produz a identidade como tanto ligada à história que a produziu quanto como uma vergonha ao presente que corporifica aquela história. A vontade que “levou a ferir” a sua própria impotência contra o seu passado se torna (na forma de uma identidade cuja própria existência é devida à elevada consciência da imobilidade do seu “isto era”, sua história de subordinação) uma vontade que torna não apenas a prática psicológica, mas também política, da vingança, uma prática que reitera a existência de uma identidade cujo passado presente é o da lesão insistentemente irredimível. Este passado não pode ser resgatado a menos que a identidade deixe de investir nele, e ele não deixe de investir nela sem dar a sua identidade como tal, assim, desistindo de sua economia de vingança e ao mesmo tempo perpetuando a sua dor (Brown, 1995, pág. 73).

[4] Brown escreve, “Pois se eu estou certo sobre a problemática da dor instalada no coração de muitas demandas contraditórias contemporâneas pelo reconhecimento político, tudo o que tal dor possa prolongar – mais do que a vingança – é a chance de ser ouvido em um certo release, reconhecido na autossuperação, incitado em possibilidades de triunfar sobre e, consequentemente, perdendo a si mesmo” (1995, pág. 74-75).

[5] “A substituição – até mesmo a mistura – da linguagem do ‘ser’ em ‘querer’ que procura explorar politicamente uma recuperação dos momentos mais extensos na genealogia da formação da identidade… Como pode o próprio discurso da democracia ser revigorado por tal mudança a partir das reivindicações ontológicas para estes tipos mais expressamente políticos… ?” (Brown, 1995, pág. 76).

[6] Enquanto que a descendência comum é muitas vezes central para definir tanto raça quanto etnia, raça tipicamente carrega consigo mais do que uma associação exclusiva com os traços físicos e mentais biologicamente herdados (especialmente depois do século XIX). Em contraste, etnia sempre inclui – e tem cada vez mais vindo a ser limitada pela – herança cultural (ou seja, cozinha, costumes, música e folclore). Assim, americanos irlandenses, judeus russos, Inuits, e Navajos podem todos ser grupos étnicos definíveis, mas nos EUA contemporâneo, os dois primeiros seriam racialmente brancos e os dois últimos racialmente indígenas americanos. Além disso, uma criança romena adotada nos EUA provavelmente seria criada tanto etnicamente americana quanto racialmente branca, enquanto que adotados coreanos de pais brancos regularmente cresceriam pensando em si mesmos e sendo percebidos pelos outros como etnicamente americanos e racialmente asiáticos (Shiao, Tuan, e Rienzi, 2004).

[7] Discuto alguns dos problemas com as definições biológicas simples de raça mais tarde neste ensaio. Ver Gould, 1996; Graves, 2004.

[8] Para uma consideração muito mais cuidadosa da proposta do que simplesmente parar de falar sobre raça, que ela chama de “eliminativismo”, assim como as muitas barreiras práticas a ela colocadas pela realidade social da raça, ver Zack, 1998, pág. 16-17.

[9] Gutiérrez-Jones sugere um alinhamento entre a rejeição de Michaels da identidade coletiva e o maior retrocesso cultural do “homem branco com raiva” nos Estados Unidos nos anos 1990 (2001, pág. 48-65). Outros críticos acadêmicos do trabalho de Michael sobre raça incluem Taylor, 2004, e Elam ainda a ser publicado.

[10] Ver a nota 6 acima.

[11] Um estudo mais longo pode considerar a significância das concepções emergentes de gênero, sexualidade, pecado, e perversão para o desenvolvimento do regime racial moderno/colonial sublinhado por Quijano. Para uma discussão útil e plena do pensamento de Quijano, a colonialidade do poder e o papel do gênero e da heterossexualidade em seu desenvolvimento, ver Lugones, 2007. Outros acadêmicos têm explorado a mútua constituição de gênero, raça e sexualidade nos séculos XVIII, XIX e início do XX (ver, por exemplo, McClintock, 1995; Somerville, 2000).

[12] A perspectiva de Quijano marca uma mudança decisiva a partir de teóricos anteriores como Eric Wolf, que vê raça como essencialmente subordinada à divisão do trabalho e como não tendo uma independência estrutural (Wolf, 1997, pág. 380-81).

[13] Em primeiro lugar, eles (os europeus) expropriaram as descobertas culturais das pessoas colonizadas mais aptas ao desenvolvimento do capitalismo visando o lucro do centro europeu. Em segundo lugar, eles reprimiram o quanto puderam as formas colonizadas de produção do conhecimento, os modelos de produção de significado, seus universos simbólicos, o modelo de expressão e de objetificação e subjetividade… Em terceiro lugar, em diferentes formas em cada caso, eles forçaram o colonizado a aprender a cultura dominante em qualquer modo que seria útil para a reprodução da dominação… Todos aqueles processos turbulentos envolvendo um longo período de colonização das perspectivas cognitivas, modos de produção e atribuição de significado, os resultados da existência material, o imaginário, o universo das relações intersubjetivas com o mundo: em suma, a cultura. (Quijano, 2000, pág. 541)

Ver também Amin, 1989; Mignolo, 1995; Mudimbe, 1988; Said, 1979.

[14] Ver também Mignolo, 2000, pág. 114-16, 314-15.

[15] Castells afirma distinguir raça como uma fonte de opressão e discriminação, uma categorização biológica externamente imposta, de etnia como “uma fonte de significado e identidade” que se aproxima da nacionalidade, embora sem as características chave da linguagem e do território (1997, pág. 53). No entanto, ele não distingue sistematicamente entre os dois conceitos em seu livro. Quijano, como observado acima, distingue nitidamente entre eles.

[16] Observo o trânsito de Castells entre raça e etnia na nota 15 acima; ver também a nota 6.

[17] Mesmo muitos críticos de identidade racial concedem alguma versão deste ponto (Michaels, 2004, pág. 164; Zack, 1988, pág. 44-45).

[18] “As distâncias genéticas nos seres humanos são estatisticamente cerca de dez vezes menor (2 por cento) do que a média de 20 por cento em outros organismos, mesmo quando comparadas às populações mais geograficamente separadas dentre os seres humanos modernos. Existe uma maior variabilidade genética encontrada dentro de uma tribo de chimpanzés do oeste da África do que existe em toda a espécie humana!” (Graves, 2004, pág. 10).

[19] Ver também Graves, 2004, pág. 103-36; e Hubbard e Wald, 1999, pág. 72-107.

[20] Ver duas das muitas críticas do The Bell Curve que também abordam a genética, hereditariedade e inteligência de forma mais geral, ver Graves, 2004, pág. 172-84; e Gould, 1996, pág. 34-36, 367-90.

[21] Omi e Winant observam que “embora o conceito de raça evoque características humanas biologicamente fundamentadas… A seleção é sempre e necessariamente um processo social e histórico” (1994, pág. 55). Embora eu concorde com a sua teorização geral de “formação racial”, acho a sua compreensão de matéria como sendo passiva ao invés de ativa ou agencial.

[22] Telles discute este estudo em comparação com dado sobre a complexidade no Brasil (Telles, 2004, pág. 114-16). Para um estudo relacionado com relação  às/aos Chicanas/os, fenótipo e mudança de vida, ver Arce, Murguía, e Frisbie, 1987. Goldsmith, Hamilton e Darity (2006) têm encontrado dados um pouco diferentes sugerindo que, enquanto que os negros de pele mais clara são favorecidos no mercado de trabalho em relação aos mais qualificados, negros de pele mais escura, aqueles identificados como “morenos” não receberam uma preferência significante a partir de potenciais empregadores. O tom de pele neste estudo foi digitalmente manipulado ao invés de autorrelatado.

[23] Os detalhes do estudo estão em Blascovich et al., 2001.

[24] Michael Calderón-Zaks (2005) tem recentemente explorado as consequências para a formação racial e as teorias de embranquecimento da população branca e não-branca dos mexicanos nos Estados Unidos durante o final do século XIX e início do XX.

[25] Estou aqui me baseando na distinção desenvolvida dentro da filosofia feminista entre o ponto de vista e a localização social. A localização social é a parte da identidade definida pelas leis, costumes e práticas para além do senso individual de eu de alguém. A localização social racial é o que geralmente resulta em uma pessoa experimentando ou não os efeitos diretos do racismo. O ponto de vista é uma mediação, ou interpretação, da localização social. Ela geralmente reflete a decisão de alguém de tornar uma questão pública e política da identidade de alguém. É a identidade como rearticulada na busca da transformação social e está completamente ligada com o sentido de eu individual ou coletivo de alguém. Para um apanhado de alguns dos debates em torno destas questões, ver Wylie, 2003.

[26] Ver, entre outros, os trabalhos citados na nota 13 acima.

[27] Recentemente, o projeto teórico de reconstruir a identidade de forma imaginativa e crítica tem formado a obrigação de um projeto de pesquisa multidisciplinar e multi-institucional, O Futuro dos Estudos sobre as Minorias. Para mais informações, ver Alcoff et al., 2006, pág. 1-9. Ver também o Site www.fmsproject.cornell.edu.

[28] Para mais sobre objetividade, ver Moya e Hames-García, 2000, pág. 12-14, 39-41, 136-37, 200-202. Ver também Wylie, 2003, pág. 32-33.

[29] Conversas com acadêmicos em deficiências auxiliaram de forma grandiosa a formação do meu pensamento sobre projetos criativos de identidade racial. Se deveria também observar a inseparabilidade histórica de raça e deficiência no desenvolvimento das ideias sobre corpos diferentes e hierarquicamente classificados. Ver Baynton, 2001; Garland Thomson, 2002; Siebers, 2006.

[30] Aqui, ao contrário de outros lugares, Castells parece considerar a etnia como uma categoria separada de raça. Ver notas 6 e 15 acima.

[31] Ver, também, a consideração de Alcoff das formações recentes da identidade latina nos EUA (2006, pág. 277-84).

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[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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Capítulo 10 – A Experiência da Deficiência Física em Julgamento

Material Feminisms

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SIEBERS, Tobin. Capítulo 10 – A Experiência da Deficiência Física em Julgamento. In: ALAIMO, Stacy e HEKMAN, Susan (ed.). Feminismos Materiais. Indiana University Press: Blooming & Indianapolis, pág. 291 – 307, 2008. - Clique Aqui

 

Traduzido por Sandra Michelli da Costa Gomes[1]

            Em 17 de Maio de 2004, no quinquagésimo aniversário do caso Brown v. Board of Education, a Suprema Corte dos EUA expediu, no caso Tennessee v. Lane, outra decisão com implicações de longo alcance para os direitos civis. A Corte decidiu de forma inesperada e por uma margem estreita que os estados não tornavam os tribunais e serviços judiciais fisicamente acessíveis às pessoas com deficiência física e que poderiam ser processados por danos com base no Título II da Lei dos Americanos com Deficiência Física (LADF). George Lane, o réu e usuário de cadeira de rodas, contou como ele foi convocado pelo Tribunal do Condado de Polk no Tennessee devido a um processo por tráfico de menores e teve que rastejar por dois lances de escada até a sala do tribunal enquanto o juiz e os outros empregados da corte que estavam no topo das escadas e riram dele. “Numa escala de 1 a 10”, ele explicou mais tarde, “a minha dor pelo esforço estava acima de 10” (para detalhes do caso, ver Cohen, 2004). Quando o seu caso não foi citado na sessão da manhã, foi dito a Lane voltar após o almoço para a sessão da tarde. Quando ele se recusou a rastejar pelos dois lances de escada uma segunda vez, ele foi detido por não comparecer e preso na sequência. Uma segunda ré, Beverly Jones, que trabalha como repórter do tribunal, se juntou ao fato, reivindicando que ela teve que rejeitar ofertas de trabalho em vinte e três tribunais do Tennessee porque eles não eram acessíveis a cadeirantes. Mais uma vez, em um tribunal sem um banheiro para deficientes, o juiz teve que buscá-la e colocá-la no vaso sanitário. Outra vez, um funcionário da corte carregou-a até o próximo andar, escorregou e a fez cair na escada.

            Tudo indicava que a Suprema Corte criaria uma lei para o estado do Tennessee, uma vez que a Corte tinha favorecido os direitos em geral do estado e a aprovou  apenas três anos antes que os estados fossem imunes a processos trabalhistas com base na discriminação de deficientes, independentemente da evidência no caso [1]. Porque os juízes decidiram contra os estados no caso Tennessee v. Lane? O interesse da Corte no processo legal deu ao caso uma interpretação diferente? Foi de natureza convincente o testemunho pessoal? O que os juízes aprenderam com a experiência dos réus com deficiência que eles não conheciam antes?

            O foco na experiência não é arbitrário para a decisão, mas exigido pelo próprio LADF. Qualquer aplicação do Título II da LADF necessita que seja “julgada com referência à experiência histórica que ela reflete” (Syllabus, Tennessee v. Lane, pág. 2). Os juízes observaram no início da decisão da maioria que o “Congresso decretou o Título II contra um cenário de tratamento desigual generalizado das pessoas com deficiência na administração dos serviços e em programas de Estado, incluindo as privações sistemáticas de direitos fundamentais” (Syllabus, Tennessee v. Lane, pág. 3). Mais importante, eles afirmam que o Título II é “uma resposta apropriada a esta história e padrão de tratamento desigual” e que se delimita para demonstrar que o padrão da discriminação de deficientes continua até hoje” (Syllabus, Tenneessee v. Lane, pág. 3). O próprio caso Tenneessee v. Lane toma como uma de suas principais tarefas a documentação da experiência dos deficientes exigida para a aplicação do Título II; a decisão cataloga provas e mais provas de discriminação contra deficientes com a finalidade de demonstrar que o sistema legal estadunidense exclui as pessoas com deficiência.

            Ao acompanhar o testemunho de réus com deficiência, no entanto, os juízes podem ser culpados por se basearem em uma noção comprobatória de evidência. Usar uma experiência como evidência, Joan Scott reivindica, em um ensaio que agora define a posição teórica dominante sobre a experiência nos estudos históricos e culturais, “enfraquece o impulso crítico das histórias de diferença” ao permanecer dentro “do quadro da história ortodoxa”, que naturaliza a “diferença” e as “identidades” daqueles cuja experiência está sendo documentada, e “que reproduz ao invés de contestar determinados sistemas ideológicos” (Scott, 1991, pág. 777-78) [2]. Mesmo quando usada para criar histórias alternativas ou corrigir interpretações equivocadas prevalecentes, de acordo com Scott, a experiência se torna, se dado o status de prova, apenas mais uma tolice no discurso fundamentalista da história; e ela ataca as feministas e os historiadores culturais por desviarem-se para um fundacionalismo quando eles argumentam pela necessidade de reescrever a história com base nas experiências das mulheres, das pessoas não-brancas e das vítimas de discriminação por classe social. “Não são os indivíduos que têm a experiência”, ela conclui, “mas os sujeitos que são constituídos através da experiência” (1991, pág. 779). Aparentemente, porque ela é socialmente construída, a experiência individual não pode servir nem como origem da explicação nem como prova oficial sobre o que se conhece (1991, pág. 780).

            O valor da experiência está em julgamento tanto para Scott quanto para a Suprema Corte, mas eles têm ideias inteiramente diferentes sobre isto. Pode valer a pena perguntar por um momento sobre a forma política desta diferença. A comunidade dos deficientes ficou surpresa e satisfeita quando a Corte conservadora suspendeu o ataque sobre a LADF no caso Tennessee v. Lane e reconheceu tanto a existência da discriminação contra os deficientes quanto a aprovação prévia disto pelo judiciário. Testemunhamos uma Corte ortodoxa, aparentemente, liderada para fora da ortodoxia pelo poder da experiência da deficiência. O ataque de Scott sobre o uso da experiência como prova também permanece contra a ortodoxia. Ela não quer ver historiadores da diferença enredados em epistemologias ortodoxas para estabelecer os seus objetivos emancipatórios, embora não seja claro que sua crítica da experiência é, em última análise, compatível com estes objetivos.

            Um dos legados do pós-estruturalismo é o desejo pela crítica absoluta, em que a capacidade de voltar à crítica contra si mesma é valorizada acima de todos os outros e a crítica como tal é definida como um processo de subtração em que as reivindicações de conhecimento têm fundamentos cada vez menores sobre os quais se basearem. O argumento tem sempre sido o de que quanto mais radical e absoluta a crítica, maior o seu potencial para a emancipação, mas a prova para este argumento é cada vez menos aparente. A questão surge se o desejo pela crítica absoluta sempre serve a objetivos politicamente progressivos. É o banimento da experiência, por exemplo, radical ou reacionário? Argumento aqui que a experiência da deficiência tem o potencial tanto para aumentar a crítica social quanto para avançar os objetivos políticos emancipatórios. Mais importante, tenho a esperança de que o conhecimento fornecido pela experiência da deficiência possa renovar o incentivo para recuperar e teorizar novamente outras experiências de identidade das minorias, apesar do argumento de Scott e outros de que elas não têm valor crítico [3].

            Estamos em um momento curioso na história. Este é o último momento em que poderíamos reduzir o pensamento emancipatório à ortodoxia em nome da crítica sem estar pensando em servir a ortodoxia [4]? Daqui em diante, talvez seja melhor ter em mente as implicações políticas de nossos argumentos e colocá-los à serviço tanto da crítica quanto da emancipação.

Discriminação por Design

            Jean-François Lyotard (1988) define a différend como uma situação em que são negados às vítimas os meios para demonstrar que elas tenham sido injustiçadas. Os injustiçados são duplamente vitimizados porque eles tanto sofrem a injustiça quanto são privados dos meios para argumentar pelo seu caso. É irônico que a crítica da experiência de Scott postule uma différend que mesmo os juízes da Suprema Corte com as suas tendências ortodoxas não podem aceitar. Eles interpretam a experiência de Lane, não como uma evidência sobre a sua vida em particular, mas como prova estabelecendo um padrão de injustiça que afeta muitas pessoas, portanto, dando-lhes a oportunidade de demonstrar os erros contra eles e dar voz aos seus sofrimentos. Talvez, mais significativo, o juiz Souter indicou o próprio sistema de justiça estadunidense na história da discriminação contra as pessoas com deficiência, chamando a decisão no caso Tennessee v. Lane de um “passo positivo longe da aprovação prévia do Judiciário de instrumentos contundentes impondo limitações legais” e convidando o judiciário a criticar o seu apoio anterior do comportamento discriminatório (contribuição de Souter, pág. 2).

            É, no entanto, importante perceber que Scott e a Corte compartilham algumas ideias sobre o que a experiência é, apesar deles discordarem sobre o seu valor probatório. Os juízes levaram a sério, assim como Scott, que a experiência é socialmente construída. Eles traçam as bases para a discriminação de Lane, como Scott fez, a uma “história e padrão de tratamento desigual” ao invés de atribuí-la uma causa natural tal como a inferioridade biológica das pessoas com deficiência. Diferente de Scott, os juízes não acreditam que a experiência seja ameaçada pela sua construção social como uma base para as reivindicações de conhecimento. De fato, eles acham que o ambiente construído é socialmente idealizado e razoavelmente concluem que ele tenha sido projetado no caminho errado para os corpos e mentes dos deficientes. Observe que não é o sofrimento pessoal de Lane em si que comove a Corte. O fato de que o juiz ri quando Lane se arrasta pela escada para a sua audiência é condenável, mas não prova para a evidência de sua discriminação. Ao invés disso, é o fato de que a experiência de Lane é representativa do comportamento discriminatório em larga escala. Lane experimenta a discriminação com base em sua identidade como uma pessoa deficiente física, e esta discriminação em direção a um membro de uma classe é demonstrada de forma mais clara pelo projeto do próprio Tribunal do Condado de Polk. A inacessabilidade do prédio é um fato social evidente a qualquer um, desde os juízes da Suprema Corte e Lane àqueles que o tornaram um objeto do ridículo, e quando esta inacessibilidade representa uma característica generalizada de muitas outras edificações, como ela faz, então se pode, legitimamente, concluir que os preconceitos contra as pessoas deficientes estão atuando na arquitetura da própria sociedade. A decisão majoritária e amigável se esforça para tornar este modelo óbvio do preconceito da sociedade contra as pessoas com deficiência, expondo o que Justice Stevens chama de “padrão da discriminação contra os deficientes” (Tennessee v. Lane, pág. 15). Este padrão de comportamento discriminatório inclui “ouvir os presos com deficiência que normalmente se expressam usando a linguagem de sinais… algemados em suas audiências tornando impossível tal comunicação”, “uma testemunha cega… negado o acesso à informação em suas audiências porque ela não podia ver os documentos”, “uma pessoa com dois membros amputados forçada a rastejar pelo chão da cadeia”, “criminalizar o casamento de pessoas com deficiência mental” e os surdos e os cegos “categoricamente excluídos do serviço do júri (American Bar Association as Amicus Curaie, vol. 13, n. 16, vol. 13, n. 11, vol. 13, n. 8, vol. 14, n. 1)”.

            Em um país de cegos, o uso de arquitetura, tecnologia, linguagem e organização social seriam diferentes do nosso. Em um país de pessoas com mobilidade limitada, não existiriam escadas e conceitos de distância não imitariam os nossos próprios. Em um país de surdos, a tecnologia deixaria as mãos livres para sinalização e não haveria nenhuma necessidade de gritar em uma sala barulhenta. A deficiência fornece uma vívida ilustração de que a experiência é socialmente construída, mas expõe tão vividamente que as identidades criadas pela experiência também contribuem para um sistema representacional cujo exame pode resultar em reivindicações de conhecimento verificáveis sobre a nossa sociedade. Quando um corpo deficiente entra em qualquer construção, social ou física, ocorre uma desconstrução, uma desconstrução que revela as linhas de força, as plantas, da transformação social da edificação tão certo como a sua mudança física. As construções são feitas com certos corpos sociais em mente e, quando um corpo diferente aparece, a falta de adequação revela os pressupostos ideológicos que controlam o espaço. A presença de uma cadeira de rodas no Tribunal do Condado de Polk expõe um conjunto de fatos sociais sobre a edificação. Nós podemos reduzir estes fatos a uma ideologia, mas isto não pode nos prevenir de compreender que o que é revelado tenha uma localização social objetiva. Testemunhamos a localização social da identidade do deficiente de uma maneira verificável.

            Em geral, a construção social da identidade é mostrada quando corpos e mentes proibidas entram no espaço. Quando Rosa Parks se senta na frente de um ônibus, por exemplo, uma construção social da identidade Afroamericana em nossa sociedade foi mostrada. “Identidades são entidades indexadas”, de acordo com Linda Alcoff, e “reais dentro de um dado local” (2000, pág. 337). As identidades sociais podem ser construídas, mas elas são também “reais”, e por elas serem reais, elas são inteiramente abertas à crítica e à transformação política, como demonstra o caso Tennessee v. Lane. A opinião da Corte reconhece as pessoas com deficiência como uma minoria identitária sofrendo de tratamento desigual sob a lei e, portanto, os capacita a se reunirem em grupo, tanto para forçar as mudanças em um ambiente inacessível quanto aumentar a sua participação na vida pública.

            Grupos são constituídos como minorias de duas formas: por padrões de tratamento discriminatório contra eles e pela sua consciência destes padrões. Os grupos de minorias devem ter, de acordo com Dworkin e Dworkin, “identificabilidade, poder diferencial, tratamento diferencial e pejorativo ocasionados pelo poder diferencial e consciência de grupo facilitada pelo tratamento diferencial” (1976, pág. viii; ver também Albrecht, 1992, pág. 79). Os sujeitos são tanto formados pela experiência quanto têm uma consciência da natureza formativa de sua experiência – e quando esta experiência é negativa e diferente, a identidade do sujeito assume um elenco de minoria. Recusar o reconhecimento destes aspectos de formação identitária é fracassar em compreender que a experiência é sempre socialmente construída e que o nosso conhecimento mais valioso diz respeito à verificação de determinadas características socialmente construídas. A crença parece ser a de que a opressão terminará tão logo as minorias identitárias desapareçam, mas sem uma teoria que possa verificar como as identidades sociais são corporificadas na experiência vivida, como elas se tornam reais, não está claro que nós possamos compreender o que a opressão é na realidade e como ela atua [5].

            Aqui está a diferença primária entre os relatos pós-estruturalistas e realistas da identidade das minorias. Os pós-estruturalistas muitas vezes ignoram as reivindicações de conhecimento das minorias identitárias porque eles sustentam que as identidades são pouco mais do que ficções socialmente construídas [6]. Os realismos filosóficos reconhecem tanto a construção social da identidade quanto que as identidades constituem as teorias de conhecimento – algumas vezes certas, algumas vezes erradas, algumas vezes indiferentes – sobre o mundo em que vivemos. O realismo define os objetos de conhecimento não como entidades naturais, mas como fatos sociais que existem  na sociedade humana como parte de uma rede causal [7]. Em outras palavras, os realistas levam a sério o valor cognitivo das construções sociais, vendo-os como pontos de partida para pesquisas complementares sobre o status das reivindicações de conhecimento. Eles entendem que o conhecimento social compreende uma densa rede de fatos sociais onde trazendo à tona um fato convoca outros pelo simples motivo que cada fato é mediado por outros – e nem sempre de formas previsíveis. O conhecimento, para os realistas, define precisamente a verificabilidade de uma construção social em significado como referenciado por outros significados. Existem poucos casos que exemplificam esta teoria de conhecimento melhor do que a experiência da deficiência. Isto demonstra tanto a construção social da experiência quanto a promessa da política decorrente do conhecimento de que a experiência é construída. As experiências das pessoas com deficiência nos ajudam a clarificar o fato que as identidades podem conter reivindicações legítimas de conhecimento e que este conhecimento, uma vez verificado, é uma arma valiosa contra a opressão das minorias.

O Sexo da Arquitetura

            A teoria pós-estruturalista tem dificuldade tanto com o sofrimento quanto com o sexo [8]. Ela muitas vezes evita o sofrimento como uma fraqueza das políticas de identidade e usa o comportamento sexual como um suporte para enriquecer sua análise de gênero e orientação sexual. O argumento de Scott sobre a experiência pareceria ser um caso pontual. Scott tem pouca paciência pela ideia de que os gays e as lésbicas podem se constituir como uma minoria identitária enfrentando uma história de discriminação dolorosa, e mesmo que o The Motion of Light in Water (2004) de Samuel Delany seja manifestamente sobre a experiência sexual, as práticas sexuais não têm lugar em sua análise do livro. O comportamento sexual é um fator importante na forma em que nossas identidades e experiências no mundo são construídas, mas muitas vezes é reservado em favor das atividades mais facilmente associadas com a esfera pública. O quarto não parece tão paradigmático quanto o tribunal quando se considera a construção social da experiência e as formas em que esta construção discrimina contra várias pessoas. A lei sobre a deficiência física, por exemplo, tem tido apenas pequenos êxitos em assegurar a acessibilidade das edificações públicas. O caso Tennessee v. Lane é significativo precisamente porque ele torna tal intervenção crucial e inesperada na legislação de acessibilidade para os edifícios públicos estaduais. Este pequeno êxito parece um grande, no entanto, quando considerado no contexto das residências privadas, uma vez que não existe lei para obrigar os indivíduos a tornarem as habitações familiares acessíveis a pessoas com diferentes capacidades físicas [9]. A chance de uma lei para promover a acessibilidade para o comportamento sexual íntimo é ainda mais remota.

            E ainda que exista tal coisa como o sexo da arquitetura, e isto afeta as práticas sexuais permitidas aos vários espaços e os artefatos neles. O sexo pode parecer uma atividade privada, mas é totalmente público, na medida em que ele está sujeito a preconceitos e ideologias sociais e tem lugar em um ambiente construído e projetado de acordo com as concepções públicas e os ideais de corpo humano. Significativamente, o caso Tennessee v. Lane documenta uma variedade de práticas públicas e legais que discriminam as práticas sexuais e os direitos reprodutivos das pessoas com deficiência. Justice Stevens enfatiza as leis que barram o casamento das pessoas com deficiência física na opinião da maioria, e Justice Souter constrói sobre a ênfase quando contribui ao atacar a esterilização involuntária das pessoas com deficiência mental e ao citar alguns dos exemplos mais flagrantes na lei, incluindo a opinião de Oliver Wendell Holmes: “É melhor para todo o mundo se, ao invés de aguardar a realização da prole degenerada para o crime, ou deixá-la morrer de fome pela sua imbecilidade, a sociedade puder prevenir aqueles que são manifestamente inaptos de se perpetuar… Três gerações de imbecis são suficientes” (contribuição de Souter, pág. 1-2). Em suma, a Corte não anula o sexo em sua consideração da discriminação dos deficientes, mas afirma a relevância da experiência sexual como prova de tratamento desigual mediante a lei.

            A ideia de que a sexualidade é socialmente construída geralmente se refere a conceitos de gênero ou de orientação sexual ao invés das práticas sexuais. Homofobia e sexismo tendem a facilmente a confundir as identidades com as práticas sexuais, e manter uma separação entre identidade e práticas sexuais têm sido uma maneira de resistir a esses preconceitos. Consequentemente, a existência sexual parece marginal para o argumento sobre a construção social, e as pessoas com deficiência, claro, são muitas vezes marginais na forma daquela experiência – sexual e outras – ser concebida. Nancy Mairs considera este ponto com muita clareza, reorientando ao mesmo tempo o conceito crítico de margem para longe de suas tendências ableístas e insistindo sobre o direito das pessoas com deficiência de afirmar um componente sexual de suas identidades. Ela reclama que a teoria moderna sempre concebe a marginalidade em termos de relações de poder entre um grupo de pessoas e outro. “Nunca é levado a significar”, ela alega, “que aqueles às margens ocupam um espaço físico literalmente do lado de fora do campo de visão daqueles no centro” (Mairs, 1996, pág. 59).

            A centralidade da experiência nos argumentos sobre a construção social preserva o pressuposto de que os indivíduos têm acesso aos centros da existência social e pública. A experiência é quase sempre descrita nas metáforas espaciais, referindo quer como a experiência posiciona e encerra o sujeito ou como o sujeito age como um receptáculo para as experiências, armazenando-as na mente ou na consciência. Raramente, se alguma vez, estas metáforas espaciais incluem considerações de acesso. Similarmente, muitas discussões de gênero e orientação sexual assumem que as pessoas têm a oportunidade e a capacidade de explorar as identidades e emoções sexuais, mas isto não é o caso para muitas das pessoas com deficiência. A tomada de consciência de Samuel Delany sobre a política de identidade gay, por exemplo, tem lugar em uma labirintite, um edifício mal iluminado com vários andares. Outro episódio notável em sua educação sexual ocorre em banheiros de metrô e estacionamentos de caminhões – não os locais mais acessíveis [10]. Mairs salienta o fato que ela e outras pessoas com deficiência vivem em outro lugar: “mas aqui, na fronteira, fora dos limites, sob o seu aviso” (1996, pág. 59). Existem pessoas com deficiências que nunca entram os espaços que os teóricos sociais associam às experiências sociais definidoras da modernidade, e quando eles não conseguem ocupar esses espaços, eles estão fora da consciência de muitas pessoas.

            Os ativistas e teóricos da deficiência estão começando lentamente a considerar o problema do acesso sexual. Seu foco se estende a partir de locais públicos preocupados com a saúde sexual e reprodutiva, tais como hospitais e consultórios médicos, espaços privados onde manuais, produtos, dispositivos e assistências sexuais são usados para criar novos ambientes sexuais mais adequados às pessoas com deficiência. Em “Sex and the Gimpy Girl”, Mairs fornece uma ilustração inesquecível de cuidado reprodutivo que as mulheres com deficiências são susceptíveis de receber:

            Eu tenho agendado um exame papanicolau em uma clínica nova para mim, no oitavo andar de um hospital no centro do Centro de Ciências em Saúde do Arizona. Nesse edifício, eu não posso alcançar os botões do elevador acima do terceiro andar, então eu espero que alguém vá comigo. Quando eu cheguei na clínica, as portas não eram automatizadas: outra espera até que alguma outra mulher venha. O balcão era alto demais para que eu alcançasse a lista de presença – tão alta, na verdade, que eu não podia ver a recepcionista para pedir ajuda. Depois de trinta e cinco minutos esperando, uma enfermeira me acompanhou em um cubículo sem janelas, com uma tabela padrão de exame, embora eu tivesse especificado no agendamento que eu exigia um modelo que fosse mais baixo e inclinado.

            “Não posso usar isto”, eu disse.

            “Você não pode?” Ela parecia cética e levemente ofendida.

            “Não, minhas pernas são fracas demais para subir. É por isto que uso uma cadeira de rodas” (1999, pág. 44).

            Mairs passa a contar uma história sexual cheia de rejeições de seus desejos eróticos e conselhos contraditórios sobre a sua saúde reprodutiva. Os médicos não queriam que ela fizesse sexo ou filhos, e ela contrasta sua experiência com aquela das mulheres não deficientes para quem os médicos reúnem um “arsenal de escopos, corantes, hormônios e catéteres” para aumentar a atração sexual e a fertilidade (1999, pág. 48). Como uma mulher deficiente, Mairs tem tanta dificuldade de se enquadrar na concepção médica de mulher quanto ela tem a mesma impressão no sala de exame de seu médico. As mulheres deficientes supostamente não têm motivos para se reproduzirem e nenhuma razão para fazerem sexo:

            Quando se trata da sexualidade nos deficientes, a rejeição está apta a se transformar em repressão direta. Feito desconfortável, até o ponto de excruciação, pelo pensamento de corpos mutilados (ou, para esta questão, a mente) envolvidos em fantasias ou ações eróticas, muitos negam a própria possibilidade atribuindo-lhes a “inocência” dos muito jovens… Talvez esse desgosto e essa negação genealógica, como os sociobiólogos provavelmente teriam, a partir do fato de que tais corpos são claramente os veículos menos do que ideais para a propagação da espécie. Qualquer que seja a sua origem, a repulsão está enterrada tão profundamente na consciência como que parece natural ao invés de construída. Como um resultado, mesmo alguém com a melhor das intenções no mundo pode fracassar em ver uma mulher deficiente saudável. Os pais de uma filha congenitamente deficiente podem educá-la para acreditar que ela nunca entrará em uma relação sexualmente íntima como as pessoas com que eles se divertem, retendo informações sobre inevitabilidades reprodutivas como a menstruação, talvez a punam pelo desempenho sexual fora do que a adolescência traz. Aqueles responsáveis por sua saúde podem se “esquecer” que ela exige cuidado reprodutivo ou fornecê-la de uma forma tão superficial que ela fique perplexa e envergonhada. (1999, pág. 50)

            Em contraste a recepção das pessoas deficientes no centro da experiência moderna está as suas experiências sobre as margens onde algumas delas estão tentando criar um espaço seguro para a atividade e expressão sexual. Mairs observa ludicamente em seu livro de memórias, Waist-High in the World, que ela considera chamar no livro “Cock-High in the World”, porque ela não se opõe a dar uma esfregada ou duas de nariz quando a oportunidade se apresenta (1996, pág. 54). Um pequeno deslocamento nas éticas da assistência social pode estar se movendo na direção de maior acesso sexual, conforme alguns assistentes pessoais aceitam que parte de seu trabalho inclui ajudar seus empregadores deficientes físicos a fazer amor e sexo. A educação é primordial para compreender o que podem ou não fazer os corpos deficientes e como superar os sentimentos de desgosto associados com o corpo erótico. Os assistentes sociais, por exemplo, são treinados para superar sentimentos de desgosto ao limparem os excrementos, mas eles são muitas vezes repelidos pela ideia de limpar o sêmen ou a menstruação. A ajuda sexual especializada pode ser designada pelos corpos deficientes, explica Cory Silverberg, que aperfeiçoa brinquedos sexuais com a movimentação da língua para pessoas com o uso limitado de suas mãos: “Você tem que olhar para o que uma pessoa pode fazer. Se elas não têm um controle motor aguçado, eles podem ser capazes de pressionar a si mesmos contra um vibrador. Existem vibradores que você pode colocar na mão e, dessa forma, elas podem se masturbar caso possam pressionar suas mãos em seu corpo. Se elas não podem usar as suas mãos de forma alguma, elas podem ser capazes de se deitar ao lado de um vibrador” (citado por Sonner, 2004). Significativamente, como em um projeto universal, onde as inovações na arquitetura e o projeto dos produtos para a sociedade não deficiente física muitas vezes evolui para fora de um contexto de deficiência física, algumas das mais novas e mais significativas invenções nos produtos sexuais têm sido desenvolvidos por pessoas com deficiência. Por exemplo, Goswell Duncan, presidente de seu departamento local da National Spinal Cord Inquiry Foundation, inventou e foi a primeira a colocar em produção o dildo de silicone (Kaufman, Silverberg e Odette, 2003, pág. 271). É uma melhoria considerável sobre outros modelos porque é macio, flexível, fácil de limpar e retém o calor corporal.

            Outras pessoas com deficiência estão reivindicando o direito à acessibilidade sexual baseada sobre diferentes concepções do corpo erótico e uma variedade de identidades de gênero e sexuais. Essas identidades sexuais emergentes têm pelo menos duas características significantes. Primeiro, elas representam a deficiência, não como um defeito que precisa ser superado para transar, mas como um modo de ser que aumenta as atividades e prazeres sexuais. Em segundo lugar, elas dão à sexualidade uma dimensão política que redefine as pessoas com deficiência física como cidadãos sexuais [11]. É crucial compreender que a cidadania sexual não se traduz meramente em ser capaz de expressar a sexualidade em público – uma acusação sempre aplicada contra as minorias sexuais – mas ao direito de se libertar de um tratamento desigual das sexualidades minoritárias e aumentar a acessibilidade pela expressão sexual. No caso das pessoas com deficiência, o direito ao acesso sexual tem participações especiais. Algumas demandas específicas incluem o acesso à informação sobre sexualidade, liberdade de associação íntima em instituições e asilos, desmedicalização da sexualidade dos deficientes, atendimento às necessidades e aos desejos sexuais como parte do cuidado à saúde, re-profissionalização de assistentes e profissionais médicos para reconhecerem e não negarem a sexualidade, e a privacidade na demanda. Os direitos ao acesso sexual mudam as condições de capacitação para a expressão sexual, dando suporte as necessidades e desejos sexuais das pessoas deficientes físicas.

            Apesar do fato de que as pessoas com deficiência física são geralmente encaradas como sendo assexuais, as suas práticas sexuais parecem na primeira audiência estranha e bizarra, expondo que as expectativas limitadas sobre a relação dos corpos com outros corpos determinam a coreografia da vida sexual e seus espaços. Por exemplo, a pergunta que todos queriam respondida (e ainda a fazem) sobre Chang e Eng, “os gêmeos siameses originais”, é como eles mantém relações sexuais com suas duas esposas. Eles têm relações sexuais simultâneas ou os gêmeos se revezam com cada esposa? Chang e Eng tinham cadeiras personalizadas instaladas para os seus corpos na sala de estar, mas nenhum móvel adaptado para o quarto, e o dormitório hoje permanece um espaço inóspito para as pessoas com diferentes corpos ou para aqueles que precisam de ajuda de assistentes pessoais [12]. Um guia de estudo recente de um vídeo sobre sexualidade depois da lesão da corda espinhal ilustra não apenas os obstáculos físicos à realização sexual, mas também os obstáculos sociais que confrontam a ideia de sexo dos deficientes físicos. Aqui está uma descrição de uma cena: “Lynn está fazendo com que Mark sente-se de pernas abertas enquanto ele a está despindo. Ele tira a calcinha dela com o uso de sua boca e dentes” (Tepper, 1997, pág. 198). Lynn e Mark estão fazendo sexo, então as suas ações são insinuantemente eróticas, mas retirar a calcinha de sua parceira com o seu dente significa algo diferente quando você está paralisado e não tem como usar as suas mãos. As pessoas que assistiram ao filme precisam ser preparadas, o guia do estudo explica, sobre o significado dos atos que eles irão testemunhar. A ignorância sobre as mentes e os corpos das pessoas com deficiência qualifica as suas práticas sexuais no desvio e na perversão. Minha questão, no entanto, não é celebrar o preconceito do desvio como uma fonte especial para o erotismo. Apenas uma grande ignorância sobre a deficiência do que nós atualmente aceitaríamos que a marginalidade das práticas sexuais dos deficientes é em si uma fonte viável de prazer.

            Uma ideia familiar da recente teoria cultural descreve pessoas e ideias excluídas como que representando um ambiente externo constitutivo – um espaço misterioso sobre as tolerâncias admissíveis possuindo o poder quer para determinar o caráter da existência moderna ou para invertê-lo, portanto servindo como uma crítica explícita do centro e uma fonte para felicidade transgressora. Michael Foucault (1984), por exemplo, se refere a esses espaços exteriores como “heterotopias” – lugares externos a todos os lugares, apesar de eles poderem ser possíveis de se localizar na realidade. Hospitais, prisões, cemitérios, feiras, mostras de aberrações, colônias de férias, bordéis, colônias imperiais e motéis baratos definem alguns espaços heterotópicos de diferença e desejo flutuantes livres. A heterotopia por excelência para Foucault é o navio – um pedaço flutuante no espaço, um lugar sem um lugar, existente por si mesmo, fechado em si e ainda dado sobre a infinidade do mar e a liberdade ilimitada de movimento – disputando a partir do porto em busca de tesouro e prazer sexual. As heterotopias são espaços de desejo sexual por meio de sua diferença, lugares marcados onde quem está no poder vai para expressar os desejos proibidos ou onde os impotentes são mantidos e marcados como desviantes. A concepção desses espaços, no entanto, se baseia na ideia de que a mobilidade livre de rodas existe entre o centro e a margem, de que o centro de fato exige para a sua própria existência dos outros na margem e que, neste sentido, a margem é o verdadeiro centro. As pessoas com deficiência vivendo sobre as margens têm uma experiência diferente. A sua experiência demonstra que a sociedade é construída sem seu acesso em mente e com o pensamento limitado de visitar os lugares deixados para eles. Os seus não são espaços heteróclitos e móveis de transgressão, fantasia ou revolução, mas lugares com qualidades reais de mundo onde os seres humanos querem experimentar prazer, criatividade, conhecimento e reconhecimento – necessidades básicas muitas vezes ignoradas e não suportadas quando se trata de experiência da deficiência física [13].

            Os preconceitos contra os deficientes são extremamente difíceis de superar porque eles são construídos no ambiente. Mesmo que se pudesse usar uma varinha mágica e melhorar as atitudes de todos sobre os deficientes, o ambiente construído permaneceria como um sobrevivente de discriminação e uma barreira impenetrável à participação das pessoas com deficiência. Para aqueles que duvidam da existência da discriminação por deficiência, o ambiente construído deve permanecer como a prova viva da exclusão social dos deficientes, mas as atitudes algumas vezes provam ser tão rígidas às mudanças quanto paredes concretas, escadas de madeira e passarelas de paralelepípedos. Quando George Lane se arrasta pelas escadas do Tribunal do Condado de Polk pela primeira vez e se recusa a se arrastar uma segunda, ele envia uma mensagem para a mais alta corte no país – uma sala de tribunal que as pessoas com deficiência não têm sido capazes de alcançar – sobre o valor da experiência do deficiente como prova e a Corte usou esta evidência para reescrever a história, este tempo em favor tanto da crítica quanto da emancipação.

Notas

            Eu gostaria de expressar meu agradecimento ao público da Escola de Crítica e Teoria da Universidade de Cornell e ao Primeiro Projeto de Clube da Universidade de Michigan.

[1] Em Board of Trustees of Univ. of Ala. v. Garret (2001), a Corte decidiu que a Emenda Décima Primeira impede a indenização em dinheiro privado pelas violações de Estado da Epígrafe I da Lei dos Americanos com Deficiência Física (LADF), que proíbe a discriminação no emprego contra os deficientes físicos.

[2] Scott prefere o uso da teoria do discurso para as histórias alternativas de escrita ao recolher as provas da experiência. No entanto, se o problema com a experiência é o seu estado construído, recorrer ao discurso não apresenta uma vantagem porque o discurso não é menos socialmente construído.

[3] Emblemático de uma reteorização de segunda onda da identidade e experiência da minoria é Moya, Learning from Experience (2002).

[4] Bruno Latour (2004), por exemplo, acompanha como a crítica construtivista radical tem sido voltada para fins reacionários e enfatiza a importância de se abraçar alternativas realistas para os resultados políticos progressistas.

[5] Sobre o realismo da encarnação vivida como um ponto de partida para a mudança social, ver Siebers (2001, pág. 748-50).

[6] Ao mesmo tempo que é perigoso falar do pós-estruturalismo em geral, a posição sobre as reivindicações identitárias argumentadas pelos construtivistas sociais na tradição pós-estruturalista parece uniforme. Eles tendem a atacar as políticas das minorias e de identidade quer com excludentes ou com o produto de uma história de opressão que deveria ser evitada. Além de Scott, para exemplos de pessoas que deduzem reivindicações políticas feitas em nome das identidades oprimidas, ver Brown (1995, pág. 70-72) e Butler (1997, pág. 104). Para uma análise estendida da rejeição das reivindicações identitárias das minorias pelos construtivistas sociais, ver Alcoff (2000) e Siebers (2001, pág. 738-42; 2006).

[7] Para uma exposição básica da teoria realista, ver Moya e Hames-Garcia, 2000, especialmente neste contexto a resposta de Wilkerson (2000) à critica de Scott de Delany. Sobre as implicações realistas do feminismo, ver o trabalho de Linda Martín Alcoff (2000, pág. 2005).

[8] Mario Perniola oferece um argumento complementar ao meu, alegando que a sexualidade e o sofrimento “constituem grandes desafios para o pós-modernismo” porque eles “dizem respeito ao corpo compreendido como algo dado” (2004, pág. 32).

[9] O conceito de “visibilidade”, a aplicação do qual não tem sido amplamente disseminada, oferece a acessibilidade à esfera privada além das necessidades dos inquilinos ou proprietários, enquanto a Fair Housing Amendment de 1988 declara o acesso básico da arquitetura nas residências na nova habitação multifamiliar, embora a sua aplicação tenha sido fraca. Nenhuma lei atualmente exige a acessibilidade a habitações de uma única família. Para uma visão geral, ver “Laws on Disability Access to Housing” (2004). Sobre a importância de tornar acessíveis residências privadas, ver Siebers (2006).

[10] Minha questão não é criticar Delany, que mantém uma abertura louvável a pessoas com deficiência física ao longo de sua autobiografia. Dois episódios valem à pena mencionar em particular. Em um episódio ele é confundido com um homem mudo e deficiente mental, empurrado para um quarto dos fundos e sumariamente estuprado, depois ele se pergunta “se isso era o que acontecia a um mudo ou um vagabundo demente em Nova Iorque” (2004, pág. 140). No segundo episódio, ele encontra um homem num banheiro de metrô cujo pênis tinha a ponta cortada e não o retirou antes da ejaculação depois da relação sexual: “Ele veio muito rápido. Eu queria falar com ele, mas ele fechou o zíper depois que terminamos e saiu correndo. Eu nunca o vi novamente, embora eu tenha procurado por ele” (2004, pág. 188).

[11] Para uma discussão da cidadania sexual ou íntima, ver Plummer (2003) e Weeks (1998). O´Toole (2000), O´Toole e Doe (2002), e Tepper (1999) rastreiam o impacto de novos modos dos seres e demandas sexuais para o acesso sexual aos deficientes físicos. Em um notável desenvolvimento, O´Toole e Doe relatam que as mães de deficientes físicos se juntaram para iniciar uma nova cultura sexual que ensina as crianças deficientes a amar e cuidar de seus corpos. A principal estratégia é transmitir valores sexuais positivos para as crianças e ensiná-las como resistir aos estereótipos negativos sobre a sexualidade do deficiente físico. Uma declaração consensual de 614 mulheres de 80 países captura a essência de sua filosofia: “Queremos uma cultura sexual dos deficientes físicos focada em nosso direito ao prazer e amor, compreendendo as vantagens de possuir corpos e funções diferentes quando comparada à cultura majoritária das mulheres” (2002, pág. 99).

[12] Estou em dívida com a discussão de sexualidade de Chang e Eng por Cynthia Wu (2004).

[13] Ver Johnson (2003) para uma descrição corriqueira da deficiência física nas margens.

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[1] Bióloga e Analista Ambiental.

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